Ode ao CJ-5

Sou um velho jipeiro. Pior, sou um jipeiro velho! É uma confissão dolorosa para quem tanto aprecia os prazeres de uma trilha, o contato com a natureza e a pilotagem de precisão que só quem já fez trilhas radicais sabe do que estou falando. O off-road cresce e se espalha pelo Brasil. Cada vez mais aparecem modelos e mais modêlos de jipes e jipões modernos, sofisticados, velozes e cheios de recursos. As competições cada vez mais freqüentes também estão cada vez mais técnicas, velozes e vorazes de recursos e patrocínios. Tudo bem? Nem tudo... Parece que estão sufocando o embrião disso tudo que é o Jeep e a trilha, mas trilha mesmo sem tempos a cumprir, PC's a controlar, troféus a disputar. Trilha com os amigos, procurando as dificuldades maiores, encarando os desafios em conjunto naquele espírito de companheirismo e solidariedade. Já fiz muita trilha nos últimos 20 anos e sou um jipeiro desde a mais tenra idade (foto) . Fiz trilha também com vários tipos de jipes, mas devo dizer de coração: na trilha, bom mesmo é o Jeep. O velho e honesto   CJ-5 e seus ancestrais CJ-3 e até o CJ-2. É lógico que não estou pregando fazer trilha em sucatas ou Jeeps decadentes e mal tratados. Falo de Jeeps que tem o respeito e carinho de seus donos em termos de manutenção e uso e que correspondem fiel e competentemente por anos a fio com pouca manutenção e baixo custo operacional a não ser o da caríssima gasolina nacional. Tive vários CJ além de um belíssimo M-38 (foto). Fiz trilha com todos, mas quero dar um destaque para aquele que entrou para a família e ficou conosco por quase 12 anos. Era um CJ-5 1982 e fui seu segundo dono. O primeiro dono foi a poderosa RJ Reynold's, fabricante dos cigarros Camel e patrocinadora do famosíssimo Camel Trophy. Meu Jeep, junto com vários outros todos 82 e 83 eram usados nas eliminatórias brasileiras para a competição. Por intermédio deles eram selecionadas as equipes brasileiras que iam integrar essa disputa de caráter internacional. Esses Jeeps quando não estavam sendo utilizados nessas provas, costumavam desfilar em eventos off-road transportando belas modêlos o que lhes assegurava a fama de nunca terem tido utilização desonrosa...  O insucesso comercial do cigarro Camel no Brasil, acabou por determinar sua retirada do mercado e como conseqüência a eliminação do Brasil da lista de países com representação na prova. E sobraram os Jeeps... Participei da licitação em meados de 89 e acabei arrematando esse que se tornou nosso "parente". Sua existência conosco nasceu cercada de cuidados e até para resgata-lo do depósito da fábrica na via Dutra várias precauções foram tomadas. Convoquei meu amigo Luiz Claudio, o Kareka, um dos maiores entendidos em mecânica de Jeeps e munidos de ferramentas e um tow-bar fomos busca-lo com minha reluzente e novíssima Band. Nem tentamos virar seu motor parado há meses. Retiramos os parafusos que prendiam seu pára-choque às longarinas do chassis e instalamos o tow-bar. Com uma bombinha elétrica, enchemos seus pneus e trouxemos a cria para minha casa, onde passou por uma criteriosa primeira revisão. Em seguida foi novamente rebocado para Paty do Alferes onde seu mecânico principal a partir dali realizou outra revisão mais extensa, onde foi trocada a caixa de direção e feitos os demais ajustes. Ele tinha nessa ocasião 42 mil km. Daí para frente foi só alegria. Meus filhos na época já habilitados curtiram o jeep tanto quanto eu. Fizemos trilhas, raids, levantamentos, resgates, o diabo a quatro. Meu caçula Márcio tinha o apelido entre os amigos de "Mike" e mandou pintar num camburão que enfeitava a trazeira do jeep esse nome que, por causa disso, acabou provocando a migração do apelido dele para o Jeep. Ele voltou a ser o Márcio e o Jeep passou a ser o Mike e definitivamente incorporado à família. Até minha mulher, pouco chegada a trilhas mais radicais curtiu bons momentos com ele, pois mesmo não fazendo trilha, gostava de sair com ele pelas cercanias de nosso sítio em Paty do Alferes. Nossos cachorros, um pastor alemão chamado M'Gyver e uma pastor belga chamada Miucha adoravam andar nele e o M'Gyver, sempre que o Mike ficava no sítio fazia questão de dormir dentro dele. Nem todo mundo compartilha da minha opinião, mas acho a frente do Jeep, em especial a do CJ-5, de uma grande felicidade à nível de linhas. Para mim era um prazer abrir a garagem e ver aquela frente, quase sorridente, olhando para mim. Tínhamos uma grande relação de afeto e carinho. Confiávamos um no outro e nunca nos decepcionamos. Sua venda no inicio de 2001 foi um daqueles momentos dolorosos de despedida, mas acostumado ao conforto de jipes mais modernos e pouco saindo para fazer trilhas com ele, era cruel condena-lo em pleno vigor a ficar semi-aposentado mofando numa garagem. Vendi-o consciente que a razão precisa se sobrepor ao coração e tive a alegria de encontrar em seu novo dono um apreciador cuja primeira providencia foi mete-lo na estrada para rodar quase 4 mil km por três Estados! Na sua vaga hoje repousa um guerreiro mais velho, aposentado com honras: um Willys MB 1944, militar oriundo em ordem decrescente do Imperial Jeep Clube de Petrópolis, da AMAN que por sua vez recebeu-o dos EUA em função dos acordos de cooperação da 2ª Guerra Mundial. Trata-se de um legítimo aposentado, portador de placa preta (veículo de coleção) e destinado não mais ao esforço pesado do off-road, mas ao justo reconhecimento de sua beleza, detalhamento e originalidade, em desfiles, exposições, encontros de antigos onde ele, justa e merecidamente se exibe como um pavão apaixonado!

Alvaro M.A.Teixeira de Melo

Veja mais fotos dos Jeeps do Alvaro.

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