VANGUARDA 53 - Pag. 3

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Testemunho de Gratidão

Florence Bernard


   Há 34 anos atrás, jovem e atravessando um período de imbecilidade e pretensão, julgava-me o centro do mundo. Criada em colégio de freiras e numa família católica, perdera a fé e julgava essa perda definitiva, o que me angustiava um pouco. Não. Eu não acreditava nem mesmo em Deus. Pouco antes numa coluna que mantinha na revista "O Cruzeiro", escrevera uma crônica: "À procura de Deus", e recebera cartas do Brasil inteiro, de quase todas as religiões existentes, tentando ajudar-me. Procurei quase todas. Nenhuma me convenceu. Por simples curiosidade fui visitar Chico Xavier, e, sem me identificar e nem dizer-lhe uma só palavra, ao atravessar a multidão e aproximar-me dele, vi-o estender-me a mão e sorrir-me com as seguintes palavras: "Não se torture procurando Deus nos templos, nas igrejas ou nos centros espíritas, minha filha. Procure-O dentro de você". O ato pareceu-me estranho, mas não lhe dei maior importância. Não compreendera.
   Nesse ano de 1955, vi num jornal notícia sobre a chegada ao Rio de um famoso escritor italiano - Pietro Ubaldi. Como jornalista, resolvi entrevistá-lo. Não lera seus livros, nem sequer conhecia suas idéias. Era apenas um escritor famoso e, portanto, notícia.
   Encontrei no hotel um homem tranquilo e simples, do qual gostei gratuitamente. Magro, ar ascético, olhos de criança boa. Fiz a entrevista, algo chocada com o que ele falou da "Sua Voz" e de seus livros. Classifiquei-o como um sonhador visionário de grande cultura e inteligência, lamentando-o. A entrevista foi publicada na revista "A Cigarra", de fevereiro de 1956. Despedi-me e ia sair, quando ele me chamou.
   - Espere, por favor. Tenho aqui uma mensagem para a senhora.
   Senti que devia ser honesta com ele e confessei: "Não se ofenda, por favor, mas não acredito em mensagens do Além, nem mesmo acredito em Deus".
   Pietro Ubaldi sorriu mansamente.
   - Não faz mal. Não precisa ler agora. Um dia a senhora vai ler. Guarde-a. Ela será muito importante para a senhora.


   Estendeu-me um papel sobre o qual escrevera algumas linhas. Sem olhar, tomei o papel, colocando-o dentro de um livro, que trazia comigo e despedi-me. Esse papel, utilizei-o como marcador de leitura desse livro. E, esqueci-o. Nem por um instante, senti vontade de ler o que ali estava.
   A vida não me poupou nos anos seguintes. Um casamento desfeito de forma mesquinha e revoltante, uma mudança de cidade e de caminhos; tive de trabalhar para sobreviver. Recebi convite para um emprego em São Paulo, como redatora numa agência de publicidade. Ambiente frio, hostil e entre tantos desconhecidos.
   Na noite de 31 de Dezembro de 1962, encontrava-me sozinha em meu apartamento. Recusara todos os convites para "reveillons", e preferia fazer um retrospecto de minha vida, à sós. Chovia muito. Eu ouvia as gargalhadas, o estourar das champanhes, a música, os cantos que vinham de outros apartamentos. E, senti a solidão em sua plenitude. Que era eu? Uma escritora insatisfeita consigo mesma e com seus livros. Nenhum filho vivo. Que valor possuía a vida? Porque persistir na farsa de sorrir, viver levianamente, fingindo encontrar prazer em coisas fúteis como ganhar dinheiro, vestir-me bem, namorar, dançar, suportar os olhares sempre iguais da cobiça masculina? Estava farta.
   Decidi que não enfrentaria 1963. Andei pelo apartamento povoado apenas de meus fracassos idealistas e ingênuos. Era hora de parar. Cheguei à janela. Morava no 13º andar, na Avenida Paulista. Lá fora, o vazio de sempre. Homens e mulheres se embriagando para afogar suas próprias decepções. E, lá embaixo, o pátio de cimento a atrair-me. Tão fácil! Um passo para subir no sofá, o seguinte no peitoril e o terceiro... a paz. O esquecimento. O Nada como solução salvadora.
   Algo, porém, me retinha. O instinto de conservação. Lembrei-me de uma garrafa de conhaque, que comprara para fazer remédio para tosse, e que nem utilizara. Sempre tive a verdadeira ojeriza por bebidas alcoólicas. Fui até à cozinha, abri a garrafa e enchi um copo. Tomei-o de uma só vez, a garganta queimando, engasgando com aquele gosto horrível. Voltei à janela. Dei o primeiro passo

planejado, subindo ao sofá encostado à janela. Recuei. Ainda era insuficiente a coragem. Voltei à cozinha, enchi o segundo copo até a borda e virei-o de um trago. Já bêbada, o copo escorregou-me das mãos e espatifou-se no chão. Cambaleando, mas com a mente lúcida, repeti o primeiro passo e, ao dar o segundo, escorreguei no peitoril molhado pela chuva e caí. Não para o pátio, mas sobre o sofá. Perdi os sentidos.
   Acordei de madrugada. O mundo inteiro era um silêncio só. A chuva molhara todo o meu corpo. Cambaleando, a cabeça parecendo estourar, levantei-me. Que fracasso! Nem a morte me aceitava! Mas eu estava decidida. Troquei a roupa. Àquela hora, os ônibus e carros trafegavam por ali em alta velocidade. Na madrugada chuvosa, os motoristas não veriam o vulto vestido de negro, que se colocaria à sua frente.
   Ao tocar na chave para abrir a porta do apartamento e sair, algo estranho como que me puxou para a estante de livros que cobria toda a parede da saleta de entrada. Estendi a mão maquinalmente e peguei um livro qualquer. De dentro dele caiu um papel aos meus pés. Peguei-o. E lí, sem compreender da primeira vez:
   "NESTE MOMENTO EM QUE VOCÊ SE JULGA TÃO SÓ E DESESPERADA, FILHA MINHA, SINTA O AMIGO QUE ESTÁ AQUI AO SEU LADO, COM AS MÃOS SOBRE SEUS CABELOS, OFERECENDO-LHE SEU AMOR, QUE É O MAIOR DE TODOS. DEIXA QUE ESTE AMIGO LHE FALE E CONSOLE. VOCÊ PRECISA VIVER PORQUE ELE O QUER. ACALME-SE E ENTREGUE-SE A ESSE AMOR, FILHA QUERIDA. O NOME DESSE AMIGO É JESUS".
   Reli o papel duas, três, muitas vezes. E então veio-me um pranto convulso. Realmente, eu "sentia". Sentia mãos suaves que me acariciavam a cabeça. Sentia o calor de um amor imenso aquecendo-me. Sentia o Amigo, no qual "sabia" poder confiar e socorrer-me. Todo o desespero, a angústia, a solidão, o horror pela vida e por meus semelhantes, como que se desfazia naquele pranto.
   O papel molhado com minhas lágrimas continuava apertado em minhas mãos. E lembrei-me. A visita àquele hotel no Rio. Aquele homem de olhos
Continua na página 4

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