> Cadeias magnéticas marcianas (06/03/01)

Curiosas cadeias de cristais magnéticos têm aparecido em um meteorito proveniente de Marte. Porque estes cristais de uma só camada não se desfizeram para converter-se em uma massa magnética há muito tempo? Os cientistas crêem que micróbios marcianos muito antigos os mantiveram em sua forma original.

Bactéria magnética atual (acima) e cadeia de cristais magnéticos no meteorito (abaixo)Atualmente o planeta Marte parece sem vida - ao menos se comparado com a Terra - mas os cientistas se pergutam se estes dois mundos não tiveram mais em comum há bilhões de anos.

Novas pesquisas anunciadas em 27 de fevereiro passado em Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), Revista da Academia Nacional de Ciências, sugerem que é possível que uma antiga vida microbial tenha aparecido em Marte mais ou menos ao mesmo tempo da que apareceu em nosso planeta.

Um grupo internacional de pesquisadores, estudando um meteorito marciano de quatro bilhões de anos encontrou cristais magnéticos microscópicos dentro desta antiga rocha. Os interessantes cristais estavam ordenados em grandes cadeiras, o que de acordo com os cientistas, somente poderia ter se formado com a ajuda de organismos que viveram há muito tempo.

Direita: Imagens dispersas de um microscópio eletrônico mostrando (acima) uma bactéria magnetotática atual com uma cadeia de cristais magnéticos e (abaixo) cristais magnéticos e cadeias de cristais encontrados no meteorito marciano ALH84001. Uma cadeia que se destaca das demais está indicada por setas. O diâmetro de um cristal simples é de aproximadamente um milhonésimo de polegada.

"As cadeias que encontramos (no meteorito marciano ALH84001) têm uma origem biológica," assegura Dr. Imre Friedmann, membro principal do Centro de Pesquisas Ames da NASA e líder do grupo de pesquisa. "Devido a forças magnéticas, esta classe de cadeias magnéticas se desintegraría imediatamente fora de um organismo, para formar uma massa compacta."

Tanto a disposição em forma de cadeia dos cristais marcianos como as próprias características dos cristais mostram uma semelhança surpreendente com cristais produzidos por uma bactéria na Terra.

Esta bactéria, normalmente do gênero Magnetospirillum, fabrica os cristais de "magnetita" (Fe3O4), átomo por átomo em pequenas bolsas interiores, logo alinham vários desses cristais que atuam em conjunto como uma barra magnética. Seguir esta "bússola magnética" interna permite a bactéria procurar, por um caminho mais direto e mais eficiente, uma aceitável concentração de oxigênio no volume de água que a permite viver.

Bactéria magnética atual (acima) e cadeia de cristais magnéticos no meteorito (abaixo)

Acima: um exemplo de bactéria "magnetotática" (que produz magnetita) da Terra. Observe a linha de cristais magnéticos moderadamente prolongados até abaixo do centro da bactéria. Estes cristais atual como uma bússola magnética alinhando a bactéria com o campo magnético da Terra.

O grupo de Friedmann defende que as cadeias magnéticas no meteorito foram depositadas fissuras microscópicas dentro da rochas marciana depois de que esta foi destruída pelo impacto de um asteróide na superfície de Marte, há aproximadamente 3,9 bilhões de anos. Esta catástrofe pode ter exterminado também a bactéria. O mesmo impacto com o asteróide, ou outro posterior, impulsionou a rocha, agora convertida em um meteorito, ao espaço.

Outro grupo de Pesquisa da NASA, dirigido por Kathie Thomas-Keprta do Centro Espacial Johnson da NASA (JSC), informa na mesma edição de PNAS que os cristais magnéticos dentro do meteorido são similares aos formados pela bactéria que utiliza magnetitas e que agora existe na Terra.

"Esta magnetita (proveniente do meteorito) é praticamente idêntica a certa magnetita biogênica (produzida biologicamente) na Terra. Também não conhecemos nenhum outro mecanismo que possa produzí-la em Marte ou na Terra," diz Dr. Everett Gibson, um astrobiólogo do JSC, que também participou no estudo Thomas-Keprta.

Os cristais fabricados pela bactéria que produz magnetitas são quimicamente puros e livres de defeitos em sua estrutura cristalina. Estes são moderadamente prolongados na direção do eixo do cristal e variam em dimensões deste 35 até 120 manômetros (um manômetro é uma bilhionésima parte de um metro.) Os cristais igualmente mostram um padrão único na distribuição de facetas - igual aos cortes de um diamante. Estas propriedades são tão pouco comuns que somente se tem observado em cristais de magnetita produzidos por processos biológicos.

Bactéria magnética atual (acima) e cadeia de cristais magnéticos no meteorito (abaixo)Aproximadamente uma quarta parte dos cristais de magnetitas do meteorita apresentam exatamente estas propriedades - uma indicação muito convincente de sua origem biológica. A recente descoberta da estrutura em cadeia dos cristais contrubue ainda mais para confirmar esta teoria.

O grupo de Friedmann descobriu os cristais utilizando uma técnica que lhes permitiu "ver" as diminutas cadeias dentro do meteorido sem destruí-las. Além da formação em cadeia, o grupo descobriu que os cristais pertencentes a uma mesma cadeia são semelhantes em tamanho e forma, não têm contato entre si, e que as cadeias mesmas são flexíveis, evidência também de sua orgiem biológica.

Esquerda: esta comparação passo a passo mostra a assombrosa similaridade entre os cristais de magnetitas encontrados em um meteorito marciano, à esquerda, e aqueles fabricados por bactéria na Terra, à direita.

La possibilidade de que um pequeno meteorito marciano (uns 2 kilogramas) pudesse conter uma alta concentração de bactérias, sugere que esta bactéria estava amplamente disseminada no Planeta Vermelho, dizem os pequisadores.

Os cristais magnéticos se formaram provavelmente há 3,9 bilhões de anos, quando a rocha foi expulsa de Marte. Em comparação e utilizando as teorias mais aceitas, a mais antiga vida na Terra aparece há uns 3,6 a 3,7 bilhões de anos. Ambos os planetas se formaram há 4,5 bilhões de anos.

O próximo passo é encontrar os restos das mesmas bactérias marcianas, diz Friedmann.

"Encontrar evidência de vida em Marte é hoje um dos principais objetivos da pesquisa astrobiológica," diz Dr. Michael Meyer, Diretor do programa de Astrobiologia da NASA, que financiou o projeto.


> Traduzido e adaptado com permissão de Science NASA.

+ Leia a versão em inglês.

+ Leia a versão em espanhol.


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