|
O
Mulato
Aluísio de Azevedo (1881) |
![]() |
INTRODUÇÃO
Com a publicação de O Mulato, em 1881, Aluísio Azevedo
introduz o Naturalismo na literatura brasileira e faz uma crítica
anticlerical e anti-racista da sociedade provinciana do Maranhão.
No mesmo ano em que Machado de Assis inaugurava, com Memórias Póstumas
de Brás Cubas, o Realismo nas letras brasileiras, Aluísio
Azevedo publicava O Mulato, obra inaugural do Realismo-naturalismo no país.
Em seu segundo romance, o escritor maranhense realiza uma impiedosa crítica
social através da sátira dos personagens típicos de
São Luís. Os comerciantes grosseiros, as senhoras de escravos
sádicas, as velhas beatas e fofoqueiras e o padre sedutor, maquiavélico
e assassino são apenas alguns exemplares de uma sociedade apodrecida
e racista. Ao se inspirar em pessoas de São Luís que de fato
conhecia, Azevedo despertou a ira da sociedade maranhense e, embora louvado
por críticos do Rio de Janeiro, teve que sair da sua cidade natal
temendo maiores represálias.No anticlericalismo evidente da obra,
há ecos do Crime do Padre Amaro (1875) de Eça de Queirós,
até então o maior expoente do Naturalismo na língua
portuguesa.
No entanto, a obra ainda apresenta alguns resíduos românticos.
Aluísio Azevedo, na reta final da campanha abolicionista, idealiza
a figura do mulato Raimundo, que pouco retém, na pele, das suas
origens negras – “grandes olhos azuis, cabelos pretos
e lustrosos, tez morena e amulatada, mas fina" – e é moralmente
impecável. A trama central repete o estereótipo romântico
do amor que luta
contra o preconceito
e as proibições familiares.
O REALISMO
O Realismo-naturalismo, cujo marco inicial no Brasil é O Mulato, é cientificista e determinista, considerando que as ações humanas são produtos de leis naturais: do meio, das características hereditárias e do momento histórico. Portanto, os romances naturalistas procuravam, através da representação literária, demonstrar teses extraídas de teorias científicas. Para isso, o Naturalismo buscou compor um registro implacável da realidade, incluindo seus aspectos repugnantes e grotescos.
RESUMO
Saindo criança de São Luís para Lisboa, Raimundo viajava
órfão de pai, um ex-comerciante português, e afastado
da mãe, Domingas, uma ex-escrava do pai.
Depois de anos na Europa, Raimundo volta formado para o Brasil. Passa um
ano no Rio e decide regressar a São Luís para rever seu tutor
e tio, Manuel Pescada.
Bem recebido pela família do tio, Raimundo desperta logo as atenções
de sua prima Ana Rosa que, em dado momento, lhe declara seu amor.
Essa paixão correspondida encontra, todavia, três obstáculos:
o do pai, que queria a filha casada com um dos caixeiros da loja; o da
avó Maria Bárbara, mulher racista e de maus bofes; o do Cônego
Diogo, comensal da casa e adversário natural de Raimundo.
Todos três conheciam as origens negróides de Raimundo. E o
Cônego Diogo era o mais empenhado em impedir a ligação,
uma vez que fora responsável pela morte do pai do jovem.
Foi assim: depois que Raimundo nasceu, seu pai, José Pedro da Silva,
casou-se com Quitéria Inocência de Freitas Santiago, mulher
branca. Suspeitando da atenção particular que José
Pedro dedicava ao pequeno Raimundo e à escrava Domingas, Quitéria
ordena que açoitem a negra e lhe queimem as partes genitais. Desesperado,
José Pedro carrega o filho e leva-o para a casa do irmão,
em São Luís. De volta à fazenda, imaginando Quitéria
ainda refugiada na casa da mãe, José Pedro ouve vozes em
seu quarto. Invadindo-o, o fazendeiro surpreende Quitéria e o então
Padre Diogo em pleno adultério. Desonrado, o pai de Raimundo mata
Quitéria, tendo Diogo como testemunha. Graças à culpa
do adultério e à culpa do homicídio, forma-se um pacto
de cumplicidade entre ambos. Diante de mais essa desgraça, José
Pedro abandona a fazenda, retira-se para a casa do irmão e adoece.
Algum tempo depois, já restabelecido, José Pedro resolve
voltar à fazenda, mas, no meio do caminho, é tocaiado e morto.
Por outro lado, devagarzinho, o Padre Diogo começara a insinuar-se
também na casa de Manuel Pescada.
Raimundo ignorava
tudo isso.
Em São Luís, já adulto, sua preocupação
básica é a de desvendar suas origens e, por isso, insiste
com o tio em visitar a fazenda onde nascera. Durante o percurso a São
Brás, Raimundo começa a descobrir os primeiros dados sobre
suas origens e insiste com o tio para que lhe conceda a mão de Ana
Rosa. Depois de várias recusas, Raimundo fica sabendo que o motivo
da proibição devia-se à cor de sua pele.
De volta a São Luís, Raimundo muda-se da casa do tio, decide
voltar para o Rio, confessa em carta a Ana Rosa seu amor, mas acaba não
viajando.
Apesar das proibições, Ana Rosa e ele concertam um plano
de fuga. No entanto, a carta principal fora interceptada por um cúmplice
do Cônego Diogo, o caixeiro Dias, empregado de Manuel Pescada e forte
pretendente, sempre repelido, à mão de Ana Rosa.
Na hora da fuga, os namorados são surpreendidos. Arma-se o escândalo,
do qual o cônego é o grande regente. Raimundo retira-se desolado
e, ao abrir a porta de casa, um tiro acerta-o pelas costas. Com uma arma
que lhe emprestara o Cônego Diogo, o caixeiro Dias assassina o rival.
Ana Rosa aborta.
Entretanto, seis anos depois, vemo-la saindo de uma recepção
oficial, de braço com o Sr. Dias e preocupada com os "três
filhinhos que ficaram em casa, a dormir".
ASPECTOS RELEVANTES
É apontado como a obra inaugural do Naturalismo no Brasil (1881).
Podem ser identificados alguns elementos naturalistas:
A CRÍTICA SOCIAL,
através da sátira impiedosa dos tipos de São Luís:
o comerciante rico e grosseiro, a velha beata e raivosa, o padre relaxado
e assassino, e uma série de personagens que resvalam sempre para
o imoral e para o grotesco. Já dissemos que esses tipos são,
muitas vezes, pessoas que realmente viveram em São Luís,
conhecidas pelo autor.
ANTICLERICALISMO,
projetado na figura do padre e depois cônego Diogo, devasso, hipócrita
e assassino.
OPOSIÇÃO AO PRECONCEITO
RACIAL, que é o fulcro de toda
a trama.
O ASPECTO SEXUAL,
referido expressamente em relação à natureza carnal
da paixão de Ana Rosa pelo mulato Raimundo.
O TRIUNFO DO MAL,
já que, no desfecho, os crimes ficam impunes e os criminosos são
gratificados: a heroína acaba se casando com o assassino de Raimundo
(grande amor de sua vida), e o Pe. Diogo, responsável por dois crimes,
é promovido a cônego.
Contudo, há
fortes resíduos românticos:
Escrito em plena efervescência
da Campanha Abolicionista, Aluísio Azevedo não manteve a
postura neutra, imparcial, que caracteriza os autores realistas/naturalistas.
Ao contrário, ele toma partido do mulato, do homem de cor, idealizando
exageradamente Raimundo, que mais parece o herói dos romances românticos
(ingênuo, bondoso, ama platonicamente Ana Rosa e ignora a sua condição
de homem de cor). Observe que Raimundo é cientificamente inverossímel
(filho de pai branco e mãe negra retinta, o filho tem "grandes olhos
azuis, cabelos pretos e lustrosos, tez morena e amulatada, mas fina").
A trama da narração
é romântica e desenvolve o velho chavão romântico
da história de amor que as tradições e o preconceito
impedem de se realizar. Além disso, a história é verdadeiramente
rocambolesca (= complicada, "enrolada").
TEXTO I
Observe, na descrição de Raimundo, a idealização
própria dos romancistas românticos, a superioridade absoluta:
moral, intelectual e mesmo física:
"Raimundo tinha vinte
e seis anos e seria um tipo acabado de brasileiro, se não foram
os grandes olhos azuis, que puxara do pai. Cabelos muito pretos, lustrosos
e crespos,, tez morena e amulatada, mas fina,- dentes claros que reluziam
sob a negrura do bigode, estatura alta e elegante, pescoço largo,
nariz direito e fronte espaçosa. A parte mais característica
de sua fisionomia era os olhos grandes, ramalhudos, cheios de sombras azuís,
pestanas eriçadas e negras, pálpebras de um roxo vaporoso
e úmido,- as sobrancelhas, muito desenhadas no rosto, como a nanquim,
faziam sobressair a frescura da epiderme, que, no lugar da barba raspada,
lembrava os tons suaves e transparentes de uma aquarela sobre papel de
arroz.
Tinha os gestos bem
educados, sóbrios, despidos de pretensão, falava em voz baixa,
distintamente, sem armar ao efeito, vestia-se com seriedade e bom gosto;
amava os artes, as ciências, a literatura e, um pouco menos, a política."
TEXTO II
Observe no texto abaixo a caracterização dos costumes da
província, dos mexericos e do preconceito, manifesto na "fofoca"
de que participam D. Bibina, Lindoca, D. Maria do Carmo e Amância
Souselas:
"- Ele não
é feio... a senhora não ache, D. Bibina ?... segredava Lindoca
à outra sobrinha de D. Maria do Carmo, olhando furtivamente para
o lado de Raimundo.
- Quem? O primo d’Ana
Rosa?
- Primo? Eu creio
que ele não é primo, dona !
- É! sustentou
Bibina, quase com arrelie. É primo sim, por parte de pai !...
Por outro lado, María
do Carmo segredava a Amâncla Souselas:
- Pois é o
que lhe digo, D. Amáncía: muito boa preta!... negra como
este vestido! Cá está quem a conheceu!...
E batia no seu peito
sem seios. - Muita vez a vi no relho. Iche !
- Ora quem houvera
de dizer!... resmungou a outro, fingindo ignorar da existência de
Domingas, para ouvir mais. Uma coisa assim só no Maranhão!
Credo!"
TEXTO III
Observe a nitidez com que o autor retrata o ambiente da cidade (descrição
de São Luiz):
"Era um dia abafadiço
e aborrecido. A pobre cidade de São Luís do Maranhão
parecia entorpecida pelo calor. Quase que se não podia sair à
rua: as pedras escaldavam, os vidraças e os lampiões faiscavam
ao sol como enormes diamantes, as paredes tinham reverberações
de prata polida; os folhas das árvores nem se mexiam; os carroças
d’água passavam ruidosamente a todo o instante, abalando os prédios,
e os aguadeiros, em mangas de camisa e pernas arregaçados, invadiam
sem cerimônia as casas para encher as banheiras e os potes. Em certos
pontos não se encontra vã viva alma no rua; tudo estava concentrado,
adormecido; só os pretos faziam as compras para o jantar ou andavam
no ganho."
Em "O Mulato" já
estão presentes todas as principais características do Naturalismo:
o amor pela natureza, a negação da metafísica, o "desrespeito"
pela religião, o entusiasmo pela saúde do corpo, o real-sensível
e o materialismo.
Caracterização da Obra
O MEIO
O romance O Mulato se abre com a descrição nada elogiosa
da cidade de São Luís do Maranhão:
“Era um dia abafadiço e aborrecido. A pobre cidade de
São Luís do Maranhão parecia entorpecida pelo calor.
Quase que se não podia sair à rua: as pedras escaldavam;
as vidraças e os lampiões faiscavam ao sol como enormes diamantes;
as paredes tinham reverberações de prata polida; as folhas
das árvores nem se mexiam; as carroças de água passavam
ruidosamente a todo o instante, abalando os prédios; e os aguadeiros,
em mangas de camisa e pernas arregaçadas, invadiam sem cerimônia
as casas para encher as banheiras e os potes. Em certos pontos não
se encontrava viva alma na rua; tudo estava concentrado, adormecido; só
os pretos faziam as compras para o jantar ou andavam no ganho. ”
É nessa atmosfera abafada, tanto do ponto de vista climático
quanto do convívio social, que são apresentadas as personagens.
Até os cães se envolvem no ambiente de letargia preguiçosa:
“ Os cães, estendidos pelas calçadas, tinham uivos
que pareciam gemidos humanos, movimentos irascíveis, mordiam o ar
querendo morder os mosquitos. ” O mal cheiro domina o ambiente:
“ Às esquinas, nas quitandas vazias, fermentava um cheiro
acre de sabão da terra e aguardente. ” A grosseria do
ambiente envolve as ações das personagens: “O quitandeiro,
assentado sobre o balcão, cochilava a sua preguiça morrinhenta,
acariciando o seu imenso e espalmado pé descalço (…)
as peixeiras, quase todas negras, muito gordas, o tabuleiro na cabeça,
rebolando os grossos quadris trêmulos e as tetas opulentas. ”
Note-se que, se os cães “ tinham uivos que pareciam gemidos
humanos ”, as peixeiras, animalizadas, têm “
tetas opulentas”. Homens e animais se misturam, portanto, no
universo bestializado e asfixiante de São Luís do Maranhão.
A CASA DE MANUEL PESCADA
Em seguida, o narrador apresenta a casa de Manuel Pescada, “
um português de uns cinqüenta anos, forte, vermelho e trabalhador.
Diziam-no afilado para o comércio e amigo do Brasil. Gostava da
sua leitura nas horas de descanso, assinava respeitosamente os jornais
sérios da província e recebia alguns de Lisboa. Em pequeno
meteram-lhe na cabeça vários trechos do Camões e não
lhe esconderam de todo o nome de outros poetas. Prezava com fanatismo o
Marquês de Pombal, de quem sabia muitas anedotas e tinha uma assinatura
no Gabinete Português, a qual lhe aproveitava menos a ele do que
à filha, que era perdida pelo romance. ”
É essa filha, Ana Rosa, leitora ávida de romances, como a
Emma Bovary, de Flaubert, ou a Luísa do Primo Basílio, de
Eça de Queirós, que Manuel Pescada quer fazer casar-se com
seu colaborador, o caixeiro Luís Dias, rapaz promissor no comércio,
mas que é assim descrito:
“O Dias, que completava o pessoal da casa de Manuel Pescada,
era um tipo fechado como um ovo, um ovo choco que mal denuncia na casca
a podridão interior. Todavia, nas cores biliosas do rosto, no desprezo
do próprio corpo, na taciturnidade paciente daquela exagerada economia,
adivinhava-se-lhe uma idéia fixa, um alvo para o qual caminhava
o acrobata, sem olhar dos lados, preocupado, nem que se equilibrasse sobre
um corda tesa. Não desdenhava qualquer meio para chegar mais depressa
aos fins; aceitava, sem examinar, qualquer caminho desde que lhe parecesse
mais curto; tudo servia, tudo era bom, contanto que o levasse mais rapidamente
ao ponto desejado. Lama ou brasa -- havia de passar por cima; havia de
chegar ao alvo -- enriquecer. Quanto à figura, repugnante: magro
e macilento, um tanto baixo um tanto curvado, pouca barba, testa curta
e olhos fundos. O uso constante dos chinelos de trança fizera-lhe
os pés monstruosos e chatos quando ele andava, lançava-os
desairosamente para os lados, como o movimento dos palmípedes nadando.
Aborrecia-o o charuto, o passeio, o teatro e as reuniões em que
fosse necessário despender alguma coisa; quando estava perto da
gente sentia-se logo um cheiro azedo de roupas sujas. ”
A descrição, um dos momentos mais claramente naturalistas
do romance, não deixa dúvidas quanto ao aspecto repugnante
do caixeiro. As personagens caricaturais dominam o romance. O Realismo-naturalismo
vai abusar das caricaturas para ressaltar o lado apodrecido das personagens
e da
sociedade retratada.
A
IDEALIZAÇÃO ROMÂNTICA
A jovem Ana Rosa sonhava com um casamento romântico, “sonhava
umas criancinhas louras, ternas, balbuciando tolices engraçadas
e comovedoras, chamando-lhe ‘mama!’” E lembrava-se
sempre do conselho que lhe dera a mãe ao leito de morte: “não
consintas nunca que te casem, sem que ames deveras o homem a ti destinado
para marido. Não te cases no ar! Lembra-te que o
casamento deve ser
sempre a conseqüência de duas inclinações irresistíveis.
A gente deve casar porque ama, e não ter de amar porque casou. Se
fizeres o que te digo, serás feliz!" Assim, Ana Rosa vai formando
a imagem de um herói romântico que virá salvá-la
da mediocridade da vida em São Luís do Maranhão.
É nesse ambiente que chega a São Luís o jovem advogado
Raimundo, sobrinho há muito afastado de Manuel Pescada. Sua descrição
em tudo contrasta com a de Luís Dias:
“Raimundo tinha vinte e seis anos e seria um tipo acabado de
brasileiro se não foram os grandes olhos azuis, que puxara do pai.
Cabelos muito pretos, lustrosos e crespos; tez morena e amulatada, mas
fina; dentes claros que reluziam sob a negrura do bigode; estatura alta
e elegante; pescoço largo, nariz direito e fronte espaçosa.
A parte mais característica da sua fisionomia era os olhos -- grandes,
ramalhudos, cheios de sombras azuis; pestanas eriçadas e negras,
pálpebras de um roxo vaporoso e úmido; as sobrancelhas, muito
desenhadas no rosto, como a nanquim, faziam sobressair a frescura da epiderme,
que, no lugar da barba raspada lembrava os tons suaves e transparentes
de uma aquarela sobre papel de arroz.
Tinha os gestos bem educados, sóbrios, despidos de pretensão;
falava em voz baixa, distintamente sem armar ao efeito; vestia-se com seriedade
e bom gosto; amava as artes, as ciências, a literatura e, um pouco
menos, a política. ”
Raimundo corresponde perfeitamente ao protótipo do herói
romântico, pelo qual Ana Rosa tanto esperava. Sua descrição
contrasta em tudo com a de Luís Dias. Ambos são, no entanto,
personagens planas, superficiais, e servem apenas para que o autor prove
sua tese anti-racista.
EM
BUSCA DO PASSADO ESCONDIDO
Raimundo saíra criança de São Luís para Lisboa.
“Em toda a sua vida, sempre longe da pátria, entre povos
diversos, cheia de impressões diferentes tomada de preocupações
de estudos, jamais conseguira chegar a uma dedução lógica
e satisfatória a respeito da sua procedência. Não sabia
ao certo quais eram as circunstâncias em que viera ao mundo, não
sabia a quem devia agradecer a vida e os bens de que dispunha. Lembrava-se
no entanto de haver saído em pequeno do Brasil e podia jurar que
nunca lhe faltara o necessário e até o supérfluo.
”
Esse jovem rico e virtuoso regressa a São Luís, depois de
anos na Europa, formado e com o intuito de desvendar o mistério
de seu passado. Antes, passara um ano no Rio de Janeiro e agora volta a
São Luís para rever seu tio e protetor distante, Manuel Pescada.
Raimundo é bem recebido pela família do tio, com exceção
da sogra de Manuel, a racista radical Dona Maria Bárbara. Estranha
alguns olhares enviesados da população, mas imagina-os fruto
do estranhamento causado por um forasteiro.
O sedutor advogado, como não poderia deixar de ser, logo cai
nas graças de sua prima Ana Rosa que, arrebatada, declara-lhe seu
amor. Raimundo corresponde à paixão da prima, mas os jovens
encontram fortes obstáculos. Principalmente a oposição
de Manuel Pescada, que queria a filha casada com Luís Dias, da avó
Maria Bárbara, racista intransigente e do Cônego Diogo, velho
amigo da casa e adversário não declarado e ardiloso de Raimundo.
Acontece que, ao contrário dos amantes, seus três grandes
opositores conheciam as raízes negras de Raimundo. Aos poucos o
leitor vai tomando conhecimento das origens do herói, que, no entanto,
permanece ignorando tudo.
O SEGREDO ENCOBERTO
Raimundo era filho do irmão de Manuel Pescada, José Pedro
da Silva, com sua escrava negra Domingas. Depois de seu nascimento, José
Pedro casou-se com Quitéria Inocência de Freitas Santiago,
mulher branca e impiedosa. Enciumada com a atenção especial
que José Pedro dedicava ao pequeno Raimundo e à escrava Domingas,
Quitéria ordenou que a negra fosse açoitada e que suas partes
genitais fossem queimadas.
José Pedro, indignado com tamanha crueldade, leva o filho
para a casa do irmão em São Luís. Voltando à
fazenda, flagra a mulher e o então jovem e sedutor Padre Diogo em
pleno adultério. Enfurecido, José Pedro mata Quitéria
e forma um pacto de cumplicidade com o Padre Diogo: esconderão a
culpa um do outro. Desgraçado e doente, José Pedro refugia-se
na casa do irmão. Ao se restabelecer, resolve voltar à fazenda,
mas, no meio do caminho, é assassinado por ordem do Padre
Diogo, que já começara a insinuar-se também na casa
de Manuel Pescada.
O DESFECHO
Obcecado por desvendar suas origens, Raimundo insiste em visitar a fazenda
onde nascera. Após diversos adiamentos, seu tio finalmente o leva
até a Fazenda São Brás. No caminho, o mulato começa
a obter as primeiras informações sobre o passado trágico
de seus pais. Ao pedir ao tio a mão de Ana Rosa em casamento, vê-se
recusado. Perplexo, Raimundo acaba descobrindo que a recusa se deve a suas
origens negras. Na fazenda, Raimundo é abordado, à noite,
por uma velha negra de aspecto fantasmagórico, que o quer abraçar.
Assustado, por pouco não mata a estranha aparição.
No caminho de volta a São Luís, descobre que se tratava de
sua mãe, Domingas.
Ao retornar à capital do Maranhão, Raimundo resolve voltar
para o Rio de Janeiro. Não suporta mais viver com o tio e muda-se
de sua casa, enquanto prepara-se para viajar. Pouco antes do embarque,
manda uma carta a Ana Rosa confessando seu amor. O amor pela prima o impede
de partir. Os amantes se encontram e Ana Rosa acaba engravidando. Contra
tudo e contra todos, armam um plano de fuga. No entanto, o Cônego
Diogo usa das confissões de Ana Rosa e da colaboração
subserviente do caixeiro Dias, que intercepta as cartas do casal, para,
ardilosamente, impedir a concretização da fuga. No momento
em que planejavam partir, os amantes são surpreendidos. O Cônego
Diogo orquestra o escândalo e finge-se de protetor do casal. Raimundo
volta para casa atordoado e, ao abrir a porta de casa, é atingido
nas costas por um tiro disparado por Luís Dias, com uma pistola
que lhe emprestara o Cônego
Diogo.
Ana Rosa, desolada, aborta o filho de Raimundo. “ A nova firma
comercial, Silva e Dias, nasceu entretanto, no meio da mais completa prosperidade.
”
Seis anos depois, no Clube Familiar, vemos Ana Rosa e seu marido Dias saindo
de uma recepção oficial:
"O par festejado eram o Dias e Ana Rosa, casados havia quatro anos. Ele
deixara crescer o bigode e aprumara-se todo; tinha até certo emproamento
ricaço e um ar satisfeito e alinhado de quem espera por qualquer
vapor o hábito da Rosa; a mulher engordara um pouco em demasia,
mas ainda estava boa, bem torneada, com a pele limpa e a carne esperta.
Ia toda se saracoteando
muito preocupada em apanhar a cauda do seu vestido, e pensando,
naturalmente, nos
seus três filhinhos, que ficaram em casa a dormir.
- Grand'chaine, double,
serré! berravam nas salas.
O Dias tomara o seu
chapéu no corredor e, ao embarcar no carro, que esperava pelos dois
lá embaixo, Ana Rosa levantara-lhe carinhosamente a gola da casaca.
- Agasalha bem o pescoço,
Lulu! Ainda ontem tossiste tanto à noite, queridinho!..."
A ironia final, bem a gosto naturalista, coloca por terra toda a idealização
romântica de Ana Rosa e Raimundo. Morto o primo, a prima acaba por
se casar com seu assassino, e parece levar, ao lado do marido que tão
ferozmente rejeitara anteriormente, uma feliz e próspera vida burguesa.
O mal triunfa, associado à igreja corrupta e ao comércio
burguês.
Resumo de O MULATO
Após a morte da filha, D. Bárbara, deixa sua fazenda para
morar com o genro Manuel Pescada, próspero comerciante, e com a
neta Ana Rosa, em São Luís do Maranhão. Enérgica
com os escravos, D. Bárbara comanda-os aos berros e sovas, o que
muito desagrada Pescada, chegando, algumas vezes, a verbalizar o seu arrependimento
em ter concordado com a vinda da sogra.
O irmão de Pescada, José da Silva, fazendeiro e ex-comerciante
de escravos, foi assassinado, há muitos anos atrás, em suas
terras. Sua esposa, D. Quitéria Inocência de Freitas Santiago
já era viúva, sem filhos e muito rica, quando se casou com
ele. Embora fosse extremamente religiosa, achava que escravo não
era gente e o simples fato de alguém não ser branco, já
era um crime. José teve um filho, Raimundo, com uma ex-escrava alforriada
de nome Domingas. A atenção que o marido devotava a esse
afilhado, fez com que D. Quitéria descobrisse a verdade sobre o
menino.
Num ataque histérico, a chibatas e queimaduras a ferro em brasa,
a senhora quase mata Domingas. Diante do ocorrido, Quitéria, aconselhada
pelo jovem vigário, Padre Diogo, refugia-se na propriedade da mãe.
José vai buscá-la, flagrando-a em adultério com o
padre. Transtornado, a estrangula, matando-a na frente do sacerdote que,
para se livrar do escândalo, sugere a José um pacto de silêncio
mútuo; para todos, a esposa teve morte natural e, assim, foi enterrada.
José deixa a fazenda para Domingas e mais três pretos velhos,
que já alforriara, e parte para São Luís, onde pretende
liquidar seus bens e, em seguida, voltar a Portugal com o filho Raimundo.
Ele e o menino hospedam-se na casa do Pescada em São Luís.
Mas, logo adoece e, impossibilitado de embarcar, recebe visitas diárias
de seu "fervoroso" amigo, Padre Diogo. Este vai conquistando a amizade
da família e quando nasce Ana Rosa, Pescada e esposa escolhem-no
para padrinho.
Tendo José se restabelecido, insiste em voltar para a fazenda, mas
para o desespero de Domingas, no caminho, bem próximo da casa, é
morto em uma emboscada, e Raimundo, o Mundico, sob a guarda do tio, é
enviado ao padrinho em Portugal, segundo o desejo paterno.
Após estudar advocacia na Europa, onde se forma em advocacia, Mundico
volta à terra natal, para vender as propriedades do pai e se estabelecer
no Rio de Janeiro. Excetuando-se os imensos olhos azuis, que herdara do
pai, é um tipo acabado de brasileiro: alto, elegante, pele bem morena
e fina; pescoço largo e nariz direito; cabelos negros, lustrosos
e crespos; dentes claros sob um bigode negro.
Interessado no lucro que teria, auxiliando o sobrinho na venda das terra,
Pescada resolve acomodá-lo em sua casa, mesmo sabendo que o mulato
no seio de sua família geraria comentários desfavoráveis
na sociedade local. Padre Diogo, agora Cônego Diogo, conselheiro
da família, concorda com o argumento de Pescada.
O Cônego, que parece ter culpa na morte de José, é,
por sua vez, adversário natural de Raimundo. Sentindo-se ameaçado,
por temer a descoberta de seu segredo, quer vê-lo bem longe de São
Luís. Na casa do tio, Raimundo alheio às histórias
envolvendo sua mãe, empenha-se em descobrir os mistérios
em torno de seu nascimento e da morte paterna. Acredita que, voltando à
fazenda de São Brás, será possível desvendar
o passado e reconstruir sua história.
Ana Rosa herda do pai o corpo rijo e os dentes fortes e, da mãe,
a beleza das formas, os olhos negros e os cabelos castanhos. Como toda
donzela da época, aos quinze anos, já sente as transformações
operadas em seu corpo e espírito, ansiando por um marido "o homem
da sua casa, dono de seu corpo, a quem ela pudesse amar abertamente como
amante e obedecer em segredo como escrava".
O pai via no seu empregado português, Luís Dias, muito trabalhador,
discreto, econômico e com tino comercial aguçado, as qualidades
de um futuro genro. Apesar de tudo isso, o moço, com seu eterno
ar de piedade, resignação e humildade espera a decisão
da moça. Toda vez que o pai tocava em casamento e sugeria o nome
do Dias, ela exclamava um ora, papai!
A convivência com o primo Mundico desperta em Ana Rosa uma grande
paixão. Passava o dia pensando nele, idealizando o calor de seu
rosto. Numa espécie de embriaguez dormia, ouvindo sua voz, colhendo
no ar seus beijos quentes; ao acordar, ficava horas inteiras prostrada,
entre os lençóis a cismar.
Raimundo que, por sua vez, ainda não havia reparado na beleza da
prima, numa manhã à mesa do café, nota-lhe as mãos
claras, os dentes asseados, a frescura pele, a boca e os cabelos fartos.
Mas, fica só nisso, devotando-lhe uma afeição e atenção
fraterna. Anica torna-se pálida, chamando a atenção
de todos. Achavam que tal estado só se curaria com casamento. Padre
Diogo e D. Bárbara, que nunca viram com bons olhos a presença
do mulato no seio familiar, acham que para acertar o casamento da menina
com o Dias, Raimundo deve sair de casa o mais rápido possível.
Ana Rosa não quer Luís Dias para esposo e o Pescada, que
punha o interesse financeiro acima de tudo, acha que o amigo Diogo estava
criando coisas sem fundamento, pois fora o próprio Mundico que sugerira
casamento para a prima.
Quando Raimundo saía, Ana Rosa visitava seu quarto e numa bisbilhotice,
voluptuosa e doentia, fantasiava eventos com os objetos encontrados; passava
momentos inesquecíveis naquela adoração. Raimundo,
desconfiando dessas visitas, um dia volta sorrateiramente e flagra a prima
com um livro na mão. Repreendendo-a por aquela atitude comprometedora,
pede que ela se retire. Depois de muito chorar, a moça declara seu
amor ao primo. Num abraço, oferece-lhe os lábios e o rapaz
dá-lhe um beijo tímido; em troca, beija-o duas vezes, ardentemente.
Depois de vários adiamentos, Raimundo e o tio partem para o Rosário
e durante a viagem, Mundico conhece um portuguesinho que lhe conta muita
coisa acerca da fazenda São Brás e seus moradores. Fica sabendo
que o Cônego Diogo tinha sido o pároco da região e
muito ligado ao pessoal da fazenda. Além disso, passam pela cruz
de madeira, à beira da estrada, marcando o local da morte de seu
pai. Os guias não vão além dela, temendo a maldição
ali existente.
Tio e sobrinho chegam à fazenda ao anoitecer. O administrador Cancela,
que conhecera Raimundo, ainda menino, hospeda-os com alegria. Na manhã
seguinte, após as transações comerciais, partem bem
cedo para São Brás. Ali, com muita emoção,
olhando as datas nas lápides das sepulturas do pai e de D. Quitéria,
Raimundo conclui que era filho bastardo.
Como no dia anterior, havia pedido Ana Rosa em casamento e Manuel declinara
sem dizer a razão, acha agora que esse seria o motivo. Insiste para
que o tio lhe conte a verdade, e este lhe diz que Domingas está
viva, e é a velha negra louca, encontrada momentos atrás.
Assim, o caso amoroso dele com a prima tornava-se proibido e Ana Rosa afigura-se-lhe
uma felicidade indispensável.
Quando o pai conta a Ana Rosa o ocorrido, denigre a imagem do primo e esta
tem um ataque histérico. Enquanto isso, Raimundo leva o Cônego
Diogo a seu quarto e conta-lhe suas suspeitas. Mas o velho Cônego,
num jogo de retórica brilhante, força Raimundo até
a lhe pedir desculpas. Diogo desce as escadas entre resmungos: "Deixa estar,
que me pagarás". Sete dias depois, Raimundo deixa a casa do tio,
esperando o dia da partida do vapor para o Rio.
No dia da partida, Manuel e o Cônego se dirigem ao porto para dizer-lhe
adeus. Após alguns momentos de indecisão, acerca de sua viagem,
Mundico, minutos antes de embarcar, vai ao quarto de Ana Rosa, que o proíbe
de sair e terminam fazendo amor, ouvindo, ao longe, o assobio do vapor,
partindo. Raimundo resolve instalar-se no Caminho Grande e os amantes,
que se comunicam por carta, marcam um dia para a fuga.
O Cônego contava com os préstimos de Dias, com quem se aliara,
e este farejava os movimentos e cartas recebidas por Anica, para contar
ao padre. Após três meses, o Cônego e Dias descobrem
o plano dos amantes e aparecem na hora exata, acompanhados de um juiz.
Arma-se um escândalo; Ana Rosa fala de sua gravidez, chocando a todos.
O cônego rebate, dizendo que a afilhada continua pura; aquilo era
apenas um recurso para forçar o casamento. Diogo aconselha Raimundo
a ir embora de São Luís para não ser processado.
Ao sair com Dias, o Cônego parece conspirar; entrega-lhe algo, mas
o companheiro escrupuloso se nega a receber. Logo o astuto Cônego
convence-o de que estaria vingando sua honra ultrajada e lembra-lhe: "quem
o seu inimigo poupa, nas mãos lhe morre". Após vagar pela
noite, Raimundo resolve voltar para casa e, ao abrir a porta, é
atingido pelo revólver de Dias. Mundico, num gemido, tomba contra
a parede; vendo-o morto, Ana Rosa aborta. Seis anos depois, ela reaparece,
em solenidade pública, bem casada com o Sr. Dias - o assassino de
Raimundo. Está preocupada em cuidar dos três filhos e também
do marido: "Agasalha bem o pescoço Lulu! Ainda ontem tossiste tanto
à noite, queridinho".
Vithor's
Home Page® - http://www.vithor.cjb.net
Copyright©
2000 - All rights and lefts reserved.
Webmaster:
Vithor
Silveira Sampaio
![]()