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Contos passados:
Macacos
Meu Guri

Conto colocado em 3º lugar no Prêmio Cora Coralina 1986 de contos.

Essas Cachorras

Você já experimentou manter um pedaço de pão quente com manteiga, no céu da boca, sem mastigar? É um esforço incomum a que venho me submetendo. Ontem mesmo fiz a experiência com uma bala recheada de frutas. É mais fácil de tolerar, mas é mais incômodo, porque com a bala é maior, como se fosse um travesseirinho. Cheguei em casa com a bala dançando na boca e não consegui sequer me fazer entender pela minha filha, que estava assistindo televisão no tapete da sala. Ela ficou olhando assustada o volume do lado direito, depois do lado esquerdo, um ovo no meu rosto, como um jogo de pingue-pongue. Escorregou-me uma baba doce pelos cantos da boca e quando estiquei a lingua para lamber, a bala rolou pelo chão. A menina saiu correndo para o quarto, gritando sons desconexos para o pai, que estava passando loção após barba para sair. Ele pensa que não tenho reparado quantas vezes tem saído nas últimas noites. Faço de boba e vou me chegando de mansinho, com jeito de não estar notando a cueca nova, os ouvidos limpos com cotonetes e o assovio daquela música... "Alguém como tu". A menina começa a implicar comigo, dizendo que estou esquisita, negócio de bala e não me resta outra atitude senão sacudi-la com força, tentando impedi-la de levantar dúvidas na cabeça do meu marido. Se ela esperneou e bateu a cabeça na quina da cama, problema dela, não tenho nada com isso. Quem manda mexer com quem tá quieto, com mãe, principalmente, que é coisa sagrada. Em pequena, se criança levantasse a mão para os pais, a mão secava, transformando-se em galho de árvore. Hoje, ninguém mais acredita nesses mistérios, nem as próprias mães. Depois que ele saiu, blasfemando nomes feios, que antes não se ouviam nasta casa, fiquei matutando como engordei nessa gravidez. Não devo no entanto, estar muito feia, porque, na rua ouvi um homem gracejar "tá com o buxo cheio, hém gostosona". Olhei em todas as direções, certificando de que era eu, realmente, a gostosona. Pelo menos, não vi nenhuma grávida por perto, o que leva a crer que não estou assim de jogar fora, como ele deve estar pensando. De xez em quando o telefone toca e só ouço uma gargalhada cínica do outro lado. Deve ser qualquer dessas filhas da puta que dão até o rabo, sem gemer. Porque homem gosta mesmo é disso. Pena descobrir depois de casada. Aí já é tarde e tome agüentar. Um dia é chegar com as costas arranhadas, quase em fogo. Acho o maior descabimento, porque nem unhas grandes tenho além do mais, na hora da coisa, fico com os braços estendidos na cama, as mãos agarradas no lençol, pedindo para acabar logo, que ninguém é de ferro para agüentar todo dia a mesma coisa, soprando na cara da gente e sujando tudo. Minto: todo dia, antes da gravidez, porque, como ele explica, mulher tem que ser respeitada preservada e outras palavras bonitas que, quando o danado quer, sabe falar. Mas, como ia dizendo, homem gosta é de buraquinho. Qualquer dia, mostro-lhe uma caixinha de fósforos, ele resolve o problema dele e nem preciso me levantar, escorrendo o melado das pernas e gotejando com nódoas o corredor. A empregada anda comentando que só levanto pra almoçar, que não escovo mais os dentes e nem banho tomo. O dia que eu acordar atravessada, junto-lhe os trapos e mostro-lhe a rua. A menina evita conversar comigo, não me mostra os deveres. Acho que é porque andei rasgando o livro dela e fazendo aviãozinho com o boletim. Fiz de propósito, depois da gritaria dela no banho. Só porque despejei shampoo nos seus olhos, foi aquele escarcéu. Tenho horror a choro de criança, ainda mais sem razão. Essa conversada fiada que é preciso descansar, viajar e outras coisas más, eu não engulo. Gosto é de pegar o lotação e ficar dando voltas na cidade. O trocador fica me encarando, mas eu pago todas as passagens, e às vezes, ainda dou gorjeta. Costumo trocar de lugar a cada parada. É emocionante atravessar o carro, de um lugar para outro, nas curvas fechadas, empurrando a barriga nas pessoas. Não me recordo se foi na semana passada, numa dessas viradas de uma roda só, caí no colo de um homem, que gritou Nossa Senhora da Conceição segurem essa mulher. Fui ficar de pé, lá na porta, na escadinha. Quando subia a turma do colegial, dez ou mais de uma vez, passava em cima de mim, dando pontapés, chutes, empurrões, murros. Num desses dias, uma dona quis me acompanhar até em casa, com muita simpatia e cordialidade. Disse que era perigoso eu me expor nas esquinas das ruas, atravessando na frente dos carros com o sinal aberto. Que esses motoristas são desumanos e incivilizados. Ponderei ser rápida e correr de um carro para o outro driblando-os como se fossem bola de futebol. Faço que vou, o carro breca a aí vou em outra direção. Chegando em casam ele estava na calçada com uma sirigaita com cara de filha da mãe. Fiz que não vi, mas reconheci a risada do telefone. Era da vagabunda ali. Entrei correndo, arranhando os braços na janela e fui direto à geladeira. Testei manter a uva no céu da boca sem apertar. Daquelas uvas chilenas ou argentinas. Uma etapa mais difícil é deixá-la quieta, sem mexer os lábios, até murchar. Tenho tentado. Amanhã ele não sairá a noite. É a surpresa que preparo para os dois: para ele e a menina. Esta, só de me ver chegando, se abraça nas bonecas, esconde atrás da porta do quarto e fica parada sem respirar. Mas não é mais esperta do que eu, que vejo os pezinhos sobrando e piso-os com força, com o corpo todo, até ela sair gritando meu Deus, meu Deus. Com essa brincadeira de esconde-esconde, entrei anteontem no quarto, fingi não vê-la agachada atrás da porta e, então, quando ia saindo, apertei a madeira, espremi, empurrei até a coitadinha desistir de brincar e cair desacordada e esborrachada aos meus pés. A surpresa que preparo é exatamente pra acabar com essa dupla unida dentro de casa. Vou dar banho na menina. Depois, quero ver se ele tem disposição de foder essas cachorras. Esperei que a empregada fosse comprar leite e corri atrás da menina. A barriga pesada e as veias latejando na perna me dificultaram o corre-corre. Consegui arrastá-la pelo chão, puxando-a pelos cabelos até a banheira cheia d'água. Mostrando ser boazinha, enchi a banheira com água bem quente, já que ela tinha medo de água fria. Coloquei-a de sopetão, transbordando a água pelos ladrilhos, até que ela ficou bem quietinha, parada, lá no fundo da água, com os olhinhos castanhos arregalados, paralisados, inertes, sem mexer. Estranhamente sem mexer. Como o filho na barriga.

Maria Amélia Bracks Duarte
Extraído do livro Prêmio Cora Coralina 1986 Contos. Editora CEGRAF - Universidade Federal de Góias, págs - 35 à 37.

 

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