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Índice:
Vinícius de Morais | Carlos Drummond
de Andrade | Jerdivan Nobréga | Antônio
Vieira |
Soneto de Montevidéu
Não
te rias de mim, que as minhas lágrimas
São água para as flores que plantaste
No meu ser infeliz, e isso lhe baste
Para querer-te sempre mais e mais.
Não
te esqueças de mim, que desvendaste
A calma ao meu olhar ermo de paz
Nem te ausentes de mim quando se gaste
Em ti esse carinho em que te esvais.
Não
me ocultes jamais teu rosto; diz-me
Sempre esse manso adeus de quem aguarda
Um novo manso adeus que nunca tarda
Ao amante
dulcíssimo que fiz-me
À tua pura imagem, ó anjo da guarda
Que não dás tempo a que a distancia não cisme.
Soneto
de Devoção
Essa mulher
que se arremessa, fria
E lúbrica aos meus braços, e nos seios
Me arrebata e me beija e balbucia
Versos, votos de amor e nomes feios.
Essa mulher,
flor de melancolia
Que se ri dos meus pálidos receios
A única entre todas a quem dei
Os carinhos que a outra daria.
Essa mulher
que a cada amor proclama
A miséria e a grandeza de quem ama
E guarda a marca dos meus dentes nela.
Essa mulher
é o mundo! - uma cadela talvez
Mas na moldura de uma cama
Nunca mulher nenhuma foi tão bela.
Poema
Para Todas as Mulheres
No teu branco
seio eu choro.
Minhas lágrimas descem pelo teu ventre
E se embebedam do perfume do teu sexo.
Mulher, que máquinas és, que só me tens desesperado
Confuso criança, para te conter!
Oh! não feches os teus braços sobre minha tristeza não!
Ah! não abandones a tua boca à minha inocência não!
Homem sou belo
Macho sou forte, poeta sou altíssimo
E só a pureza me ama e ela é em mim uma cidade e
tem mil e uma portas.
Ai! teus cabelos ruscendem a flor de murta
Melhor seria morrer ou ver-te morta
E nunca, nunca poder te tocar!
Mas, fauno, sinto o vento do mar roçar-me os braços
Anjo, sinto o calor do vento nas espumas
Passarinho, sinto o ninho dos teus pêlos...
Correi, correi, o lágrimas saudosas
Afogai-me, tirai-me deste tempo
Levai-me para o campo das estrelas
Entregai-me depressa à lua cheia
Dai-me o poder vagaroso do soneto, dai-me a iluminação das odes,
dai-me o cântico dos cânticos
Que eu não posso mais, ai!
Que esta mulher me devora!
Que eu quero fugir, quero minha mãezinha, quero o
colo de Nossa Senhora.
para você...
A Anunciação
Virgem!,
minha filha
De onde vens assim
Tão suja de terra e
Cheirando a jasmim
A saia com mancha
De flor de carmesim
E os brincos da orelha
Fazendo tlintlin?
Minha mãe
querida
Venho do jardim
Onde a olhar o céu
Fui, adormeci.
Quando despertei
Cheirava a jasmim
Que um anjo esfolhava
Por cima de mim...
Carlos Drummond
de Andrade
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Índice
Sociedade
O homem disse
para o amigo:
-- Breve irei a tua casa
e levarei minha mulher.
O amigo enfeitou
a casa
e quando o homem chegou com a mulher,
soltou uma dúzia de foguetes.
O homem comeu
e bebeu.
A mulher bebeu e cantou.
Os dois dançaram.
O amigo estava muito satisfeito.
Quando foi
a hora de sair,
o amigo disse para o homem:
-- Breve irei na tua casa.
E apertou a mão dos dois.
No caminho
o homem resmungaL
-- Ora essa, era o que faltava.
E a mulher ajunta: -- Que idiota.
-- A casa é
um ninho de pulgas.
-- Reparaste o bife queimado?
O piano ruim e a comida pouca.
E todas as
quintas-feiras
eles voltam à casa do amigo
que ainda não pôde retribuir a visita.
Cidadezinha
Qualquer
Casas entre
bananeiras
Mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.
Um homem vai
devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham.
Eta vida besta, meu Deus.
Poema Patético
Que barulho
é esse na escada?
É o amor que está acabando,
é o homem que fechou a porta
e se enforcou na cortina.
Que barulho
é esse na escada?
É Guiomar que tapou os olhos
e se assoou com o estrondo.
É a lua imóvel sobre os pratos
e os metais que brilham na copa.
Que barulho
é esse na escada?
É a torneira pingando água,
é o lamento imperceptível
de alguém que perdeu o jogo
enquanto a banda de música
vai baixando, baixando de tom.
Que barulho
é esse na escada?
É a virgem com um trombone,
a criança com um tambor,
o bispo com uma campainha
e alguém abafando o rumor
que salta de meu coração.
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O EGO E aí
se fez a luz... E aí
se fez a água... E aí
se fez o ar... E aí
se fez o homem... E com
ele E aí
se fez os robôs E do
mundo atômico, a não ser eu
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OPINIÃO PRÓPRIA Perguntei
ao sol Perguntei
a noite Perguntei
as costa Perguntei
ao fim Perguntei
a saudade Perguntei
ao punhal Todos
disseram que não |
Eterno é ... Ghandi
olhou |
Cama
Uma cama vazia
Nada mais triste
Onde muitos descansaram
Onde tiveram as mais belas noites de amor
Onde a maiorida das vidas começam
Onde a minoria consegue terminar
Em um fogo intenso
Sobre o nu colchão e o tenebroso travesseiro
Jaz a luz, acorda a penumbra
Tudo se repete
Tudo se transforma
Sobre uma cama.
Não a nada mais vaizo
Do que uma cama triste.
Gatos
Que som estranho
Gatos noturnos quebram
meu telhado, sinto cacos
Telhas partidas e repartidas
Por simples gatos gordos
E cheios de fome
Fome de que?
Não importa.
De leite, de carne,
De amor.
Derepente me transformo
Em um desses gatos gordos.
E me vejo caminhando
Pelo meu telhado
O quebrando da mesma forma
Que reprimi os gatos
Coitados, apenas com fome
Como estou agora
E penso, não eram os gatos culpados
E sim as telhas que facilmente
Se quebram.
Que pena que nem todos os que
Tem fome conseguem
Quebrar as telhas.
As vezes, todo o telhado caí
E aí nada de sete vidas.
Escuro
O que? Não
sei
Tento imaginar, visualizar
Só que o mundo não permite
Não tem como deixar
A noite dura, negra como nunca
A noite escura, pesada como nunca
Preciso de sol, calor
Onde está você meu sol?
A noite não me permite
Tento imaginar, visualizar
O que? Não sei
Como não sei
Fecho a porta da noite e teimo em dormir.