Poema Assim

(A Fernando Pessoa) O tempero insosso das pessoas me enjoa

Me atordoa o cheiro oculto sem tempero

É que eu não tenho a bondade na cara

Nem a clara máscara de chocolate

Que se derrete ao calor do sol

Eu tenho na cara a angústia

- que é a mesma de dentro -

A da bondade caprichosa

Da cara lavada

Dos outros.

Dos outros

Da cara lavada

Do sorriso espirituoso

- que não sorri por dentro -

Que marmoreia o calor do ventre

E gela o olhar triste do companheiro

Que o cheiro até do corpo limpo entrega

E esfrega o sal do tempero cansado de suar.

Ah, como estou exausto de tanta bondade

Ah, já não agüento tamanha compreensão

Eu só tenho vontade de chorar e brigar

De sair e espalhar aos sete ventos

A infinita discórdia que me anima

E me faz sofrer constantemente

Por não ser humilde e calmo

Como certas pessoas

Que não brigam,

Não fedem,

Nem falam

Mal dos

Outros

Como

Eu.

Não!

Eu não sou como essas tais pessoas!

Eu falo mal dos outros como ninguém

Eu defectivamente fedo como ninguém

Eu terrivelmente brigo como ninguém

E, além de tudo, não sei ser humilde e calmo

Não sei ser paciente e compreensivo com os outros

Meus dentes eu quase nunca mostro

A não ser quando faço piadas de mau gosto

- das quais ninguém suporta rir -

Meus lábios sim vivem expostos porém cerrados

Fazendo um arco convexo para cima

Como se o centro estivesse no queixo tenso

Meus olhos separados pelas ondulações da pele

Apontam em direção ao nariz latejante.

Ah, como sou feio, sórdido e triste

Que só tenho sabido ser mesquinho, egoísta e avarento

Que não consigo atrair as pessoas interessantes

Porque meu rosto não reluz de paz e felicidade

Como brilha eternamente a sagrada face dos outros

Ah, como sou incompetente para seduzir alguém

Não tenho inteligência para criar caprichos

Como as pessoas gostam e são

Não sei me sair bem em absolutamente nada

Não sei explorar as condições favoráveis

Aos meus objetivos específicos

Nem mesmo tenho objetivos específicos

Não deixo para mostrar às pessoas

Somente a beleza que elas querem ver

Eu me mostro todo, que bosta!

Não faço nem uma maquilagem.

As pessoas que conheço sim sabem ser belas

Conseguem atrair para si toda felicidade do mundo

Atraem com promessas que encantam - seduzem

Conquistam-se umas às outras

Elas se merecem

Eu não

Ah, eu sou mesmo singular na face da Terra

No sentido mais solitário da palavra

Só eu tenho esses defeitos

Pelo menos só os conheço em mim

Nunca vi alguém se queixando por isso.

Mas em compensação

Não tenho a bondade estampada

Num rosto de corpo amargo

Assim como não sei

Organizar um poema

Do princípio

Ao fim.

É o fim.

Fim.
 
 
 

são paulo, 01.10.91
de madrugada
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