o silêncio da Noite
Santa, escuta-me. Põe de lado todo o saber e tuas recordações; põe-te de parte e esquece tudo.
Abandona-te à minha voz; inerte, vazio, no nada; no mais completo silêncio do espaço e do tempo.
Neste vazio, ouve minha voz que te diz - ergue-te e fala: Sou eu.
Exulta pela minha presença: grande bem ela é para ti; grande prêmio que duramente
mereceste. É aquele sinal que tanto invocaste deste mundo maior em que vivo e em que tu creste. Não
perguntes meu nome; não procures individuar-me. Não poderias; ninguém o poderia. Não tentes uma inútil
hipótese. Sabes que sou sempre o mesmo.
Minha voz, que para teus ouvidos é terna, como é amiga para todos os pequeninos que
sofrem na sombra, sabe também ser vibrante e tonante, como jamais a sentiste. Não te preocupes; escreve.
Minha palavra dirige-se às profundezas da consciência e toca, no mais íntimo, a alma de quem a escuta. Será
somente ouvida por quem se tornou capaz de ouvi-la. Para os outros, perder-se-á no vozear imenso da vida.
Não importa, porém: ela deve ser dita.
Falo hoje a todos os justos da Terra e os chamo de todas as partes do mundo, a fim de
unificarem suas aspirações e preces numa oblata que se eleve ao Céu. Que nenhuma barreira de religião, de
nacionalidade ou de raça os divida, porque não está longe o dia em que somente uma será a divisão entre os
homens: justos e injustos.
A divisão está no íntimo da consciência e não no vosso aspecto exterior, visível. Todos
os que sinceramente querem compreender o compreendem. Cada um, intimamente, se conhece, sem que o próprio
vizinho possa percebê-lo.
Minha palavra é universal, mas também é um apelo íntimo, pessoal, a cada um. Muitos a
reconhecerão.
Uma grande transformação se aproxima para a vida do mundo. Minha voz
é singular; porém, outras se elevarão, muito em breve, sempre mais fortes, fixando-se em todas as partes do
mundo, para que o conselho a ninguém falte.
Não temas; escreve e olha. Contempla a trajetória dos acontecimentos humanos: ela se
estende pelo futuro. Quem não está preso nas vossas férreas jaulas de espaço e tempo, vê, naturalmente, o
futuro. Isso que te exponho à vista, é também coerente segundo vossa lógica humana e, portanto, vos é
compreensível.
Os povos, tanto quanto os indivíduos, têm uma responsabilidade nas transformações
históricas, que seguem um curso lógico; existe um encadeamento de causas históricas que, se são livres nas
premissas, são necessárias nas conseqüências.
A lei da justiça, aspecto do equilíbrio universal, sob cujo governo tudo se realiza,
inclusive em vosso mundo, quer que o equilíbrio seja restaurado e que as culpas e os erros sejam corrigidos
pela dor. O que chamais de mal, de injustiça, é a natural e justa reação que neutraliza os efeitos de
vossos atos. Tudo é desejado, tudo é merecido, embora não estejais preparados para recordar o "como" e o
"quando". De dor está cheio o vosso mundo, porque é um mundo selvagem: lugar de sofrimento e de provas.
Mas, não temais a dor, que é a única coisa verdadeiramente grande que possuís. É o instrumento que tendes
para a conquista de vossa redenção e de vossa libertação. Bem-aventurados os que sofrem, Cristo vos disse.
O progresso científico, principal fruto de vossa época, ainda avançará no campo
material. Está, entretanto, acumulando energias, riquezas, instrumentos para uma nova e grande explosão.
Imaginai a que ponto chegará o progresso mecânico, ampliando-se ainda mais, se tanto já conseguiu em poucos
anos! Não mais existirão, na verdade, distâncias: os diferentes povos de tal modo se comunicarão que haverá
uma sociedade única.
A mente humana, porém, troca de direção de quando em quando, vive ciclos, períodos, e,
nessas várias fases, deve defrontar diferentes problemas. O futuro contém não só continuações, mas
transformações: conseqüências de um processo natural de saturação. O vosso progresso científico tende a
tornar-se e tornar-se-á tão hipertrófico — porque não contrabalançado por um paralelo progresso moral —,
que o equilíbrio não poderá ser mantido nos acontecimentos históricos. Tem crescido e, sem precedentes na
história, crescerá cada vez mais o domínio humano sobre as forças da natureza. Um imenso poder terá o
homem, mas ele para isso não está preparado moralmente, porque a vossa psicologia infelizmente é, em
substância, a mesma da tenebrosa Idade Média. É um poder demasiadamente grande e novo para vossas mãos
inexperientes.
O homem será dominado por uma tão alargada sensação de orgulho e de força, que se
trairá. A desproporção entre o vosso poder e a altura ética de vossa vida far-se-á cada dia mais acentuada,
porque cada dia que passa é irresistivelmente para vós, que vos lançastes nessa direção, um dia de
progresso material.
As idéias são lançadas no tempo com massa que lhes é própria, como os bólidos no espaço.
Eu percebo um aumentar de tensão, lento porém constante, que preludia o inevitável explodir do raio. Essa
explosão é a última conseqüência, mesmo de acordo com a vossa lógica, de todo o movimento. Desproporção e
desequilíbrio não podem durar; a Lei quer que se resolvam num novo equilíbrio. Assim como a última molécula
de gelo faz desmoronar o iceberg gigantesco, assim também de uma centelha qualquer surgirá o incêndio.
Antigamente os cataclismos históricos, por viverem isolados os povos, podiam manter-se circunscritos; agora
não. Muitos que estão nascendo, vê-lo-ão.
A destruição, porém, é necessária. Haverá destruição somente do que é forma,
incrustação, cristalização de tudo o que deve desaparecer, para que permaneça apenas a idéia que sintetiza
o valor das coisas. Um grande batismo de dor é necessário, a fim de que a humanidade recupere o equilíbrio
livremente violado: grande mal, condição de um bem maior.
Depois disso a humanidade, purificada, mais leve, mais selecionada por haver perdido
seus piores elementos, reunir-se-á em torno dos desconhecidos que hoje sofrem e semeiam em silêncio,
retomando, renovada, o caminho da ascensão. Uma nova era começará; o espírito terá o domínio e não mais a
matéria, que será reduzida ao cativeiro. Então, aprendereis a ver-nos e a escutar-nos; desceremos em
multidão e conhecereis a Verdade.
Basta por agora; vai e repousa. Voltarei; porém recorda que minha palavra é feita de
bondade e somente um objetivo de bondade pode atrair-me. Onde existir apenas a curiosidade, desejo de
emoção, leviandade ou ainda céptica pesquisa científica, aí não estarei. Somente a bondade, o amor, a dor,
me atraem.
Eu presido ao progresso espiritual do vosso planeta e para o progresso espiritual um ato
de bondade tem mais valor que uma descoberta científica. Não invoqueis a prova do prodígio, quando podeis
possuir a da razão e da fé. É vossa baixeza que vos leva a admirar como sinal de verdade e poder, a exceção
que viola a ordem divina. Se isso pode assombrar-vos e convencer-vos, a vós, anarquistas e rebeldes, para
nós, no Alto, ela constitui a mais estridente e ofensiva dissonância; é a mais repugnante violação da ordem
suprema em que repousamos e em cuja harmonia vibramos, felizes. Não procureis semelhante prova; reconhecei-
a, antes, na qualidade da minha palavra.
A todos digo: Paz!
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