ALMA NÃO-GÊMEA


És tão diferente de mim,
Tão poderosamente oposta,
Tão terrivelmente cativante;
A negação dos meus princípios,
O precipício de ideais adiante...
A tentação,
A bifurcação,
A dúvida...

Percebo teus gestos tão contrários
Formulando a semelhança,
Enganando,
Negando cada divergência;
Postulando a esperança,
Estilhaçando minha verdade !

Que estranhas vagas te trazem,
Te retornam continuamente,
Qual objeto raro e precioso,
Às praias de minh'alma ?
Te espraias nas areias da mente
Sufocando meus conceitos,
Iludindo se teus atos são,
Ou não defeitos...
O que é certo ?
O que é errado ?

Pouco a pouco desmorono;
Fico imóvel de fascínio...
Ah, que estranho enigma
Ocultado no semblante !
Que formidável rima
No suspiro longo e ofegante...
Cada movimento teu ensina,
Refina
A beleza do universo circundante!

Tuas palavras em outros lábios
Ser-me-íam por total repugnantes,
Mas nos teus,
Tão roseamente provocantes,
Úmidos,
Perfeitos,
Tornam-se acalanto,
Canções de amor...

Teu corpo imiscuído ao entardecer,
Às tonalidades ruivas,
Ao mistério do crepúsculo,
Profetiza a noite,
Propõe o sonho -
A realização do amor...

Como descrever-te ?
O sorriso imiscuído ao perfume,
Resume todas as flores...
D'aurora ao ocaso suplantas o céu :
Infinitas tuas cores...

Em cada estrela o olhar,
A cada luar o teu brilho;
Por cada riacho o sentido
Naufragado de amor em teu mar !

És uma armadilha do sentimento:
Um sonho possível,
Um perigo constante;
Criação e caos num só movimento,
Conforme a vontade comande...
Geras,
Destróis,
Perpetuas,
Detendo o poder sobre a vida,
Ousando poder sobre a morte...
És toda a força da fêmea,
És musa sublime e amada,
És minha alma não-gêmea.




Marco Aurélio M. Ferreira


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