Por João Magalhães
Parece que a bruxa de Blair mudou-se para o Silicon Valley, na Califórnia, e está aprontando na Transmeta, poderosa projetista de chips que tem como mecenas o bilionário Paull Allen, ex-partner de Bill Gates, e como estrela profissional Linus Torvalds, o pai do Linux. O mistério é: a Transmeta trabalha no projeto de um novo processador que ninguém não só não viu como é ainda, mas sequer sabe de sua serventia.Há pistas, quase todas enigmáticas. No site da Transmeta, pegadas na homepage levam à marca Crusoe. E mais nada. Só mesmo curiosos ou fanáticos por Html poderiam ter a idéia de dar uma espiada no código fonte da página e lá achar um rastro mais visível da bruxa de Blair - um texto, bloqueado, que diz: "Tudo será revelado em 19 de janeiro de 2000, com o lançamento do Crusoe, processador que irá criar um novo mundo móvel". Pouco esclarecedor. Mas foi o suficiente para o vazio site da Transmeta obter centenas de milhares de pageviews por mês. Desde sua criação em 1995, por David Ditzel, veterano projetista de chips, que chefiava os laboratórios da Bell, a Transmeta sempre guardou silêncio absoluto sobre seus planos. Mas também nunca, até agora, tinha deixado, propositalmente, vestígios de seus desígnios. Propositalmente? Frank Pescaro, diretor de marketing da companhia, confirma a intenção em entrevista recente. "Quanto mais as pessoas ficarem curiosas pelo que vimos fazendo, mais o logotipo da Transmeta estará na cabeça delas.", ele acredita. Só que a estratégia foi longe demais. Os geeks (apaixonados por computadores) de Silicon estão chegando à demência, na tentativa de resolver o enigma. O site Slashdot, que hospeda mais de 50 listas de discussão sobre a Transmeta, exibe escritos desesperadores: "O suspense está me deixando insano O que poderia ser? Um novo hardware de reconhecimento de voz? Uma engenhoca de comunicação sem fio, de excepcional largura de banda? Um fenômeno telecinésico?", especula, aflito, um dos missivistas. A magia transportada de Blair para o Silicon é tamanha que há quem pense até numa espécie de conspiração de sociedades secretas para acabar com os símbolos satânicos exibidos nos games da Sonic. "A falta de informação gera pensamentos absurdos como esse. A Transmeta deveria abrir logo o jogo", acha Kevin Krewell, analista sênior da MicroDesign Resources, empresa de pesquisa de mercado, de Sunnyvale, Califórnia. Com o que não concorda o marqueteiro Frank Pescaro. "Você não pode falar coisa alguma sobre o que, no momento, são apenas esboços numa folha de papel", ele argumenta, ao mesmo tempo em que põe lenha na fogueira, quando comenta o porquê do logotipo Crusoe: "Robinson Crusoe conseguiu sobreviver em condições extremamente adversas. Seu nome está ligado a desafios, à exploração do inexplorado. Daí, pode-se supor que o projeto da Transmeta é algo provocador", ele atiça. Talvez não seja temerário ir além dessa hipótese, levando-se em conta a trajetória da Transmeta. Há algum tempo atrás, quando o Java começava a encher os olhos dos programadores, a Transmeta passou a trabalhar num chip Java. Pouco tempo depois, quando os PCs se transformaram em máquinas multimídia, a empresa dedicou-se ao projeto de um poderoso processador de mídia. Em seguida, saiu de suas pranchetas o matador da Intel, um super veloz e reprogramável chip. Não faz muito tempo, a Transmeta contratou Linus Torvalds, arquiteto do sistema operacional Linux e "santo" padroeiro de todos os geeks . Aonde queremos chegar? Não nós, mas os próximos de David Ditzel, a exemplo do jornalista Andrew Leonard, que freqüenta, junto com Paul Allen, o Salon, site da elite da Web, estão quase certos de que vem por aí um artefato capaz de pôr fim ao reinado informático da Intel/Microsoft e dar início ao império tecnológico da Transmeta/Linux. Só se for mesmo coisa de bruxa. |