Minh'Alma Fala

  

Pedro Romano Miléo Filho

Voltar ao PJLA

NADA... NADa... NAda... Nada... nada...

Olho em volta de mim e não vejo nada...

A infância inteira de sonhos

Foram somente fantasias realizáveis não realizadas...

Corri atrás do mundo como quem corre atrás de nada...

Vivo neste mundo como quem não é nada...

A vida que vivi, aquela que acreditei viver, não me levou a nada.

Olho em volta do mundo e não encontro nada,... nada,... nada...
 
 

Um exemplo de menino, fui.

Estudioso na escola, fui.

Um jovem engajado e defensor das causas justas, fui.

Um adulto honesto e tributável, também fui.

Paguei e pago ainda todos os impostos que me foram impostos.
 
 

Talvez, certamente, não houvesse necessidade de ser aquilo tudo.

Pagar aquilo tudo. Fazer aquilo tudo.

Talvez, nada daquilo.

Tudo o que fiz foi agir dentro dos conformes,

Poucas vezes subverti,

A não ser em situações que o momento político exigia.

O que é absolutamente necessário fazer sempre.
 
 

Até onde cheguei? Aonde irei, daqui, não sei.

Não sei mais nada. Só sei aonde quero ir.

Sigo o algorítimo que me deram e, cada vez, me distancio do meu destino.
 
 

Talvez, tudo o que fui não tenha sido suficiente para abrir as portas

Que as fechaduras me travaram.

Não, não posso abrir as portas,

Que as fechaduras me travaram.

Tirem-me daqui desta cadeia sem celas.

Deixem-me sair desta cadeia sem celas.

Deixem-me ir sozinho por onde meu caminho se mostra a mim.

Deixem-me seguir o meu caminho que se abre para mim.

Saiam todos da minha frente.

Senão, ganho forças e a todos atropelo.
 
 

Estou, hoje, só, como quem canta perdido a música da mata.

Aquela que a cidade desconhece.

Que as indústrias não ouvem e calam,

Quando transformam essa mata em produto de exportação.

Mobília de luxo de exportação.

É o mesmo fogo que a deserta,

Este que me queima dentro o peito,

Quando arde, dentro, na floresta.

A mesma ânsia, a mesma dor, a mesma angústia,

Que me aflige ao ver seus filhos mortos,

Dizimados, um a um, seus frutos mortos.
 
 

Calem seus ruídos, lava-a-jatos do posto de gasolina da rua detrás.

Calem, ônibus velhos e desconfortáveis.

Calem, automóveis de luxo de mauricinhos e patricinhas esnobes.

Calem, mentirosos nociticiários e publicidades do rádio e da televisão.

Calem, todos. Minha alma me chama.

Minha alma, não aquela mística que vocês acreditam e eu não.

Mas aquela que me anima a viver, no mundo que é material.

A minha alma chama e tem algo a me dizer.

É dela que eu quero ouvir dentro o silêncio.

Deixem-me ouvir o silêncio da minha alma,

Que tem algo importante a me dizer.

Calem, todos...

O telefone tocou...

Ouçam, o telefone de dentro de mim tocou...

É ela, a minha alma que me chama.

Não façam mais ruído algum.

Quero ouvir o seu silêncio.

 
Voltar
STARMEDIA        CERRAR