Site Línguas Indígenas Brasileiras, de Renato Nicolai  < knewman@altavista.net >

 

Capítulo 32

LESTE


por Julio Cezar Melatti

Revisto em 28-8-96


Mapa da área

Língua e população

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              O norte do Espírito Santo, o sudeste da Bahia e o nordeste de Minas Gerais fazem uma espécie de "bolsão" que permaneceu mais tempo que o restante da faixa costeira do Brasil imune à ocupação pelos povoadores de origem européia. Os primeiros colonizadores das capitanias de Ilhéus, Porto Seguro e Espírito Santo encon­traram nesta área a resistência dos índios aimorés. A expansão da pecuária pelo vale do rio São Francisco, a exploração dos minerais preciosos em Minas Gerais, os esta­belecimentos agrícolas litorâneos no Recôncavo Baiano e no centro do Espírito Santo foram pouco a pouco apertando o cerco dessa área, de modo que, no decorrer do século XIX tiveram lugar os momentos decisivos de sua ocupação.


A Antropologia na História


              Se um dos objetivos deste nosso Curso é pôr em destaque as questões etnoló­gicas suscitadas pelas diferentes áreas, vale a pena notar que, apesar da parcimônia dos dados, decorrente no número insuficiente de pesquisas, esta área nos coloca um problema interessante, não tanto sobre os indígenas, mas sobre a própria Antropolo­gia. Trata-se do fato curioso de que os índios chamados genericamente de botocudos constituem a única população indígena brasileira não-pré-histórica representada por um significativo número de peças ósseas nos museus. Assim, um trabalho da antropó­loga física Marília Carvalho de Mello e Alvim se apóia em uma amostra de 33 crânios provenientes das províncias do Espírito Santo, Minas Gerais e Bahia do século XIX (Mello e Alvim 1963: 15). Diz-nos a autora que:


           Alguns restos de esqueletos destes índios "Botocudos" mortos pelos civiliza­dos estão hoje em Instituições de pesquisas. Assim, o Museu Nacional do Rio de Janeiro, conforme LACERDA e PEIXOTO [referência bibliográfi­ca], acresceu a sua coleção de alguns crânios provenientes da margem do rio Doce, pertencentes a indivíduos "da tribo dos Potés, mortos em combate por um troço de soldados que faziam guarnição deste lugar". Há também referência à venda de 16 crânios de índios "Botocudos" mortos em embos­cada, em 1846, no sítio do Mariano, a um francês que dizia efetuar a compra dos mesmos por conta do Museu de Paris (: 11).


              Isso nos sugere algumas pistas a serem palmilhadas pela pesquisa: 1) que a pesquisa antropológica tende a acompanhar as frentes de expansão, e o seu tema dominante em cada período são as populações indígenas cujos territórios estão sendo conquistados; 2) que o período da conquista da área em questão coincidia com a implantação da atividade científica no Brasil, inclusive a de caráter antropológico; 3) que o referido período estava marcado pelo desenvolvimento da morfologia compara­da, pelas primeiras teorias da evolução, mas o conceito de cultura ainda não estava definido claramente e os fenômenos biológicos não estavam claramente distinguidos dos culturais; 4) que os museus brasileiros não chegaram a fazer coleções de peças ósseas de outras populações indígenas, não somente devido à diversificação de temas de interesse da antropologia, mas por um aguçamento da visão crítica da maneira como se estabeleciam as relações de contato interétnico.


A questão das denominações étnicas


              O trabalho de Charlotte Emmerich e Ruth Monserrat (1975) é de grande interesse por tentar realizar uma sistematização das denominações étnicas que pairam confusamente sobre esta área. Elas mostram que os indígenas que enfrentavam os europeus a partir dos meados do século XVI no norte desta área, isto é, desde mais ou menos o vale do rio das Contas até o do Jequitinhonha, eram a princípio conhecidos como aimorés. Os chamados crens ou gueréns eram tidos como relacionados aos aimorés. No século XVII, as fontes passam a considerar cren (ou gueren) e aimoré como sinônimos. Em meados do século, cessam o uso do termo aimoré torna-se raro, mas continuam as referências aos crens. Elas começam a desaparecer em meados do século XVIII, com o deslocamento das hostilidades da Bahia para Minas Gerais, e surge a denominação botocudo, agora ao sul do Jequitinhonha. As autoras apontam alguns indícios, uma vez que os dados lingüísticos referentes aos aimorés ou crens são ralos e precários, que permitiriam supor um vínculo entre as línguas dos botocudos, aimo­rés e crens.

              As lutas contra os botocudos e o estabelecimento de relações amistosas com alguns de seus grupos no século XIX coincide com a freqüente presença de naturalis­tas estrangeiros na área, que, além de anotações sobre a fauna e a flora, deixam registros sobre os indígenas e não raro tomam vocabulários. Nomes e mais nomes distinguem os subgrupos botocudos sem, entretanto, que esses vocabulários e demais anotações sejam suficientemente claros, críticos e precisos para que se possa de algum modo chegar aos critérios dessa distinção.

              Enfim, concluem as autoras, após sistematizarem o material lingüístico dispo­nível e o que elas próprias tomaram de três indígenas que ainda lembravam alguma coisa da sua língua indígena, que não se pode dizer com certeza se os vocabulários tomados são amostras de diferentes dialetos de uma única língua botocudo, ou se de diferentes línguas de uma mesma família botocudo.


Frentes de expansão


              Se os antigos aimorés ou crens (guerens), empurrados pela expansão dos colonos, se deslocaram de norte para sul, passando a ser conhecidos como botocudos, por outro lado, conforme Marcos Magalhães Rubinger (1980), uma frente mineradora avançou no século XVIII pelos altos cursos dos rios Pardo e Jequitinhonha, dizimando e incorporando a população indígena, inclusive como milícia; os que conseguiram escapar, deslocaram-se para leste. Entre eles estariam os maxacalis, que ocuparam vários pontos desta área até ficarem nos locais em que hoje se encontram. Este aperto do cerco aos índios provocou choques não somente dos índios com os brancos, mas também dos próprios grupos indígenas entre si.

              De qualquer modo, ainda falta um trabalho que integre todas as informações parciais dos avanços das frentes nesta área, as mineiras, as baianas, as capixabas, de modo a se ter uma visão de conjunto.

              O trabalho de Maria Rosário de Carvalho sobre os pataxós, que é o mais extenso e elaborado de todos os que se produziram até aqui com referência a um grupo desta área, não trata propriamente das frentes, mas constitui-se numa monogra­fia sobre o sistema econômico dos atuais habitantes da aldeia de Barra Velha, junto ao Monte Pascoal, no sul da Bahia.


Periféricos


              No norte de Minas Gerais, na margem esquerda do São Francisco, estão os índios xacriabás, que outrora falaram a língua acuen, a mesma dos xavantes e dos xerentes. Seu passado sugere que sejam incluídos na mesma área em que estão os demais jês centrais. Como, entretanto, estão relativamente mais próximos dos grupos que constituem o núcleo da área que estamos agora tratando, nela foram incluídos.>

              Vale lembrar também que nesta área estão presentes alguns guaranis, aí chegados recentemente.



BIBLIOGRAFIA


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ALMEIDA MARCATO, Sonia de. 1980. "O indigenismo oficial e os Maxakali (séculos XIX e XX)". Em Índios Maxakali: resistência ou morte (Marcos Magalhães Rubinger, Maria Stella de Amorim & Sonia de Almeida Marcato). Belo Horizonte: Interlivros. pp. 119-199.

AMORIM, Maria Stella de. 1980. "Os Maxakali e os brancos". Em Índios Maxakali: resistência ou morte (Marcos Magalhães Rubinger, Maria Stella de Amorim & Sonia de Almeida Marcato). Belo Horizonte: Interlivros. pp. 98-117.

CARVALHO, Maria Rosário G. de. 1977. Os Pataxó de Barra Velha: seu subsistema econômico. Disser­tação de mestrado pela Universidade Federal da Bahia (dat.).

EMMERICH, Charlotte & Ruth MONSERRAT. 1975. "Sobre os Aimorés, Krens e Botocudos. Notas Lingüísticas". Boletim do Museu do Índio, Antropologia 3. Rio de Janeiro: FUNAI.

MELLO E ALVIM, Marília Carvalho de. 1963. "Diversidade Morfológica entre os índios `Botocudos’" do leste brasileiro (século XIX) e o `Homem de Lagoa Santa’". Boletim do Museu Nacional, Antro­pologia 23. Rio de Janeiro.

MOREIRA SANTOS, Ana Flávia. 1997. Do Terreno dos caboclos do Sr. São João à Terra Indígena Xakriabá: As circunstâncias da formação de um povo. Um estudo sobre a construção social de fronteiras. Dissertação de mestrado. Brasília: UnB-ICS-DAN.

PALAZZOLO, [Frei] Jacinto. 1945. Nas selvas dos vales do Mucuri e do rio Doce. Como surgiu a cidade de Itambacuri. Petrópolis: Vozes.

PARAÍSO, Maria Hilda B. 1992. "Os Botocudos e sua trajetória histórica". Em História dos índios no Brasil (Manuela Carneiro da Cunha, org.). São Paulo: Companhia das Letras, FAPESP e Secre­taria Municipal de Cultura. pp. 413-430.

RUBINGER, Marcos Magalhães. 1980. "Maxakali, o povo que sobreviveu: estudo de fricção interétnica em Minas Gerais". Em Índios Maxakali: resistência ou morte (Marcos Magalhães Rubinger, Maria Stella de Amorim & Sonia de Almeida Marcato). Belo Horizonte: Interlivros. pp. 9-97.


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FREIRE, Carlos Augusto da  Rocha. “Tupiniquim”. http://www.socioambiental.org/website/epi/tupiniq/tupiniq.htm.  Verbete para a futura Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil. São Paulo: Instituto Socioambiental.

PARAISO, Maria Hilda Baqueiro. "Krenák": http://www.socioambiental.org/website/epi/krenak/krenak.htm. Verbete para a futura Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil. São Paulo: Instituto Socioambiental.

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