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Capítulo 19

ALTO MADEIRA


por Julio Cezar Melatti

Revisto em 20-8-96


Mapa da área

Língua e população

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              Esta área abrange alguns grupos da família pano, todos os grupos sobreviven­tes da família tacana e ainda todos os sobreviventes da família chapacura. É difícil fazer uma sinopse a respeito dela por algumas razões:

              a) Com exceção dos pacaás-novos, sobre os quais há cinco teses — Mason (1977), Graeve (1977), Maldi Meireles (1986), Conklin (1989) e Vilaça (1992) — e dos esse-ejas, sobre os quais há um trabalho, pelo menos (Zeleny 1976), sobre os demais grupos a bibliografia é incipiente.

              b) Não parece haver trabalhos que explorem as articulações entre esses grupos, se é que as há.

              c) A não ser a proximidade geográfica, nada autoriza, por enquanto, colocar na mesma área os membros da família tacana e da chapacura; entretanto, no que se refere às famílias pano e tacana, há quem admita poderem ser tomadas como uma única família lingüística, a tacana-pano.

              d) Em suma, trata-se de uma área cujo contorno deve ser repensado.


Os pacaás-novos


              Os primeiros contatos com os pacaás-novos, nos anos 60 do corrente século foram cercados de sensacionalismo por causa do costume do endo-canibalismo, ou seja, de comer os próprios parentes. Diferentemente do costume dos índios da família pano, que comiam os ossos calcinados dos parentes, os pacaás-novos comiam a carne, constituindo-se numa exceção à tendência, apontada por Pierre Clastres, de ser o exo-canibalismo voltado para o consumo da carne dos inimigos, mortos com esse propósi­to, e o endo-canibalismo o consumo dos ossos dos parentes. Hoje os pacaás-novos não mais praticam o endo-canibalismo, mas sua forma de sepultar os mortos continua a interessar os etnólogos.

              Outro tema que intriga os pesquisadores é a presença de uma terminologia de parentesco de tipo crow-omaha. Esse tipo de terminologia atravessa o mapa da Améri­ca do Sul como uma linha horizontal não-contínua, desde os timbiras do Maranhão, passando pelos caiapós do Pará, até Rondônia e Bolívia. Tal terminologia, que já foi tomada como uma transição entre as estruturas elementares e as complexas do paren­tesco, contém implicações tais que fazem com que todo casamento seja um rompimen­to de laços cognáticos, obrigando os indivíduos a procurarem cônjuges entre os paren­tes mais afastados que possam encontrar. A mitologia dos pacaás-novos reflete as implicações, contando as aventuras de personagens feios que, para se tornarem belos têm de manter relação sexuais com mulheres que vivem em lugares longínquos, na fronteira entre a humanidade e o mundo animal (Maldi Meireles 1986).

              Vale ainda assinalar que, tal como acontece com outros grupos, apesar das mudanças muito das antigas relações se mantêm. Assim, apesar da concentração da população pacaá-nova em torno de alguns postos, os casamentos continuam a se fazer dentro ou entre grupos regionais próximos.



BIBLIOGRAFIA


CONKLIN, Beth Ann. 1989. Images of health. Illness and death among the Wari (Paakas Nova of Rondonia, Brazil. Tese de doutorado. San Francisco: University of California.

GRAEVE, Bernard von. 1977. Protective intervention and interethnic relations — A study of domination on the Brazilian frontier. Tese de doutorado pela Univer­sidade de Toronto.

KEY, Mary Ritchie. 1983. "Lenguas de las tierras bajas de Bolivia". América Indígena 43 (4): 877-892.

MALDI MEIRELES, Denise. 1986. Os Pakaas-Novos. Dissertação de mestrado do Curso de Pós Graduação em Antropologia da Universidade de Brasília.

MASON, Alan. Oronao social structure. Tese de doutorado pela Universidade de Cali­fornia (Davis).

VILAÇA, Aparecida. 1992. Comendo como Gente: Formas do Canibalismo Wari’. Rio de Janeiro: Editora UFRJ.

ZELENY, Mnislav. 1976. Contribución a la etnografía y clasificación del grupo étnico Huarayo (Ece’je), Madre de Dios, Perú. Tradução de Alena Janischová Már­quezová. Praga: Univerzita Karlova Praha.

 



TEXTOS GERAIS

WISE, Mary Ruth. 1983. "Lenguas indígenas de la Amazonia peruana: historia y esta­do presente". América Indígena 43 (4): 823-848.



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