Site Línguas Indígenas Brasileiras, de Renato Nicolai  < knewman@altavista.net >

 

Capítulo 14

ALTO AMAZONAS


por Julio Cezar Melatti

Revisto em 11-8-97


Mapa da parte ocidental
da área

Mapa da parte oriental
da área (Solimões)

Língua e população

Voltar ao Sumário de Índios da América do Sul



Fluxos e refluxos do contato interétnico


              A conquista européia do alto Amazonas, que no Brasil tem o nome de Solimões, se fez, não somente rio acima, pelos escravizadores e missionários portugueses, mas também na direção contrária, pelos missionários espanhóis vindos pelos rios que desciam dos Andes equatorianos, e ainda pelo Huallaga e Ucayali. Os omáguas terminaram por se reduzirem a números insigni­ficantes; já no final do século XVIII Alexandre Rodrigues Ferreira registra observações dos próprios índios a respeito da diminuição de sua população, o que é então atribuído ao desgaste que sofriam como remeiros em viagens de meses e meses pelo Madeira e Guaporé, em direção a Mato Grosso. O aniquilamento quase completo da numerosa população omágua ou cambeba fez com que os índios que habitavam em áreas mais afastadas das margens do rio principal viessem ocupar seu lugar.

              As missões religiosas estimularam na região amazônica a extração de produtos de origem animal e vegetal, que por dois séculos e meio se fez de maneira rotineira através de trabalho forçado dos indígenas, ainda que com gratificação estabelecida por lei. Havia também a escravidão indígena de fato, e o rio que por mais tempo forne­ceu escravos indígenas deve ter sido o Japurá, pois os cronistas se referem a esse tráfico até meados do século XIX, quando ainda ali se fazia a aquisição de crianças. Os miranhas foram particularmente objeto desse tráfico. O trans­porte era feito por batelões remados ou impulsionados com varas por remadores indí­genas. Spix e Martius, por exemplo, para subir o rio Amazonas desde Belém até a fronteira com os domínios espanhóis, contrataram índios cocamas. Predominava a língua geral, idioma da família tupi-guarani resultante da interação entre índios e conquistadores europeus e que se expandiu até por lugares onde as línguas indígenas não eram do tronco tupi. Pelos padrões da economia ocidental, a Amazônia era uma região estagnada.

              A partir da metade do século passado, a vida do Solimões passou por modifi­cações importantes: a navegação a vapor liberou os remadores indígenas, o rio foi aberto à navegação internacional e a procura da borracha começou a se intensificar, exigindo crescentemente mais mão-de-obra e estimulando a imigração nordestina. Talvez tenha sido esse crescente número de habitantes provenientes de fora que tenha levado o português a sobrepujar a língua geral.

              Os índios começaram a ser convocados por bem ou por mal a produzirem borracha e, na bacia do Putumayo, o trabalho forçado, a violência, as transferências de populações chegaram ao auge. Talvez tenha sido onde a população indígena tenha decrescido mais rapidamente e a taxas elevadas. As margens desse rio acabaram por ser mais tarde objeto de disputa entre o Peru e a Colômbia, levando a um conflito militar cujo resultado foi a consolidação das fronteiras entre os dois países e o acesso do último ao rio Amazonas através do conhecido trapézio de Letícia.

              Apesar de, após 1912, a área ter entrado em novo período de estagnação, por causa da queda dos preços da borracha, o sistema de barracão ou aviamento — de adiantamento de mercadorias a altos preços em troca de produtos florestais a preços muito baixos, gerando uma dívida insaldável — continuou a vigorar, marcando acen­tuadamente as relações interétnicas.

              A história de algumas sociedades da área no presente século tem-se desenvol­vido no sentido de superar a herança do período da corrida pela borracha. Os índios ticunas, por exemplo, controlados pelas famílias dos antigos seringalistas, primeiro manfestando-se através de movimentos messiânicos, depois também se apoiando no único posto do Serviço de Proteção aos Índios, mais tarde na multiplicação de postos da FUNAI, e finalmente com apoio de uma organização não-governamental que é o Centro Magüta, vêm pouco a pouco conseguindo se libertar do jugo dessas famílias, demarcar suas reservas, melhorar seus serviço de atendimento de saúde e escolar, participando até na vida política da área.

              Os índios miranhas que desde antes do "boom" da borracha vivem nas vizi­nhanças de Tefé, oriundos que são do interior da bacia do Japurá (Caquetá), também têm agido no sentido que conseguir o reconhecimento de suas terras e até de contornar o intermédiário comercial, fazendo esforços para conseguir seu próprio barco, que leve sua produção a Manaus e de lá traga os artigos de que necessitam.

              Também no Putumayo há notícias de grupos, como os andoques, que fizeram esforços no sentido de se organizarem depois de tudo por que passaram durante o auge da extração da borracha.

              Vale notar que, pelo menos num dos pontos de concentração urbana desta área, aquele onde se aproximam as fronteiras do Brasil, Colômbia e Amazonas, a população indígena chega a grandes proporções, quando comparada à não-indígena. Assim, conforme dados do censo de 1980, nos municípios de São Paulo de Olivença, Amaturá, Benjamin Constant e Santo Antônio do Içá, os ticunas são respectiva­mente 64,6%, 75,5%, 23,7% e 32% da população rural, que em todos eles constitui mais, e em alguns muito mais, da metade da população total do município (Oliveira Filho 1988: 17-18). Desse modo, entre outras coisas, os ticunas têm um peso decisivo nas eleições municipais. Por sua vez, no vizinho trapézio colombiano, onde se localiza a cidade de Letícia, se concentram índios ticunas, iáguas, cocamas, uitotos e boras. O trapézio faz parte da comisaría do Amazonas, que abrange também a área entre o baixo Apaporis e o médio Putumayo. Segundo dados de 1979, essa comisaría incluia 17.000 indígenas, que cons­tituiam 61% da população total (Pineda Camacho 1987: 167). A cidade peruana de Iquitos, último porto das embar­cações transoceânicas no tempo do auge da exploração da borracha, provavelmente deve ser envolvida por uma população rural na qual os indígenas dos baixos cursos do Napo, Ucayali e Huallaga constituem uma parcela importante.


Semelhanças culturais


              Os cocamas e os cocamilhas são representantes do tronco tupi relativamente isolados dos demais, situando-se a noroeste dos restantes. Ainda não temos leitura suficiente para averiguar até que ponto se assemelham aos demais tupis. Levando-se em conta que a organização social dos tupis é demasiado plástica, como se tem de­monstrado ultimamente, é possível que cocamas e cocamilhas se assemelhem a outros grupos da mesma área.

              Os ticunas e os uitotos se organizam em clãs patrilineares e residência patrilo­cal. Os clãs ticunas — que se incluem em metades exogâmicas — talvez outrora fossem localizados, hoje apenas as linhagens o são. Já nos clãs uitotos parecem se dispor hierarquicamente, o que no caso dos boras ordena até os próprios irmãos. Tam­bém os uitotos dispõem os grupos locais segundo a classificação murui/muinane, conforme estejam respectivamente rio acima ou rio abaixo. Esses termos também designam duas maneiras diferentes de construir malocas, o primeiro associado a cons­truções de tipo cônico, comparadas ao corpo do homem, e o segundo a construções identificadas com o corpo feminino. Vale lembrar que murui e muinane ainda designam, hoje, grupos tribais específicos.

              Ora, a presença de grupos exogâmicos, patrilineares, patrilocais, hierarquia, posição social relacionada a localização nas margens do rio, tudo isso lembra o organi­zação social dos formadores do alto rio Negro e do Apaporis. Se ainda lembrarmos o uso do trocano pelos uitotos, as esculturas em madeira dos uitotos, ticunas, iáguas, as máscaras dos ticunas, dos iáguas (destes dois grupos, pelo menos, de entrecasca) e do Caquetá, o número de semelhanças com aquela área aumenta. Por todas essas seme­lhanças, Irving Goldman considerava como uma só área cultural o que estamos tomando como duas áreas etnográficas: a área Noroeste da Amazônia (onde ficam os cobéuas, que ele estudou) e a de que agora estamos tratando. O que fez aumentar as diferenças entre elas talvez tenha sido a grande transforma­ção causada pela ocupação da bacia do Putumayo pelos extratores de borracha nas últimas décadas do século passado e primeiras do presente.



BIBLIOGRAFIA


CARDOSO DE OLIVEIRA, Roberto. 1972. O índio e o mundo dos brancos: a situação dos Tukúna no alto Solimões. 2ª edição. São Paulo: Pioneira.

CARDOSO DE OLIVEIRA, Roberto. 1978. A sociologia do Brasil indígena. 2ª edição. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, Brasília: Editora Universidade de Brasília. (Especialmente caps. 3 e 12).

CARDOSO DE OLIVEIRA, Roberto. 1983. Enigmas e soluções: exercícios de etnologia e de crítica. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, Fortaleza: Edições Universidade Federal do Ceará. (Especilamente caps. 3 e 5).

CHAUMEIL, J.P. 1981. Historia y Migraciones de los Yagua de Finales del Siglo XVII hasta Nuestro Días. Lima: Centro Amazónico de Antropología y Aplicación Práctica.

FAJARDO, Gloria & William TORRES. 1987. "Ticuna". Em Introducción a la Colombia Ameríndia (Fran­çois Correa e Ximena Pachón, orgs.). Bogotá: Instituto Colombiano de Antropología. pp. 165-175.

FAULHABER, Priscila. 1987. O navio encantado: etnia e alianças em Tefé. Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi.

FAULHABER, Priscila (org.). 1987. Entrosando: questões indígenas em Tefé. Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi.

GARZÓN, Nivia Cristina & Vicente MACURITOPE. 1987. "El chontaduro, una planta en el contexto cultural huitoto (Amazonia colombiana)". América Indígena 47 (2): 295-316.

LLANOS VARGAS, Hector & Roberto PINEDA CAMACHO. 1982. Etnohistoria del Gran Caquetá (Siglos XVI-XIX). Bogotá: Fundación de Investigaciones Arqueológicas Nacionales/Banco de la República.

NIMUENDAJU, Curt. 1952. The Tukuna. Berkeley e Los Angeles: University of California Press (Publications in American Archeology and Ethnology, 45).

OLIVEIRA FILHO, João Pacheco. 1977. As facções e a ordem política em uma reserva Tükuna. Dissertação de mestrado. Brasília: UnB (datilog.).

OLIVEIRA FILHO, João Pacheco. 1988. "O nosso governo": os Ticuna e o regime tutelar. São Paulo: Marco Zero, Brasília: MCT-CNPq.

ORO, Ari Pedro. 1978. Tükúna: vida ou morte. Caxias do Sul: Universidade de Caxias do Sul, Porto Alegre: Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes/Vozes.

PINEDA CAMACHO, Roberto. 1985. Historia oral y proceso esclavista en el Caquetá. Bogotá: Fundación de Investigaciones Arqueológicas Nacionales/Banco de la República.

PINEDA CAMACHO, Roberto. 1987. "Witoto". Em Introducción a la Colombia Ameríndia (François Correa e Ximena Pachón, orgs.). Bogotá: Instituto Colombiano de Antropología. pp. 151-164.

REGAN, Jaime. 1988. "Mesianismo cocama: un movimiento de resistencia en la Amazonia peruana". Améri­ca Indígena 48 (1): 127-138.

STOCKS, Anthony Waine. 1981. Los Nativos Invisibles: Notas sobre la Historia y Realidad Actual de los Cocamilla del Rio Huallaga, Perú. Lima: Centro Amazónico de Antropología y Aplicación Prácti­ca.

SULLIVAN, James L. 1970. The impact of education on Ticuna indian culture: an historical and ethnographic field study. Tese de doutoramento pela North Texas State University. Denton. (University Microfilms International 71-18,666).

TAUSSIG, Michael. 1993. Xamanismo, Colonialismo e o Homem Selvagem — Um Estudo sobre o Terror e a Cura. Rio de Janeiro: Paz e Terra.

VINHAS DE QUEIROZ, Maurício. 1963. "Cargo cult na Amazônia? Observações sobre o milenarismo Tukúna". América Latina 6 (4): 43-61.



HOME PAGES


FAULHABER, Priscila. "Miranha": http://www.socioambiental.org/website/epi/miranha/miranha.htm. Verbete para a futura Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil. São Paulo: Instituto Socioambiental.



Voltar ao Sumário de Índios da América do Sul

Voltar para menu de Línguas Indígenas Brasileiras



STARMEDIA        CERRAR