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Capítulo 27

MAMORÉ


por Julio Cezar Melatti

Revisto em 2-12-96


Mapa da área

Língua e população

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              Na página 40 da primeira edição do Atlas Histórico Escolar, publicado em 1960 pelo então Ministério da Educação e Cultura, há um mapa sumário das missões religiosas na América do Sul no período colonial, onde figuram as missões de Mojos e de Chiquitos; na página seguinte, há também um outro mapa onde se indica cada uma das missões de Chiquitos. Esses dois conjuntos de missões ficavam na área que estamos focalizando agora, e poderíamos até considerar os índios descendentes dos assistidos por cada um desses conjuntos como constituintes de duas sub-áreas.


Chiquitos


              Esta sub-área é regada pelos altos cursos dos afluentes da margem esquerda do rio Guaporé (Iténez) e da direita do alto Paraguai, ao norte da estrada de ferro Corumbá-Santa Cruz de la Sierra, que é uma continuação da ferrovia Noroeste do Brasil, hoje chamada Novoeste, que sai de Bauru.

              Os índios atendidos pelas antigas missões estabelecidas dentro desses limites eram chamados de Chiquitos pelos conquistadores espanhóis, numa alusão a sua altura, sugerida pelo pequeno tamanho das portas de suas casas (Riester 1976: 122, nota de rodapé). Os missionários passaram a usar na catequese uma única língua, a da maioria dos índios da área, de modo que os outros acabaram por adotá-la.

              Essas missões também constituiam um baluarte de defesa dos domínios espa­nhóis contra os avanços dos portugueses. Denise Maldi (1989) fez um interessante estudo das relações entre espanhóis e portugueses na bacia do Guaporé do século XVIII, mostrando como uns e outros envolviam os índios da região em defesa de seus interesses.

              Os pequenos núcleos urbanos atuais que nasceram e ainda trazem os nomes dessas missões, como Concepción, San Javier, San Inacio, San Miguel, San José de Chiquitos, Santiago, Santa Ana, Santo Corazón, não parecem ser hoje ocupados por uma população que se admita indígena. Os índios propriamente ditos vivem na área rural. Logo após a expulsão dos jesuítas, em meados do século XVIII, os moradores da região de Santa Cruz de la Sierra tomaram as casas dos centros das sedes das missões, expulsando os índios para a periferia e ainda introduzindo a "encomienda" de serviços pessoais. Constituindo-se essa sub-área numa transição entre o Chaco e a Amazônia, os índios se viram forçados pelos brancos a trabalhar na extração do látex durante o "boom" da borracha. A decadência dessa atividade liberou os índios que permaneceram nos "gomales", mas deixou-os sem mercado para seus produtos. Outros seguiram para trabalhar nos estabelecimentos rurais de seus antigos patrões e conti­nuam explorados, a ponto dos últimos decidirem se os filhos de seus empregados devem ir para a escola ou não. Parece que a reforma agrária boliviana não chegou a alcançar esta área. Se a construção da ferrovia criou novas oportunidades de trabalho para os índios, por outro lado deixou as terras mais valorizadas por ela nas mãos dos brancos.

              Thiele & Nostas (1994) fazem uma periodização do contato dos chiquitanos com a população de origem européia, desde a colonização até a atualidade. Um ponto digno de nota lembrado por eles é que os três dias de trabalho por semana que os chiquitanos davam às missões jesuíticas continuaram a ser exigidos pelos novos administradores das reduções, que nelas incorporaram um grande número de empregados e serventes que estavam isentos do "trabalho pessoal". Por outro lado, os administradores venderam o gado da missão. Os estancieiros também passaram a exigir três dias semanais de trabalho indígena (: 13-14). Foi depois da guerra do Chaco (1932-1938), na qual os chiquitanos participaram como soldados, que essas formas de tributo começaram a se desarticular e que eles passaram a constituir unidades camponesas (:19-20).

              Os dois pesquisadores estudam também a situação de parte deles, os que vivem mais a sudeste, na vizinhanças de Roboré, junto à estrada de ferro, como camponeses, numa região em que predominam as fazendas de criação de gado. Classificam os camponeses em cinco estratos conforme se possam reproduzir-se socialmente com as atividades agrícolas internas à sua unidade de produção ou tenham de recorrer a atividades complementares como peões de fazenda, assalariados da estrada de ferro, criar um pouco de gado ou dedicar-se também ao comércio. Fazem um interessante quadro (: 34) em que ilustram como os camponeses podem passar de um desses estratos a outros, no sentido de obterem mais rendimentos e se manterem na situação camponesa ou no sentido oposto que culmina com a migração para um centro urbano.

              Sobre a história oral dos chiquitanos, há uma dissertação de mestrado defendida na Universidade de Munique por Ulrike Hagen (1994).


Mojos


              O outro conjunto de missões, situado a noroeste do anterior, dispunha-se sobretudo ao longo do rio Tijamuchi, o principal formador do Mamoré (ou o próprio Mamoré com outro nome) e lidava com os índios conhecidos como mojos ou moxos. Talvez fazendo parte do mesmo conjunto, mais a oeste, sobre outros formadores do Mamoré, havia missões entre os índios movimas. Parece que a história dos índios atendidos por essas missões se desenvolve de modo semelhante. Também passam por um processo de substituição, nos núcleos das missões, pelos moradores ditos mestiços após a expulsão dos jesuítas; os índios também são obrigados a trabalhar na extra­ção da borracha.

              Mas, desde o século passado se desenvolve entre eles um movimento religio­so que consiste na procura de um lugar sagrado, que não deve ser buscado individual­mente, mas sim coletivamente: a Loma (ou Pampa) Santa. As buscas têm ocorrido principalmente ao longo do sopé dos Andes, a noroeste de Cochabamba. Além dos mojos, estão envolvidos nesta procura os índios movimas, iuracarés, guaraios, mosse­tenes, chimanes. Desse modo, teríamos aqui uma sub-área articulada em torno de uma crença messiânica.

              O movimento começou em 1887, com o mojo Andrés Guachoco, que se considerava a encarnação de Deus, convencido de que por seu intermédio falavam Jesus e a Virgem Maria. Pretendia expulsar os brancos e marchou contra Trinidad. A repressão ao movimento levou à execução de Guachoco e outros de seus dirigentes. Em 1920 surgiu novo movimento messiânico em San Lorenzo e San Francisco, justamente os lugares para onde tinham sido desterrados os seguidores de Guachoco. Em 1960 os guaraios iniciaram um movimento em San Ignacio de Moxos. Chegou mesmo a ocor­rer um movimento do mesmo tipo entre colonos no alto Beni (Riester 1976: 311-314).


Os tupis-guaranis


              Entre as sub-áreas de mojos e a de chiquitos, ao longo de uma linha que toma aproximadamente a direção geral norte-sul, distribuem-se grupos tupis-guaranis, repre­sentados, além dos recentemente extintos pausernas (Guarasug’wé, Riester 1977) — mas veja-se no quadro abaixo que ainda se contam três dezenas deles —, pelos sirionós, os guaraios, os iuquis, que se prolongam mais para o sul com os chiri­guanos e tapietês, que incluímos na área do Chaco.

              Essa presença tupi nos leva mais uma vez a considerar quão arbitrárias são nossas áreas etnográficas. Se quisermos acentuar a história da expansão tupi, chamare­mos a atenção para o fato de que este corredor tupi-guarani se liga ao norte com os tupis de Rondônia e ao sul com os guaranis do Paraguai. Se desejarmos acentuar articulações entre grupos, veremos que, se de um lado, os guaraios se ligam, por crenças religiosas messiânicas, à sub-área dos mojos, por outro, do ponto de vista de uma política indígena, parecem aproximar-se mais dos chiriguanos, que estão na área do Chaco. Se nos pautarmos por diferenças e semelhanças culturais, os sirionós colo­carão outra dificuldades, pois, apesar de se distinguirem dos demais tupis-guaranis por serem caçadores-coletores sem agricultura, assemelham-se aos tuparis de Rondônia (tupis, mas não tupis-guaranis) e aos pacaás-novos (txapacura) por apresentarem uma terminologia de parentesco do tipo Crow-Omaha.



BIBLIOGRAFIA


HAGEN, Ulrike. 1994. Historia oral indígena. Santa Cruz (série Pueblos Indígenas de las Tierras Bajas de Bolivia, vol. 4, org. por J. Riester).

HOLMBERG, Allan R. 1969. Nomads of the long bow: the Siriono of Eastern Bolivia. Garden City (N.Y.): The American Museum of Natural History.

KREKELER, B. 1993. Historia de los Chiquitanos. La Paz: Talleres Gráficos Hisbol.

MALDI MEIRELLES, Denise. 1989. Guardiães da fronteira. Rio Guaporé, século XVIII. Petrópolis: Vozes.

RIESTER, Jürgen. 1976. "En busca de la Loma Santa (el caso de los mojeños)". Em En busca de la Loma Santa (Jürgen Riester & Bernd Fischerman, orgs.). La Paz e Cochabamba: Los Amigos del Libro. pp. 309-339.

RIESTER, Jürgen. 1976. "Ivirehi Ahae: los pauserna-guarasug’wé". Em En busca de la Loma Santa (Jürgen Riester & Bernd Fischerman, orgs.). La Paz e Cochabamba: Los Amigos del Libro. pp. 183-238.

RIESTER, Jürgen. 1976. "Los chiquitanos". Em En busca de la Loma Santa (Jürgen Riester & Bernd Fischerman, orgs.). La Paz e Cochabamba: Los Amigos del Libro. pp. 119-182.

RIESTER, Jürgen. 1976. "¿Hana mura mi? (¿Adonde vas?)". Em En busca de la Loma Santa (Jürgen Riester & Bernd Fischerman, orgs.). La Paz e Cochabamba: Los Amigos del Libro. pp. 239-307.

RIESTER, Jürgen. 1977. Los Guarasug’wé: crónica de sus últimos dias. La Paz: Los Amigos del Libro.

THIELE, Graham & Mercedes NOSTAS. 1994. "Los Chiquitanos del sureste: marginalización y diferenciación". América Indígena 54 (3): 9-38.

ZOLEZZI, Graciela & J. RIESTER. 1987. "Lenguas indígenas del oriente boliviano. Clasificación preliminar". América Indígena 47 (3): 425-433.



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