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Apocalipse
       
       
     
     

 

O APOCALÍPSE...

Luiz Ronaldo de Oliveira.

         A autoria do livro do Apocalípse é atribuído a um sujeito chamado João, tudo indica que seja o mesmo autor do quarto Evangelho, no entanto há quem questione esta afirmação. Quanto à data de composição admite-se que tenha sido composto durante o reinado de Domiciano, pelo ano 95; e outros, e não sem alguma probabilidade, creêm que pelo menos algumas partes já estariam redigidas desde o tempo de Nero, pouco antes do ano 70. Apocalipse é uma palavra grega que significa revelação. Era um modo de escrever muito popular e comum nos dois séculos antes de Jesus Cristo e nos dois séculos depois de Dele. O povo admirava e gostava desse modo apocalíptico de escrita, pois estimulava e provocava a criatividade nos leitores. O Apocalipse nasce em tempos de perseguição; mas sobretudo nos momentos em que o povo vivia situações caóticas, de exclusão e opressão constante. Em muitos momentos o Apocalipse permitiu às comunidades cristãs reconstruir sua esperança e sua consciência. O Apocalipse transmite uma espiritualidade de resistência e orienta a organização de um mundo alternativo. É um livro libertador e cheio de esperança; sua utopia é histórica e política. O Apocalipse não está orientado para a "segunda vinda de Jesus" ou para o "para o fim do mundo", mas está centralizado na presença poderosa de Jesus ressuscitado, agora, na comunidade e no mundo. Sua ressurreição transforma o presente num Kairos: momento de graça e de conversão; tempo de resistência, de testemunho e de construção do Reino de Deus. A mensagem central do Apocalipse é: se Cristo ressuscitou, o tempo da Ressurreição e do Reino de Deus começou. O Apocalipse se expressa através de mitos e de símbolos. O mito é histórico e busca identificar e mobilizar a comunidade em situações de caos, de opressão e de exclusão. O mito reconstrói a consciência coletiva e a práxis social do povo de Deus. O mito é polissêmico (possui muitos sentidos) e está sempre disponível a novas interpretações. O Apocalipse cria mitos libertadores e subverte os mitos dominantes. O Apocalipse nos ensina a descobrir o poder dos mitos. O Apocalipse de João une escatologia e política, mito e práxis, consciência e transformação histórica. Não há passividade ou ausência de prática neste livro. Os mártires, os profetas, os que não adoram a Besta nem a sua imagem, nem aceitam a sua marca, fazem realmente a história: derrotam satanás, destroem os poderes do mal, provocam um terremoto na Babilônia e reinam sobre a terra. No Apocalípse há uma construção do futuro , entretanto este futuro pode ser antecipado e construído no presente. O Apocalipse faz uma análise da realidade e nos é dado o material e a inspiração para a construção de uma sociedade alternativa. O Apocalipse nos proporciona uma chave decisiva para a transformação da história. O contexto histórico fundamental do Apocalipse é o enfrentamento econômico, político, cultural, social e religioso do Povo de Deus e da comunidade cristã com o Império Romano e com as forças sobrenaturais do mal.

A MARCA DE ONTEM SE APRESENTA HOJE...

A Besta "faz também com que todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e escravos recebam uma marca na mão direita ou na fronte, para que ninguém possa comprar ou vender se não tiver a marca, o nome da Besta ou o número do seu nome (Ap. 13, 16-17)

Inspirado no livro do apocalipse, de modo específico nesta passagem acima transcrita, gostaria de fazer uma comparação entre a realidade em que foi escrito o apocalipse e a realidade atual. Sabemos que o passado é indispensável quando pensamos em planejar o futuro e viver bem o presente. O autor faz uma análise da história denunciando o passado que foi de domínio, de morte, de injustiça, de fome e de violência. Descreve o presente (ano de 95 d.C), como um período de martírio e de submissão, e ao mesmo tempo vê o futuro com esperança. Acredita que os pobres terão terra, casa, emprego e viverão com dignidade. Para os dominadores será um momento de fuga e de choro, pois a justiça de Deus irá prevalecer (Ap. 6, 15). Neste período as comunidades cristãs estão expostas à arbitrariedade e à violência das potências que governam esse mundo. Tornam-se motivo de ódio, já com o Imperador Nero (ano 64 -68), e agora no fim do primeiro século da era cristã, com o Imperador Domiciano. No ano de 95 d.C, o Império Romano dominava e direcionava todas as atividades político-econômicas, era um sistema centralizador, que arrancava dos pobres até o último centavo, sem falar na dominação ideológica que tornava as pessoas objeto do Império. A opressão era generalizada e o controle sobre os cidadãos era total. Por isso, o grito profético do autor do Apocalipse vai ao encontro das lamentações do povão. Para ser cidadão, participar da "sociedade ideal", precisaria necessariamente ter o sinal da besta nas mãos (força de produção) e na fronte (sede da criatividade humana), caso contrário não conseguiria vender nem comprar, era excluído ou melhor falando, ignorado pelo sistema. Atualmente nos encontramos, nos desencontros, de um sistema econômico que idolatra o mercado, tornando-o sujeito em detrimento ao ser humano que é tornado objeto. O mercado é apresentado como o protagonista de uma sociedade perfeita, que se rege por si só, independente da vontade ou da razão humana. A economia neoliberal apresenta o mercado como um deus regulador de todas as relações econômicas, tendo por princípios: a) Uma economia ativa onde o mercado dita as próprias regras; b) A desvinculação da intervenção do Estado na economia, com a possibilidade de a mesma criar os mecanismos de auto-regulação; c) Ajustamento estrutural para fortificar a economia de mercado e organizar de maneira eficiente a produção e a distribuição dos bens e serviços. Para isso, usa as seguintes estratégias: 1) redução da inflação; 2) controle do déficit público; 3) privatização de tudo o que for rentável; 4)abertura das fronteiras, através de uma economia globalizada. Como podemos perceber, a realidade do passado, período em que foi escrito o Apocalipse, não é muito diferente do presente. Pois, aquele que não tiver a marca da "besta-mercado", não consegue comprar nem vender, e automaticamente é colocado a margem da sociedade. No entanto, a exemplo do apocalipse, podemos recuperar junto aos excluídos e ignorados pelo sistema, a esperança de dias melhores, de vida melhor. Temos exemplos de organizações populares que resistem ao sistema dominador, que conseguem desvelar e descaracterizar a exploração de um grupo de "espertos" sobre a grande maioria. Entre esses grupos gostaria de citar o MST e as ONGS, que apresentam um modelo de sociedade alternativa, que promovem as pessoas, tornando-as sujeitos participantes da história e construtores da cidadania. O livro do apocalipse não está pronto, podemos continuá-lo a partir da nossa história, das nossas conquistas e derrotas, dos nossos sofrimentos e esperanças. Dessa forma poderemos desvelar e apresentar uma proposta de vida e esperança.

BIBLIOGRAFIA

ANDERSON, Perry. O balanço do neoliberalismo. Em Pós neoliberalismo-As políticas sociais e o Estado democrático.

Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus 1994.

BORTOLINI, José. Como ler o apocalípse - resistir e denunciar. São Paulo: Paulus 1994.

HINKELAMMERT, Franz J. Sacrifícios humanos e sociedade acidental: lúcifer e a besta. São Paulo: Paulus 1995.

RICHARD, Pablo. Apocalípse - reconstrução da esperança. Petrópolis: Vozes 1996.


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