Esaú
e Jacó
Realismo. Contada como
que por um autor que teve acesso ao Memorial do Conselheiro Aires, usa
o volume último de seus cadernos. Começa contando a história
de Natividade que, grávida de gêmeos em 1871, consulta uma
vidente. Esta lhe diz que seus filhos, apesar de estarem brigando em seu
ventre, terão grande futuro. Ao sair, de tão feliz, dá
uma esmola grande a um mendigo ("para as almas", mas ele guarda o dinheiro).
Desde quando nascem os jovens Pedro e Paulo tornam-se contrários.
As disputas uterinas tornam-se políticas já que Paulo é
republicano e Pedro monarquista, Pedro tornar-se-á advogado, Paulo
médico. Eles estudam separados (Paulo em São Paulo, Pedro
no Rio) e conhecem em 1888 a filha de um casal de políticos, Flora,
pela qual se apaixonam. E ela corresponde o amor aos dois. Assim os irmãos
desunidos unem-se e competem pelo amor de Flora. O Conselheiro Aires, amigo
das duas famílias, trabalha junto com os pais dela para que ela
escolha um ou nenhum, mas escolha. Assim transcorre o tempo com os irmãos
discutindo a política desde a Abolição, passando pela
Proclamação da República e a queda de Deodoro (os
pais de Pedro e Paulo e os de Flora são políticos e nunca
parecem saber quem estará no poder). A distância por vezes
separa o trio, mas eles permanecem (des)unidos. Flora é cortejada
por outras, incluindo Nóbrega, o mendigo de 1871 enriquecido mais
tarde, mas ela rejeita a todos. Quando em 1892, durante o estado de sítio
declarado por Floriano Peixoto, Flora morre, os irmãos se unem na
dor e reconciliam-se. Um mês depois renasce a inimizade. Mais um
ano e tornam-se deputados (em partidos opostos, logicamente). Quando a
mãe morre, pede que ambos tornem-se amigos e eles juram que o farão.
No ano seguinte são vistos sempre juntos na Câmara. No seguinte
àquele, desentendem-se novamente. Uma maravilhosa mostra da capacidade
de Machado de Assis, esta obra foge do maniqueísmo do esquema gêmeo
bom - gêmeo mau, mantendo sempre o ponto de vista que, apesar das
divergências ou por causa delas, Pedro e Paulo são dois lados
da mesma moeda. É eficiente também em mostrar os anos de
transição do Império para a República.
Memorial
de Aires
Realismo. Escrito sob
a forma do diário do aposentado Conselheiro Aires, diplomata aposentado
que deixou a mulher morta em Bruxelas. Tudo se passa de 9 de Janeiro de
1888, aniversário da volta do diplomata de Bruxelas ao Brasil, até
o fim de agosto do ano seguinte. Apesar de ter sido escrita por Aires e
serem suas impressões que lemos (ele declara que queimará
o diário quando o acabar, se não morrer antes), a história
é sobre Fidélia e Tristão. Fidélia é
uma viúva moça que ainda dedica ao marido, mesmo que só
ao seu túmulo, dedicação. Aires aposta com Rita, sua
irmã, que ela recasará um dia; talvez até com ele.
Rita é "filha de empréstimo" do casal Aguiar e ainda muito
triste pelo falecimento do marido e a situação familiar geral,
á que o casamento foi como um Romeu e Julieta que não uniu
as famílias, mas desuniu-as. Tristão é afilhado dos
Aguiares e um tanto volúvel: indo a Lisboa para se tornar advogado,
torna-se médico e político. Volta então ao Brasil
para visitar seus padrinhos e "pais de empréstimo". Enquanto Aires
vai narrando o cotidiano daquela situação, como que fora
dela como estava Brás Cubas em suas Memórias Póstumas,
morre o pai de Rita e ela finalmente se reconcilia com seu passado. Ela
vai à fazenda paterna fazer os arranjos e volta mais tarde. A medida
em que o tempo passa Tristão e Rita vão aproximando-se, até
que ele se apaixona por ela, fato que confessa a Aires, que também
a admirava, mesmo que nunca a dissesse e não fosse de modo apaixonado,
como que apenas pela estética de o fazer. Quase chegando o tempo
de voltar a Lisboa pelos fins de 1888, Tristão vai adiando a partida
até que ele e Fidélia decidem se casar. Eles esperam a aprovação
dos pais dele e depois até maio para o casamento em si. O casamento
procede bem e deixa o casal Aguiar felicíssimo pela união
dos "filhos" e pela permanência de Tristão que estava para
partir. Alguns meses depois do casamento Fidélia e Tristão
decidem viajar a Europa e tentam convencer o casal Aguiar a ir também,
mas eles se negam. Eles recomendam ao Conselheiro que cuide do casal e,
ao chegar a Lisboa, Tristão encontra-se eleito deputado (ele tinha
se naturalizado português) e eles ficam, como era seu plano original;
por isso aliás tentaram convencer o velho casal a acompanhá-los.
O livro acaba com uma anotação sem data após 30/08/1889,
com o casal Aguiar desolado pela partida dos "filhos". Contado todo sob
a forma de um diário, com anotações com datas ao invés
de capítulos, este livro foi o último escrito por Machado
de Assis, e o foi para compensar a perda da esposa tem fortes tons autobiográficos.
Entre os fatos importantes estão o fato de que Aires está
se retirando de cena, assim como o autor que faleceu no ano da publicação
do livro, encontra-se saudoso, é irônico, tem influência
inglesa, perdeu a esposa, etc. Remete também ao primeiro romance
maduro do autor, Memórias Póstumas de Brás Cubas,
já que Aires encontra-se fora de cena (mas não tanto quanto
Cubas) e livre para falar sem estar preso a convenções.
O
Mulato
Por Aluísio
de Azevedo
Naturalismo. A história
é sobre o amor de Ana Rosa e seu primo Raimundo, impedido belas
barreiras do preconceito racial contra Raimundo, que é mulato. Raimundo
é rejeitado, ignorado e maltratado pela sociedade do Maranhão
(onde a história se passa), mas ainda assim seu amor e o de Ana
Rosa florescem. Após certo tempo Raimundo propõe a Manoel,
seu tio e pai de Ana, que eles se casassem, mas este recusa apenas baseado
no fato de que Raimundo é um mulato. Ante a esse fato Raimundo recua
transtornado enquanto Ana, mesma com hesitações, tenta recuperá-lo,
mesmo sem entender o motivo da separação no começo.
Ele recobra os ânimos e eles decidem fugir, mas são pegos.
Após uma discussão sobre o que fazer do futuro de Ana Rosa
(um empregado de seu pai era seu noivo a contragosto dela), ela revela
estar grávida de Raimundo. Isso escandaliza a avó (extremamente
preconceituosa e uma das maiores barreiras para este amor), estranha ao
noivo e deixa o pai descrente dos fatos. O único que não
se surpreende com a revelação é o cônego Diogo,
confidente de Ana Rosa, amante da esposa do pai de Raimundo quando o casal
era vivo, e executor do pai de Raimundo. Diogo é preconceituoso
e manipulador; odeia Raimundo por este ser mulato e maçom. Quando
era amante de Quitéria, esposa de José, pai de Raimundo,
obrigou José a não revelar nada quando este esganou a esposa
(preconceituosa, ela torturava escravos e negros forros como a mãe
de Raimundo, Domingas) ao achá-la em adultério. Padrinho
de Ana Rosa, ele exerce seu poder de influência muito habilidosamente
e protege Dias, o noivo de Ana. Quando após o fatídico encontro
eles se retiram, Diogo convence Dias a matar Raimundo e dá-lhe a
arma do crime. Dias mata Raimundo relutantemente e o crime passa por todos
na impressão geral de ter sido suicídio. Quando Ana descobre
tem um aborto. Seis anos depois mostra-se o destino de várias personagens
secundárias e o de Ana e sua família. A avó Maria
Bárbara e o pai Manoel (que tinha o apelido de Pescada) morreram
e ela e Dias aparecem casados e bem, com três filhos; ela comporta-se
amorosamente com o marido, executor de seu antigo amado, que antes detestava.
Ainda cheio de vícios românticos (maniqueísmo, herói
e heroína perfeitos, vilões cruéis, supervalorização
do amor, o mistério e o suspense comuns aos românticos), esta
obra prevalece como naturalista pois a visão de mundo é naturalista,
existe um forte Determinismo e o herói, assim como o autor, é
positivista.
O
Cortiço
Por Aluísio
de Azevedo
Naturalismo. O Cortiço
conta principalmente duas histórias: a de João Romão
e Miranda, dois comerciantes, o primeiro o avarento dono do cortiço,
que vive com uma escrava ao qual ele mente liberdade. Com o tempo sua inveja
de Miranda, menos rico mas mais fino, com um casamento de fachada, leva-o
a querer se casar com sua filha (e tornar-se Barão no futuro, tal
qual Miranda se torna no meio da história). Isto faz com que ele
se refine e mais tarde tente devolver Bertoleza, a escrava, a seu antigo
dono (ela se mata antes de perder a liberdade). A outra história
é a de Jerônimo e Rita Baiana, o primeiro um trabalhador português
que é seduzido pela Baiana e vai se abrasileirando. Acaba por abandonar
a mulher, parar de pagar a escola da filha e matar o ex-amante de Rita
Baiana. No pano de fundo existem várias histórias secundárias,
notavelmente as de Pombinha, Leocádia e Machona, assim como a do
próprio cortiço, que parece adquirir vida própria
como personagem.
Casa
de Pensão
Por
Aluísio
de Azevedo
Naturalismo. A história
conta sobre Amâncio, um jovem preguiçoso e vil que chega ao
Rio de Janeiro para "estudar", quando na verdade quer apenas festa. Filho
de pai rígido e mãe bondosa, teve como primeiro professor
um homem cruel. Sem muita intelectualidade, pena no estudo da Medicina.
Primeiro mora na casa de Campos, cujo a mulher Hortênsia brinca de
sedução. Depois muda-se para a casa de pensão João
Coqueiro, onde este e sua mulher tramam um plano para que ele case com
Amélia, sua irmã. Este plano sofre oposição
de Lúcia, que quer o rapaz e sua riqueza para si. Lúcia é
expulsa e Amélia e Amâncio tornam-se amantes. Os abusos de
Coqueiro e seu séquito, como a exigência de uma casa nova
levam Amâncio a aborrecimentos e, meses depois da morte do pai com
quem principiava a se reconciliar, tenta viajar de volta para o Maranhão.
Impedido pela lei por uma acusação de ter estuprado Amélia
é impedido de viajar, mas é inocentado. Campos, que ficara
sempre a seu lado, volta-se contra ele após descobrir a sua paixão
por Hortênsia. Após livre Amâncio vai a uma festa no
Hotel Paris, onde João Coqueiro lhe mata pela manhã durante
o sono. Depois do novo escândalo sua mãe chega sem saber de
sua morte e o descobre vendo a exploração comercial feita
do caso. Baseada em uma história real que escandalizou o Brasil
no século XIX.
Luzia-Homem
Naturalismo. Luzia-Homem
é
um exemplo do Naturalismo regionalista. Passado no interior do Ceará,
nos fins de 1878, durante uma grande seca, vai contando a história
da retirante Luzia, mulher arredia, de grande força física
(o apelido Luzia-Homem provém desta força que lhe permitia
trabalhar melhor que homens fortes). Luzia trabalha na construção
de uma prisão e é desejada pelo soldado Capriúna.
Mas Luzia não se interessa por amores e mantém uma relação
de amizade e ajuda mútua com Alexandre. Após Alexandre propor-lhe
casamento (existe por toda a história a relutância de Luzia
de admitir que gosta de Alexandre), este é preso por roubar o armazém
do qual era guarda. Luzia passa visitar-lhe na prisão e sua amiga,
a alegre Teresinha, para cuidar de sua mãe doente. Após um
certo tempo, Luzia para de lhe visitar na prisão. Ao fim Teresinha
descobre que Capriúna era o verdadeiro ladrão e uma das assistentes
de Luzia (ela havia sido dispensada e depois voltara ao trabalho, mas como
costureira) lhe falar que a testemunha contra Alexandre mentia, o culpado
é preso. A família de Teresinha aparece (ela havia fugido
de casa com um amante que morreu meses depois) e ela, humilhada fica subserviente
a eles, especialmente ao pai que a rejeita. Luzia descobre isto e, depois
de um interlúdio, convence-a a viajar com ela, migrando para o litoral.
No caminho Capriúna se liberta e vai ataca Teresinha, a culpada
de sua prisão. Encontrando Luzia, mata-a e acaba caindo de um desfiladeiro.
Marcado pela fala característica dos personagens, Luzia-Homem
mantém
duas características clássicas do Naturalismo por toda obra:
o cientificismo na linguagem do narrador e o determinismo (teoria de que
o homem é definido pelo meio).
Bom-Crioulo
Por Adolfo
Caminha
Bom-Crioulo é
o apelido de Amaro, escravo fugido que se torna marinheiro. Ele desenvolve
um relacionamento homossexual com Aleixo, jovem grumete. Eles arranjam
um sótão para seus encontros na casa de Carolina, amiga de
Amaro. Quando este é transferido, passam a se desencontrar e Carolina
seduz Aleixo. Amaro, que estava hospitalizado, doente e fraco quando antes
era forte, descobre que ele havia se tornado amante de Carolina e mata-o.
Nem homófobo nem homófilo, este romance apresenta a imparcialidade
naturalista típica. O relacionamento dos dois é retratado
como outro qualquer e Aleixo é sempre descrito como "feminino",
tornando-se "masculino" só após algum tempo como amante de
Carolina.
O
Ateneu
Por Raul Pompéia
Naturalismo/Realismo,
com tendências Expressionistas e Impressionistas. Narrado em primeira
pessoa, "O Ateneu" é narrado pelo personagem principal, Sérgio,
já adulto. Não linearmente, ele mostra os dois anos em que
viveu na escola, microcosmo que servia de metáfora para a Monarquia
e a sociedade em geral, com os fortes dominando os fracos e um rei comandando,
o diretor Aristarco neste caso. Narrados são episódios de
suas amizades, seus colegas interferindo com ele, a tensão homossexual
entre os alunos do internato, a falsidade de uns, a deformação
de caráter de outros e a única pessoa que lhes ajudava no
internato, Dona Ema, mulher de Aristarco. Quando a escola é incendiada
no final da história por um aluno durante as férias, Ema
foge. Sérgio presencia a cena pois estava convalescendo ainda na
escola. Segundo críticos posteriores este final da história
seria simbólico e representaria a vingança do autor de seu
passado, já que a história tem caráter semi-autobiográfico.
Helena
Por
Machado
de Assis
A história de
uma moça que, de uma forma inesperada, sobe na escala social: morre
o Conselheiro Vale e, no seu testamento, consta que Helena, moça
internada num colégio de Botafogo, é sua filha, cujo segredo
o conselheiro o mantivera até a morte. Helena passa a viver com
Úrsula, irmã do conselheiro, Estácio, agora meio-irmão,
Dr. Camargo, amigo de Vale e médico da família, e Eugênia,
filha do Dr. Camargo. Helena em face de seu temperamento expansivo e comunicativo,
conquista a afeição de D. Úrsula e de Estácio.
Mendonça, amigo de Estácio, apaixona-se pela moça.
Helena passa a ser objeto de afeição do próprio irmão,
que, no entanto, está noivo de Eugênia. O padre Melchior,
guia espiritual da família, suspeita dos freqüentes encontros
entre Helena e Salvador. O mistério é esclarecido: Salvador
é o pai de Helena, que fora arrebatada pelo conselheiro,- encarregando-se
de sua educação.
Helena, profundamente
chocada com o estado de coisas, mesmo com a possibilidade de poder casar
com Estácio, não agüenta a emoção, adoece
e morre.
Iaiá
Garcia
Por
Machado
de Assis
Iaiá era filha
de Luís Garcia, viúvo e funcionário público,
que nela concentrava todos os seus afetos. Quando a história principia,
ele está com quarenta e um anos e Iaiá com onze estuda em
colégio interno e, nos fins de semana, é a fonte de toda
a alegria do pai, em cuja casa reina a solidão.
Luís Garcia
tem uma amiga, também viúva, Valéria Gomes, mãe
de Jorge. Jorge está apaixonado pela filha de um ex-empregado de
seu falecido pai, Estela, que vive na mesma casa. Para afastá-lo
de Estela, por não a julgar digna de sua posição social,
a mãe força-o a alistar-se como voluntário para lutar
na guerra contra o Paraguai. Mas Jorge não esquece a sua amada e
tem verdadeiro choque ao saber que ela se casara com Luís Garcia,
que a isso foi levado, entre outras razões, pelas boas relações
entre Estela e sua filha Iaiá.
A partir daí,
a história evolui ao longo do tempo, com o regresso de Jorge, sua
mãe já morta, a influência do novo amigo que fizera
no Paraguai, encontros e desencontros, risos e lágrimas, até
a morte de Luís Garcia. E Jorge acaba por se casar com Iaiá.
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