Site Línguas Indígenas Brasileiras, de Renato Nicolai  < knewman@altavista.net >

 

Capítulo 31

PLANALTO MERIDIONAL BRASILEIRO


por Julio Cezar Melatti

Revisto em 15-11-97


Mapa da área

Língua e população

Diversidade caingang

Dispersão dos jês

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              Esta área, a que Eduardo Galvão deu o nome de Tietê-Uruguai, é primordial­mente dos jês meridionais, isto é, os caingang e os xocleng. Inclui também os ofaiés, hoje muito reduzidos, junto ao rio Paraná, no Estado do Mato Grosso do Sul, e ainda incluiria os otis, da outra margem do mesmo rio, no Estado de São Paulo, que, como grupo, se extinguiram no início do presente século, não obstante a existência de um ou outro descendente nos postos da área. Ofaiés e otis, tal como um ramo dos acuéns da área Tocantins-Xingu (Capítulo 30), eram também chamados de xavantes. Além disso, o Planalto Meridional mostra uma marcada presença guarani (tornando-se quase que uma sub-área da área Médio Paraná), sem dizer de índios, como terenas, cadiuéus, e até do nordeste brasileiro, que para aí migraram, espontaneamente ou não, devido à presença dos postos indígenas do antigo SPI e atual FUNAI.

              Como atualmente os índios da área vivem sob a administração direta de postos indígenas, em casas de alvenaria, de madeira e, mesmo quando choças, seme­lhantes às dos sertanejos pobres, vestidos como os brancos, e, além da roça de subsis­tência, trabalhando em empreendimentos promovidos pela FUNAI ou em fazendas vizinhas das reservas, torna-se pouco visível, num primeiro e superficial exame, o que possa haver de indígena nessas populações. Tal situação certamente influiu no caráter dos estudos etnológicos desenvolvidos nesta área, que dão primazia ao contato inter­étnico, seja a relação atual índios/brancos ou entre índios de diferentes etnias numa determinada reserva, seja uma reconstituição histórica da ocupação de um território indígena pelos civilizados. Nos poucos casos de estudos de um sistema sócio-cultural indígena, a reconstrução do passado tem preferência sobre o presente.

              Os caingang se distribuem no planalto Meridional desde o Estado de São Paulo até o do Rio Grande do Sul. Já os xocleng têm uma distribuição menos ampla, que se resume às encostas orientais do mesmo planalto em Santa Catarina. Talvez por isso se tenha destes últimos uma visão de conjunto ainda não lograda para os primeiros. Assim, Sílvio Coelho dos Santos (1973) fez a história do penoso processo de contato dos xocleng até sua localização em reservas, na segunda década deste século, processo este vinculado à aquisição de terras por colonos europeus, que chega­ram mesmo a financiar tropas de bugreiros, isto é, homens armados especializados em aniquilar grupos indígenas.

              Além disso, Jules Henry (1964) publicou pela primeira vez em 1941 os resul­tados da pesquisa que realizou entre os xocleng no início da década anterior. Escri­to em inglês, este trabalho deu a conhecer os xocleng a nível internacional (mas inadequadamente com o nome de caingang), e permitiu a George P. Murdock colocá-los entre as 250 sociedades indígenas mais conhecidas de sua amostra mundial, que serviram de base para escrever seu livro Social Structure (Nova Iorque: MacMillam, 1949), que é talvez o principal exemplo de aplicação do método "cross-cultural". Uma das coisas que mais chamavam a aten­ção nos dados de Henry era a presença simultânea entre os xocleng de monoga­mia, poliginia, poliandria e casamento grupal. De orientação mais psicológica, Henry não conseguiu dar uma idéia do sistema social xocleng, que ficaram como exemplo de amorfismo social.

              Mais recentemente, Gregory Urban (1978) reestudou os xocleng, de modo a resgatar o caráter sistêmico de sua organização. Henry os havia descrito tal como os viu no início dos anos 30. Urban foi à procura de um subgrupo que ainda estaria isolado, conforme era admitido pela imprensa e até no meio dos antropólogos. Não tendo sido encontrado tal sub-grupo, Urban procurou reconstituir junto aos xo­cleng das reservas o seu sistema social no tempo imediatamente anterior ao contato amistoso. E assim produziu sua tese, um trabalho extremamente formal em que o modelo da sociedade xocleng é apresentado através de axiomas e teoremas. Uma das contribuições mais importantes de seu trabalho é a comparação que faz dos xo­cleng com as outras sociedades jês. Segundo Urban, a sociedade que deu origem às atuais sociedades jês teria sofrido uma primeira cisão que teria originado os jês meri­dionais, de um lado, e os demais jês de outro. Os jês meridionais se separaram em caingang e xocleng; os demais se separaram em jês centrais (xavantes, xerentes) e jês setentrionais (timbiras, caiapós, suiás). Grupos de descendência patrilinear exis­tentes na sociedade original teriam se mantido na primeira cisão; mas na segunda cisão, esses grupos teriam se mantido num dos ramos (caingang, jês centrais), mas não no outro (xocleng, jês setentrionais). Observa também Urban que a transmis­são de nomes se faz entre adultos e imaturos no caso dos jês centrais e do norte, mas entre mortos e imaturos vivos, no caso dos jês do sul.

              Já os caingang, mais numerosos e ocupando uma área mais vasta que os xocleng, foram estudados nos Estados de São Paulo (Montagner 1976), Paraná (Vieira Helm 1977), Santa Catarina (Coelho dos Santos 1970) e Rio Grande do Sul (Becker 1976, Simonian 1981 e 1993), com enfoques diversos, mas sempre voltados para o contato. Entretan­to, ainda não existe um trabalho que dê um tratamento geral a todos os caingang, nem no que se refere ao contato interétnico, nem quanto ao sistema sócio-cultural.

              Quanto ao contato intertribal, o trabalho mais elaborado é o desenvolvido na tese de mestrado de Maria Lígia Moura Pires, publicada de maneira condensada (Moura Pires & Ramos 1980), no qual estuda as relações hierárquicas que se estabele­cem no posto indígena de Mangueirinha, no Paraná, entre brancos, mestiços, caingan­g e guaranis.

              Como já dissemos, nesta área ainda se incluem os ofaiés. Curt Nimuendaju trabalhou na sua atração em 1912-13; os que então já estavam em contato eram em número de 82. Na passagem do século XIX para o XX sua vida nada valia diante dos fazendeiros que, partindo de Nioac, faziam a ocupação das terras na direção do rio Paraná. Em 1948, Darcy Ribeiro (1979) colheu algumas informações etnográficas de dez ofaiés próximo à margem direita do rio Paraná. Hoje, conforme as informações do último quadro deste capítulo, essa população é sete vezes maior. Do outro lado do Paraná, no Estado de São Paulo, estavam os otis, dos quais Baldus (1954) também dá notícia.


Etapas da ocupação do Planalto Meridional


              Sem querermos recuar até os primórdios da ocupação das terras altas irrigadas pelos afluentes da margem esquerda do rio Paraná podemos lembrar que foram ocupadas pelos habitantes das casas-poço. Essas casas, pertencentes à tradição Taquara-Itararé, ou, para usar o termo que tem precedência, dos arqueólogos argentinos, Eldoradense, consistiam de uma escavação circular cujo piso podia alcançar até cerca de dois metros abaixo do nível do solo, coberta por um teto cônico sustentado por um poste central e cujos caibros inclinados não se assentavam diretamente sobre o solo, mas em estacas verticais, deixando um espaço entre o beiral e o solo, que poderia ficar aberto para ventilação ou, quando necessário, ser fechado. Essas casas se edificavam em grupos, havendo delas versões maiores que podem estar associadas a um período mais recente ou a diferentes funções, como rituais, por exemplo. Também a elas estão associadas plataformas de terra, sobre as quais há vestígio de fogo, galerias subterrâneas e muros. Nelas se encontram evidências do consumo de pinhões, milho e do uso de cabaças. A julgar pelas datas extremas até agora encontradas, essa tradição floresceu entre 140 (apogeu do Império Romano) e 1790 (tempo da Revolução Francesa) de nossa era. Por conseguinte, o período colonial já ia avançado quando ela desapareceu. Há, pois, uma grande possibilidade de que os homens que viveram sob essa tradição tenham sido ancestrais dos caingang e dos xocleng. Se aquele modo de vida vigorou até pouco mais de duzentos anos atrás, pode até acontecer de virem a ser encontrados registros documentais que façam a sua conexão com grupos indígenas do presente, apesar de nada terem guardado daquelas características culturais. O arqueólogo André Prous (1992: 310-333) elaborou uma excelente sinopse da tradição Taquara-Itararé.

              Nos primórdios da colonização européia, o litoral sul brasileiro era habitado pelos carijós, que constituiam um ramo dos guaranis. A guerra que lhes moveram os colonizadores portugueses, o seu arrebanhamento como escravos e a propagação de moléstias desconhecidas até então neste continente extinguiram em pouco tempo com essa população indígena. Enquanto os guaranis da costa eram dizimados, o mesmo acontecia com aqueles que estavam mais perto do rio Paraná nas missões jesuíticas, atacados pelos bandeirantes paulistas em busca de escravos. Mas os preadores de índios não se interessaram pelos guaianases, habitantes das terras altas, da área que aqui nos interessa. Há quem os tome por ancestrais dos caingang. Capistrano de Abreu (1975: 15-16), entretanto, em sugestivo bosquejo dos guaianases de São Paulo, se mostra descrente quanto a essa identificação.

              Se é impossível relacionar com certeza moradores das casas-poço e guaianases com os indígenas atuais, os índios do Planalto Meridional conhecidos a partir do século XVIII como coroados e botocudos são de fato, respectivamente os caingang e os xocleng. Uns chamados coroados devido ao corte do cabelo a lembrar a coroa de frade; outros, botocudos, por causa do batoque labial. Durante o século XVIII e a primeira metade do XIX os caingang mais meridionais (do sul do Paraná, oeste de Santa Catarina, noroeste do Rio Grande do Sul) farão gradativamente o contato com os brancos. Posteriormente, no final do século XIX e início do XX é que entrarão em contato os caingang mais setentrionais (norte do Paraná e sul de São Paulo) e os xocleng.

              A conquista da parte sul do Planalto Meridional se faz através de um caminho que se abriu no século XVIII que ligava Sorocaba, Curitiba, Lajes (que então se fundou), Porto Alegre. Através desse caminho, os criadores do sul abasteciam de bovinos e muares os paulistas que se dirigiam para as minas. A julgar pelo mapa de Coelho dos Santos (1973: 36), esse caminho cortava ao longo do território xocleng, que então se estendia desde os arredores de Curitiba, às vizinhanças de Porto Alegre, abrangendo tanto o topo quanto o sopé do planalto. O trânsito e os novos estabelecimentos estimulados por esse caminho acabam por fazer com que os xocleng se retirem do topo para as encostas do planalto, sem que se criem relações amistosas com os invasores. Por outro lado, no mesmo século, os criadores de gado vão avançando pelos campos limpos que entremeavam a floresta onde predominavam os pinheiros do Paraná, ocupando assim os campos de Curitiba, Guarapuava, Palmas, até alcançar o noroeste do Rio Grande do Sul. Nessa expansão, vão estabelecendo relações amistosas com certos grupos caingang que os ajudam contra outros. Assim, nos meados do século XIX, os caingang da araucária e dos campos limpos já estão todos dominados.

              Restavam os caingang da floresta tropical do sul de São Paulo e noroeste do Paraná e os xocleng da floresta sub-tropical das encostas do planalto. Em ambos os casos se usou para com os índios de extrema violência. Os caingang estavam numa região de expansão da lavoura comercial do café, fato agravado com a construção da estrada de ferro Noroeste do Brasil (Bauru-Corumbá). Também os caingang do norte do Paraná resistiram até por volta de 1924; nos anos 70 do século XIX havia um projeto de passar por aí uma estrada de ferro que ligaria Paranaguá ao Peru e que a resistência indígena fez abandonar (Mota 1994: 158-169). Seria tal projeto um precursor da ferrovia Noroeste (hoje Novoeste)?

              Numa das áreas cedidas a companhias colonizadoras para assentar imigrantes viviam os xocleng. Os conflitos se agravaram a partir dos meados do século XIX, quando o assentamento já se fazia em pleno âmago do território xocleng. As denúncias e também as defesas do extermínio dos índios veiculadas pela imprensa, primeiro regional, depois nacional, contribuíram, entre outros fatores, para a criação do Serviço de Proteção aos Índios, em 1910, que é a agência que conseguirá fazer o contato pacífico tanto em São Paulo quanto em Santa Catarina com os indígenas que ainda restavam.


Aspectos culturais dos jês meridionais


              Ursula Wiesemann, pesquisadora do Summer Institute of Linguistics (hoje Sociedade Internacional de Lingüística), que se dedicou ao estudo da língua caingang, admite que ela se manisfesta através de quatro dialetos: o de São Paulo, o do Paraná, o do Sul e o xocleng (Wiesemann 1964: 315, nota 3). Posteriormente, no prefácio de seu dicionário da língua caingang, ordenou-os de um modo ligeiramente diferente: o de São Paulo (ao norte do rio Paranapanema), o do Paraná (entre o Paranapanema e o Iguaçu), o central (entre o Iguaçu e o rio Uruguai), o do sudoeste (ao sul do rio Uruguai, a oeste do rio Passo Fundo) e o do sudeste (ao sul do rio Uruguai, a leste do rio Passo Fundo) (Wiesemann 1981). Nesse prefácio não faz referência ao xocleng, não deixando explícito se a sua omissão se devia à não inclusão desse dialeto no dicionário ou se passara a considerá-lo uma língua distinta.

              Hoje, vivendo em pequenas reservas, controladas por postos, nas quais também estão presentes índios guaranis, um ou outro índio do nordeste, brancos casados com índios, descendentes desses casamentos mistos, trabalhando para proprietários fora da reserva, para arrendatários dentro da própria reserva, para madeireiros e, quando possível, nas suas próprias roças, tanto os caingang quanto os xocleng pautam sua conduta por padrões bem distantes daqueles que os orientavam antes do contato. De qualquer modo, qualquer reconstituição desse modo de vida anterior que a memória dos índios atuais ou a documentação escrita venham a permitir, tem de ser datada. Os xocleng, por exemplo, antes de sua fixação em postos, já não viviam como em tempos mais remotos: a necessidade de deslocamentos constantes para escapar a seus perseguidores, tinham-nos feito abandonar a agricultura.

              Ítala Irene Basile Becker (1976) dedicou-se a uma trabalhosa e muito útil compilação de dados históricos referentes aos caingang do Rio Grande do Sul. Entretanto, omitiu-se de uma crítica dos mesmos e de tentar ela própria uma interpretação. Mesmo que o tivesse feito, será que poderíamos estender uma reconstituição do sistema sociocultural caingang do Rio Grande do Sul para os demais, até São Paulo? É muito provável que houvesse diferenças, mesmo que pequenas, entre os caingang que viviam na floresta com predominância do pinheiro e aqueles que moravam na floresta tropical, mais ao norte.

              Jules Henry fez pesquisa entre os xocleng desde o final de 1932 até o início de 1934, por conseguinte 19 anos depois do primeiro contato amistoso do SPI com um de seus grupos. Nenhum pesquisador com formação antropológica esteve com eles mais cedo assim como nenhum outro, malgrado um significativo número de cronistas, estudou os caingang com esse tempo de contato. Por isso, suas informações sobre os xocleng são muito valiosas. Estudou-os já fixados numa reserva, mas num tempo em que os lotes dos colonos ainda não tinham chegado às vizinhanças da mesma, de modo que podiam fazer expedições de caça e abater animais grandes, como a anta. Também pôde conversar com índios xocleng que tinham sido fixados no posto do SPI em idade madura. Recolheu também muitas informações do passado podendo ordenar mais ou menos num período de dois séculos os protagonistas dos relatos ajudado pelas genealogias. Conforme Henry, os xocleng na época logo anterior ao contato viveriam agrupados em famílias extensas de 50 a 300 indivíduos. Talvez o termo família extensa não seja o mais apropriado, uma vez que a maioria dos casamentos se faziam dentro dela. As relações entre os membros de cada uma dessas famílias era de grande solidariedade e marcada por um esforço em evitar quaisquer conflitos, sendo por outro lado altamente agressivas as relações entre tais famílias. Elas constituiriam, por conseguinte, grupos locais autônomos. Dentro de cada um desses grupos era possível a poliginia, poliandria, o casamento grupal, além das uniões monogâmicas. As restrições do incesto estavam reduzidas ao mínimo, sendo evitadas as uniões com genitores e irmãos. Ceifados continuamente pelos conflitos entre seus próprios grupos locais, por ataques caingang e pelos assaltos dos bugreiros brasileiros, havia sempre a necessidade de acomodar novas uniões para os viúvos e viúvas de modo que tanto eles como os jovens que chegavam à idade de casar não deixassem o grupo para procurar cônjuge em outro. Desse modo, uma mulher poderia convidar um outra para ajudá-la nos cuidados com seus vários maridos, transformando assim a relação poliândrica em casamento grupal. Um homem poderia permitir a seu filho o acesso à madrasta. Um genro poderia vir a ter acesso à sogra.

              É certo que os xocleng se dividiam em cinco grupos, cada qual com seu elenco de nomes pessoais e com a sua pintura de corpo. Esta se constituia de modos diferentes de traçar o círculo, para três grupos, e variações no traço de linhas verticais, para os outros dois. Entretanto, tais grupos não guardavam nenhuma regra unilinear e seus desenhos corporais tinham como único objetivo afugentar as almas dos mortos (Henry 1964: 175-7).

              Já os caingang estavam divididos em metades exogâmicas patrilineares, como deixa claro Nimuendaju (1993a), que deve se ter fundamentado sobre seus dados de São Paulo e do norte do Paraná, tomados por volta de 1913, e também Baldus (1979), que esteve no sul do Paraná em 1933. Ursula Wiesemann (1964), nos meados do século XX, mostrou como os caingang de um posto do Paraná e de outro do Rio Grande do Sul ainda mantinham, com adaptações, sua afiliação a metades, mesmo de mestiços. Uma das metades usava traços verticais na pintura de corpo; a outra, pontos. Além de lembrar a dos xocleng quanto à forma, a pintura de corpo caingang, também se assemelhava àquela no que tange às relações entre vivos e mortos, pois era nas visitas ao cemitério que era usada (Nimuendaju 1993a: 61). Nimuendaju também chama a atenção para as diferenças psíquicas e físicas que simbolicamente os caingang associavam a cada metade: os membros de uma, de corpo fino, peludo, ligeiros nos movimentos e nas resoluções, cheios de iniciativa, mas pouco persistentes; os da outra, corpulentos, de pés grandes, movimentos e resoluções vagarosos. Assim, nos ataques guerreiros, os primeiros iam na frente, mas os segundos é que sustentavam a luta. As metades se dividiam em grupos menores, sobre os quais as informações são mais fragmentárias. Conforme Wiesemann (1960: 180-1), a criança, logo ao nascer, recebe os nomes de um ancestral de sua metade. A pessoa que recebe mais de dois nomes se distingue das que recebem até dois por certos poderes mágico-rituais.

              É difícil saber se os caingang se distribuiam no passado em grupos locais autônomos e de tendência endogâmica e no mais das vezes hostis entre si, tal como os xocleng. É curioso como diferentes autores dão uma grande importância aos chefes desses grupos de composição desconhecida, enumerando-os por seus nomes e apresentando as informação disponíveis sobre cada um em São Paulo (Montagner 1976: 87-91), no Paraná (Mota 1994: 207-255), no Rio Grande do Sul (Becker 1976: 124-131). Becker (1976: 112), apoiada em autores do passado, fala na existência de um cacique geral e em caciques subordinados. Não sabemos até que ponto uma crítica mais rigorosa das fontes sustentaria a existência dessa hierarquia; além disso, mesmo que se viesse a confirmar a existência de um cacique geral, certamente sua jurisdição não se estenderia sobre todos os caingang, de São Paulo ao Rio Grande do Sul; ele haveria de ser forçosamente um cacique regional.


Vida nas reservas indígenas


              Atualmente os jês meridionais vivem em pequenas áreas indígenas administradas por postos da FUNAI, que sucedeu ao SPI. Algumas dessas áreas foram alvo de estudos das relações entre os índios como moradores de reserva, como Icatu (SP) e Vanuíre (SP) por Delvair Montagner (1976); Apucarana (PR) por Cecília Vieira Helm (1977); Mangueirinha (PR) por Maria Ligia Moura Pires (1975 e, em co-autoria com Ramos, 1980); Xapecó (SC) por Sílvio Coelho dos Santos (1970), Ibirama (SC) por Sílvio Coelho dos Santos (1970) e Alexandro Namem (1994). A última dessas reservas é dos xocleng; as demais, dos caingang. Mas vale notar que na maioria delas há também brancos casados com índios, filhos desses casamentos, índios guaranis e um ou outro índio de áreas mais distantes. O trabalho de Moura Pires teve o mérito de mostrar a hierarquia que ordena de cima para baixo brancos, mestiços, caingang e guaranis em Mangueirinha. Namem mostrou hierarquia semelhante instalada em Ibirama. Mas não há informações disponíveis que permitam estender tal hierarquia para as outras reservas do Planalto Meridional. Dada a inexistência de um trabalho geral sobre os caingang, apresentamos aqui um quadro, ainda em elaboração, que inclui as pequenas reservas onde eles vivem, as características da vegetação original em que estão situadas, a distribuição dialetal e os pesquisadores que nelas estiveram.

              Em Ibirama, os xocleng ficaram de 1914 a 1954 sob a direção do funcionário que havia finalmente feito sua atração pacificamente e que se esforçou por manter o contato com os brancos sob controle. O trabalho de Jules Henry mostra que, nos primeiros anos da década de 1930, a reserva era coberta de floresta e era possível fazer expedições de caça de semanas de duração; animais grandes como a anta não eram de nenhum modo raros. De 1954 a 1964, os xocleng exploraram o palmito da reserva vendendo-o a firmas destinadas a sua comercialização, até extingui-lo completamente. Veio depois a exploração da madeira e tentativas de colonos de se instalarem na reserva, culminando com a enchente de parte da mesma com uma das barragens de contenção das cheias do rio Itajaí. Em Apucarana e Xanxerê, os caingang tiveram boa parte das terras da reserva arrendadas a cultivadores civilizados, diminuindo sua área de cultivo e obrigando-os a trabalharem para os próprios arrendatários ou para cultivadores fora da reserva.

              De um modo geral, a vida nas reservas se rege sob o olhar paternalista do chefe de posto, que dá suas ordens a chefes indígenas nem sempre escolhidos pelos índios, disciplinados pela polícia indígena. Cultos evangélicos, rezas do catolicismo popular, jogos de futebol, bailes e festas de aniversário, substituem a antiga vida ritual. Um dos ritos, por exemplo, a festa de Kiki, foi proibido logo no início dos trabalhos do SPI em São Paulo e norte do Paraná, para evitar a concentração de índios convidados de outras reservas, que geralmente resultavam em surtos de moléstias contagiosas.



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