A CIDADE E O SONHO

  Verinha parecia uma menina comportada aos 15 anos de idade, até o momento em que Luciano Rosado, um vizinho, então com 25 anos, lançou seu primeiro livro de poesias, intitulado A Cidade Perfeita. Os poemas relatam um sonho adolescente de mudar o mundo; um mundinho no pacato vilarejo de Cachoeira Serrana, com pouco mais de 2.500 habitantes.

Ela antes parecia nem notá-lo. Rapaz de óculos quase fundos de garrafa, desajeitado no vestir-se, não lhe atraía muito. Mas queria conhecer alguém famoso, artista, e um escritor, embora sendo da mesma cidade, já seria motivo de pavulagens.

Passava horas na varanda da pequena casa onde morava com a mãe e cinco irmãos menores. Penteava os cabelos o tempo todo, jogava-os de um lado para outro incessantemente; olhar lateral, ensaiava rebolados, poses de todos os jeitos para chamar a atenção do jovem escritor. Para ela seria rapaz maduro dada a diferença de idades.

Sempre que Luciano Rosado chegava em casa, ela já estava de prontidão na frenta de sua casa para saber as horas. Mentira, era só um pretexto para falar com o rapaz. No início, ele não percebia que pudesse haver algum interesse por parte da menina que viu crescer, ali, de alcinha brincando na rua, chorando quando a mãe ia sair, suja. Não gostava nem de tomar banho, a desleixada.

Só depois de muito lhe dar as horas, é que foi notar o crescimento da pequena Verinha. Os seios, as pernas, o rebolado quando andava; e andava sempre depois de perceber que o Luc lhe havia notado. Perguntava as horas, respondia um "Obrigada", meio de lado, virando os ombros, jogando as mãos, meio-sorriso, olhar lateral, saía de costas, sainha apertada e, antes de entrar, dava uma daquelas viradinhas ensaiadas para flagrá-lo olhando sua bunda. Fazia que não gostava mas "Ela gosta, sim", pensava ele. Esforçava-se para acreditar mais nos seus olhos do que na imagem que tinha da garota de calcinha na rua. Lembrava de quando ainda brincava de amarelinha ou bole-bole com as amiguinhas, inocentemente.

Luciano Rosado outro dia chegou em casa acompanhado de Laura, amiga da época de colégio, mais ou menos da mesma idade. Verinha estava no portão de madeira, encostada, fazendo os ensaios de costume. De longe avistara o Luc. Somente alguns segundos depois é que viu a sirigaita ao lado dele. Luciano então a cumprimentou, esperando que fosse lhe pedir as horas. Mas ela nem ligou e prontamente entrou emburrada. Bateu o portão com tanta força, mas com tanta força, que o barulho de velho lhe parecia a explosão de uma bomba. E era.

Nos próximos dias, Verinha parecia não lhe dar mais bola. No entanto, ficava sempre no portão. Quando ele se aproximava, ela se benzia, entrava e batia o portão. Tudo para lhe chamar atenção, claro! Isso durou algumas semanas. Às vezes fazia questão que a mãe lhe mandasse ir até à sub-prefeitura, só para ela ver o canalha atrás da máquina de escrever caindo aos pedaços e esnobá-lo. Ficava olhando pela janela como se estivesse ali por mero acaso. Esperava que ele a visse, para virar a cabeça mais que de pressa. Aí, então, engolia as bochechas, punha a mão esquerda na cintura, ao mesmo tempo em que engalfinhava os cabelos com a outra. Parecia que nem o tinha visto. Depois saía rebolando lentamente, só para alterar seu estado de espírito. Sem concentração, Luciano, que tinha a fama de perfeccionista, não conseguia mais trabalhar direito.

Pávula que era, sequer demonstrava tristeza por não mais lhe pedir as horas. Estava apenas interessada em alguém que já fosse conhecido, pelo menos em Cachoeira Serrana, ou em vias de. Até que já não batia mais o portão, apenas benzia-se e dava três batidinhas na madeira, "Isola", dizia para dentro. Só quando ele ia falar é que ela virava de costas e entrava. Fora isso, não. Mas quando ele não a cumprimentava, deixava-o entrar em casa para entrar na sua moendo-se de raiva.

Um dia seu irmão mais novo ia fazer aniversário. O Marinho de cinco anos de idade mal sabia o que era uma festa de aniversário. Gostava que tivesse muita gente na sua casa. Divertia-se muito. Sempre que tinha alguma comemoração, ele acabava convergindo as atenções. Criança engraçada, ia com todo mundo, não chorava e logo dormia para não incomodar os mais velhos. Que importância, para o menininho, teria o dono da festa? Se não fosse a sua, brincaria muito do mesmo jeito. É claro que ganharia alguns presentes. Adorava carrinhos de plástico e bolinhas de gude.

Verinha que não era muito dada a cuidar dos irmãos, sempre que a mãe lhe mandava tomar conta de Marinho, resmungava, "Logo eu, logo eu, logo eu. Que droga!". Uma semana antes da festa, começou a se dedicar mais ao pequeno irmão. A mãe chegou até a elogiar, porque "assim que deveria ser sempre". Estava muito orgulhosa da filha. Como em casa todos só conseguiam enxergar nas pessoas os trajes e afazeres, a mãe nunca havia desconfiado do interesse de Verinha por Luciano Rosado. Por sinal, "um rapaz muito simpático", achava; estudioso, dedicado ao trabalho, inteligente, filho de boa família - "Que pena ter perdido os pais tão cedo. Que Deus os guarde!" - raro no vilarejo, onde os rapazes de sua idade só pensam na sem-vergonhice; não querem saber de compromisso e nem respeitam as mulheres. Mal vêem um rabo de saia ainda aflorando, já querem logo lhe prejudicar a vida. Mas o Luciano Rosado não, é um rapaz respeitoso, incapaz de fazer mal a uma moça, sexo com menina de família só depois do casamento, acreditava a mãe de Verinha.

Era Marinho para cá Marinho para lá, um chamego que até o menininho estranhava.

O aniversário seria no sábado. Começaria às quatro da tarde. O Sol já estaria mais brando. Assim as mães poderiam mandar suas crianças com tranqüilidade. Conforme fossem chegando, a mãe de Marinho lhes serviria algumas balas e brigadeiros. Depois, estariam livres para correr, brincar de trinta e um alerta, forte apache, bandeirinhsa e o que mais quisessem. Só não poderiam ir para o meio da rua; volta e meia passava algum carro, tinha algumas dezenas de carros velhos no lugarejo e os motoristas não eram dos melhores. Teriam no entanto que se cuidar para não sujar a roupinha que logo mais, por volta das cinco e meia, seria O "Parabéns". Depois serviriam bolo com guaraná. Todas as crianças adoram bolo com guaraná, principalmente se o bolo for confeitado e malhado de chocolate. Já havia se tornado um costume em todos os aniversários infantis de Cachoeira Serrana. Era perfeito para a criançada. Até às nove da noite já não haveria mais ninguém. Geralmente, as pessoas dormem cedo para acordarem para a missa das seis no domingo.

Verinha tentava agradar Marinho contando-lhe como seria a sua festa. Ele ficava cada vez mais entusiasmado. Apegado à irmã, era capaz de fazer todas as suas vontades. Se lhe pedisse para buscar água na cosinha, ele ia. Trazia o copo quase pela metade de tanto derramar pela casa, mas ia. Depois de muito agrado, Verinha achou que já estava na hora de fazer o pedido final. Foi para a varanda com Marinho. Não chegou até ao portão porque não queria que ninguém desconfiasse de seus planos. Esperou até a hora de Luc passar. Quando ele entrou em casa, ela, fingindo desinteresse, perguntou ao irmão:

- Marinho, mano, tu já convidaste o Luciano pro teu aniversário, já?

- Heim?

- O Luc, tu já convidaste?

- É pra convidar?

- É sim, se não ele vai pensar que tu não gostas dele.

- É?

- É. Tu tens que convidar, se não ele vai chorar.

- Vamos lá convidar ele.

- Não, agora não. Quando ele passar de novo tu convidas. Amanhã de manhã.

- Então tá.

O inocente irmão fez conforme houvera prometido. No dia seguinte, cedo, Marinho estava de cócoras no portão. Verinha ainda dormia. Era hábito do garoto acordar junto com a mãe e ficar no pequeno terreiro. Gostava de ver o galo cantar. Corria atrás dos animais para tentar puxar-lhes o rabo. Fazia isso todos os dias. Para ele era o que havia de perfeito.

Só que nesse dia, estava mesmo aguardando a passassem de Luc. Ainda de rosto sujo, descalço, camisa meio rasgada e desabotoada, esperava. Às sete e meia em ponto Luciano passa, vê o garoto e cumprimenta:

- Já acordado, Marinho?

O menino dá uma risadinha, preguiçoso, esfrega os olhos com os dedos indicadores, se contorce e diz acanhado:

- Tu vem no meu "anavessário"?

- Teu aniversário?

- É. Lá no outro dia.

- Que dia?

- Assim ó: a gente dorme, depois acorda, e é no dia que ninguém trabalha nem tem missa.

Luciano não teve dificuldade em decifrar o enigma inocente do garoto. Ele era um menininho perfeito:

- Ah, já sei, teu aniversário é no sábado.

- É.

- Pode deixar que eu venho.

- Tá legal. Eu vou falar pra minha mãe.

Luciano faz um gesto de carinho naquela cabecinha feliz e despede-se:

- Agora eu tenho que ir. O que você quer ganhar?

- Um aviãozão que eu vi lá na mercearia.

- Tá bem. Tchau.

- Olha....

- O que é?

- Vai ter bolo e "goraná".

Luciano ri do garoto, faz um "tá legal" com o polegar e vai para o trabalho.

Marinho entrou. Verinha estava acordando. Olhou fazendo pouco caso. Então ele contou que havia convidado o vizinho. Acendeu-lhe nos olhos a oportunidade de não apenas fazer as pazes, mas conquistá-lo para sempre. Correu para o banheiro, tomou seu banho matinal de costume. Ela era muito asseada e vaidosa, isso era.

À medida que os dias iam se passando, a ansiedade de Verinha aumentava. Não saía do banheiro e da frente do espelho. Resolveu não desgastar muito a imagem com Luc. Já não ficava mais todos os dias esperando no portão. Somente na véspera do aniversário é que, coincidentemente, mas apenas coincidentemente, ela chegou ao portão, convenientemente distraída, justo na horinha em que Luciano Rosado ia passando.

"Oi", disse ele num misto de tímido e arredio.

"Oi", ela forjando simpatia, ao mesmo tempo desconfiada.

Só então ele relaxou um pouco e perguntou pelo Marinho:

- Diz que eu já comprei o presente dele.

- Que é isso, nem precisava se preocupar.

- Não me custa nada. Ele vai gostar.

O menino, para ele, parecia cumprir os sonhos de infância da perfeição. Suas brincadeiras, cara suja, roupa desarrumada, descalço, lembravam o mundo que pretendia em seu último e primeiro livro de poesias. Tão grande era o sucesso, que quase metade da cidade, embora não sabendo ler direito, já havia comprado. Era orgulho da população ter um escritor conhecido. Exibiam-se aos visitantes que ali chegavam provenientes das redondezas ou de cidades mais distantes. Lá fora ninguém o conhecia, "mas só por enquanto!", pensavam. O próprio Luciano só tinha o segundo grau. Havia estudado noutra cidade desde a quinta série, pois em Cachoeira Serrana só era possível fazer até a quarta, nível escolar da maioria dos jovens e adultos que freqüentaram a escola. Muitos só chegaram até a primeira série. As pessoas, além de começarem a estudar tarde, só se interessam em aprender a somar, subtrair e escrever o nome. Era uma vergonha alguém não saber escrever o próprio nome nem fazer conta. Como é que vai comprar alguma coisa ou dar troco se quiser abrir uma venda? E o menino parecia ser o próprio personagem do livro que crescia, estudava e um dia retornava para transformar o vilarejo na Cidade Perfeita. Pois a única falha que existia era as pessoas não terem estudo. Tudo não ia além de um sonho que gostaria ele mesmo, Luciano Rosado, de realizar. Pois achava Cachoeira Serrana um paraíso, onde tudo era possível acontecer e acontecia. As pessoas poderiam ir até aonde sua imaginação os conduzisse. O vilarejo-futura-cidade os acompanhava além dos limites de seus desejos e artimanhas.

Luciano talvez tivesse mesmo escrito a própria história, a história daquela gente que sabe tramar, fingir e amar. Sua infância fora como a de Marinho. Sua falecida mãe fora como Verinha. Casou-se com seu falecido pai, dez anos mais velho. Parecia tradição do lugar. Nem mesmo o padre, em quem todos confiavam, entendia.

E foi. Luciano foi para casa após despedir-se de Verinha com um leve "tchau". Ela entrou com mais expectativas na festa que seria amanhã. O frio no estômago. Parecia que a pavulagem estava se transformando em desejo, vontade mesmo de ser possuída, tamanho era o acendume da menina, que a mãe não estava gostando nada daquilo, apesar de Luciano ser quem era.

No dia seguinte, a mãe solicitou sua ajuda para os preparativos da festa.

- Verinha, ...

- Vera, mãe, Vera. Eu não sou mais criança.

- Dobra a língua, menina. Onde já se viu?

- É mesmo. Meu nome é Vera, não é? A senhora mesma me pôs esse nome.

- Vá arrumar a sala enquanto eu termino aqui os bolos.

- Tá bom.

Ela foi. Arrumou a mesa com doces, brigadeiros e enfeites, característico desse tipo de festa. Parecia que estava arrumando seu leito de núpcias. Depois deu banho no irmão que fazia aniversário e orientou os outros a se aprontarem também. Agora era sua vez. Uma hora no banheiro. Chuveiro ligado direto. Ao sair, sacudiu a cabeça para um lado e para outro. Algumas gotículas de água ainda se espalharam pela casa. Mas não havia problema, antes da chegada dos convidados já estaria tudo seco.

Eis o momento decisivo para Vera. Todos os convidados já chegaram, só Luciano Rosado ainda não. Não, lá vem ele, com uma enorme caixa nas mãos. O Marinho meigo e repleto de alegria, também ele aguarda. Corre para encontrar o amigo no portão. Chuva, muita chuva. O embrulho molha, rasga o papel e aparece o avião de plástico corpo vermelho e asas amarelas, o mesmo que namorava há muito tempo nas prateleiras empoeiradas da mercearia da esquina. Era perfeito ver a felicidade do garoto estampada nos olhos quase lacrimejantes. A realização dos seus sonhos ainda escondidos numa infância que lhe escapou no tempo de vinte e cinco anos de idade.

Vera recebe-o com uma toalha branca que ela mesma havia guardado como se soubesse que iria chover. Seca-o, acariciando seu rosto displicentemente, "Ele não é tão famoso, não é artista, mas já alguma coisa, é escritor, tomara que não me pergunte nada porque ainda nem li o livro, não gosto de ler essas coisas". Ela pensa enquanto a toalha desce carinhosamente pelo rosto do jovem escritor, para depois subir e repetir cíclico o movimento.

- Legal teu livro. A mãe comprou.

- Que bom que tenhas gostado. Também não arrisca lhe perguntar se leu, com receio da resposta. Poderia ser constrangedora.

Recolhe a toalha, segura-o pelas mãos:

- Mãe, olha quem está aqui.

- O Marinho me convidou. Como vai a senhora?

- Bem, Obrigada. Pode ficar à vontade... Sirva o Luciano, Verin...

Imediatamente, Vera dá uma olhada, faz mesura recriminando a mãe que se corrige, conhecendo a filha...

- ... Vera.

- A senhora precisa ver o presentão que ele trouxe pro Marinho.

- Minha Nossa Senhora, tu’você não deveria ter se preocupado com essas coisas.

- Que nada. O Marinho merece. Ele está se divertindo.

Vera traz uma bandeja com bolo e guaraná. Luciano come vagarosamente, observando a correria das crianças que de vez em quando passam entre eles, gritando, rindo e fazendo caçoada dos que perdem nas brincadeiras. Entre uma garfada no bolo, um gole de guaraná e uma criança que vem e vai, desvia os olhos para Vera. "Como cresceu! Está no ponto, moça feita". Vera também não tira o olho do rapaz que antes nem lhe despertava o menor interesse. Era como todos de Cachoeira Serrana, fora de moda. Subitamente, interrompe-lhe a trajetória do garfo:

- Estás gostando do bolo? pergunta, esforçando-se para falar correto.

- Está ótimo. Dona Marilza cozinha muito bem.

E só. Só mais um gole de guaraná, ele mesmo deixa o prato e o copo na pia. Ela pega-o pelo braço e leva-o para um lugar mais sossegado no quintalzinho ao lado da casa. Dona Marilza acompanha com olhar torcedor o destino da filha.

Daquele dia em diante, começaram a se encontrar com mais freqüência. Primeiro às escondidas. Não que Luciano quisesse dessa maneira, mas Vera é que o impedia de falar com a mãe. Foram vários meses de namoro. Às vezes, quando dona Marilza precisava de Vera ela não estava em casa. Estranhava, mas não muito, a ausência da filha de uns tempos para cá. Queria saber por onde estivera andando, mas não fazia nada que pudesse atrapalhar o que já vinha percebendo. Vera respondia sempre que estava na casa de uma amiga, de uma amiga, de uma amiga.

Um ano depois, Vera apareceu grávida. Não podia mais esconder a barriga de três meses que insistia em se revelar. Foi então que Luciano chegou com dona Marilza e contou que estava interessado em casar com sua filha. Marinho fazia seis anos. Ainda guardava o avião meio desgastado de tanto brincar. Desta vez ganhou um caminhãozinho, também de plástico, que gostou muito a ponto de trocar o avião pelo novo presente.

Casaram-se, os dois se casaram. Não de véu e grinalda como ela e a mãe haviam sonhado. É que o padre já sabia. Aliás sempre soube no que ia dar aquela menina andando com um rapaz bem mais velho do que ela. Embora sendo quem fosse, era homem como todos os outros e a carne é fraca. "É necessário muito cuidado, Pai Eterno!", rezava.

De posse da nova vida, Vera, a partir de então, passou a comandar Luciano. Achava que deveria escrever mais, não ficar só naquele livro que muita gente já esqueceu. Enfim, queria ter casado com alguém famoso. Não queria ser enganada nesse ponto. Ah, isso não! Luciano poderia fazer o que quisesse, menos deixar de cumprir aquilo que demonstrara antes do casamento e que fez com que ela se interessasse por ele. E assim foi. Tanto se aborrecer, estérica cobrando do marido a fama, teve complicações na gravidez. Acabou perdendo o filho com seis meses de gestação. Seria um menino e brincaria perfeito na inocência da infância que levaria no vilarejo-futura-cidade.

Desde então não conseguiu mais engravidar. Parece mesmo que deveriam continuar namorando escondido para ver se acontecia. Luciano queria um menino, Vera uma menina. "Mas aquele que vier será bem vindo", diziam quando algum vizinho falava no assunto.

Luciano já não escrevia mais, tantos eram os aborrecimentos da sub-prefeitura somados à frustração de não conseguir gerar um filho. Achava que a culpa era sua, mas não negava fogo; estava sempre insaciável, pronto a satisfazer os desejos da esposa e os seus também. Não era mole. Várias tentativas, tudo como da primeira vez, não tinha ejaculação precoce, talvez isso pudesse prejudicar, mas nada disso, nada. Era perfeitamente normal de saúde.

Vera estava ficando cada vez mais desiludida do marido. Não lhe dava um filho nem escrevia mais um livro. Na verdade, não se importava muito em ter outro filho, aliás..., "só queria que escrevesse, homem de Deus", sua maneira de cobrar.

Já estava pensando que havia sido enganada, levado gato por lebre, "fraude no casamento, só pode ser, ele não é tudo aquilo que aparentava, não é capaz de ficar famoso", pensava e comentava com a mãe, única com quem se abria mais facilmente. Com as amigas não, para não demonstrar fracasso nem se sentir uma derrotada.

Mesmo assim, não se dava por vencida. Continuava insistindo. Lavava, passava, arrumava toda a roupa do marido. Fazia até simpatias que as velhas benzedeiras lhe ensinavam. Limão, vinagre, alho. Tudo. E nada! Queria que ele se sentisse mais bem vestido, mais elegante, diferente dos outros homens de Cachoeira Serrana. "Quem sabe ele não retoma a inteligência e volta a escrever?". Acreditava, a coitadinha. Muito vaidosa, não se descuidava em nenhum instante daquilo que ofereceu a ele desde o primeiro dia, para ela: sua elegância; na verdade "prosice, pavulagem, querer ser o que não era," pensavam as amigas. Amigas sim, porque todo mundo que se conhecia dizia-se amigo. Mesmo só pela frente. Por sinal, todas as amigas de seu grupo, mesmo as que não casaram ainda, agiam assim.

Antes de sair para o trabalho, ela o passava em revista dos pés até o último fio de cabelo. Colarinho amarrotado era motivo de trocar a camisa. Os sapatos tinham que estar brilhando. Até as unhas ela olhava. Luciano nunca havia se preocupado com isso. Não pensava em mudar agora. Quando ele a desobedecia ela virava uma jararaca. Fechava a porta e segurava a chave. Ele só podia sair quando estivesse impecável. Assim era com ele e assim era com ela. Não se descuidava um instante sequer da aparência. Isso, por outro lado, lhe trazia uma certa maleabilidade no pescoço, principalmente, pois jogava o cabelo repetidas vezes de um lado para outro, enfiando os dedos e cuidando o olhar.

Elegância para ela era isso: pose, muita pose. Era o que via nas revistas que vinham da cidade. Colecionava todas. Embora nunca tivesse visto televisão, sabia de tudo o que se passava. Não havia lido o livro do marido, ou melhor, uma vez começou a ler, mas não terminou, não passou da quarta página. Não teve paciência, o livro não trazia nenhum desenho, nenhuma foto de gente importante e famosa. Com fotonovelas era diferente. Era o retrato da gente que ela também queria ser e queria que o marido fosse. Então aprendia com essas revistas a sentar à mesa, comer de talher, olhar, mexer a boca, enfim, fazer poses. Para ela isso era elegância. Foi o que ela viu de elegância. Ao mesmo tempo, as fotonovelas lhe ensinavam elegantemente a não gostar, a trair, a exigir dos outros e em nada contribuir. Tudo isso ela apreendia, com seu referencial de mundo visto de dentro de Cachoeira Serrana.

Para ele a vida é bem mais que fotonovelas. A cidade perfeita está dentro do coração, dentro daquilo que se pode ser, viver e enxergar em cada um. O perfeito para ele é deitar na mesma cama com alguém que se abre e deixa ir fundo conhecer cada entranha que há, que nem mesmo a própria pessoa conhece. Não apenas deitar e dividir um espaço debaixo do mesmo teto. É compartilhar um a vida do outro. Era isso que ele queria e ela não conseguia jamais perceber.

E ele tenta, incessantemente, tenta. Então eles se deitam à mesma noite todas as camas, único leito casto de núpcias. Não descobrem-se infecundos dos desejos que jamais terão. Porque o que importa não é o ter, mas descobrir o ser que aflora do outro. Ele, incapaz de mostrar-se explicitamente, achava que o casamento, enfim, poderia expurgar oo pesadelos de solteiro. Temia nunca vencer a solidão. Ela cega não faz questão, ou melhor, não sabe ver e, por isso, não se mostra além da superficialidade, única que a vida lhe ensinou a revelar.

Ela cansa, ele cansa. Exaustos os dois, cada vez mais escondem-se nos seus desejos frustrados. Aquela menina bonita, não lhe mostrou além da pele e da roupa. Ele, quase famoso, não pode ver mais que seus sonhos. Buscava uma mulher que pudesse vê-lo além da roupa, da pele e dos livros que nem escreveu.

- Não foi pra isso que me casei contigo, dizia ela aborrecida.

- Mas isso é o que sou, respondia ele intrigado.

E nessa vida o tempo passava lento deixando marcas irremovíveis em ambos. A paixão e a tolerância eram definidos apenas pelo ter que dela se apossava mais que a ele. Seus projetos de vida em tudo divergiam. Suas visões do próprio casamento seguiam trajetos opostos na luz de cada um. A sustentação daquilo que o padre chamou união nunca foi possível, apenas mais uma das aparências, mais uma das poses, das deselegâncias que encobriam a falsa elegância do não brigar e ir além da pele do outro. Até que um dia a vida para os dois se tornou insuportável.

Ao contrário dos tempos do portão, do sorriso das horas, da sainha curta nas costas, das brincadeiras de calcinha no quintal, hoje restava nada mais que um mero engano em suas vidas. Ele por não tê-la desvendado; ela por não querer saber descobrí-lo. Talvez nunca tivessem se conhecido, sequer se encontrado.

Numa última tentativa, aquele livro já esquecido nos armários que o tempo e a ignorância se encarregaram de esconder,

- Ao menos reedita "A Cidade Perfeita", mas não deixa teu nome sumir no esquecimento, disse-lhe num esforço para falar bem.

- A cidade onde se possa comemorar o aniversário das crianças; dar um avião; comer bolo malhado de chocolate com guaraná; andar descalço no dia seguinte; camisa rasgada, amarrotada e todo mundo saiba ler e escrever; escrever seus contos; ler além dos papéis; no fundo dos olhos uns dos outros; a cidade dos sonhos de Luciano, a cidade perfeita, esta não saiu do papel, sequer alcançou a tinta; beirou a imaginação apenas e sumiu.

- Não sumiu, não, está aqui, impressa, é um livro, tu és o escritor...

- Aquele autor que a escreveu, sonhou, não viveu, ele mesmo nunca existiu, foi só um aborto que durou pouco tempo por que o amor, o amor que ele acreditou existir se foi nas páginas das fotonovelas. E a mulher, a mulher que ele jurou amar não se abriu para que ele pudesse dissecá-la, como sempre desejou. Essa mulher também nunca existiu. Foi apenas uma miragem distante nos dias de calor que se apaga com a chuva, aquela mesma chuva do dia do aniversário.

- Tu não podes deixar de fazer o que sempre quiseste, transformar Cachoeira Serrana numa cidade, uma cidade perfeita, faz outro livro, reescreve este, mas faz, homem. Eu não casei contigo à toa. Casei porque eras o único próspero, casei com um escritor, não com um subsecretário de uma sub-prefeitura neste buraco de mundo.

- Então, se o homem com quem casaste era esse que acabas de dizer, consideras-te viúva porque o escritor, autor de A Cidade Perfeita, este homem morreu faz tempo. Talvez seja por isso que nunca tenhamos conseguido ter um filho. Porque aquela gravidez só foi possível por que o pai era escritor. Depois que passaste a dormir com o subsecretário de uma sub-prefeitura de um buraco de mundo, então teu fecundo ser se tornou estéril porque não tinha nada a receber deste comum subsecretário.

- Estou te desconhecendo.

- Eu não sou mais eu. Aliás, nem sabes quem sou, assim como não sei quem és. Nós não nos conhecemos.

Vera arregalava os olhos de ódio, considerava-se enganada, única traição que jamais poderia aceitar. Uma fraude como ela mesma costumava repetir para sua mãe.

- Pois fica só com tua sub-prefeitura neste buraco de mundo, que eu vou embora, buscar o que ainda não veio até agora. Adeus.

Luciano vira-se de costas para não vê-la sair:

- Ah, ah, ah, divino ódio que a paixão fenece, apossa-te de mim para que mais e mais eu não sofra pela mulher que nunca tive. Por incapaz ter enxergado isso. Sequer entender a perda, antes mesmo de saber errado julgar que o ter é mais importante que o estar com alguém.

Verinha se foi para a capital em busca do amor que nunca encontrara.

Um vazio tomou conta de Luciano que nunca mais usou sua velha máquina de escrever, a mesma que pertenceu a seu pai. Parecia mesmo que havia morrido. E morreu. O poeta que ensaiou nascer foi apenas um feto infecundo e agora morre. E a cidade perfeita, aquela dos seus sonhos, a vida apagou eternamente.
 
 

São Paulo, 02.12.1996

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