Era Uma Vez um País
Argumentos para roteiro de vídeo/filme.
Trajetória político-social de um país localizado na parte centro-oriental da América do Sul.
NARRADOR - Era uma vez um país. Neste país havia um presidente que queria só ele ser o presidente. Não deixava ninguém falar. Quem ousava reclamar era logo preso, deportado, torturado ou morto. Até que um dia, o povo já não agüentava mais. Mesmo pegando porrada, botava a boca no gramofone. Fazia até passeata. E, então, o presidente, que queria só ele ser o presidente, mandava baixar o cacete. Tropas de choque, gás lacrimogêneo, cacetete e, até mesmo bala, já havia se tornado praxe. Mas o povo continuava reclamando. Queria ganhar bem, morar bem. Queria escolas, hospitais, e tudo o que gente precisa. Pelo menos o presidente e seus ministros e os políticos desse país tinham com muita fartura.
De tanto ouvir reclamação de Norte a Sul, de Leste a Oeste, o presidente, tremendo de medo, depois de mais de vinte anos de poder e opressão, abriu mão de ser presidente e elegeu um não muito amigo seu com um vice que era seu amigo.
Mas o presidente, eleito pelo antigo presidente que não queria deixar o poder, foi morto. E, então o vice que era amigo do presidente que só queria ser presidente ficou no lugar do presidente que foi morto. O país chorou, cantou, e enterrou o falecido presidente.
Aproveitando o clima de carnaval, aquele que era vice do outro que morreu virou presidente, segundo dizem, por acaso, digamos, sem querer... Este outro presidente tanto fez que até moeda nova implantou. Mas o salário continuou baixo, as escolas fracas, os hospitais cada vez mais doentes; parecia tudo em fase terminal como antes.
Então, o povo não se conformou e foi novamente para às ruas. Queria falar mais, queria dar mais opinião, votar para presidente, enfim, participar da vida política e social da nação. Naquela época, mesmo com todo cacetete, prisão e gás lacrimogêneo, tinha sindicato, movimento estudantil e, claro, até partido de esquerda. Assim, o povo falava, cantava, berrava, nas ruas, nas praças, nas universidades e sindicatos. Tinha muita coisa para dizer e dizia.
Com tudo isso, o presidente, que era vice e virou presidente por acaso, teve que ceder e o povo, enfim, ia votar. Havia dois candidatos: um representava os anseios do povo que reclamava para querer votar desde a época do antigo presidente, daquele que não queria deixar de ser presidente; outro, representava aqueles que estavam satisfeitos com este dito presidente, eram os que tinham sábias escolas, hospitais sadios, muito dinheiro nos bancos, tinham até bancos, jornais, rádio e televisão, e achavam feio, deselegante quando os insatisfeitos reclamavam votar para presidente. Mas eles tinham o candidato deles.
O país ferveu. Comícios para todos os pontos cardeais. O país virou um grande carnaval. Como havia mais gente insatisfeita do que gente satisfeita com o presidente que queria só ele ser o presidente e com o outro, todo mundo pensava que era um que ia ganhar. Então o povo foi às urnas tirar a prova. Não deu o outro, deu outro. O candidato dos que já eram satisfeitos. Estes ficaram ainda mais satisfeitos. Todos os tais satisfeitos comemoraram. Mas, só não entendia uma coisa: quando perguntava nas ruas, nos ônibus lotados, no trabalho, ninguém tinha votado nele. E ficava a dúvida, como pode ele ganhar se tem mais insatisfeitos do que satisfeitos e, ainda por cima, ninguém votou nele? Bom...
Porém, faziam festas em todos os lugares: nos jornais, nas rádios, na televisão, nas mansões das grandes cidades, nos palácios... Então, o presidente fazia gestos fortes pra cá, pra lá, corria, andava de bicicleta, de jetsky, aparecia na televisão e em todos os lugares por aí, e assumiu. Até que um dia...
Era uma vez um país. Deste país tudo se pode esperar, principalmente em época de eleição. O bendito presidente que foi eleito pelos que estavam satisfeitos com o antigo presidente, aquele... confiscou o dinheiro dos satisfeitos que o elegeram. Estes, que estavam satisfeitos, passaram a ficar insatisfeitos. Com isso, ficou parecendo que todo mundo no país era igual só porque agora estavam todos insatisfeitos. Só que uns já eram insatisfeitos, por isso queriam votar no presidente dos insatisfeitos, enquanto que os outros, que eram satisfeitos e, por isso, nem se importavam em votar para presidente, só ficaram insatisfeitos porque perderam seu dinheirinho, que não era pouco. Foi quando surgiu o impeatchment. Se perguntasse, pouca gente saberia dizer o que era. Só depois, com muita gente nas ruas, é que se ficou sabendo direito. Inclusive, por causa do impeatchment, até o presidente foi para a rua. Disseram que ele roubou, que os amigos dele roubaram, que aqueles que o apoiaram na campanha roubaram... Será que isto significa que a maioria roubou? Por um acaso, ele não teria sido supostamente eleito pela maioria?
No lugar dele ficou o vice de novo. Ele era amigo de quem? Do dono do banco, que era amigo do dono da televisão, da rádio, do jornal, de quase tudo no país, e era amigo daquele antigo presidente, que era amigo do vice que virou presidente porque o presidente que foi escolhido pelo outro... morreu. E o povo, aquele que berrava, gritava, reclamava? Já estava todo mundo misturado com cara de insatisfeito...
Até que um dia, naquele país, houve nova eleição. Já que agora pode, vamos votar, diziam uns. Parecia, também, que podiam falar um pouco mais, no entanto, já não tinham mais nada a dizer. Poucos eram aqueles que ainda reclamavam, falavam nas ruas, nos ônibus e trens lotados, faziam passeatas, etc. Saudade daqueles tempos. Dava até a impressão de que não havia mais sindicatos nem movimento estudantil. Ah, este existia, agora me lembro. Tenho ido a várias festas que promovem, nos finais de semana, nas universidades. Um barato! Rola de tudo, gente!
Depois que todo mundo se misturou para demitir o presidente que roubou, passou a haver dúvidas sobre que presidente eleger. Novamente comícios, festas, programa eleitoral gratuito, que muitos ainda acham que é um programa gratuito, enquanto outros fazem do horário seu programa gratuito. Votos, urnas, panfletos, bocas-de-urnas...outro presidente.
Este novo presidente, antes, não queria demostrar amizade com o outro presidente, nem com o outro, nem com o outro, aquele primeiro, mas era amigo do dono do banco que faliu, que era amigo do dono da televisão, do rádio, do jornal, que foi amigo dos outros presidentes. Este novo presidente deu até dinheiro para o dono do banco que faliu e não deu para os sem teto, os sem terra, os sem emprego, os sem saúde, sem educação, os sem tudo, com nada. Este novo presidente tem muito humor, não sei de onde ele tira. Faz piada e ri de tudo. Às vezes finge que está sério, mas ri de novo. Quando o povo reclama, ele faz piada e ri. Se tem gente passando fome, ele ri, se perde o emprego, ele ri. Engraçado, não sei onde está o palhaço. Ou então, eu é que sou muito carrancudo, só pode ser. Não vejo graça nenhuma em rir de camelô que apanha da polícia porque quer trabalhar e não deixam, de camponês que é assassinado porque lhe tomam a terra que quer cultivar, de operário que quer emprego... Talvez a piada esteja nas coisas que ele próprio faz. Faz provão para melhorar o ensino superior, mas corta verba de universidades. Congela os salários de todos os trabalhadores, mas não se importa se os deputados aumentam o seu próprio e os deles. Diz que a inflação está baixa e sob controle, mas cada vez o dinheiro rende menos na cesta básica. Tudo está melhor, segundo ele, mas seu mandato está quase acabando e as coisa só ficam mais difíceis. Cada vez mais impostos. Agora, o povo desse país vai pagar dois impostos para defender a saúde, um cobrado direto no contracheque, do assalariado, é claro, outro, descontado no banco em cada saque.
Haja dinheiro. Logo, logo, ai ser preciso uma lipoaspiração contra a obesidade financeira da saúde pública. Não vejo a hora de deixar de pagar outro plano de saúde. Este, por sinal, tem saído mais barato que os impostos pelo presidente. Dá até vontade de morar num país desse. Em plena democracia. Sem inflação; com as melhores universidades. Basta um provão para melhorar o ensino. Saúde de primeira. O sonho da casa própria, toda hora anunciado nos jornais e televisão. É um verdadeiro paraíso. Só é pena que uma hora qualquer o povo acorda e vê não é assim que funciona seu país.
E o presidente ainda pretende continuar sendo presidente. Será que ele algum dia chegou a sair de verdade?