ARGUMENTOS TÍTULO PROVISÓRIO: A COR DE UMA PAIXÃO
Casal jovem, recém casado. Ele 32, ela 30 anos. Os dois se conhecem há algum tempo. Desde então, viveram a expectativa de um relacionamento que se concretizou faz dois anos. O primeiro encontro se deu quando ela procurou seu primeiro emprego na empresa onde ele trabalhava.ELE: Extremamente apaixonado por ela a quem ama loucamente desde que passaram a compartilhar o mesmo teto. Sua crise de ciúmes é detonada no momento em que ela recebe o telefonema do antigo amante da época de universidade. Porém, quase todas as atitudes que toma para reconquistá-lá deixam, com raras exceções, mais fragilizada a relação. Seu amor cede as rédeas de seus desejos à paixão que, cada vez mais acentuada e sôfrega, dificulta mais e mais o relacionamento. Ao mesmo tempo que sofre, ele teme que sua paixão acabe, por temer perder o interesse por ela e, assim, que o próprio amor se transforme, como ele acredita, e se torne irreversível. Quanto mais dói, mais ele quer que doa. Não sentir a dor significaria perder os momentos felizes que tiveram em todo o tempo que estiveram juntos. Como se pudesse congelar o tempo e trazê-lo eternamente, não na memória, mas na relação em si. Embora sabendo que age através da paixão, ele não quer perdê-la, pois a ausência da dor poderá doer ainda mais. Sua luta é travada num silêncio profundo quase incapaz de ocultar diante do conflito existente entre a paixão que o definha e o divino ódio que, este sim, poderá salvá-lo da dor. Um pássaro ferido pelo ciúme da mulher amada. Quando mais ele percebe que ela está mudando, mais ele faz intensificar sua paixão.
ELA: Igualmente apaixonada por ele, ama-o e vive uma entrega ao relacionamento, até o momento do telefonema do ex-amante. Não que este fosse o estopim de qualquer mudança, mas pela atitude do marido em induzí-la e encerrar a conversa, com um bilhete que leu sem ter tido tempo para refletir. Neste momento, deu-se conta que poderia ser ou estar sendo manipulada em várias de suas decisões diante mesmo do mundo. Magoada e, ao mesmo tempo surpresa, passa a questionar o sentido de um relacionamento se não puder ser baseado na confiança, na sinceridade, no diálogo e na autonomia e independência das partes. Em atitude de defesa de sua liberdade enquanto pessoa e mulher, resolve por em discussão um caso de amor fundado em atos espontâneos, jamais aprofundados, sequer colocados antes. Passa a interagir de maneira muito mais questionadora e distanciada, como tentativa de entender tudo o que havia se dado entre os dois durante todos os anos que estiveram juntos. Nesse ínterim, seu antigo namorado insiste com telefonemas convidando-a para conversar e sair. Também ferida, encontra nesse último, alguma sustentação para a crise que está enfrentando. Isto a divide: de um lado o homem que ama e viveu por muito tempo uma relação tipicamente feliz, porém sem questionamentos e aprofundamentos dos papéis de cada um diante do outro; paralelamente, um ex-amante, pelo qual já não esperava e, portanto, já havia se tornado uma página virada em sua vida, é que lhe assegura algum momento de paz, embora não felicidade, pois gostaria de ficar com o outro. Ela vive essa dicotomia, mesmo sabendo a quem de fato ama, porém, sua mágoa não lhe deixa abrir mão de uma decisão de estudar o que é, ou o que foi seu relacionamento com ele, a partir de uma certa distância. De fato, ela gostaria de estar junto dele, como antes. Mas, não pode negligenciar o fato de Ele ter interferido incisivamente sobre um relacionamento dela com terceiro, o qual somente os dois poderiam solucionar. Entretanto, embora lute contra seus instintos para voltar a ficar com Ele, sente no fundo do coração, que não poderá jamais resistir por muito tempo. Pois um sentimento, quando se transforma, é irreversível. E seu amor por ele está mudando.
É sábado, os dois estão na cama se amando, até a hora de irem ao teatro. A peça a que irão assistir fala de uma paixão que começa bem e termina em problemas. Na vida deles, situações que levam ao desgaste, tal qual na peça, começam a surgir. A vida imita a arte.
O telefone toca. Ele atende. Fala para aguardar um momento. Passa o telefone para ela, que atende surpresa e entusiasmada com o telefonema. De repente, muda, sem graça, diante do marido. Tenta dissimular a conversa e desviar o assunto. Até convida-o a vir à sua casa conhecer seu marido. Mas, do outro lado da linha, a pessoa insiste num mesmo assunto: a paixão e a retomada do antigo relacionamento da época de faculdade. O marido, percebendo a dificuldade dela para explicar que havia casado e, por isso, não poderia mais voltar a um assunto do passado. Ele escreve em um pedaço de papel: "um sentimento, quando muda, é irreversível". Põe-no à frente dos olhos dela que, de súbito, lê sem muito atentar ao que está escrito. Enfim, desliga o telefone. Os dois se olham.
Ele, inseguro na relação com a possível ameaça por causa do ex-namorado da época de faculdade que retorna, após desaparecer sem dar notícias há quase seis anos, deixando-a sofrer de paixão.
Ela, desnorteada, pelo fato de ele ter escrito uma frase induzindo-a que lesse sem ter tido tempo para refletir se era essa sua vontade. De certa forma, uma impensada e mecânica submissão ao desejo do marido inseguro.
A partir daí, a relação dos dois, que ia muito bem entra em crise, numa série de discussões que revelam um profundo amor, dúvidas, desgastes, ciúmes e, até mesmo poder.
INTERIOR/ANOITECER DE SÁBADO
NA CAMA - Os dois estão na cama transando. Muita paixão, desejo, amor, um pelo outro. Logo mais terão que sair para ir ao teatro. Beijam-se, amam-se loucamente, rolam na cama revezando quem fica por cima. Ambos sentem-se ótimos, porém insaciáveis um pelo outro... O ápice... Relaxam um pouco... Voltam a se beijar, agora mais suavemente, com trocas de carícias e muita sensualidade. MÚSICA.
ELE - E aquela do casal behaviorista transando, como é que é?
ELA - Pra você foi bom, e pra mim, como é que foi?
Os dois riem, abraçam-se e beijam-se apaixonadamente.
ELE - Uhnn! (beija-a mais vezes na boca, nos olhos, nariz, queixo, rosto...). Tá bom, vamos parar. Temos que ir.
ELA - (Abraça-o, passa para cima dele, beija suas costas até às nádegas, sobe e vai até seu ouvido, dá um beijo e...). Uhnn! Não, vamos ficar mais um pouco.... Daqui a pouco nós vamos.
ELE - Não. Está quase em cima da hora, senão, vamos chegar atrasados.
ELA - Vamos outro dia, então...
ELE - Nã-o! Os ingressos só valem pra hoje, esqueceu? (Beija-a mais vezes; tem que levantar, mas não consegue, aliás os dois não conseguem sair da cama). Vamos, dê uma força.
ELA - Não consigo sair daqui, uhnn (beijo), uhnn (beijo), uhnn (beijo). Chato! Eu te amo, sabias?
Levantam-se, trocam beijos e dirigem-se até o banheiro. Toca o telefone. Ele se adianta.
ELE - Pode acabar o banho, eu atendo. Podem ser o Cláudio com a Vera chamando, que está em cima da hora. (Atende ao telefone). Pronto... Quem gostaria?... Ah!... Um momento... (Cobre o fone com a mão, vira-se a ela)... É pra você... (Em tom de brincadeira) Um admirador que eu não conheço, é?
ELA - Aah! (Para ele. Vai atender, no mesmo clima da brincadeira dele. Enquanto isso, ele começa a se arrumar.) Alô... Sim, sou eu mesma... Como?... Mas, quem está falando?... Oi, é você?... Puxa, quanto tempo, hem!... Como você está?... Legal você dar notícias. Que tal, já casou?... Como descobriu nosso telefone?... É, nosso, eu casei... Ah, e a Vera não lhe falou nada?... Nós vamos nos encontrar daqui a pouco no teatro... Claro, você pode conhecer o Leo, meu marido. Acho que vocês vão se dar bem.
Leo, que até então estava entretido vestindo-se, vira-se para ela fazendo sinal de indagação para saber quem é a pessoa do telefone. Ela, em tom de voz baixo, dividindo a atenção, responde-lhe tampando o fone com uma das mãos.
ELA - Um amigo, um amigo. (Volta-se ao telefone)
ELE - Ah! Convida ele pra ir ao teatro.
ELA - (Ao telefone) Como?... Oh, que é isso, Nando? Eu casei.
Leo olha um pouco mais atentamente para o telefone. Disfarça.
ELA - Claro que não, Nando, eu amo meu marido... É, mas isso já passou, faz muito tempo... Não, você que sumiu, não deu notícias...
Leo faz sinal para ela atentar à hora da peça.
ELA - Nando, faz mais de seis anos, agora podemos ser amigos, você pode conhecer o Leo... Isso não faz sentido, Nando. Acabou. Nós nos distanciamos, tivemos experiências diferentes, com outras pessoas, em meios diferentes. Nem sei como você está agora, sua maneira de pensar... a minha maneira de pensar... Claro que continuo preocupada com o social... Que ótimo que você também esteja. Mas era preciso, antes de mais nada, viabilizar minha vida profissional, sentimental, amorosa... É óbvio que conheci... muitas outras pessoas, amigos, amigas, mas o tempo e as dinâmicas dos relacionamentos nos ajudam selecionar, a restringir, não estamos sempre à disposição de todo mundo... É assim comigo, com você, com todo mundo... Eu sei que você não é todo mundo, assim como eu também não sou... Mas em função das nossas experiências nesse tempo todo, eu mudei, você mudou, é natural, é salutar, é sinal que apreendemos um mundo novo a cada instante... E junto com isso, vamos dando soluções às nossas vidas, construindo relações... É, eu sei, mas nesses seis anos, de todas as relações e ensaios de relações, escolhi um pessoa, a quem eu amo muito... Claro que também me ama...
Mais uma vez Leo tenta interrompê-la.
ELE - (Faz sinais que está na hora) Olha a hora!
ELA - Que é isso, Nando? Não estamos mais na universidade. Aquela vida já passou. Agora os tempos são outros pra nós... Por favor, Nando... Eu também faço questão... Claro, você pode ir ao teatro conosco, nos encontramos, tomamos um chope, você conhece o Leo, mata a saudade das velhas amizades, a Vera, conhece o Cláudio, você vai gostar... Isso não é possível, Nando. Por favor, não insista. Eu gostaria muito que fôssemos bons amigos... Claro que existe. Nas circunstâncias atuais é o que existe... Não tenho tanta certeza... Mas foi você que sumiu, não deu notícias... Como esperar? Seis anos, Nando? Você queria o quê?... Já te pedi, Nando, não é possível... Vamos ao teatro. Lá nós conversamos melhor... Não, não, Nando, não gostaria mais de falar nesse assunto, isso é uma página virada na minha história, faça o mesmo na sua. Aliás, você já tinha virado há muito tempo, não deveria mais voltar atrás... Nando, assim vamos chegar atrasados ao teatro. Vou precisar desligar... Não, por favor, mais uma vez, lá nos encontramos...
Leo escreve alguma coisa em um pedaço de papel e coloca na frente dos olhos dela, que lê sem prestar atenção. Ele fica mais ansioso com o horário e com a conversa em si que não acaba. Começa a despertar ciúmes, porém tenta se conter e disfarçar, para não comprometer a relação.
ELA - Olha, Nando,... (Lê no papel) "Um sentimento, quando se transforma, é irreversível"... Alô, alô. (Olha para o telefone sentindo um enorme vazio, uma angústia, depois olha para Leo, como se estivesse culpando-o por Nando ter desligado o telefone. Talvez, mesmo, cobrando uma explicação pelo que fez. Culpando-o por fazer parte de sua vida agora, por amá-la, por fazê-la se apaixonar por ele, fazê-la amá-lo. Por não poder odiá-lo, talvez o odeie muito mais. Vazio.)
ELE - (Olha para ela sem entender sua reação de cobranças, sentindo-se culpado, como se ela tivesse falado em palavras todo o vazio que sentia. Desnorteado, querendo consertar a situação, talvez até, com toda dor, permitindo-lhe que voltasse ao amor do passado, por amor. Quase sem conseguir falar.) Perdão... (Desnorteado)
Cenas futuras:
1- O bilhete dela no banheiro: "Se você não estiver com raiva de mim, olhe pra trás e dê um sorriso". A surpresa de encontrar um bilhete desses o faz olhar subitamente para trás e esboçar um sorriso. Ela está atrás e toma como se fosse resposta ao que o bilhete propõe. A partir daí, tudo recomeça, agora, já com muitas cicatrizes.2- Ele, por amor, não gostaria que ela fosse embora, porém esse mesmo amor não faz com que ele prenda-a para não ir. Só a chama do ódio poderia ser capaz de prendê-la para ficar com ele e sustentar o amor: "Ah, ah, ah, oh divino ódio, que a paixão fenece, faz reacender em mim a chama da tua vela para que eu não permita que ela se vá." Chora, pela dor da perda. A falta de ódio que não a impede de ir e o grande amor que não é capaz de fazê-la ficar.