A Agricultura:

A base econômica do Egito faraônico era a agricultura, principalmente o cultivo de cereais, como trigo e cevada. O trabalho nos campos era facilitado pelas cheias anuais do rio Nilo, que fertilizavam as margens de terra, tornando-as bastante produtivas. Até mesmo os nobres e outros grupos mais abastados tinham prazer em se fazer representar a si próprios nas tumbas, e mesmo templos, envolvidos na vida do campo, no trabalho de jardins, vinhas, terras ou na avaliação dos produtos, junto de inúmeros funcionários.

Os camponeses constituíam a maioria absoluta da população. Viviam em aldeias e executavam os trabalhos agrícolas nas terras que pertenciam ao Estado, às altas camadas sociais e aos templos, entregando a seus proprietários excedentes da produção – em geral menos da metade - como imposto. Um camponês nos tempos do Novo Reino (1550–1070 a.C.) cultivava uma área de cerca de 5 "aruras" (1,25 hectares), suficiente para uma família em torno de 5 ou 6 indivíduos. (dado apresentado em: TRIGGER, B. et alli. Ancient Egypt - A Social History. Cambridge University Press, 1983, p. 227.)

Colheita da uva

O trabalho no campo era regulado em função das três estações do ano, típicas do país, relacionadas ao ciclo do rio Nilo: Akhit - a inundação, de julho a novembro; Peret - a chamada "saída" ou reaparecimento da terra cultivável do seio das águas - época da semeadura - que acontecia de novembro a março; Shemu - a colheita, que acontecia de março a junho. Analisada a paralisação das atividades agrícolas durante a inundação, e considerando-se que a colheita, realizada entre fins de março e início de junho, terminava bem antes de ocorrer a nova cheia do rio Nilo, constata-se que o ciclo da agricultura básica durava pouco mais de meio ano.

Note-se que no período das inundações do Nilo, quando praticamente cessavam os trabalhos agrícolas, os camponeses eram requisitados pelo Estado para a prestação de corvéias ou trabalhos nas obras públicas, como a construção de pirâmides ou templos. São conhecidos de diversas épocas decretos reais isentando certos grupos de camponeses desse trabalho forçado.

Os campos de trigo e de cevada – cultivos básicos - sucediam-se desde os pântanos do Delta, ao norte, até a região da Núbia, no extremo sul. Uma vez o rio Nilo voltando ao leito normal após a cheia, iniciava-se o trabalho de cultivo da terra. A primeiro tarefa dos camponeses era a aragem e semeadura da terra, antes mesmo que as águas da inundação se retirassem totalmente. Esses dois afazeres ocorriam no mesmo momento. Camponeses que revolviam a terra com arados e enxadas eram seguidos de imediato de outros camponeses que lançavam as sementes dos cereais, pisoteadas por animais (ovelhas, cabras, etc.) de modo a penetrarem no solo.

 

À época da colheita, os talos de trigo e de cevada eram cortados pelo meio utilizando-se uma pequena foice de madeira com dentes de sílex. Os talos eram depositados no chão. Feito isso, recolhiam-se as espigas em cestos, sendo transportadas à extremidade do campo. O cereal era então pisoteado por bois de modo a separar o grão da casca, e em seguida peneirado. Era nesse momento que chegavam aos campos os proprietários ou seus representantes, acompanhados de um contingente de escribas, agrimensores, empregados e soldados, os quais iriam, antes de tudo, medir os campos de modo a determinar a percentagem do cereal que o camponês deveria entregar. Os grãos colhidos eram acondicionados em sacas denominadas de khar, com 73 l.

Joeiramento

Certas tumbas do Antigo Reino (2649-2152 a.C.) mostram relevos onde se aplicam punições – bastonadas – aos camponeses que tentavam ludibriar as autoridades no pagamento dos excedentes agrícolas como imposto. Situação curiosa é a que nos informam alguns registros: muitas vezes camponeses compactuavam com funcionários das propriedades em que trabalhavam em esquemas de corrupção – mais precisamente o desvio de grãos. Um caso bem conhecido é do tempo do faraó Ramsés V (Novo Reino, 20ª dinastia, 1156-1151 a.C.), envolvendo o capitão de um barco encarregado de transportar grãos para um templo no Alto Egito - o do deus Khnum em Esna. O templo deveria receber por ano 700 sacos de grãos provenientes de uma propriedade no delta. Mas em nove anos o capitão Khnum-nakht e seus cúmplices desviaram a maior parte da produção: dos 6300 sacos no total, os escribas do templo só deram entrada em 576! O papiro que documenta o caso explica que o capitão não agia sozinho: auxiliavam-no muitos camponeses e agrimensores (dados segundo: WILSON, John. The Burden os Egypt – An Interpretation of Ancient Egyptian Culture. University of Chicago, 1951, p.396-397).

A construção de celeiros para o armazenamento dos cereais colhidos pelos camponeses constituía uma grande preocupação dos proprietários das terras no Antigo Egito. Além de representações de celeiros em tumbas, conhecemos esse elemento particular através dos modelos em madeira e cerâmica depositados em tumbas – verdadeiras maquetes – além daqueles encontrados em antigas cidades e templos. Nos tempos no Novo Reino (1570 a 1070 a.C.) os celeiros mais comuns eram cilíndricos, construídos em tijolos de barro revestidos de gesso, medindo de 1,5 m a 2,5 m de diâmetro e de 3 a 5 m de altura. Escadarias davam acesso à parte superior, nas quais haviam aberturas por onde se depositavam os grãos. No templo do faraó Ramsés III (séc. XIV a.C.) em Medinet-Habu, na margem oeste do Nilo em frente à moderna cidade de Luxor, e também na antiga cidade de Akhetaton – hoje Tell-el-Amarna – no Médio Egito, foram encontrados celeiros de 8 a 9 m de diâmetro tendo 7 a 8 m de altura. Séries de celeiros poderiam também ser encontradas, bem como pequenos celeiros no interior de jardins e casas.

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