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Machado
de Assis
setembro de 1908 |
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Joaquim Maria Machado de Assis nasceu
no Morro do Livramento, na quinta da viúva do Brigadeiro Bento Barroso,
ministro e senador do Império. Seu pai, Francisco de Assis, filho
de “Pardos Forros”, isto é, de mulatos liberto, era um simples dourador
e pintor de paredes, dado, porém a algumas leituras; a mãe,
uma lavadeira açoriam; ambos tinham sido agregados da quinta da
viúva Barroso, madrinha e protetora do menino. Joaquim Maria perdeu
bem cedo a mãe; porém a madrasta, Maria Inês, uma preta
extremamente carinhosa, continuou a ampara-lo, inclusive na alfabetização.
Mas a morte de Francisco de Assis obrigou Maria Inês a empregar-se
como doceira num colégio em São Cristóvão,
e Joaquim Maria, aos doze anos ficou encarregado de vender louças.
Parece, entretanto, que captava fragmentos das aulas nos instantes de lazer,
lia muitos livros emprestados, e iniciava-se no francês com os franceses
do bairro imperial... Na sua adolescência de pobre, circula de barca
(naquele tempo, o sistema carioca de transporte urbanos, muito mais sábio
do que o de hoje, utilizava abundantemente a via marítima), entre
São Cristóvão e os cais Pharoux, a fim de reforçar
seus magros vinténs com os serviços de coroinha da igreja
da Lampadosa. No Largo do Roça, “ Machadinho”
descobre a livraria e tipografia de Paula Brito. Generoso e inventivo,
o mulato Paula Brito, tradutor de folhetins publicava uma revista -
A Marmota Fluminense – onde colaboravam os tipos mais populares do primeiro
romantismo de segunda classe, como Teixeira e Sousa e Macedo. Em 1855 acolhido
por Paula Brito, Machado estreia como um poeta descabeladamente romântico,
na Marmota. No ano seguinte, entra como aprendiz de tipógrafo
na imprensa nacional, ganhando um salário de fome. Mal nutrido e
pior dormido, vivia lendo nas horas de trabalho, até que o chefe
da oficina foi queixar-se ao diretor. Por sorte, este não era outro
senão Manoel Paula Brito e a reuniões de sua sociedade “lítero
– humorista”, a petalogia e é levado pela mão de Francisco
Otaviano e do condoreiro Pedro Luís, para a redação
do correio mercantil. Paralelamente, procura completar sua instrução
básica ouvindo as lições do curra da capela da Quinta
da Boa Vista, de quem se fizera amigo. Franzino, gago e tímido,
enleado pela raça e pela obscuridade de suas origens, “Machadinho”
trava não obstante relações prestigiosas (o mais das
vezes, como os literatos freqüentadores da petalogia): Porto Alegre,
Macedo, Gonçalves Dias, M. A. de Almeida, Casimiro de Abreu e José
de Alencar. Em 1860, o relacionamento que o Diário do Rio de Janeiro,
órgão liberal dirigido por Saldanha Marinho, abre-lhe as
portas do alto jornalismo. O redator chefe, seu amigo, Quintino Bocaiúva,
convida-o a resenhar os debates do senado e a exercer a crítica
teatral. Durante sete anos, Machado se revela, no Diário
um liberal combativo, afinado com todas as grandes causas populares, o
antimperialismo da Questão Christir à campanha abolicionista.
Pela mesma época, surgem nele o crítico literário,
o comediógrafo e o contista, estes últimos bem românticos,
bem a gosto do tradutor de Hugo ( os trabalhadores do mar, Dickens e Dumas
filho. Aos vinte e oito anos, o escritor festejado, jornalista de consideração,
o molequinho do livramento começa a afirmar-se na vida; vindo residir
no centro da cidade, deixa impiedosamente para trás tudo o que ainda
o prendia à humildade de suas raízes.
Uma nomeação para funcionário do Diário Oficial,
lhe traz o alívio econômico. Sua candidatura a deputado chega
a ser articulada, pouco antes de ser-lhe conferida, o grau de cavaleiro,
a condecoração da Ordem da Rosa. Finalmente, aos trinta anos,
Machado encontra a consorte ideal na pessoa de Carolina, irmã de
um amigo o poeta Português Faustino Xavier de Novais. Mais velha
do que o marido, cultivada e sensível, Carolina contribuiu para
orientar-lhes as leituras revelando-lhe os clássicos ingleses e
aumentando a sua familiaridade com o português.
Em 1873, Machado, que acaba de sagrar-se romancista (Ressurreição),
é designado oficial da Secretaria de Agricultura, inaugurando assim
trinta e cinco anos de uma carreira burocrática modelar, no concurso
da qual galgaria todos os níveis de promoção. No mesmo
ano, na capa do arquivo ilustrado, seu retrato aparece ao lado do de Alencar,
glória número um da literatura nacional. Às vésperas
dos quarenta, porém, o escritor, desde a infância sujeito
a crises epilépticas, é obrigado a retirar-se para o Friburgo.
A superação dessa crise, que parece ter prece e precipitar
uma vigorosa evolução espiritual, lança Machado no
apogeu de suas forças criadoras, de que são frutos os contos
da maturidade (dos Papéis Avulsos a Pagina nas recolhidas) e a tetralogia
romanesca formada por Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro, Esaú
e Jacó. É também em torno de 1880 que principiam as
saborosas crônicas estampada na seção (a Semana) da
Gazeta de Notícias. A vida metódica do burguês self-meide,
leitor incansável, amigo fiel, correspondente em cantador e conviva
a fabilíssimo, patrocinador discreto e simpático dos novos
talentos literários, continua em seu ritmo sereno, pontilhado de
lições de alemão e partida de gamão e xadrez,
já agora no aprazível chalé do Cosme Velho onde o
casal sem filhos viveria até o fim. Machado se torna a presença
mais ilustre e acatada de algumas rodas intelectuais: a da Gazeta,
da livraria Garnier (sua editora), a da revista brasileira, colocada
sob a direção de José Veríssimo. Em 1896, o
grupo da revista decide fundar a Academia Brasileira de Letras. A presidência
é, sem excitação, oferecida a Machado de Assis. Com
as barbas brancas disfarçando os lábios grossos e o penteado
sonegando os cabelos crespos, a antigo “Machadinho” tinha então
uma aparência olímpica, encarnação simultânea
da responsabilidade vitoriana e da suprema excelência das letra brasileiras
(“Mulato? – dirá seu querido Joaquim Nabuco – só vi nele
o grego!”). A ascensão social fora completa; a biografia do nosso
maior escritor reflete melhor que todos os sentimentos sociológico
do destino literário na era pós-romântica – a conquista
de status pelo homem de classe média ou baixa e muito particularmente
pelo mestiço, convertido em profissional da pena.
Machado de Assis foi-se tornado aos poucos o intelectual mais famoso do
Rio de Janeiro. Como funcionário público, foi exemplar; como
escritor, o mais importante.
A curva da velhice foi para Machado o desdobramento de uma apoteose,
onde a única dissonância foi uma nota íntima: as saudades
invencíveis com o que lhe deixou a morte de Carolina, quatro anos
antes da arteriosclerose que o levou no dia 29 de setembro de 1908 em meio
à tristeza profunda do país e da cidade.
Por ter sido um escritor que se formou à luz do Romantismo, e que
evoluiu para o Realismo com o tempo, a obra de Machado de Assis forçosamente
é enxergada sob os dois pontos de vista – romântico e realista.
Pode-se considerar que sua produção até 1880 seja
autenticamente romântica, embora o seu romantismo não seja
tão sentimentalista como o de seus contemporâneos.
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2.2.
Fases de sua ficção;
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Costuma-se dividir a obra de Machado de Assis em duas fases distintas: a primeira apresenta o autor ainda preso a princípios da escola romântica, sendo por isso chamada fase romântica ou de amadurecimento; a segunda mostra o autor mais definido em relação ao ideal realista, sendo, portanto, chamada fase realista ou de maturidade. A publicação de Memória Póstumas de Brás Cubas inaugura a segunda fase da obra machadiana.
Primeira
fase: A fase romântica

Segunda
fase: A fase realista
Com a publicação de Memórias
póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis mudou o rumo de
sua obra, Amadureceu como escritor, passando a escrever para leitores mais
maduros. Era a hora de personagens mais elaboradas, construídas
à luz da psicologia. Era também a hora da técnica
de composição do romance: capítulos curtos, frases
curtas, contato com o leitor. Uma análise apurada da sociedade brasileira
no fim do Segundo Império; o casamento seria o alvo predileto da
interpretação machadiana. Dentro deste, é sobre a
mulher que recai a finura da investigação do escritor. As
estruturas narrativas das obras desta fase fogem à linearidade,
entremeando digressões temporais, intromissões do narrador
e grande preocupação com a análise dos acontecimentos.
São romances do cicio realista: Memórias póstumas
de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro, Esaú e Jacó,
Memorial de Aires. E os livros de contos: Histórias sem data, Várias
histórias, Papéis avulsos, Páginas recolhidas, Relíquias
da casa velha.
Essa foi a mais importante fase da carreira de Machado de Assis onde concentra-se
na trilogia de romances realistas publicados no final do século.
O primeiro deles foi Memórias Póstumas de Brás Cubas
(1881). Depois, seguiram-se:
- Quincas Borba (1891) narra, na terceira pessoa, as desventuras do ingênuo Rubião, herdeiro da fortuna e do cachorro da enlouquecida personagem Quincas Borba, que já aparecia, e morria, no livro anterior. Através dessa personagem, cômica no seu despreparo para as armadilhas da corte, e trágica no seu destino, Machado ao mesmo tempo ironiza e demonstra as teorias darwinistas tão caras aos naturalistas. O ensandecido "humanitismo" de Quincas Borba, herdeiro direto da "luta pela vida" de Darwin, é sintetizado na frase "Ao vencedor, as batatas!", e acaba por ser comprovado tragicamente pela ação espoliadora do casal Sofia / Palha sobre o provinciano protagonista.
- Dom Casmurro (1899) apresenta algumas das personagens mais complexas da literatura universal. Narrado pelo velho Bento Santiago, apelidado Dom Casmurro, apresenta a história de seu relacionamento - namoro, casamento e afastamento - com Capitu, sua vizinha de infância. O narrador se esforça por demonstrar o caráter ambíguo e dissimulado tanto de sua esposa quanto de seu melhor amigo, o hábil Escobar, para assim justificar sua convicção de ter sido por eles traído. Como prova da traição, apresenta a semelhança que enxerga em seu filho, Ezequiel, com o amigo, que supõe pai da criança. Mas o esforço é vão. Se consegue construir a imagem de personagens extremamente complexos, nada nos consegue provar, pois o seu próprio caráter é tão fraco, tão inseguro e titubiante, que o leitor passa a desconfiar de seus julgamentos. Assim, além de construir a eterna dúvida (Capitu traiu ou não Bentinho?), Machado de Assis apresenta o primeiro narrador não confiável da literatura brasileira.
- Esaú e Jacó
(1904) e Memorial de Aires (1908), têm o mesmo narrador personagem,
o conselheiro Aires, que pouco age e passa a maior parte da narrativa contemplando
placidamente as aventuras amorosas e existenciais dos jovens ao seu redor.
A descrição dos dias de perplexidade da população
carioca com a proclamação da República, em Esaú
e Jacó, é um dos pontos altos da narrativa machadiana.
Além desses
romances realistas Machado de Assis também escreveu em sua fase
romântica os livros de contos: Histórias sem data, Várias
histórias, Papéis avulsos, Páginas recolhidas, Relíquias
da casa velha.
2.3.
Características.
2.3.1.
Gerais;
Através de seus contos, Machado
afirma-se como grande contador de história; dá ao leitor
não só a sensação de estar lendo, mas de estar
participando; ele não descreve, ele mostra e fala. Um recurso também
muito utilizado pelo autor é a surpresa: ele prende a atenção
do leitor porque o surpreende a cada instante, seja na maneira de iniciar
o conto, seja através de idéias inesperadas ou pelo modo
como conduz a narrativa.
Embora tenha se interessado por mais de uma escola literária, Machado
soube manter-se numa posição equilibrada entre o romantismo
e o realismo, sem fixar-se rigidamente em determinada corrente. Não
copiava a vida, mas servia-se da realidade, transfigurada pela imaginação.
Seu interesse dominante é pelo homem, pelo espírito humano,
a cuja sondagem dedicou sua arte.
O pessimismo é uma constante em sua obra; para ele o homem é
irremediavelmente corrompido, egoísta, vítima da ingratidão,
da maldade, do ódio. Isto se faz notar através do ceticismo
do escritor, em face dos sofrimentos da humanidade, nada generoso ao julgar
a vida e os homens.
O
poeta
Machado de Assis iniciou sua carreira literária como poeta. Seu
livro de estréia foi Crisálidas (1864), que lhe conferiu
imediata notoriedade. Embora sua poesia esteja muito aquém da prosa
que o imortalizou, nunca deixou de escrever poemas. Em 1870 lança
Falenas, em 1875, Americanas e, em 1901, as suas Poesias Completas, que
ainda não incluem um dos seus mais famosos poemas, o belo soneto
A Carolina, escrito após a morte da esposa, em 1904.
O
cronista
Seguindo a linha dos textos de Ao Correr da Pena, de José de Alencar,
Machado de Assis contribuiu durante toda a sua carreira com textos breves
para jornais, em que comenta os mais variados assuntos da vida do Rio de
Janeiro e do país. Esses textos leves, de temática cotidiana,
podem ser considerados os precursores da crônica moderna, em que
se haveriam de destacar, no século seguinte, escritores como Rubem
Braga, Fernando Sabino e Carlos Drummond de Andrade. A produção
do Machado cronista se inicia já em 1859 e se estende até
1904, com raras interrupções. Sua produção
mais madura foi publicada na colunas do jornal Gazeta de Notícias,
em que contribui de 1881 a 1904: Balas de Estalo (1883-1885), Bons Dias!
(1888-1889) e principalmente em A Semana (1892-1897).
O
crítico
Também para os jornais, Machado de Assis escreveu durante toda a
vida textos críticos. Sua produção infindável
envolve ensaios teóricos, como O passado, o presente e o futuro
da nossa literatura (1858), O ideal do crítico (1865) e Notícia
da atual literatura brasileira - instinto de nacionalidade (1873), diversas
resenhas críticas importantes, como aquela ao livro O Primo Basílio,
de Eça de Queirós (1878) e inúmeras críticas
de teatro.
O
contista
Muitos das centenas de contos que Machado de Assis escreveu ao longo da
vida se perderam, com o desaparecimento dos números dos jornais
em que foram publicados. Outros estão apenas agora sendo republicados
em livro. Sua versatilidade como contista é imensa. Escreveu tanto
para os jornais mais sentimentalóides quanto para publicações
seríssimas. A qualidade dos contos varia de acordo com a publicação
e o público leitor a que se destinavam. Entre as coletâneas
de contos que publicou, destacam-se Papéis Avulsos (1882), com o
grande conto, ou novela, O Alienista, Teoria do Medalhão e O Espelho,
e Várias Histórias (1896) em que se encontram, entre outras
obras-primas da concisão e do impacto narrativo, A Causa Secreta,
A Cartomante e Um Homem Célebre.
2.3.2.
Quanto aos personagens;
Os personagens de Machado de Assis trazem certo toque diferente, não
se enquadram na maniqueísta visão romântica de bem
x mal. Mostram algo desconhecido na literatura do Brasil até o momento
– seres dotados de vida interior, com característica próprias
e individualizantes, que contrariam conceito fechado de herói.
Suas personagens não são tão lineares como as dos
maiores românticos. Tratam-se de seres complexos, com altos
e baixos, defeitos e virtudes, caprichos e incoerência , têm
comportamentos imprevistos, fazem maquinações, não
transparentes, são interesseiros.
Os caracteres
machadianos têm de inovador o fato de o escritor está preocupado
com o homem concebido como ser universal, que, somente por causalidade,
é brasileiro.
2.3.3.
Quanto ao processo narrativo.
As obras iniciais obedecem à estrutura romântica, preocupadas
em narrar uma história geralmente linear, com começo, meio
e fim e tendo o amor como centro das atenções.
Analisando os romances
e os contos machadianos considerados românticos, vê-se que
já apresentam a característica que há de marcar Machado
de Assis: os acontecimentos são narrados sem precipitação,
entremeados de explicações aos leitores por parte do narrador,
cheios de considerações sobre os comportamentos.
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