Banco

de

Dados

 
     
   
Genética
       
       
     
     

 

 

A Genética e o Futuro da Humanidade

entrevista com a Dra. Eliane de Azevedo

 

A doutora Eliane de Azevedo é médica, graduada pela UFBA. Já na graduação, participa de pesquisa, como bolsista de iniciação científica, no campo da genética. Ao finalizar a graduação, inicia um trabalho com um grupo de pesquisa norte-americano de estudos sobre genética. Vai estudar nos EUA e doutora-se pela Universidade do Haway. No retorno, torna-se professora da FAMED-UFBA (uma das duas mulheres titulares), onde cria a disciplina Genética Médica.

  

Como a senhora define o fenômeno da clonagem? E qual a sua opinião sobre a experiência realizada com a ovelha Dolly?

O que se chama de clonagem é o fenômeno que permite que uma célula, depois de fertilizada, entre em várias divisões mantendo sua multipotência. Uma vez separadas, estas células conseguem desenvolver um organismo inteiro.

A experiência de clonagem, realizada com a ovelha Dolly, não foi a primeira do gênero, conforme divulgado por parte da imprensa. Outros tipos de clonagem já haviam sido realizados antes, porém em experiências bem mais simples.1 A clonagem foi feita através de células somáticas e não germinativas (a exemplo do óvulo e do espermatozóide). Usou-se uma célula da glândula mamária de uma ovelha, retirou-se o núcleo, desprezando-se o citoplasma, de forma que a maior parte da informação genética da ovelha foi retida, eliminando-se apenas uma pequena porção (fato que não foi divulgado pela imprensa, visto que se trata de um tipo de herança que foi descoberto há pouco tempo: herança mitocondrial).2 O núcleo retirado foi colocado dentro do óvulo — célula reprodutora feminina, que tem a característica de possuir um citoplasma muito grande e um núcleo relativamente pequeno. Este citoplasma contém todos os nutrientes para o desenvolvimento do novo organismo. Pois bem, o núcleo referido foi colocado dentro do citoplasma do óvulo de outra ovelha cujo próprio núcleo havia sido previamente retirado. Uma vez feito isso, o conjunto formado pelo citoplasma de uma ovelha e núcleo da outra foi colocado no útero de uma terceira ovelha. Para que esse processo se concretizasse, foram feitas quase trezentas tentativas de transplante, em que apenas uma vingou, o que comprova que a técnica ainda é muito precária. Além disso, ela é relativamente grosseira porque não trabalha diretamente com o DNA, mas com o núcleo, visível em qualquer microscópio comum. Não houve o refinamento científico de outras técnicas, como a da terapia gênica, na qual se trabalha diretamente com o próprio DNA, cortando e emendando moléculas. Comparada a este tipo de técnica — a exemplo da utilizada em humanos para tratamento de doenças gênicas, cuja exclusão de segmentos de DNA é de uma beleza científica e de um requinte técnico surpreendentes — a clonagem pode até ser considerada tecnicamente simples. Nas chamadas terapias gênicas, utilizam-se os segmentos de DNA para exercer a função terapêutica em lugar dos medicamentos. Isso já vem sendo realizado para o tratamento de duas doenças genéticas, mas existe a possibilidade de utilizá-la para o tratamento do câncer e até mesmo para outras doenças não genéticas. O segmento de DNA é retirado de uma pessoa normal, acoplado a um vírus (que é o vetor transportador desse DNA para dentro das células do paciente). Os efeitos ainda não são completamente entusiasmantes, visto que há ainda muito a ser resolvido. Mas o caminho encontra-se já aberto.

A clonagem poderia ser realizada com seres humanos?

Do ponto de vista técnico, não haveria diferença em uma experiência realizada com ovelhas ou com seres humanos. Mas do ponto de vista moral, a clonagem humana é repudiável. Além disso, ela implica em uma série de desvantagens. Tomando, como exemplo, as fantasias populares dos brasileiros que escolheram Carla Perez como a preferida a ser clonada, é sabido que seus clones não necessariamente apresentariam as suas habilidades de dançarina, a sua natureza etc. Os genes não são determinantes das características, mas apenas as predispõem. Isso é mais evidente na espécie humana, em que muitas das características dos indivíduos são formadas no processo de vivência, nas relações humanas, na educação, na cultura, etc. Existem ainda genes que se ligam e se desligam à medida que ocorrem mudanças no ambiente. Para se produzir um ser humano idêntico, seria necessário que, além da clonagem, este fosse criado, a vida inteira, em circunstâncias ambientais idênticas ao de seu doador, o que é absolutamente impossível.

Como existem cientistas e políticos inescrupulosos em todo mundo e em todas as épocas, é possível que se venha realizar tentativas de clonagens humanas. Existem pesquisas que tecnicamente são viáveis e eticamente são condenáveis. Por isso, acredito que sejam necessárias leis que proíbam certas pesquisas em seres humanos. Alguns países já possuem leis que proíbem experiências genéticas com embriões, visto que elas podem levar a mutações programadas. Recentemente, eu escrevi um artigo acerca da introdução de questões genéticas na legislação no Brasil, visto que a norma recente, que trata da ética em pesquisa, não entra nesses detalhes. Cada indivíduo tem o direito de ser ele próprio, inclusive no âmbito genético. Eu sou contra o patenteamento de genes humanos. A vida de uma pessoa deve ser respeitada desde o momento da fecundação até sua morte. Por isso, também sou contra o aborto. No momento em que a vida puder ser manipulada, reprogramada e reproduzida, ela perderá o valor, e o convívio humano será um caos. Todo progresso humano coloca-se como uma faca de dois gumes, podendo gerar conseqüências positivas e negativas. Sou da opinião que a função da ciência deve ser sempre a de promover as pessoas e o bem-estar da humanidade.

A rigor, existem muitas coisas na ciência que precisam ser realizadas, ser entendidas de forma mais importante do que o processo da clonagem. Mas nisso, o que pesa é também a vaidade do cientista e a sua curiosidade. A clonagem pode ser feita em seres dos dois sexos?

Em mamíferos, a diferença genética entre os dois sexos está em um dos 23 pares de cromossomos. Um par é sexual e 22 são autossomos. Esses 22 pares levam a informação genética para constituir o corpo (o soma) do ser, e o par de cromossomos sexual leva a informação para a determinação do sexo. A diferença entre o homem e a mulher é que o 23° par de cromossomo da mulher é formado por dois cromossomos X e o do homem por um X e um Y (sendo o cromossomo Y bem menor do que o X). Portanto, é mais fácil clonar a mulher. Hoje, a ciência ainda não conseguiu fazer isso com células masculinas, por causa dessa diferenciação. Além disso, a célula masculina encontraria muito mais dificuldade para sobreviver. Precisar-se-iam de técnicas avançadíssimas para contornar essa dificuldade. Por isso, todas as experiências realizadas até agora têm sido feitas com células do sexo feminino.

O que diferenciaria um ser clonado de um ser normal?

Como a ovelha que cedeu a célula mamária já tinha seis anos, e em função do mecanismo do envelhecimento celular que acumula alterações celulares e mutações, a nova ovelha já nasceu com seis anos de vida, do ponto de vista celular, biológico. Ela já tem um acúmulo de envelhecimento igual a uma ovelha de seis anos. Portanto, nada se fez no sentido de retardar seu envelhecimento, ainda que a ovelha tenha o aspecto de um ser novo. Não é vantagem para nenhum organismo nascer velho, do ponto de vista celular. O indivíduo clonado é, portanto, um ser que já nasce em desvantagem, pelo envelhecimento e pelas alterações genéticas oriundas das radiações cósmicas e ionizantes.

Muito se especulou na imprensa acerca das possibilidades de se utilizar a clonagem para se fazer melhores rebanhos, o que seria uma experiência possível, do ponto de vista técnico, mas que traz um risco implícito muito grave: a vulnerabilidade desses animais diante de determinadas doenças. A clonagem bloquearia o processo de seleção natural, nesses seres, rompendo com o fenômeno que, naturalmente, permite que organismos nascidos com alterações genéticas e menor adaptação para a sobrevida e a reprodução desapareçam. A ciência ainda entende muito pouco acerca desse processo de seleção natural. O que se esboça é que os que sobrevivem mais são aqueles que melhor se adaptam. A seleção trabalha em torno da variabilidade, externa e interna. Nessa variabilidade, uns organismos são mais resistentes para determinadas doenças ou condições e outros para outras. Existem inúmeras outras doenças em que há sempre predisposição ou resistência genética. Quando um rebanho normal é acometido por uma epidemia qualquer, o que se espera é que alguns deles tenham suscetibilidade mortal, outros apenas adoeçam e outros nem sequer peguem a doença. Ao se fazer um rebanho geneticamente quase idêntico, corre-se o risco, que não é pequeno, de que, no momento em que ele for acometido por uma infecção a qual seja susceptível, morra todo o rebanho. Isto ocorre porque a clonagem é uma ruptura abruta de um processo de seleção natural operado pela natureza e que a ciência não entende, exceto em raros casos.

Poderíamos citar o exemplo da interação entre a malária e uma doença que é mais freqüentemente observada em negros e que se chama anemia falciforme (as células, em presença de pouco oxigênio, apresentam forma de foice). Esta é uma doença genética que não é rara aqui, e na África é muito freqüente. O indivíduo herda uma hemoglobina do pai e uma da mãe. A hemoglobina que causa a anemia falciforme chama-se hemoglobina S, e a normal, hemoglobina A. As possibilidades de herança podem gerar indivíduos que herdaram a hemoglobina normal do pai e da mãe (AA), outros que herdaram uma normal e uma anormal (AS) e outros que herdaram duas anormais (SS). Apenas estes apresentam a doença e geralmente morrem em sua conseqüência. Todavia, os indivíduos que têm a hemoglobina (AS) são clinicamente normais, isto é, não têm anemia falciforme, e têm a grande vantagem de poderem ter a malária e nunca desenvolverem a forma letal desta doença, ou seja, a malária cerebral. Por esta razão, o gene da hemoglobina S tornou-se freqüente em população fortemente devastadas pela malária no passado. As pessoas com hemoglobina AA morriam da malária, as pessoas SS morriam da anemia falciforme e as aquelas AS não tinham anemia falciforme e eram resistentes às formas graves de malária. Foi assim que o gene da hemoglobina S tornou-se freqüente entre os negros. Esse é o único mecanismo humano de seleção natural, em um universo de cem mil genes, que a ciência, até então, conseguiu entender.

Trata-se de um chute no escuro se realizar um rebanho de animais clonados a partir de um único organismo, mesmo que selecionado, porque, daí por diante, as susceptibilidades que ele apresentar em relação às doenças serão perpetuadas. Isso também se aplicaria para o caso da clonagem humana.

O que a senhora acha da possibilidade de, caso a ciência venha a conseguir as técnicas para tanto, ressuscitarem-se indivíduos congelados?

A humanidade está num processo de contínua evolução social e biológica. Cada um tem o seu tempo de viver. Nada justifica se ressuscitar Walt Disney, por exemplo, e colocá-lo no lugar de alguém. Na verdade, ao se produzir um indivíduo, a partir das células de alguém, está se formando um novo indivíduo, com herança genética parecida ao do doador, mas nunca igual. O que se está veiculando como possibilidades de reprodução humana são falácias, fantasias.

Entrando no domínio da ficção científica, como a senhora se posiciona acerca da hipótese de se constituir uma sociedade na qual existisse uma parcela da população dita normal, que estaria no poder, e uma outra formada por exércitos setorizados de clones?

Do ponto de vista moral e ético, isso seria completamente repudiável. Eu não concebo como algo moralmente aceitável a manipulação de pessoas, visto que estas têm o direito de possuir sua identidade própria, sua individualidade, inclusive no âmbito genético.

Em que, afinal, a experiência feita com a ovelha Dolly contribuiu para o avanço da ciência?

A maior contribuição dada pela experiência com a ovelha Dolly diz respeito à certeza que se passou a ter de que uma célula de um ser adulto (já formado), em condições adequadas, pode reativar os genes especializados para a formação dos diversos órgãos de um organismo completo. Não se sabia se o desligamento dos genes, após o período da embriogênese, era algo irreversível, ou seja, se seu processo poderia ser reativado após o período de formação inicial. Agora sabe-se que sim, visto que a partir de uma célula mamária, conseguiu-se reativar todo o processo de diferenciação capaz de formar um novo indivíduo. Passou-se a saber que quando uma célula é colocada dentro de um óvulo, todas as informações podem ser reativadas, conseguindo formar um ser completo. Este foi o grande avanço científico proporcionado pela experiência da clonagem. No entanto, soube-se que o processo ocorre, mas ainda não se tem conhecimento de como e do porquê. O maior mistério ainda permanece. É possível que a repetição do processo da clonagem (reativar os genes que estavam reprimidos), leve ao entendimento do processo de ativação e inativação gênica. Este será um grande passo para a descoberta de outras explicações acerca do fenômeno, por exemplo, do envelhecimento das células.

E como se explica, geneticamente, o fenômeno da velhice?

Para a melhor compreensão deste tema, é bom que relembremos o processo de geração natural dos homens: o ser masculino produz o espermatozóide (célula germinativa masculina). Esta é uma célula que tem um núcleo muito grande e que quase não contém citoplasma. Quando o espermatozóide penetra no óvulo, no processo da fecundação, ele solta uma enzima que abre caminho no óvulo, no qual ele penetra, mas apenas com a cabeça, sendo a cauda perdida. A cabeça é atraída para o núcleo do óvulo, com o qual se funde. Os 23 cromossomos do óvulo, somados aos 23 cromossomos do espermatozóide, juntos, reconstituem o número normal de cromossomos das células da espécie humana, contendo toda informação necessária para desenvolver um ser completo. Aproximadamente, 50% da herança genética provém de cada uma das células, sendo que o óvulo contribui com um pouco mais devido à presença do DNA das mitocôndrias. A célula fertilizada vai progressivamente se dividindo, paralelo a um processo em que alguns genes vão se desativando e deixando outros ativos. Este ativar e desativar de genes fazem o embrião tomar a forma de ser humano. As células que estão nas camadas de fora, destinam-se a fazer a pele, já as internas, formam os órgãos. Esse processo de ativação e desativação de genes (diferenciação celular) ainda não foi bem compreendido pela ciência. Durante todo o tempo de vida, o ser humano passa por um processo de renovação de suas células, através de divisões e mortes celulares. E, então, por que o ser vivo envelhece? À medida que as células vão se dividindo, elas vão perdendo a sua capacidade vital. Quando a célula vai ficando mais velha, ela começa a perder a capacidade de divisão, de renovação e é isso que a ciência chama de envelhecimento. Existem, atualmente, marcadores que determinam o tamanho do cromossomo (cuja ponta vai diminuindo) e, portanto, o seu tempo de divisão (que passa a ser mais longo). Hoje, um dos temas muito comentados na ciência é o fenômeno da apoptose, que significa morte programada da célula. A morte programada praticamente existe em quase todas as células que, a partir de um determinado momento, entram em exaustão.

A utilização de vitaminas pode levar ao retardamento do envelhecimento das células?

Apesar do que é muito veiculado pela imprensa, a ciência ainda não encontrou o mecanismo de paralisar o envelhecimento das células. Ela já descobriu algumas características que determinam a sua idade, visto que ela vai acumulando alterações, não apenas morfológicas, mas também em nível de DNA, ou seja, mutações genéticas somáticas. Se pegarmos uma amostra de uma célula normal, uma cultura, e fornecermos a ela os nutrientes, ela sobrevive até um certo ponto, depois entra em exaustão, e seu núcleo vai diminuindo. As divisões vão se reduzindo e ela morre. Não existe como manter uma cultura de uma célula normal indefinidamente. Dessa forma, o fenômeno de apoptose ocorre em todas as células normais. Mas não nas células cancerosas, que, em cultura, são mantidas indefinidamente, não morrendo nunca. Mas ainda não se descobriram os elementos componentes de tal mecanismo. Eu já tive muita vontade de escrever um romance no qual contaria a história de um embrião que, logo após a fecundação, adquiriria a imortalidade das células através de mecanismos semelhantes (mas desconhecidos) aos da imortalidade das células cancerosas.

Existem, hoje, linhagens de células de indivíduos cancerosos, já falecidos, que são adequadas para a pesquisa e que foram distribuídas a centros de pesquisa do mundo inteiro. As mais famosas são as células HeLa, originárias do câncer de uma mulher americana.

São esse dois grandes fenômenos genéticos que a ciência está por descobrir, ou seja, o mecanismo que leva a célula cancerosa a perder a capacidade de morte programada e o que leva as células normais ao envelhecimento. Existem inúmeras pesquisas que caminham nesse sentido, mas, até o presente momento, poucas evidências. Muito do que se fala é charlatanismo, uma pseudo-ciência que lucra com a comercialização de produtos que supostamente retardariam o envelhecimento. Desde a época da alquimia que se busca a fonte da juventude e da vida. A verdade é que nunca nenhum cientista conseguiu parar ou mesmo retardar o envelhecimento de uma célula normal. Isto não se encontra ao alcance da ciência atual.

A senhora é contra a realizações de pesquisas que busquem a longevidade das pessoas?

Não, desde que estas respeitem a dignidade das pessoas.

 

Notas

(1) A clonagem já havia sido realizada, há muito tempo, através de experiências feitas com anfíbios. Mas não havia se conseguido ainda que o organismo clonado sobrevivesse. Na verdade, ele não conseguia nem mesmo nascer, ficava na fase de embrião precoce.

(2) Descobriu-se, recentemente, que nossa herança genética provém não apenas do núcleo, mas também de uma pequena organela, chamada mitocôndria, localizada no citoplasma, que contém um DNA que tem a peculiaridade de ser herdado apenas da mulher para seus filhos e filhas. Chama-se de DNA extra-nuclear.

(3) Referimo-nos a uma pesquisa feita pela Folha de São Paulo, através da Internet, em que foi perguntado quem deveria ser o primeiro brasileiro clonado. As primeiras colocações foram para Carla Perez e para Betinho, figuras que, segundo o jornal, representam a cara do Brasil.

 

Entrevista realizada por Jorge Nóvoa (Editor Responsável).

 


Volte aquí

 

 

STARMEDIA        CERRAR