Um
jeito de estudar o coração do Sol
É possível ver o que se passa
no interior da estrela. Basta observar os
neutrinos, que são partículas subatômicas
vindas diretamente lá de dentro.
Feche
seus olhos por apenas 1 segundo. Pois bem, nesse
segundo, cada centímetro quadrado do seu corpo
foi atravessado por 100 bilhões de partículas
subatômicas chamadas neutrinos. Esse bombardeio
vem acontecendo em todos os segundos desde que
você nasceu. Mesmo assim, você não sofreu
qualquer prejuízo porque os neutrinos
praticamente não interagem com as outras formas
de matéria. Como não tem forca elétrica, nem
magnética, comportam-se como uma espécie de
fantasmas, para os quais o planeta Terra inteiro
é tão transparente quanto um copo de cristal
diante da luz.
De
onde vem essa enxurrada de neutrinos? Do núcleo
do Sol! Lá, ocorrem reações atômicas que, a
todo instante, criam uma enormidade de neutrinos.
Como o próprio Sol é transparente a essas partículas,
elas chegam livremente até nós. Então, se pudéssemos
montar um observatório de neutrinos, poderíamos
"observar" diretamente o que se passa
no centro ao Sol? Sem dúvida. Isso, na prática,
já está sendo feito desde os anos 60, por meio
de observatórios gigantescos em diversos países.
Esses instrumentos precisam ser subterrâneos
porque as rochas, em cima deles, bloqueiam a
entrada de outros tipos de partículas vindas do
céu (como os prótons). Debaixo da terra, é
mais garantido que só os neutrinos cheguem aos
detectores.
Mas
essas tentativas pioneiras de "olhar" o
coração do Sol deram um resultado surpreendente:
mostraram que a quantidade total de neutrinos
solares era apenas um terço do que se poderia
esperar. Foi realmente uma surpresa, pois, até
então, os cálculos teóricos sobre as reações
do Sol pareciam corretos e precisos. E ainda
parecem. Então, o que estaria errado? Os
especialistas de cada área garantiam que eles
estavam certos e que os outros é que estavam
errados. Eu ouvi, em 1976, o maior especialista
em cálculo teórico de estrelas, Martin
Schssarzschild, dizer que estava cansado desse
jogo de empurra-empurra.
Finalmente,
este ano, parece ter surgido uma luz, com o anúncio
do laboratório Superkamiokande, no Japão, de
que a massa dos neutrinos não é zero, como se
considera desde a década de 30. A massa é
pequena, mas existe. Na prática, isso quer dizer
que muitos deles poderiam estar passando batido
pelo detector, sem deixar registro. Daí porque
se pensava que a quantidade de neutrinos solares
era pequena - um terço da que previam os
estudiosos do Sol. Estes, portanto, estavam
certos. A teoria do neutrino é que era incorreta.
Vamos ver agora se os números batem e se
poderemos usar os neutrinos para observar o núcleo
solar.
Revista Superinteressante, agosto
de 1998, página 69
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