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Capítulo 29
ALTO XINGU
por Julio Cezar Melatti
Revisto em 3-9-96
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Esta área é tomada como tal há muito tempo. Suas sociedades indígenas, antes de serem referidas como tupis, jês, aruaques, caribes, são chamadas xinguanas. A começar por Karl von den Steinen, o primeiro a ter contato com as sociedades que aí vivem e o primeiro a escrever sobre elas, os pesquisadores mais antigos preferem descrevê-la como um todo, antes que abordar apenas uma só sociedade.
História recente do alto Xingu
Egon Schaden (1965), ao fazer um balanço das questões relativas à aculturação no alto Xingu, dá paralelamente uma boa idéia de sua história recente, isto é, dos tempos de Karl von den Steinen em diante. Schaden escreveu seu texto justamente no momento em que a etnologia do alto Xingu iria mudar de feição, ou seja, passar dos trabalhos gerais para as descrições monográficas de sociedades particulares. O que Schaden deixa entrever é o fundo conflituoso sobre o qual se instauram as instituições xinguanas que promovem as relações pacíficas intertribais. Mostra como os trumais eram uma sociedade forte e respeitável, quando dominava o local de onde extraía o diabásio, de que fabricava os machados de pedra que trocava com outra sociedades. Indica como os suiás combateram os trumais e liquidaram com seu poder, tomando-lhes o sítio de onde tiravam a matéria-prima de seus machados. Os camaiurás, por sua vez, sob cuja proteção os trumais se colocaram, casaram-se com suas mulheres mais jovens. Os trumais, daí por diante nunca mais recuperaram o prestígio diante das demais sociedades da área. Se o esforço dos suiás foi no sentido de tomar para si o sítio do diabásio, isso de pouco lhes valeu, pois a expedição de Karl von den Steinen e as que a seguiram introduziram os instrumentos de ferro, que competiram vitoriosamente com os de pedra. Os suiás, combatidos por outros grupos xinguanos, também tiveram seu poder e população drasticamente reduzidos. Sua recuperação, conforme mostra um artigo de Anthony Seeger, somente se fez quando foram introduzidos no Parque do Xingu, pela mão dos sertanistas, os tapaiúnas, um ramo há muito separado dos suiás, que vivia mais para oeste.
Durante muito tempo o alto Xingu foi uma área quase somente visitada por pesquisadores, que aí chegavam por terra, como Max Schmidt, Kalervo Oberg e outros, fazendo aproximadamente o mesmo caminho que fizera Karl von den Steinen. Com a "marcha para oeste", ação política iniciada no Estado Novo (Rocha 1992) nos anos quarenta, se cria a Fundação Brasil Central e uma assistência permanente aos índios do alto Xingu. Mas a entrada de estranhos na área continua controlada, pois agora ela passa a ser alcançada pelos aviões da FAB. Só recentemente é que essa penetração se faz por terra, com a abertura da primeira estrada que cruza a área e com aproximação das agro-pecuárias.
Se a constante ameaça dos jês circum-vizinhos, cujos representantes mais visíveis eram então os suiás, constituía no passado, conforme sugere Egon Schaden, um dos principais motivos que fazia os xinguanos procurarem o bom entendimento entre si, no presente são os jês do norte, na figura dos mentuctires ou txucahamães, que introduzem os xinguanos na reivindicação de seus direitos perante a lei brasileira.
Articulações xinguanas
É sempre lembrado que Eduardo Galvão chamou o alto Xingu de "área do uluri", nome de um artefato usado pelas mulheres de todas as sociedades xinguanas propriamente ditas. Os suiás, por não disporem de uluri, não seriam propriamente xinguanos. Essa denominação é mais do que simplesmente curiosa, porque revela uma orientação da antropologia de uma época. De fato, a procura de pelo menos um artefato partilhado por todos os grupos da área revela a tendência a tomar como principal resultado do contato a uniformização.
Entretanto, tal como não raro acontece em outras áreas de contato intertribal, as sociedades xinguanas como que tendem se especializarem cada qual na confecção ou extração de um determinado item, de modo a poderem realizar trocas entre si. Ou seja, para manterem relações entre si têm de se fazer diferentes em algo. Assim, os uaurás confeccionam peças de cerâmica; os camaiurás, arcos de madeira preta; os cuicúrus e calapalos, colares de caramujo; os uaurás e trumais, sal (cloreto de potássio) do aguapé; os mehinácus dispõem de instrumentos de ferro e miçangas, obtidos através dos bacairis, índios saídos da área xinguana. Isto, num determinado momento, como viu Galvão (1979: 82), cuja fase de pesquisa coincide com o início da assistência governamental aos índios da área. Tais especializações não são permanentes: já se comentou que os suiás tomaram a jazida de diabásio dos trumais; os mesmos suiás foram filmados por Harald Schultz extraindo sal de aguapé. O diário de Berta Ribeiro (1979), que percorreu o Parque do Xingu de sul para norte, dá uma boa idéia da variedade de situações na área. Um outro modo de visualizá-las é através do vídeo "Xingu", de Washington Novaes.
Rafael Bastos (1983) elaborou um modelo que procura dar conta da articulação entre as diferentes sociedades, fazendo uso de uma classificação proposta por elas próprias e do processo que a anima. Assim, distingue os xinguanos, que são os membros daquelas sociedades que vivem há mais tempo na área e partilham de uma série de itens em comum, que as fazem semelhantes (a mesma forma de casas, a gaiola do gavião real, a mesma forma da aldeia, a mesma preferência pelo peixe e evitação da carne, o mesmo corte de cabelo, os mesmos ornamentos, o uluri, os mesmos ritos intertribais — kwarúp, iawarí, moitará — etc.), dos xingüeses, isto é, aqueles que entraram na área mais recentemente por iniciativa própria ou levados pelos sertanistas: os suiás — que não são tão recentes assim —, os jurunas, os txicãos, os panarás, os caiabis, os tapaiúnas, os mentuctires (ou txucahamães, um ramo dos caiapós). Essa distinção está, como lembra Rafael Bastos, na própria mitologia. Xinguanos e xingüeses constituem os xingüenses, os quais, junto com os representantes da sociedade brasileira na área (sertanistas, professores, militares, profissionais da saúde, administradores etc.), formam a sociedade xinguara. Além disso, se os xingüeses tendem a adotar itens culturais e participar dos rituais dos xinguanos mais antigos, passando assim por um processo de xinguanização, ao mesmo tempo os xingüenses como um todo passam por um processo de desxinguanização, induzido pela presença dos representantes da sociedade brasileira e pelos novos problemas suscitados pela aproximação das frentes de expansão. Ainda lembra Rafael Bastos, numa área onde cada sociedade tem sua língua, que o ritual é que se constitui na linguagem que permite a comunicação entre todos.
Patrick Menget (1993), num trabalho sobre os xinguanos propriamente ditos, chama a atenção para três importantes aspectos. Em primeiro lugar, constata, através do exame da sua história nos últimos cem anos, que os alto-xinguanos, apoiando-se mutuamente, desenvolveram uma sistemática política de neutralização e atração dos grupos indígenas periféricos e hostis, valendo-se de incursões vingadoras de ataques sofridos, rapto de mulheres, apropriação de mulheres de grupos colocados em estado de inferioridade até tenderem para uma reciprocidade equilibrada. Com esse procedimento conseguiram chegar à atualidade menos reduzidos do que aqueles que inicialmente os atacavam, como os suiás, txicãos ou os extintos iarumas.
Em segundo lugar, Menget considera três importantes rituais que associam obrigatoriamente a comunidade que toma a iniciativa com pelo menos uma comunidade vizinha como a figurarem o conjunto das comunidades locais: o kwarúp, que homenageia um chefe falecido recentemente, homenagem que se estende a outros falecidos recentes; o yawarí, a propósito de mortos mais antigos; e a iniciação dos rapazes, feita depois do kwarúp (a das moças termina neste rito). As relações de aliança, a oposição entre ferocidade guerreira e reciprocidade regrada, a construção da pessoa xinguana, estão implicadas nesses ritos, que sublinham as articulações entre as comunidades. Aliás, um livro que dá uma boa idéia do caráter articulador dos ritos xinguanos é o que Pedro Agostinho (1974) escreveu sobre o Kwarúp (Kwarìp na sua grafia). Descrevendo a realização desta cerimônia funerária, entre os camaiurás, ele mostra como ela se relaciona com a mitologia, com a origem dos homens, a classificação hierárquica dos habitantes da aldeia, com a iniciação das jovens, com as relações entre as aldeias. Livro que alia uma redação agradável a uma sólida orientação antropológica vem a ser um ótima introdução à problemática xinguana. Sobre o Kwarúp Heinz Forthmann produziu um filme documentário que pode ilustrar bem a descrição do referido livro. O mesmo cineasta produziu um outro filme com o título "Jornada Kamayurá".
Em terceiro lugar, Menget examina o papel dos chefes tão em evidência nesses ritos. Apesar do status de chefe ser hereditário, apesar de passar através de pai e de mãe, apesar de atribuído tanto a homens quanto a mulheres, apesar de 30% dos membros de uma comunidade poderem gozar desse status, somente uns poucos indivíduos do sexo masculino que disponham das habilitações necessárias chegam a exercer o papel.
Ecologia
Dois interessantes artigos de Robert Carneiro (1960 e 1961) sobre a agricultura dos cuicúrus, muito citados, mas nunca traduzidos para o português, marcaram época na Antropologia por mostrarem que a mudança de local da aldeia entre as populações que praticam a agricultura de derrubada-e-queimada não tem de estar necessariamente ligada ao esgotamento do solo. Carneiro mostrou que os cuicúrus, com a população que tinham, a área que derrubavam cada ano para cultivo, o tempo necessário para a recomposição da floresta no alto Xingu, a distância que os cultivadores tinham de percorrer diariamente para trabalhar na roça, podiam permanecer indefinidamente na mesma aldeia, sem problema com falta de alimentos. Se as aldeias se mudavam de um lugar para outro depois de uma permanência de poucos anos, devia-se a outros motivos. Ele chegou mesmo a elaborar uma interessante fórmula que pode ser aplicada aos dados de outras sociedades.
Pesquisadores posteriores foram refinando o cálculo de Carneiro. Ele tinha levado em conta apenas a produção agrícola, e sobretudo de mandioca. Os outros autores levaram em consideração também a necessidade de proteínas e, por conseguinte, passaram a levar em conta a população dos animais de caça (o que, no caso dos xinguanos propriamente ditos, não se aplica) na área passível de ser percorrida pelos caçadores, as quantidade de peixe dos rios, os vegetais coletados, e assim por diante.
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