Eles Assim

Campo de pedras

Jardim de sonhos.

Buzinas velozes

Vozes vorazes

Nas ruas histéricas

O calor para as avenidas

E o gelo funde corações apaixonados.

São milhões a mil

São seus filhos cansados

Correndo a fim...

São seus irmãos desterrados

Chegando assim...

São caras carentes

No meio das cinzas

Que escondem o céu, a lua e as estrelas.

São manos, meninas e meninos

São jovens que tocam e dançam

São carros que passam

São armas que matam

São amas que balançam

São homens e mulheres

São velhos

São deuses

São anjos

São todos solitários

São Paulo

São todos assim.

É minha cara perdida entre eles

Buscando um amigo sequer

Mas eles não sabem

Não amam

Só somem aos pedaços

E me amam

Dizendo de noite:

- Eu durmo contigo.

Fugindo de dia:

- Não te quero mais, não.

E eu cá comigo

Ainda mal acordado

Feito Geni

Me viro de lado

Fingindo dormir

Quando imploro calado:

- Eu te quero um amigo!

Não para tê-lo

Pois amigo não é coisa

Para se ter ou possuir

Mas alguém por perto

Para estar juntinho, ao lado

Companheiro desperto

A quem tudo se ama

A quem nada se engana.

Mesmo que haja uma cisma

Não se aplica sofisma nem teoria

Quando não é desejo

Sentir por perto

O companheiro que se quer por amigo.

São brancos, são negros, são índios

São mendigos, bichas, putas e ladrões

São das ruas, dos palácios, dos quartéis

São todos querentes

São nenhuns amigos

São quase todos amigos

São todos ninguém

São todos perdidos

São todos

São quem?

São uns os outros

São assim

São eles

São Paulo

São eu.
 
 

São Paulo, 23 de outubro de 1991,

de madrugada

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