Edição nº31 - 23/06/00 As patas de um cavalo de carroça, em pleno tóc-tóc no asfalto, iluminadas pelos faróis dos carros Rose Marie Murraro, Chiquinha Gonzaga, Clarice Lispector, Hilda Hilst, Maria Bonita e a professora de Literatura, crítica literária (e pesquisadora de algumas questões eventuais e únicas do fenômeno literário e dos nossos fatos e processos históricos) Leyla Perrone-Moisés, com seus ensaios sobre nossas Letras e a nossa História Cultural, estão entre as mulheres brasileiras que mais me impressionaram neste século XX. Nesta lista das que mais admiro eu não incluiria Erundina, Marilena Chauí, a belíssima Vera Fischer, a miss Marta Rocha, mas, certamente, incluiria Carmem Miranda, Leila Diniz, Gal Costa e Esmeralda Cabral Ramos. Há muito mais de vinte luas, admiro a obra ensaística de Leyla Perrone-Moisés mas, agora, com o ensaio intitulado Em defesa da Literatura, publicado entre as páginas 10 e 13 do caderno dominical Mais da Folha de S. Paulo, em sua edição de 18 de Junho de 2000, esta intelectual ganhou um ardoroso (mas crítico) admirador: eu. Neste ensaio, ela trata sobre o que tem sido e como vai a instituição literária no mundo pós-moderno globalizante, diluidor, mercadológico, superficializante e antitradição no qual se confunde demanda sócio-cultural com demanda mercadológica; academia ou escola ou cursos de literatura com literatura; passado com literatura; valor de uma obra literária com o número de seus leitores; evento essencial/ existencial e fenomenológico estético-literário com conservadorismo e visão retrógrada de quem o cria ou desencadeia no papel... Um pensar claro e sintético sobre a história dos conceitos de literatura; o mal estar no interior da caótica crise de parâmetros sobre cânones e anticânones literários; a literatura enquanto espaço existencial e essencial único no qual se pode optar por dizer tudo ou por nada dizer; a literatura tratada como perfumaria supérflua e improdutiva e inútil e a literatura enquanto leitura e criação individual e coletiva, cultural, para o aprofundamento e ampliação dos nossos horizontes democráticos, a cultura da elite para todos ou a elitização ostensiva e falaciosa dos nossos escritos literários; a multiplicação geométrica das produções editoriais literárias no desnorteio paradigmático da crítica literária e na ausência de conceitos estáveis e seletivos frente a esta pulverização politicamente correta e multiculturalista dos estatutos e rótulos escolares e ideológicos de obras pretensamente ou consagradas ou legitimadas como literárias. A literatura como experiência criativa única e não como mero documento ou registro de uma época. O crítico literário ou o professor de Literatura que não considerar nem tomar conhecimento das ponderações de Leyla Perrone -Moisés, no texto acima citado, para mim está por fora da discussão sobre a questão de teoria literária mais importante que se trava no mundo globalizado em que vivemos. Um trabalho consistente, erudito e bem informado ou atualizado como o que vemos nos escritos de Leyla Perrone-Moisés é cada vez mais raro no Brasil do ano 2000. Viajar é civilizar-se. O nosso olhar para o diverso, o novo, o estranho, e o nunca visto, nem imaginado, é o diálogo mais instigante que se possa estabelecer com o outro e com o tempo histórico e cultural deslocado dos nossos mesquinhos e muitas vezes pobre horizontes cotidianos. Nossas compras de viagem são como provas dos grandes feitos heróicos de nos defrontar com o outro e com o novo e o estranho, o desconhecido. Tudo isto que lhes falo é tão pesadamente verdade quanto o tombo que cai ontem à noite na entrada do túnel da praça Roosevelt, no centro de São Paulo (capital) ao ignorar um obstáculo demarcatório de espaços para pedestres e carros. Caí confusamente estatelado e embaraçado na pista asfáltica. Salvou-me um fechamento de semáforo. Minhas mãos ardiam com o atrito com o duro e áspero asfalto, meus joelhos ficaram esfolados. Quase quebrei meu relógio e meus braços ficaram sujos e escurecidos pelos escuros poluentes aspergidos no leito da via pelos canos de descarga dos veículos que por ali, incessantemente, transitam e assim haverá de ser até o fim dos tempos. Outra noite, na semana passada, voltava do trabalho quando parei ao lado de uma carroça de duas mulheres coletoras de embalagens de papelão e lhes ofereci um pão para a sua escrava e paciente égua e mais três Reais para comprar-lhe milho. Agradeceram-me, mas fui em frente sem nenhuma certeza de que o meu dinheiro seria de fato usado para comprar milho para aquela infeliz égua. José Luiz Dutra de Toledo
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