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Capítulo 26

CHACO


por Julio Cezar Melatti

Revisto em 23-8-96


Mapa da área

Língua e população

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              A área geográfica conhecida como Grã-Chaco, ou simplesmente Chaco, situa-se no sul da Bolívia, oeste do Paraguai, norte da Argentina e ainda numa pequenina parte do oeste do Brasil. Fica entre a margem direita dos rios Paraná e Paraguai, de um lado, e o sopé dos Andes, de outro. Como limite norte podemos tomar grosseira­mente como referência a estrada de ferro que liga Corumbá a Santa Cruz de la Sierra. No sul, passa pouco a pouco para os Pampas.

              Trata-se de uma área plana, de baixa altitude, pouco inclinada. Sua pluviosi­dade média é baixa, sendo que as chuvas se concentram de novembro a abril, e são sucedidas por uma estação seca e poeirenta. Alterna a extrema secura com chuvas torrenciais que alagam os terrenos em depressão. Seus rios (o Verde, o Pilcomaio, o Bermejo e o Salado), afluentes da margem direita do Paraná, cruzam a área com águas captadas nos Andes e suas vizinhanças, e também alternam cheias com a quase estagnação. Certos setores desta área são salinosos ou salitrosos e imprestáveis para a agricultura. Se um modo geral cobre o Chaco uma mata seca, pouco densa, fazendo-se presentes também espécies xerófitas.


Cavaleiros e canoeiros


              Com exceção de seu pequeno trecho brasileiro, entre a serra da Bodoquena e a margem esquerda do rio Paraguai, o Chaco se estende a partir da margem esquerda do referido rio e do Paraná. E foi nessa borda que se concentraram as diferentes sociedades que logo no primeiro século de colonização européia adotaram o uso do cavalo, atraídas pelas oportunidades de comércio, saque e raptos que os colonizadores de Assunção e os guaranis que lhes estavam sujeitos lhes poderiam oferecer.

              Branislava Šusnik (1989) nos dá um excelente apanhado histórico das populações indígenas que simultâ­nea ou sucessivamente se concentraram nas vizinhanças de Assunção, do outro lado do rio e que punham em constante sobressalto os colonizadores. Começa pelas socie­dades guaicurus. Uma delas se dividia em dois ramos, os "eyiguayiqui", entre os rios Verde e Pilcomaio; e os "eyiguayegi" ou "mbayá", que desalojaram os guaranis itatins e ocuparam a área entre os rios Miranda (no atual Mato Grosso do Sul) e Jejuí (no Paraguai). Um dos vários ramos dos "mbayá", os cadiuéus, foi o único que chegou até a atualidade, tendo-se extinguido os demais "eyiguayegi" e todos os "eyiguayiqui".

              Outros guaicurus, como os abipons (atualmente extintos), os mocovis, os tobas, aproximaram-se e localizaram-se junto confluência dos rios Paraná e Paraguai.

              Um ramo dos guaicurus, os paiaguás, ao invés de adotar o uso do cavalo, dominava o curso do rio Paraguai, desde sua foz até o Pantanal, através da utilização de canoas. Mas seu comportamento para com os vizinhos era semelhante ao dos guaicurus cavaleiros, combinando comércio, raptos, saques, indenizações pela devo­lução dos raptados.

              Não apenas os falantes de línguas da família guaicuru adotaram esse gênero de vida. Os chamados "cochaboth", constituídos por uma aliança entre os "lengua juiadge" e os "enimagá", também o fizeram. Talvez seja apenas aos primeiros que se aplica a afirmação de Šusnik (1989: 444) de que eram originalmente, talvez, da famí­lia lingüística lule-vilela[-charrua], porém "mascoizados". Quanto aos "enimagá", constituem a origem dos atuais macás (que, no nosso quadro, aparecem como perten­centes à família mataco-macá).

              De um modo geral, esses índios desenvolveram sociedades estratificadas, com uma camada nobre ou de chefes, outra de comuns e uma terceira de cativos, havendo também mecanismos de incorporação dos cativos como membros de pleno direito segundo o mérito. Obviamente, peculiaridades culturais distinguiam essas várias socie­dades.

              Se o início do período colonial proporcionou oportunidades de expansão dessas sociedades, o mesmo regime conduziu um processo de progressivo domínio sobre as mesmas, em que vários recursos foram acionados, como estabelecimento de missões (geralmente fracassadas), permissão de cruzamento dos rios para comerciar em certos locais sob controle, aliança com um grupo contra outro, disseminação intencional da varíola. E até ciladas, como a falsa proposta que o tenente governador Avalos de Mendoza fez em 1678 ao cacique principal dos "eyiguayiqui" de casar com sua filha, estabelecendo uma aliança e paz duradoura. Mas os índios que comparece­ram para assistir a cerimônia foram todos degolados. Assim, debilitados, os sobrevi­ventes se integraram aos "eyiguayegi" ou "mbayá", que viviam mais ao norte. As terras que abandonaram foram ocupadas pelos "cochaboth" (Šusnik 1989:433-434).


Os índios pedestres


              Outras sociedades do Chaco não chegaram a usar o cavalo, o que não quer dizer que necessariamente ficaram à mercê dos cavaleiros e canoeiros. Alguns chega­ram mesmo, à semelhança dos cavaleiros, a se alçarem hierarquicamente sobre seus vizinhos, como os chiriguanos fizeram com os tapietês, impondo-lhes inclusive sua própria língua. Mais recentemente nota-se uma tendência a enfatizar o caráter guarani dos chiriguanos e este ú_timo termo vem cedendo lugar às denominações de seus sub-grupos regionais: os izocenhos (izoceño, de Izogog), nas margens do rio Parapeti, e os avás, do sopé andino, ambos na Bolívia. Há ainda os chiriguanos da Argentina.

              Certos grupos chaquenhos anteriormente caçadores-coletores que não fizeram uso intenso do cavalo, adotaram a criação de carneiros, como os chorôtis ou os len­guas (da família lingüística mascói; não confundir com os lenguas que faziam parte da aliança "cochaboth").

              Havia também os agricultores, destacando-se os grupos aruaques conhecidos como guanás e chanés, vassalos e aliados dos guaicurus "mbayá" e que com estes ocuparam a bacia do alto Paraguai. Entre eles se contavam os terenas, os quiniqui­naus, os laianas. Ainda hoje se contam descendentes dos quiniquinaus e laianas entre os terenas. Aliás, os terenas atualmente não ocupam mais o Chaco, mas a região que lhe fica imediatamente a leste, ao longo da estrada de ferro Noroeste do Brasil, que liga Bauru a Corumbá. Não se limitam a Mato Grosso; há um certo número deles do interior de São Paulo, levados pelo antigo Serviço de Proteção aos Índios para ajudar a "civilizar" os guaranis deste estado.

              Vale notar que os índios vassalos em certos casos participaram do mesmo processo de estratificação dos hegemônicos. É conhecida a organização antiga dos terenas em três camadas endogâmicas que se sobrepunham a uma outra divisão em duas metades também endogâmicas e a oportunidade que tinham aqueles homens da camada dos cativos de se incorporarem uma camada acima por mérito guerreiro (Cardoso de Oliveira (1976). Também os chamacocos, obrigados pelos "mbayá" a lhes fornecerem escravos, procuravam tomar cativos em outros grupos para cedê-los àqueles, ao invés de membros de sua própria sociedade, acabando por criar uma estratificação entre eles próprios (Cordeu 1989: 550).


As três guerras modernas


              A partir de meados do século XIX os índios do Chaco se viram envolvidos em três guerras promovidas pelos Estados que dominam seus territórios. A primeira foi a Guerra do Paraguai, que, entre outros, teve a participação dos cadiuéus e terenas do lado do Brasil; os paiaguás, por outro lado, formaram um regimento de lanceiros, que lutou sob as ordens de oficiais paraguaios.

              Logo após a referida guerra, a Argentina desenvolveu a campanha militar contra os índios do Chaco, de modo a exercer pleno domínio sobre seus territórios e abri-los a colonos europeus.

              Mais recentemente, no período de 1932-1936, teve lugar a Guerra do Chaco, entre a Bolívia e o Paraguai. Guerra que envolveu as sociedades indígenas em cujos territórios se desenvolveu a atividade militar, trouxe para o teatro de operações tam­bém índios de fora, como os andinos bolivianos e terminou por aumentar o controle de ambos os Estados sobre as áreas em que finalmente passaram a exercer a sobera­nia. Se o controle estatal se tornou mais efetivo sobre os índios chaquenhos (que não eram o alvo desta guerra), por outro lado parece ter conduzido os Estados contendores a ver com outros olhos os grupos indígenas que com eles tinham colaborado. Foi uma guerra que mexeu com identidades: o guarani ganhou força como língua paraguaia, os índios andinos ganharam pontos em seu esforço por conseguir a plena cidadania boli­viana. Outros se viram mal situados no jogo das identidades, como os chiriguanos da Bolívia, que eram convidados a passar para o outro lado por soldados paraguaios que falavam o guarani. Tais problemas continuaram a se colocar mesmo depois da guerra:


           Os questionamentos sobre o problema nacional e os conflitos de identidade étnica e nacional não tardaram a se apresentar aos izocenhos [chiriguanos], quando uma delegação de seu povo participou na III Assembléia Geral do Conselho Mundial de Povos Indígenas. Ali encontra­ram uma delegação aimara, de seu próprio país, que se atribuía o direito de representação absolu­ta da Bolívia, e sugeria aos izocenhos apresentarem-se perante a assembléia ocupando o posto dos paraguaios, por serem falantes de guarani (Zolezzi 1987: 437).


              O controle sobre os territórios indígenas permitiu aos Estados a redução dos mesmos, a colonização, a exploração de madeiras, plantio de cana-de-açúcar, extração do quebracho (para a obtenção do tanino), a exploração do petróleo, conforme a distribuição dos recursos naturais chaquenhos. Os índios que não ficaram com terras suficientes, ou entre os quais se criaram novas necessidades, tiveram de procurar trabalho nas empresas que então se instalaram.


Velhas e novas religiões


              A conquista do Chaco trouxe também como resultado a instalação de missões das mais diversas denominações. Somando-se os convertidos a essas religiões, que chegaram a criar igrejas indígenas autônomas, aos que permaneceram fiéis às antigas crenças indígenas, e ainda aos surtos messiânicos, temos um verdadeiro mosaico de crenças nesta área etnográfica. Assim, Darcy Ribeiro teve a oportunidade de estudar a magia e a mitologia tradicional cadiuéu; comparando versões de mitos de séculos passados com versões que ele próprio tomou em sua pesquisa de campo, mostrou como os mitos acompanhavam a mudança de situação pela qual haviam passado os cadiuéu, de povo senhorial a dominado pelos brancos (Ribeiro 1980). Por sua vez, Roberto Cardoso de Oliveira (1976) mostrou como entre os terenas, a conversão ao catolicismo ou ao protestantismo, ou a freqüente passagem de um para outro se rela­cionavam às disputas políticas dentro das reservas e mesmo à oposição ao funcionário encarregado do posto indígena. Elmer Miller (1979) estudou a expansão do pentecos­talismo entre os tobas.



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