O
visitante do passado
Na última visita do cometa as
pirâmides do Egito estavam em construção
Nas
próximas semanas, os brasileiros poderão
observar um fenômeno que em 200 gerações
nenhum ser humano teve a chance de ver. Na última
vez que o cometa Hale-Bopp brilhou nos céus do
planeta, há 4 210 anos os egípcios estavam
construindo as grandes pirâmides. Os chineses
aprendiam a dominar a irrigação, a técnica de
refinar grãos e o calendário lunar. Na Mesopotâmia,
onde hoje fica o Iraque, surgiam as principais
cidade muradas. A principal moeda entre os povos
da região eram os cedros do Líbano, hoje
extintos. Na índia, faziam-se aquedutos e silos
para estocar alimentos. Com exceção de Egito,
China, Mesopotâmia e Índia, onde já existia a
escritura, a metalurgia e o comércio, os demais
agrupamentos humanos ainda estavam na penumbra da
pré-história. Nas savanas africanas, nos
desertos da Austrália e nas florestas da América,
os homens vestiam-se com peles de animais ou
andavam seminus, buscavam abrigo em cavernas e se
alimentavam da caça e da pesca. Os filósofos
gregos, a Guerra Tróia, os imperadores romanos,
o surgimento do cristianismo, os templos incas e
astecas - tudo isso ainda pertencia ao futuro da
humanidade.
O
cometa Hale-Bopp é uma ponte celeste entre a
geração atual e seus antepassados milenares.
Quem erguer os olhos para o céu em busca do
cometa estará repetindo o gesto feitos por seus
tataravós, há 4 200 anos. "Ao observar uma
coisa que ninguém mais viu nos últimos milênios,
estabelecemos uma conexão com nossos ancestrais
de civilizações perdidas no tempo", diz
Alan Lightman, escritor americano e astrônomo do
Massachusetts Institute of Technology, o MIT.
"É possível imaginá-los reunidos em torno
de uma fogueira sob o céu estrelado observando
aquela luz misteriosa cruzando o firmamento."
Bolas
de gelo - Descoberto em julho de 1995 por Alan
Hale e Tom Bopp, dois astrônomos americanos que
lhe deram o nome, o cometa deslumbrou os
habitantes do hemisfério Norte nas últimas
semanas. Observado até mesmo perto das luzes de
cidades grandes como nova York, foi apontado como
um dos mais espetaculares do século. Agora é a
vez do Hemisfério Sul e do Brasil. Desde a
semana passada, ele é visível das cidade do
Norte e do Nordeste. Nos próximos dias, começará
a aparecer também nas demais regiões. Para vê-lo,
é preciso procurar um local distante das cidades
e observar o céu na região noroeste, cerca de
meia hora depois do Pôr-do-sol. Os astrônomos
prevêem que o brilho do Hale-Bopp no Brasil será
menos intenso do que no Hemisfério Norte, por
dois motivos. O primeiro é o seu ângulo, muito
próximo à linha do horizonte. O outro é que,
depois de atingir seu ponto de maior aproximação
do Sol, no dia 1º de abril, de agora em diante
estará se distanciando da Terra, Ainda assim, o
Hale-Bopp promete compensar a frustração de
quem não conseguiu ver o Halley, cometa que,
anunciado com grande alarde em 1986, foi completo
fiasco ao passar perto da Terra. "Ele estará
mais brilhante que qualquer outra estrela",
prevê Amauri de Almeida, professor de astrofísica
no Instituto Astronômico e Geofísico da USP.
"Não há nenhuma possibilidade de confundi-lo
com qualquer outro corpo celeste.
"Criados
na mesma época em que surgiram o Sol e os
planetas, os cometas são gigantescas bolas de
poeira e gelo estelar originadas de uma região
escura e fria do Universo, chamada Nuvem de Oort.
É uma berçário de cometas situado muito além
da órbita de Plutão, o mais distante dos
planetas. Situa-se que lá existam mais de 10
trilhões de núcleos cometários. De vez em
quando, um puxão gravitacional tira um deles do
estado de dormência e o cometa inicia um
mergulha em direção às vizinhanças da Terra.
Nessa viagem de bilhões de km, o cometa se
aquece à medida que se aproxima do Sol. O gelo
acumulado à sua volta se transforma em gás e a
poeira se dissipa, produzindo a cabeleira que
acompanha o cometa. O Hale-Bopp tem 40 km de diâmetro
e dissipa 300 toneladas de gelo por segundo. Sua
cauda se estende por maus de 80 milhões de quilômetros
do espaço - 200 vezes a distância entre a Terra
e a Lua. "É um cometa espetacular, maior
que qualquer coisa que tenha cruzado a órbita da
Terra durante a nossa vida", diz a astrônoma
americana Carolyn Shoemaker, que até hoje
descobriu mais cometas do que qualquer outra
pessoa - 32, ao todo.
Semente
da vida - os cometas carregam amostras químicas
que ajudam a entender a formação dos planetas e
das estrelas por que são embriões congelados do
primitivo Sistema Solar, formado há cerca de 4,6
bilhões de anos. Desde essa época remota, os
cometas foram mantidos no freezer do espaço
interestelar, a temperaturas próximas ao zero
absoluto, em que toda a atividade atômica cessa
por completo - ao contrário do Sol, dos planetas
e dos asteróides, que, nesses bilhões de anos
foram submetidos a colisões e processos químicos
e físicos devastadores. Isso faz dos cometas fósseis
químicos onde estão guardadas as únicas
amostras da matéria primordial que originou o
Sistema Solar. Suspeita-se que a água dos
oceanos e a semente primitiva da vida na Terra
possam ter vindo de milhões de cometas que se
chocaram com o planeta quando ele ainda estava em
formação. "Consideramos durante muito séculos
mensageiros da morte e destruições, os cometas
provavelmente desempenharam um papel fundamental
no aparecimento da vida", diz o astrofísico
francês Hubert Heeves.
Os
cometas também ajudam a compreender a própria
história humana. Bastou os astrônomos
calcularem a data exata da última passagem do
Hale-Bopp, 2 213 anos antes de Cristo, para que
houvesse uma corrida dos arqueólogos aos
documentos antigos. Todos queriam saber ser havia
referências ao cometa em hieróglifos egípcios,
murais sumérios ou textos chineses. O resultado
até agora foi nulo. Apesar da falta de registros,
os cientistas acreditam que o cometa não
passaria despercebido 4210 anos atrás por que
nessa época, os homens tinham uma ótima razão
para vigiar o céu. Eles eram, em sua maioria,
agricultores, conhecer o movimento da Lua, do Sol
e das estrelas era fundamental para marcar as
estações do ano e saber as épocas ideais para
plantio e colheita.
Estágio
primitivo - Há quatro milênios, as raízes da
civilização já estavam lançadas. A diferença
era o grau de evolução das comunidades humanas
Enquanto na China, Na Índia, Mesopotâmia e
Egito já se dominava a tecnologia para fabricação
de objetos de ferro, prata, bronze e ouro, em
outras regiões a agricultura ainda era uma
novidade recente. Na Europa, o suo do arado
apenas começava a se disseminar pelas lavouras.
Na planície de Salisbury, na Inglaterra. O
monumento de StoneHenge, uma das edificações
mais misteriosas da antigüidade, estava sendo
construído por uma das cinqüenta gerações que
se dedicaram à obra, entre 2750 a 1250 antes de
Cristo. Acredita-se que o local tenha sido usado
para rituais e para marcar o calendário das estações.
Na América do Norte, tribos nômades costumavam
retornar, periodicamente, aonde seus ancestrais
costumavam caçar e coletar alimentos no 7500
anos anteriores. No Brasil, onde os primeiros
seres humanos tinham chegado havia cerca de 800
anos, tribos indígenas viviam num estágio ainda
muito primitivo, morando em cavernas e abrigos
improvisados.
Como
esses povos da antigüidade em diferentes regiões
do planeta teriam reagido à aparição do Hale-Bopp?
Uma possibilidade é que o cometa tenha assustado
as pessoas como até mesmo mudado os rumos da
história. Na maioria dessas civilizações o
surgimento dos cometas tinha implicações
religiosas e políticas. "No Egito, na Babilônia,
na China e na Índia os comandantes legitimavam
suas regras e determinações usando como
argumento fenômenos astronômicos para convencer
o povo", diz o antropólogo Lamberg-Karlovisky,
da universidade americana Harvard. "O
sistema era quase universal nessa época, e é
quase certo que o Hale-Bopp tenha servido a esse
propósito".
Seda
e cerâmica - A geração que viu o cometa também
testemunhou várias transformações na História
humana. Na Mesopotâmia, entre os rios Eufrates e
Tigre, os sumérios e os acadianos faziam a
primeira revolução urbana do cidades-estado,
onde os reis promulgavam leis, cobravam impostos,
organizava exércitos e estabeleciam grandes
redes de comércio. Desviando as águas dos rios,
esses povos foram os primeiros a desenvolver
irrigação e produzir uma quantidade de cereais
muito superior às necessidades de sua população.
O excedente era vendido aos povos vizinhos.
Situada à margem direita do Eufrates, a cidade
suméria de Ur estava entre as maiores metrópoles
da época, com mais de 30 000 habitantes. Dessa
cidade, segundo relatos bíblicos, Abraão,
patriarca de árabes e judeus saíram mais tarde
para estabelecer-se às margens do rio Jordão,
onde ficam Israel e Jordânia.
As
sementes da civilização lançadas pelos sumérios
e acadianos se disseminavam por outras regiões
na época em que o cometa apareceu. No extremo
oriente, três grandes civilizações estavam
emergindo. Às margens do Rio Indo, atual
fronteira entre Índia e Paquistão, os
harapenses já utilizavam a irrigação,
projetavam cidades e tinham governos municipais
que se responsabilizavam pelo estoque de águas e
alimentos. No Sudeste Asiático, plantava-se
arroz ao redor das grandes aldeias ao longo do
Rio Mekong. Mais ao norte, nas margens do Rio
Amarelo, os chineses já dominavam a escrita,
teciam a seda, produziam vasilhas de cerâmica e
um pouco mais tarde, utensílios de bronze. Ainda
faltava 1 000 anos para que a dinastia Ming
erguesse a atual Muralha da China. De todas as
civilizações da China, nenhuma deixou vestígios
tão impressionantes e duradouros quanto os egípcios.
Nesta época, a sexta dinastia dos faraós
dominava o poder no antigo império, cuja capital
era a cidade Memphis. Foi a dinastia responsável
pela construção da Grande Pirâmide de Gizé,
cerca de 400 anos antes da aparição do cometa.
Nesta
semana, o Hale-Bopp já está a quase 300 milhões
de km da Terra, rumo ao seu novo mergulho na
escuridão gerada do Cosmo. Viajando a 150 000 km
por hora, deverá voltar só daqui a 2 400 anos.
É metade do tempo gasto na sua última jornada
em virtude da sua atração gravitacional
exercida sobre ele pelos planetas Júpiter e
Saturno. "Ela funciona como um freio sobre o
cometa, obrigando-o a descrever órbitas menores
a cada passagem pelo Sol", explica Amauri de
Almeida, da USP. Da última vez que o Hale-Bopp
passou pela Terra, há 4200 anos, era impossível
para nossos antepassados imaginar que hoje seus
descendentes viveriam em cidades, enfrentariam
engarrafamentos na rua, freqüentariam shopping
centers, comeriam hambúrgueres, viajariam em aviões
e chegariam à Lua. O que estarão fazendo homens
e mulheres no ano 4397, quando o cometa brilhar
novamente?
Revista Veja, abril de 1997
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