Paredes com retrato de Van Gogh


Ainda que alguém possa me jurar
que estou aqui
que não estou com a vida em outro tempo
outro lugar
eu permaneço ainda a duvidar
que esta é de fato a minha casa

aquela com que tanto sonhei
que varei madrugadas
a desenhar algo de infinito
  em minhas janelas

Como quadro revestido de passado
um van gogh
singelamente copiado em papel de cartolina

[minha sina virou fazer dele um lindo original]

E foi assim que coloquei numa vitrina
meu gosto  meu sorriso
e meu contínuo e alentado desejo
de amplidão

Aquela que se tem quando se sobe alto
e se pendura na neblina o manto [côr de pão]
claro como a tez que tenho
de menina
a esborrachar-se

Sorrindo de si mesma
ao cair do alto daquele sonho tão comprido
tanto a dizer como a sentir
não ter aqui a tua mão a desejar
fazer cimento e deixar marcas de paixão
de sentimento

de haikai e de caqui
fruta madura a desfazer-se em meu enfado
em minha valsa
tango  ou em meu fado
[de além-mar

Sherzzo em sinfonia
melodia ao longe a desenhar estrelas
que caíram
por sobre a cartolina do quadro de Van Gogh

Estranhas ao olhar fixo pelo vidro
  da moldura

a espreitar o fim



Eliana Mora


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