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Capítulo 13

CABECEIRAS DO PUTUMAYO E DO CAQUETÁ


por Julio Cezar Melatti

Revisto em 11-8-97


Mapa da área

Língua e população

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              Talvez possamos começar por apresentar as razões do traçado desta área. No vale de Sibundoy, nas cabeceiras do rio Putumayo, vivem os camsás e os ingas em alguns resguardos, numa altitude que anda por volta de uns dois mil metros. Sua histó­ria de luta para manter e recuperar terras usurpadas, e pelo reforço do poder dos cabil­dos, se parece com as dos índios dos vales do alto Cauca e do alto Madalena (área etnográfica dos Andes Setentrionais) e nos faz perguntar por que não os incluímos na mesma área junto com estes. Distin­gue-os, porém, a notoriedade que vêm ganhando em tempos recentes, junto à sociedade colombiana mais ampla, seus conhecimentos relacionados à medicina e à botânica. Para suas atividades neste domínio, buscam ajuda entre seus vizinhos que vivem em terras mais baixas, vários deles da família lingüística tucano ocidental; podemos, pois, juntá-los com estes numa mesma área, que foi o que fizemos. Como, entretanto, os ingas (ou inganos, termos que constituem, evidentemente, variações de inca), falan­tes do quíchua, têm vizinhos mais meridionais que usam a mesma língua e vivem como eles na borda ocidental da Amazônia (canelos, iumbos, quijos, da área etnográfica Amazônia Extremo-Ocidental), vale ainda perguntar se não deveriam todos ser englobados numa mesma área. Enfim, são problemas que só poderão ser resolvidos, se forem, à medida que formos ampliando nossos conhecimentos sobre as relações entre esses grupos indígenas.


Xamanismo, medicina e botânica

              Os camsás e os ingas descem as encostas andinas para procurar junto aos cofans, aos coreguajes e até a outros ingas a instrução e a iniciação como xamãs. Mesmo depois de alcançados esses objetivos, continuam em contato com os índios de terras baixas, dos quais dependem para conseguir plantas e, em certas ocasiões, para serem curados (Ramírez de Jara & Pinzón 1987: 190).

              Os índios do vale de Sibundoy, além de suas lavouras de plantas comestíveis, mantêm, em separado, hortos de plantas mágico-medicinais, os quais só podem ser trabalhados pelos homens. Um botânico indígena, Pedro Juajibioy, conseguiu adaptar às alturas do vale três variedades de ayahuasca ou yagé que só dão em terras baixas: Banesteriopsis inebrians, Banesteriopsis caapi e Diplopterys malpighiaceae (antes denominado Banesteriopsis rusbiana) (Ramírez de Jara & Pinzón 1987: 191-192 e 196-198).

              A comercialização dos remédios produzidos parece ser tarefa dos ingas, que percorrem a Colômbia e chegam até à Venezuela. Levam também artigos artesanais produzidos pelos camsás (Ramírez de Jara & Pinzón 1987: 194).

              A ayahuasca ou yagé não é o centro das atividades religiosas apenas no vale de Sibundoy, mas também nas terras baixas vizinhas. Jean Langdon (1992) analisa, num interessante trabalho os desenhos traçados por índios sionas, tanto em papel como em artefatos, a partir das visões proporcionadas pelo uso do alucinógeno. Chama a atenção tanto para a padronização da experiência através do controle exercidos por recursos culturais, como também para aqueles aspectos comuns a diferentes culturas, isto é, as sensações visuais, chamadas "fosfenos", provocadas pela descarga de neurônios na estrutura do olho.

              Um dos trabalhos de Taussig (1982) condensa a complexidade e extensão das relações sociais e representações relativas ao xamanismo desta área. Representações já presentes entre os europeus antes da expansão marítima, contrapõem a incivilidade e inferioridade do homem selvagem a seu grande poder mágico (: 568). Essas representações também vigoram na população branca e indígena dos altos vales andinos em relação aos índios da vizinha floresta amazônica. Elas também vigem no seio da população negra, tanto a das plantações de cana dos arredores de Cali quanto a que para aí migra, proveniente da costa do Pacífico (: 578-9). Por isso, é entre estes que os curandeiros das terras altas vão procurar o aprendizado. Não raro o aprendiz é o ex-paciente de uma cura bem sucedida. Os conhecimentos mágicos oriundos da floresta, bem como o uso do yagé (ayahuasca), se difundem pelas terras altas, levados pelos curandeiros, que também incorporam a contribuição africana, a da magia européia e a do catolicismo popular.

              Apenas para dar uma idéia da extensa e variada rede que se estabelece, basta observar os xamãs e curandeiros que Taussig cita como fontes de suas informações, provavelmente com pseudônimos, para resguardá-los: Patrício, xamã siona (: 606), foi mestre de Roberto, xamã cofan (: 606) e do ingano Luciano (: 596, 604-10); este último, por sua vez, ensinou a José Garcia, um colono branco (: 595-600, 607). José Garcia costuma consultar-se com Carmela (: 598, 605-6, 609), curandeira da cidade andina de Pasto, que invoca o espírito de José Gregório Hernández (: 579, 598), cirurgião venezuelano, famoso por sua generosidade, retidão e capacidade profissional, que morreu num acidente automobilístico na década de Vinte e passou a ser cultuado como santo. Um outro santo popular é o Padre Bartolomé, que estudou medicina em Barcelona e instalou uma clínica gratuita numa igreja andina; os xamãs da floresta o veneram porque ele teria obstado que a igreja os perseguisse e condenasse o uso do yagé; a figura do santo legitima a assimilação do yagé ao cristianismo e ao mundo civilizado (: 588-9). O referido Luciano, numa ocasião em que esteve muito mal de saúde, atribuiu a responsabilidade à ação do curandeiro andino Esteban, que acrescentava datura ao yagé e o usava associado à magia maléfica de origem européia (: 604). O já citado Roberto, de quem esperava socorro, estaria sendo vítima dos dardos mágicos de xamãs invejosos do rio Napo e com resistência minada pelo atendimento a muitos pacientes não-indígenas; mas este acreditava que os males de um e de outro estariam sendo provocados pela vingança do filho de Patrício, mestre de ambos, uma vez que se acusava Roberto de ter matado o mestre por meios mágicos (: 606). Dois xamãs a que Taussig também se refere em nota (: 610) eram filhos de colonos brancos e mães cofans.

              A difusão da magia da floresta para as terras altas e também para o ambiente urbano está associada à expansão capitalista. Camponeses ricos e donos de pequenas fazendas procuram os xamãs indígenas  para resolver problemas como fracasso nas colheitas, magreza do gado, baixa do preço de seus produtos, endividamento bancário, doenças que não respondem ao tratamento, males que atribuem à inveja de seus próprios peões ou de vizinhos pobres. Era o caso de um patrão que desconfiava do feitiços de seus trabalhadores, índios paez, dos quais era também compadre (: 600-2). Por sua vez, o já referido Luciano viajou a uma cidade colombiana bem distante, Cúcuta, na fronteira com a Venezuela, para atender ao proprietário de um salão de baile, que se julgava enfeitiçado pelo dono de um salão rival (: 609-10). Em contrapartida, a expansão da colonização do alto Putumayo, reduzindo a floresta onde brota o yagé, e a própria mercantilização dessa liana, desviada para os curandeiros das terras altas, onde pagam por ela preços mais altos, deixa os xamãs das terras baixas com escassez do alucinógeno (: 604).

              Enfim, para ilustrar as contradições que envolvem as relações entre os diferentes grupos étnicos que recorrem aos serviços dos xamãs e curandeiros, nada melhor do que o caso de um colono branco que, na mesma experiência com o yagé que lhe proporcionou a visão de Deus, viu o xamã indígena sob a aparência de demônio (: 592-5).


Cabildos e terras


              No vale de Sibundoy, os ingas contam com três cabildos e os camsás com um. Em 1908, por inspiração de um capuchinho, a legislação impôs que a escolha do governador indígena seria feita pelo pároco, o governador que estivesse entregando o cargo e o corregedor (administrador estatal do vale). Na prática era o pároco que governava o cabildo. Os indígenas, depois de longa luta, somente vão recuperar o controle sobre o cabildo a partir de 1970. Além de ter entre suas atribuições cuidar do bem-estar da comunidade, impor sanções a brigas, castigar desacato à autoridade, velar pelo cumprimento das leis estatais e princípios religiosos, receber queixas dos colonos bran­cos contra indígenas, o cabildo possui e administra as terras indígenas recuperadas através do órgão governamental competente. O restante das terras é de propriedade individual. Cabe também ao cabildo a organização do carnaval de Sibundoy, que vale como carta de apresentação do novo governador perante a comunidade (Ramírez de Jara & Pinzón 1987: 196).

              A presença de missionários capuchinhos a partir do final do século passado, e com crescentes poderes concedidos pelo governo colombiano, foi desastrosa para os índios da área. Os capuchinhos inspiraram medidas legais no sentido de se conceder os terrenos "baldios" dos resguardos aos colonos (Arocha 1985: 176-182). Hoje os índios do vale de Sibundoy trabalham minifúndios de até três hectares (Ramírez de Jara & Pinzón 1987: 191). A exigüidade e a má qualidade das terras em que se viram situados sem dúvida contribuiu para a alta mortalidade que vieram a mostrar: de cada mil crianças de menos de um ano de idade trezentas morriam (Arocha 1985: 168).

              Entre os índios das terras baixas, o curaca reunia o poder político e religioso, até a chegada dos missionários capuchinhos. Embora nos pareça que aí não houvesse o cabildo de origem colonial, eles devem ter introduzido o cabildo transformado pela legislação do início desde século. Hoje, cada comunidade elege um governador ou capitão — que deve saber ler e escrever em castelhano — e um secretário. Ao curaca ficaram apenas relegadas as atividades de médico indígena (Chaves Chamorro & Vieco Albarracín 1987: 184-185).

              Se a colonização do presente século introduziu a criação de gado leiteiro no vale de Sibundoy, havendo entre os próprios indígenas quem crie umas poucas cabe­ças, as terras baixas, além da penetração de agricultores no Putumayo e criadores no Caquetá, foram bastante afetadas pela descoberta de jazidas petrolíferas no Putumayo em 1960. Hoje, os tamas, os macaguajes, os carijonas (estes provenientes da área etnográfica do Noroeste da Amazônia) reduzem-se a um pequeno número disperso entre os civilizados ou vivendo junto a outros grupos indígenas.


Tucanos ocidentais


              Nesta área se concentram grupos indígenas pertencentes à família lingüística tucano ocidental — coreguajes, macaguajes, tamas, sionas, secoias. Valeria averiguar se há alguma semelhança entre eles e os representantes dos tucanos orientais do noro­este da Amazônia. Parece que há: unidades exogâmicas patrilineares, residência patrilocal, mas desapareceu o casamento por troca direta de irmãs.



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