

Em fevereiro de 1984, época em que os sintetizadores ganhavam força e o visual significava mais que a música propriamente dita, era lançado no mercado musical um disco cuja capa apresentava o torso nu de um homem, de uma banda com o nome mais simples que se podia conceber: The Smiths.
Nadando contra a correnteza, esse grupo de Manchester Morrissey (vocal), Johnny Marr (guitarra), Andy Rourke (baixo) e Mike Joyce (bateria) lançou todos os seus discos por uma gravadora independente (Rough Trade) e resistia a produzir videoclipes e a fazer grandes excursões e isso inclui até mesmo os EUA, mercado pretendido por qualquer banda que se preze. Na realidade, o desânimo em relação a clipes e à terra do Tio Sam vinha quase que exclusivamente de seu vocalista, uma figura ímpar no cenário rocknroll. Homossexual e assumidamente celibatário, Morrissey fazia da simplicidade seu maior trunfo ao escrever suas letras, impregnadas quase sempre de melancolia e angústia. Morrissey apoiava sua poesia na perfeita trilha sonora igualmente melancólica e incrivelmente melódica composta pelo guitarrista Johnny Marr, autor de todas as músicas do grupo.
O primeiro disco (The Smiths) foi recebido com grande entusiasmo pela crítica e público ingleses. Nas músicas estão presentes ingredientes que perdurariam para todo o resto da efêmera existência dos Smiths: amor, desilusão, indignação. O disco, que chegou a ser o segundo mais vendido na Inglaterra, contém apenas um hit, "This Charming Man". Embora o álbum estivesse muito acima da média, era visível que a banda tinha um aperfeiçoamento pela frente.

Depois de uma coletânea de lados B de singles que chegariam a quase 40 ao fim de cinco anos a partir do primeiro, "Hand In Glove", de maio de 1983 e de sessões da rádio BBC de Londres (Hatful of Hollow, de 84), o tal aperfeiçoamento teria forma em Meat Is Murder (85). A diferença mais perceptível desse para o primeiro disco é o ecletismo das músicas, que vai de balada ("Well I Wonder") a rock rápido ("What She Said"), passando inclusive por um quase-country ("Rusholme Ruffians"). Mas talvez a maior diferença esteja na variedade dos temas abordados por Morrissey. Além daqueles contidos no álbum de estréia, temos agora rebeldia contra o sistema estudantil, contra a educação, contra a rainha da Inglaterra, pró-vegetarianismo (na faixa-título) e até mensagens otimistas ("And though I walk home alone/ my faith in love is still devout" "E embora eu volte para casa sozinho, minha fé no amor está intacta", canta Morrissey em "Rusholme Ruffians").
O disco contém pelo menos uma verdadeira obra-prima, "How Soon Is Now?" (já presente em Hatful of Hollow), em que o vocalista canta seu poema sobre aquela que talvez seja a melhor composição musical da banda. A interpretação de Morrissey é de uma emoção impressionante, que atinge seu auge no refrão ("You shut your mouth, how can you say I go about things the wrong way/ I am human and I need to be loved, just like everybody else does "Cale sua boca, como pode dizer que eu agi de maneira errada/ Eu sou humano e preciso ser amado, assim como todo mundo"). Um detalhe curioso: da mesma forma que o primeiro disco tinha sua capa extraída da cena de um filme (Flesh, de Paul Morrissey), o mesmo ocorre com este (de In the Year of the Pig, de Emile de Antonio).
Em seguida, viria aquela que é a maior obra não só dos Smiths, como também do rock mundial: The Queen Is Dead (86). Excelente da primeira à última música, a qualidade já é de cara percebida: a capa, com vários tons de verde, é fotografia de Alain Delon, retirada do filme LInsoumis, de Alain Cavalier. Se até então o ataque à monarquia tinha se dado de maneira um pouco tímida, ele aqui é quase que extrapolado, começando pela faixa-título aliás, o disco esteve para se chamar de Margaret on the Guillotine e ainda mais com declarações de Morrissey ("A única coisa que poderia salvar a política britânica seria o assassinato de Margaret Thatcher" ou "Não compreendo essa obsessão britânica pela Família Real; um pouco de cianureto no seu café-da-manhã nos livraria desses parasitas"). O disco abre com um trecho da canção "Take Me Back To Dear Old Blighty", do filme (mais uma vez) de mesmo nome.

Há ainda "I Know It´s Over", talvez a canção mais triste que já tenha sido feita e é a melhor composição de Morrissey ("If youre so clever, why are you on your own tonight?/ If youre so very entertaining, why are you on your own tonight?/ if youre so terribly good-looking, then why do you sleep alone tonight?/ because tonight is just like any other night" "Se você é tão esperto, por que está sozinho esta noite?/ Se é tão divertido, por que está sozinho esta noite?/ Se é tão terrivelmente bonito, por que dorme sozinho esta noite?/ Porque esta noite é como qualquer outra", sacrifica-se o vocalista). A música seguinte, "Never Had No One Ever", é praticamente uma continuação. Outra música que une letra e música brilhantes é "There Is a Light That Never Goes Out" que conta com arranjo de cordas feito pelo próprio Johnny Marr e orquestrada por The Hated Salford Ensemble , em que Morrissey declama um amor que ultrapassa o limite da morte ("And if a ten ton truck kills the both of us/ to die by your side/ the pleasure and the privelege is mine "E se um caminhão de dez toneladas nos matasse/ morrer ao seu lado/ o prazer e o privilégio são meus"). O disco encerra com a guitarra hipnótica de Marr em "Some Girls Are Bigger Than Others". O disco é, também, o mais popular do grupo dois grandes hits saíram dele: "The Boy With the Thorn in His Side" e "Bigmouth Strikes Again".
Em 87, antes do derradeiro álbum Strandeways, Here We Come, os Smiths lançaram duas coletâneas (no mesmo esquema: resgatando músicas antes presentes apenas em singles) The World Wont Listen e Louder Than Bombs. Nessas coletâneas, há várias preciosidades, como "Panic", em que Morrissey convoca todos a enforcarem os DJs a música foi composta após o vocalista e o guitarrista estarem ouvindo rádio e, depois de dar a notícia sobre o desastre nuclear de Chernobil, o disc-jóquei colocou no ar uma música do Wham, a inexpressiva "Im Your Man", o que revoltou os dois. Há uma poesia musicada de Twinkle, "Golden Lights", que trata de uma pessoa que muda de personalidade depois da fama. (E que não foi escolhida ao acaso por Morrissey o mesmo tema está presente em "Half a Person": "She said in the days that you were hopelessly poor, I just liked you more" "Ela disse nos dias em que você era desesperadamente pobre, eu simplesmente gostava mais de você"). Há a densa "Rubber Ring", a pesada "London", a alegre "Sheila Take a Bow", a depressivo - suicida "Asleep". E há aquele que é o maior sucesso dos Smiths, "Ask".

Em agosto, antes mesmo do lançamento do último disco, Johnny Marr anuncia sua saída da banda segundo ele, "precisava colocar os pés no chão". Morrissey não vê como continuar os Smiths sem Marr e decreta o fim da banda. Strangeways... é a evolução final do grupo. Desta vez, além de arranjo de cordas, há também de metais, novamente feitos pelo guitarrista. Há incursões no psicodelismo "Death Of a Disco Dancer" e "Last Night I Dreamt That Somebody Loved Me", ambas pessimistas. "Love, peace and harmony?/ Very nice, but maybe in the next world" ("Amor, paz e harmonia?/ Muito bonito, mas talvez no próximo mundo"), canta Morrissey na primeira, que conta com um delirante solo de piano do próprio. E há a atípica, porém boa, "Death at Ones Elbow", e a canção mais pop dos Smiths, "Girlfriend In a Coma".
Em 1988, foi lançado Rank, registro de um (bom) show realizado em Londres, em 1986. Recentemente, foram lançadas mais três coletâneas: The Best of The Smiths vol.1 e 2 e Singles, todas sem nenhuma novidade. Desfeito o grupo, Johnny Marr foi colaborando aqui e ali, numa extensa lista que contém Bryan Ferry, The The, Pretenders, Simple Minds, Everything But the Girl, Talking Heads e, finalmente, Electronic (em que faz dupla com o ex-New Order Bernard Summer), onde acabou se estabelecendo. Morrissey partiu para uma bem-sucedida carreira solo, em que nunca teve que apelar para as boas e velhas músicas de seu ex-grupo. Uma vez ou outra surgem boatos de que o grupo poderia voltar, ou pelo menos uma parceria Morrissey/Marr, mas essa é uma hipótese cada vez menos provável.