O Cometa


Um cometa passava... Em luz, na penedia, 
Na erva, no inseto, em tudo uma alma rebrilhava; 
Entregava-se ao sol a terra, como escrava; 
Ferviam sangue e seiva. E o cometa fugia... 

Assolavam a terra o terremoto, a lava, 
A água, o ciclone, a guerra, a fome, a epidemia; 
Mas renascia o amor, o orgulho revivia, 
Passavam as religiões... E o cometa passava. 

E fugia, riçando a ígnea cauda flava... 
Fenecia uma raça; a solidão bravia 
Povoava-se outra vez. E o cometa voltava... 

Escoava-se o tropel das eras, dia a dia: 
E tudo, desde a pedra ao homem, proclamava 
A sua eternidade! E o cometa sorria... 

 



Olavo Bilac    


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