A Felicidade do Homem
 


Eu aprendi, na escola, que as partes que compõem o corpo humano são: cabeça, tronco e membros. Mas ninguém me ensinou que a cabeça do homem, e da mulher, é constituída por idéias, vontades, desejos, caprichos; verdades e mentiras e sustos e coragens e medos; sem que a sobrevivência se torne possível à revelia da necessidade do medo do pecado e a penitência para obter o perdão pelo pecado.

Esqueceram de dizer, e isso alguns "iluminados" já sabiam, ou melhor, sempre souberam, que cada homem e cada mulher é que deve administrar suas verdades e seus desejos. Ninguém deve se valer da ajuda de outrem, assim como ninguém tem o direito de dirigir os caminhos de quem quer que seja.

Só me falaram que o homem, para estar feliz, deveria sorrir para todos os outros homens que encontrasse em suas andanças. Para estar feliz, o homem deveria dividir o que lhes pertence com os outros. Isto remete à idéia de caridade. Por que caridade? Por que uns têm seus objetos, propriedades, jóias, automóveis, muito dinheiro para fazer caridade aos que não têm coisa alguma? Então, seguindo este raciocínio, os que não têm coisa alguma, jamais poderão viver felizes, porque não terão o que dividir com os outros, a não ser a miséria do homem. Mas isto ninguém quer. Todos têm em excesso.

Também me disseram que o dinheiro não traz felicidade. Cá entre nós, já é meio caminho andado, não é?. Eu pergunto: quem gostaria de ficar sem dinheiro porque este, o dinheiro, não traz felicidade? E quem não gostaria de estar feliz? Não precisam responder, é só para pensar...

Pois, para mim, o homem ou a mulher tem cabeça, tronco, membros, coração, tripas, sangue, muito sangue, nervos, pêlos, cú-pica-ou-boceta, umbigo, boca, nariz, ouvidos, olhos, razão, emoção, paixão e pensamentos, projetos, desejos, mil desejos... Para mim, e ninguém me ensinou isto na escola, (se alguém me ensinou, já me tirou, porque já fui aluno e professor...) para mim, o homem só será feliz enquanto estiver vivo. E só estará vivo se todas as suas partes, essas das quais falei agora, não apenas aquelas que me ensinaram na escola - que na certa haviam se referido apenas a um pedaço de homem, de corpo humano - pois todas as partes do homem precisam estar vivas, atentas, pensantes, para que seja considerado vivo. Aí sim, ele será um homem feliz.

Não tem nada de complicado nisso. É só deixar que vivam todas as suas partes para sentir-se um homem ou uma mulher que existe por completo. E só será feliz aquele ou quela que puder existir em toda a sua plenitude, desde debaixo dos pés até o limite do mais extremo fio de cabelo, e além do corpo, porque o homem sonha, pensa, realiza, se expressa, sem limites.

O homem é infinito e, se o homem é, a mulher também o será. Porque tudo o que for o homem, também o será a mulher.

A expressão do homem em toda a sua grandeza é sua própria extensão. Porque vai além do seu corpo. Além da sua imaginação, porque se concretiza. O homem que pensa, abstrai e realiza, expande-se além das suas idéias. Este sim, é o homem feliz.

É muita exigência, são muitos os pré-requisitos para que o homem seja feliz. Assim, quem está feliz? Não precisam responder, nem ficar deprimidos, nem nada. É isso mesmo. Nada é quase tudo o que resta ao homem, principalmente em algumas fases da sua vida, quando começa a tomar consciência do mundo que não lhe ensinaram na escola, nem na igreja e, nem mesmo, em casa.

O homem feliz trabalha e gosta do seu trabalho, é um apaixonado pelo que faz. Por isso o faz e não se importa que os outros homens e mulheres usufruam. É uma espécie de compartilhar, é uma espécie de prazer, aliás, até mesmo sexual. Como se estivesse penetrando no mundo das outras pessoas e ejaculando dentro do momento feliz de cada um. O orgasmo coletivo. A hora em que todos se beneficiam de uma extensão do outro. Porque o trabalho de um homem também é sua própria extensão. Sua maneira de atingir o desconhecido, o inimaginável, a inexistência do inatingível.

E ama. O homem feliz também ama. Ama a vida, a natureza, a descoberta, as pessoas e a possibilidade de amar alguém especial. A quem tudo se entrega. A quem nada se nega. Mesmo sem ressonância do amor, o homem feliz ama a esperança de amar a quem ama, sem nunca deixar que esse amor se transforme. Porque se sabe irreversível depois que muda. Assim como na dor da paixão sofre feliz, na sua ausência antecipada, sofre ainda mais a dor de não poder sofrer, e por isso, não busca o fim, mas o sonho. O projeto daquilo que seria seu correspondido amor, caso o objeto da paixão lhe acordasse anunciando mudanças no enredo. Porém, às vezes, nem ele se dá conta do sujeito apaixonado. E quanto mais ignorado, maior o sonho e o medo de acordar. Acordando, o mundo vai-se embora, fica a realidade, uma árvore sem frutos que insiste em crescer rebelde num campo infecundo para o seu amor.

E vai, o homem feliz vai, encontra o seu caminho nos sonhos. Visita seus pais. Pergunta: qual o castigo do homem que dispensa seus sonhos em troca de uma verdade cruel? E eles respondem. O tempo, só o tempo poderá mostrar.

Lentamente, implacável, o tempo revela incessante quão veloz o homem passa no mundo. Não vê a luz das estrelas, não ouve o som dos pássaros, não sente o cheiro das flores, a pele se esvai aos poucos em milhares de moléculas mortas diariamente. Corre, grita, chora e, em vão, busca em outro homem o pedaço que lhe falta.

No passar do mundo, o tempo leva o que foi perdido pelo homem. Algumas memórias. Poucas são as recentes. Somente o passado mais remoto, mármore, perdura no cinza, que já nem é mais. São somente vagas lembranças, um vago sabor, um leve cheiro sem cor nem futuras manhãs.

É o tempo dos sinos que insistem em tocar a freqüência que não ressona mais. Porque lhe levaram os elétrons dos ouvidos, furaram-lhe os tímpanos e, no lugar do ar, puseram um vácuo que não deixa o som passar.

Do homem feliz de outrora, roubaram o cheiro de amores, dos quartos das prostitutas e dos cabarés, da flor que não nasceu, do perfume que fugiu antes de exalar. Suas narinas fecharam o ar do lado de fora e não o deixam entrar. Seus pulmões incharam ocupando o espaço que restava para sustentar a vida.

Nem o pó das estradas, nas noites a cavalo. Nem os cavalos. Nem a pele ressecada. Nem a brisa nas festas de lua cheia, diante das fogueiras que duplamente transbordavam os corações de luz e calor da mulher amada. Até a mulher amada se foi no meio das cinzas que o vento se encarregou em dispersar, junto com o pó das estradas. O fim do tato que fazia do amor fugaz o eterno encontro escondido da infância no mato.

Ficou o sabor. Não aquele de café cheiroso. Porque o cheiro não existe mais. O aroma do café sem sabor de um tempo sem sonhos. A própria língua se foi. Deixou de lembrança o sabor da boca sem palavra. Inodora e muda. Apenas os dentes ruminando as lembranças perdidas na memória. Às vezes é melhor esquecer. Nem dormir, para evitar o sonho daquilo que não é mais paladar.

O homem feliz não tenta enxergar o caminho. Pois este está em sua frente e pode ser visto e seguido. Mas, agora, já não há mais trilha a seguir. A luz apagou as marcas deixadas no chão dos seus antepassados. Não tem aonde ir. Porque não existe mais lugar. No lugar da luz, ficou o círculo, única estrada que leva no mesmo ponto. Não tem mão dupla. Sequer retorno.

Então o homem tenta. Mas não consegue. Não vê, não cheira, não sente, não ouve. Levaram-lhe quase tudo. Cadê o passado que via crescer a sua frente? Aonde foi o mundo? Onde estão as pessoas, o mar, as flores, o campo? Levaram quase tudo.

Ainda lhe resta o pior: seus sentimentos. O pior, porque consegue sentir a falta dos outros sentidos. E, porque, sabe-se à beira de perdê-los, tamanha é sua preciosidade. Parece que esta é a regra. Um dia cada parte ensinada do corpo, se perdeu na escola, no caderno de ciências cujas páginas foram, uma a uma, viradas lentamente, cruelmente...

Apenas sente o que não pode ver, nem cheirar, nem ouvir, nem falar. Sente nas imagens que vagas ainda se formam no cérebro incansável de viver a ausência que ora se instala bruscamente no tempo que sumiu.

Junto com a memória e os sentimentos do tempo, restam os movimentos. Estes, ainda intocáveis, talvez possam dar a luz, o som e o sabor de um homem feliz. Primeiro os pés. Mexem, mas não sabem onde tocam, se é que tocam. Pode ficar em pé. Embora o chão pareça não existir. É como se flutuasse. Porém, nem sente a resistência do ar. A possibilidade de flutuar no vazio. Somente ele consegue. Os quadris, pode ser que balancem, revivendo os bailes nas noites de lua cheia. Os braços, a cabeça. Parece ainda ter o domínio de todos os movimentos. Mas como saber se mudam de lugar quando não há mais lugar? O espaço e o tempo sumiram. Seus reflexos se perderam. Talvez esteja apenas dormindo. No entanto, se assim o fosse, poderia ao menos sonhar, como antes. Mesmo assim, acredita mexer-se, desenhar no ausente espaço belas coreografias atemporais que não consegue ver. E tenta. Incessante, tenta. Não mais para ele: para os outros que lhe roubam os sentidos em troca do prazer que sabem gozar.

É assim que faz todos os dias, agora, não apenas sem manhãs, mas sem um instante sequer. Um dia que não sabe mais existir no tempo que deixou de contar. E sobe, e desce, ao som único dos seus próprios movimentos que ganham autonomia e musicalidade. Experimenta voar, e consegue, porque não mais importa a gravidade. É guiado apenas pelas suas sensações interiores de leveza e independência do espaço e do tempo. Também se libertou do que aprendeu nos tempos de escola. Encontrou um novo corpo além dos membros, da cabeça e do tronco. É um corpo contemplativo, leve, flexível. No qual nada disso faz sentido. Porque supera a gravidade, a visão e os músculos doloridos.

Hoje, corre sereno tocando e cantando a música que somente ele consegue ouvir e entender. É a música presa na memória, única intocável, mas que não se acrescenta, apenas recapitula, como nas aulas de matemática, passo a passo, um quebra-cabeças fácil de montar, porque as peças já não são muitas. Também não são mais antigas, porque o tempo acabou.

Ele vive dos movimentos e das lembranças dos mais remotos movimentos. Como se existissem simplesmente naquele único e eterno instante. Uma fotografia em movimento. Mas como conceber a idéia de movimento sem tempo? Somente a ele é possível. É uma das duas coisas que lhe restam. Uma dádiva, talvez uma grande compensação pelo que lhe roubaram.

E a dor da paixão que não queria morta? Até esta deixou-se esquecer. Restaram apenas as lembranças atemporais. A paixão sumiu junto com seus sentidos. Pois a dor não se pretende acabar, mas foge do tempo, maior amigo e inimigo da paixão.

O homem feliz tem tudo em corpo e sentimentos. Tem consciência do que não lhe podem tirar, por isso defende-se constantemente, sem precisar temer. Ele não se deixa roubar. É pleno, leve e independente.

Quando lhe roubam aos pedaços, vai perdendo aos poucos sua felicidade. Já não consegue sentir nem dizer a falta dos seus sentidos. Ficam apenas seus sentimentos. É dócil, frágil e recolhido. Recorre ao útero, de encontro à mãe, em busca de calor-proteção. Embora não consiga ver a luz, isso pouco importa, porque não está preso ao tempo. Encontra-se diante de sua própria existência e nada mais.

Como os outros animais, ele não espera ser presa. Mas, infelizmente, está à mercê. E, então, muito lentamente, sua felicidade esvai-se volátil no mesmo curso do mundo aprendido.

Eu aprendi sobre as partes do corpo, mas não a pensar nas possibilidades de amar com esse corpo. Esqueceram de me ensinar a conquistar a felicidade, na hora em que me levaram os sentidos. Falaram das divisões e da caridade, mas esconderam a igualdade entre os homens. Negaram-se a compartilhar a vida. Negaram a minha própria existência com medo que eu ameaçasse as parte que compõem o corpo de cada um? Ou apenas quiseram que eu acreditasse na harmonia de um mundo sem contradições, escondendo-me de mim mesmo?

Se é assim, confesso que em tudo acreditei. Mas não puderam me levar a memória e a consciência das minhas carências, para que eu pudesse reconquistar meu tempo e espaço igual a todo mundo. Hoje, atemporal, por isso o "hoje" não faz sentido, não sou mais que um pássaro ferido pelos sonhos esquecidos no passado. O tempo não importa mais. Tudo o que realmente interessa são os movimentos e a lembrança congelados numa fotografia que não cansa de se mostrar a mim, acima de todas leis escritas pelos homens infelizes que me roubaram a existência de mim mesmo.

Se ainda pergunto "quem está feliz?", como no início, vocês devem esquecer que houve início e enxergar sozinhos, independentemente do tempo e do espaço, não só as perdas, mas o pedaço dos outros que vocês esconderam. Como numa fotografia que perdura e insiste em não mudar aquele fragmento de história da felicidade roubada de alguém.

Um dia, para os que ainda tinham dia, quiseram levar o que restava do pássaro ferido. Já não sendo mais completo, não poderia jamais ser feliz. Mas ele resistiu e o pássaro de outrora ferido reagiu aos tormentos da obscuridade sem sentidos, ergueu-se, ensaiou a resistência novamente do ar sob suas asas, olhou ao redor, viu os peixes no mar, sentiu o cheiro do horizonte que se abria esplêndido à sua volta, abriu-se à brisa refrescante em sua pele, mais uma vez olhou em volta, estreou novamente as asas, achou que estava sonhando e voltou a sonhar. Desta vez bateu as asas de verdade como numa desenhada coreografia ao som musical do vento nas árvores e, acompanhado pelo mar, não mais em círculo, não mais sem mudar de lugar, não mais sem perceber a luz da manhã, como outrora, brincou na areia, no ar, bateu ainda mais forte as asas, contemplou ele próprio tudo o que viu e sentiu, planou suave por sobre todos os oceanos, partiu... deixando apenas a lembrança de um anjo livre que nunca mais pensa em voltar.

O homem feliz sou eu, talvez, o pássaro ferido, que um dia pensa nos sonhos de voar livremente, além dos horizontes e fora dos círculos que aprisionam e nos retornam ao mesmo ponto como se não houvesse mutação no tempo e no espaço. E, quando estiver lá bem longe, lembrarei de ser feliz novamente, mesmo não tendo aprendido na escola, em casa, na igreja, em lugar nenhum. Porque a felicidade não está nesses lugares, mas além, muito além dos meus sonhos. E só eu mesmo é que posso me ensinar a ser feliz.

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