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Capítulo 20

O ANEL TUPI

Introdução aos capítulos 21, 22, 23, 24 e 25


por Julio Cezar Melatti

Revisto em 7-8-97

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              As áreas etnográficas Amazônia Oriental, Amazônia Centro-Meridional, Aripuanã, Guaporé e Médio Paraná abrangem predominante­mente sociedades falantes de línguas do tronco tupi. Juntamente com as áreas Mamoré, Chaco e Planalto Meridional Brasileiro, que também englobam, entre outras, sociedades desse tronco, constituem um enorme arco. Quatro ou cinco séculos atrás esse arco se fechava num anel, pois outras sociedades tupis, hoje extintas, se estendiam pelos litorais sul, sudeste, nordeste e norte do Brasil. Em suma, os tupis envolviam o Planalto Brasilei­ro. Essa distribuição confirma a observação de Roque Laraia (1986: 43-53) de que uma caracterís­tica geral dos tupis é a preferência pelo habitat florestal, pois de fato as matas cobrem os vales dos grandes rios que bordejam o Planalto Brasileiro e cobriam também o litoral.

              Os estudos do lingüista Aryon Dall’Igna Rodrigues (1965: 103-104) apontam as terras irrigadas pelo Guaporé (Iténez) e Jiparaná como o centro de dispersão das línguas do tronco tupi, que se teria iniciado por volta de 3.000 a.C., sendo que a famí­lia mais dispersa, a tupi-guarani, teria começado a se espalhar a partir de 500 a.C. Por outro lado, o arqueólogo José Joaquim Brochado (1984: 308-311) defende a tese se­gundo a qual a área de dispersão estaria mais ao norte, desde o baixo Madeira até a ilha de Marajó. Aqueles que dariam origem aos guaranis teriam subido o Madeira e descido pela bacia do Paraná, enquanto os tupinambás, nome que estende a todos antigos tupis do litoral, teriam se expandido pela costa brasileira desde a ilha de Mara­jó até o litoral de São Paulo. Num movimento de pinça teriam contornado o planalto Brasileiro a partir do noroeste e se encontrado no sudeste. Dada a sua tese, o arqueólo­go não aceita, pelo menos em arqueologia e etno-história, a expressão "tupi-guarani", que junta no presente ramos que há muito teriam divergido (1984: 351-353).

              Se a preferência pela floresta é unânime nas sociedades do tronco tupi, elas apresentam também outras características que talvez não lhes sejam universais, mas próprias de uma ou de outra família lingüística. Das famílias tupis, a que dispõe de maior número de línguas e que ocupa área geográfica mais extensa é a tupi-guarani. Mesmo se considerarmos apenas essa grande família, nenhuma das características que aqui serão indicadas se pode com certeza afirmar como partilhada por todas as socie­dades que a compõem.

              Uma dessas características é a admissão de que apenas o homem tem o poder de procriar; a mulher se limita a abrigar o feto que se desenvolve em seu corpo. Era assim que pensavam os antigos tupinambás e certas sociedades tupis atuais, de que se dispõe de informações a respeito, também acham que as coisas se dão desse modo. Essa maneira de pensar é compatível com a presença de grupos patrilineares em algu­mas sociedades tupis, embora não os imponha necessariamente.

              Outra característica da família tupi-guarani é a antropofagia, sob a forma de sacrifício de membros aprisionados de sociedades inimigas, como faziam os antigos tupinambás e outros tupis do litoral até o início da colonização, ou como talvez fize­ram os parintintins até o começo deste século (Nimuendaju 1982: 80). Às vezes o canibalismo é atribuído aos vizinhos, como fazem os caapor (Laraia 1986: 265 e 271-273), ou projetado no mundo sobrenatural, que é o caso dos arauetés (Viveiros de Castro 1986). Os guaiaquis não somente comiam os inimigos que matavam, mas tam­bém os parentes que morriam de morte natural.

              Relacionado ao sacrifício antropofágico estava a quebra do crânio do inimigo, que os tupis do litoral faziam até sobre os esqueletos dos cemitérios dos contrários. Seria um modo de aniquilar ou prejudicar a própria existência de além-túmulo do inimigo, mas curiosamente, os atuais guaiaquis quebram os crânios dos próprios paren­tes falecidos (Clastres 1972: 300). Vale notar, também, que os mundurucus, que são tupis, mas não da família tupi-guarani, até o século passado, ao invés de quebrar, conservavam, ornamentando-as, as cabeças dos inimigos. Seus vizinhos e adversários, os parintintins, estes sim, tupis-guaranis, também caçavam cabeças, apanhando-as até em sepulturas, mas talvez não lhes dessem o mesmo tratamento (Nimuendaju 1982: 77-80).

              Roque Laraia (1963) mostrou como os suruís, premidos pelo desequilíbrio demográfico, recorreram a arranjos poliândricos. Pierre Clastres (1988: 81-84) também testemunhou entre os guaiaquis a existência de maridos secundários, igual­mente por razões demográficas. Waud Kracke (1978: 14) afirma que a troca temporária de esposas entre dois homens parintintins proeminentes constituía expressão e consolidação de sua forte amizade. Mais recentemente Viveiros de Castro (1986: 422-437) descreveu a amizade entre casais arauetés, que permite o companheirismo e o acesso sexual através da troca de cônjuges.  Como não parece haver motivos demográficos para este último costume, pode-se supor que ele e aquelas soluções teriam por fonte um fundo cultural comum aos tupis.

              A busca da "Terra sem Males", com há muito mostrou Alfred Métraux (1950) com relação aos tupis do litoral, apesar das características messiânicas, não estava vinculada diretamente à chegada dos europeus. Recebeu mais de uma interpretação, como a de Pierre Clastres (1988), que seria uma forma de obstar a formação de uma nova organização política centrada num crescente poder do chefe da comunidade. Além dos tupis litorâneos do século XVI, animou as migrações guaranis do final do século XIX e início do XX (Nimuendaju 1987), assim como parece estar presente até em soluções individuais para os infortúnios, como na história do índio caapor que saiu à procura do herói mítico Maíra (Ribeiro 1974). Trata-se, pois, de mais um elemen­to comum aos tupis.

              Enfim, talvez seja possível chegar a uma atribui­ção de algumas dessas e outras características culturais aos tupi como um todo e outras apenas aos tupis-guara­nis e tentar conjecturar como ao longo do tempo e de sua expansão geográfica foram divergindo não só quanto à língua e a cerâmica, mas também quanto a outros aspectos culturais.



BIBLIOGRAFIA


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