Site Línguas Indígenas Brasileiras, de Renato Nicolai  < knewman@altavista.net >

 

Capítulo 12

NOROESTE DA AMAZÔNIA


por Julio Cezar Melatti

Revisto em 29-11-96


População tucano

População aruaque

População macu

Língua e exogamia

Mapa da área

Notas e abreviaturas

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              A área de que vamos tratar agora se estende sobre ambos os lados da fronteira Brasil-Colômbia, representada por uma linha que, nos mapas, toma a forma da conhe­cida "cabeça de cachorro". O principal rio que a corta é o Negro, um afluente do Amazonas que, antes de entrar no Brasil, tem o nome de Guainía e separa a Colômbia da Venezuela; no seu alto curso, ele recebe, pela margem direita, o Içana e o Uaupés (chamado de Vaupés na Colômbia). Tomando tais rios como referência geográfica, é comum chamar-se a esta área de Alto Rio Negro. Mas não se deve esquecer que nela se incluem também índios que vivem no Apaporis e seus afluentes, que é um tributário quase que inteiramente colombiano do Caquetá, uma vez que desemboca neste último após marcar um pequeno trecho da fronteira com o Brasil. Daí para baixo o Caquetá passa a denominar-se Japurá. Vale a pena conferir num mapa os cursos desses rios, uma vez que os usaremos como referência.


Clãs ou etnias?


              Poderíamos começar por enumerar as sociedades indígenas que se incluem nesta área. Mas esta enumeração nos põe desde logo com um dos principais problemas etnológicos da área. Expliquemos. Geralmente uma sociedade indígena constitui uma unidade de tendência endogâmica, isto é, a maioria das uniões matrimoniais de seus membros se fazem entre si, dentro dos seus limites. Geralmente, também, seus mem­bros falam uma mesma língua. Além disso, partilham de uma mesma tradição cultural, um fundo comum onde buscam elementos para esboçar uma identidade étnica, que permeia a autonomia política das aldeias.

              Mas não é isso exatamente o que acontece no noroeste da Amazônia. Tuca­nos, dessanas, pirá-tapuios, arapassos, tarianas, tatuios, barás, barassanas e vários outros grupos não podem ser considerados sociedades dessa maneira. Para começar, nenhum membro desses grupos, com exceção talvez apenas dos cobéuas, pode procurar cônjuge dentro de seus próprio grupo. Os tarianas, por exemplo, para reproduzirem novos tarianas, precisam de mulheres pirá-tapuias ou arapassos. Como podemos chamar de sociedade a um grupo que não tem autonomia para se reproduzir socialmente?  Poder-se-ia responder: é fácil, basta considerar todos os grupos desta área como constituintes de uma única sociedade, e tomar a cada um deles como se fosse um clã patrilinear, uma vez que a qualidade de membro de cada um deles passa de pai para filho. Porém acontece que existem outras fronteiras sociais dentro da área. Assim, os macunas, barás e cabieris não se casam entre si (Hugh-Jones, Stephen, 1979: 24), formando uma unidade exogâmica mais ampla, como se fossem clãs de uma mesma fratria. A solução, portanto, seria tomar como sociedades a essas fratrias.

              Entretanto, uma outra característica desses grupos que queremos ver como clânicos é falar cada qual uma língua. Ou seja, o casamento se faz entre grupos de línguas diferentes. De fato, há línguas diferentes, até mesmo de famílias lingüísticas distintas. Assim, línguas da família betóia ou tucano oriental (que não se deve confun­dir com o grupo clânico tucano, que fala uma dessas línguas) predominam no Uaupés e no Apaporis, enquanto línguas da família aruaque são mais comuns no Içana. Havia até mesmo representantes da família caribe, como os carijonas, hoje reduzidos a al­guns indivíduos isolados (Correa 1987a: 111, nota 6). Vale considerar ainda que os tarianas perderam sua língua aruaque e hoje só falam português. Os lingüistas podem delimitar essas línguas com um critério bem simples: grupos que se entendem mutua­mente, apesar de pequenas diferenças, falam a mesma língua. Poder-se-ia até usar as diferenças de línguas como fronteiras culturais. Mas mesmo aí se encontram dificulda­des. Existe uma tendência entre índios de diferentes grupos de insistirem que não entendem uns a lingua dos outros, apesar da evidente semelhança. Em outras palavras, as diferenças lingüísticas são acentuadas por motivos ideológicos.

              Em suma, dir-se-ia que estamos diante de clãs que se querem como etnias.


Hierarquia


              Esses clãs, que alguns autores chamam de sibs, se ordenam hierarquicamente, de tal modo que os sediados nos rios principais se consideram superiores aos que estão nos seus afluentes, e os que vivem a jusante, superiores aos que moram a mon­tante. A hierarquia está presente em todos os níveis de inclusão e ordena os clãs da mesma fratria, as linhagens do mesmo clã, chegando até ao grupo de irmãos.

              Embora existam muitas variações nas narrativas mitológicas, de um modo geral, os clãs originários de uma mesma sucuriju ancestral se ordenam do mais alto ao mais baixo na hierarquia conforme os segmentos de seu corpo que lhes deram origem, respectivamente da cabeça à extremidade da cauda.

              Além disso, entre os barassanas foi descoberto algo que certamente pode ser generalizado para toda essa área: os sibs de uma mesma unidade mais inclusiva, tal como um grupo de irmãos, têm idealmente papéis especializados, assim distribuídos do mais velho para o mais novo (Hugh-Jones, S. 1979: 116-117):

1º - chefe

2º - cantor ou dançarino

3º - guerreiro

4º - xamã

5º - acendedor de charuto ou servo

              Não raro, os ocupantes da última posição são comparados aos macus, o que nos conduz a falar destes últimos.


Relações simbióticas


              Aos índios das famílias tucano e aruaque que vivem junto aos rios, organiza­dos em unidades patrilineares, exogâmicas, hierarquizadas e com vários níveis de inclusividade, aos quais até aqui nos referimos, costuma-se chamar, de forma a simpli­ficar, de "índios do rio". Longe, porém, dos rios caudalosos, nos interflúvios, habitam os macus, que se articulam aos índios do rio, mas não do mesmo modo que estes se articulam entre si.

              Os macus se dividem em pelo menos seis grupos, cada qual falante de uma língua. Essas línguas vêm a constituir a família macu, embora se costume também incluí-las numa família mais ampla, junto com outras línguas que foram faladas nas vizinhanças do Orenoco: a família puinave. Essas línguas macus são faladas por grupos que se distribuem no sentido noroeste-sudeste, desde o alto Guaviare até o baixo Japu­rá. Em território colombiano está um grupo com pouco contato e o chamado bara — estudado por Peter Silverwood-Cope (1990) —, nome que não deve ser confundido com bará, que é um grupo dos índios do rio. Em território brasileiro estão os que têm os seguintes nomes: hupdu, iuhup — estudados por Pozzobon (1983) —, camã e nadob (conhecido como guariba). Por conseguinte, sua distribuição geográfica cruza em diagonal a área ocupada pelos índios do rio. Desse modo, nem todos os índios do rio têm relações diretas com os macus. Estes, por exemplo, não estão presentes no rio Pirá-paraná, onde vivem os barassanas, que nem por isto deixam de considerá-los em suas avaliações hierárquicas (Hugh-Jones, S. 1979: 148).

              Cada uma dessas unidades geográfico-lingüísticas se divide em grupos regio­nais dentro dos quais os macus efetuam a maioria de seus casamentos. Apesar de se dividirem em clãs e metades patrilineares, estas unidades não são localizadas como entre os índios do rio, e seus grupos locais têm composição variável, e não nucleados num grupo de irmãos, como entre os índios do rio.

              Os macus, como exímios caçadores, fornecem carne aos índios do rio e tam­bém lhes prestam serviços, recebendo em retribuição mandioca e peixe. Os índios do rio, apesar de poliglotas, não se dispõem a aprender uma língua macu e muito menos os consideram como parceiros matrimoniais; tomam-nos como muito pouco humanos e até incestuosos, pois se casam com pessoas que falam a mesma língua e não seguem os mesmos padrões de residência dos índios do rio. Embora aparente­mente aceitem a posição de inferioridade em que os índios do rio os colocam, não são seus servos ou escravos, como alguns observadores no passado os chegaram a consi­derar, pois podem a qualquer momento abandonar o que estão fazendo na beira do rio e se internar na floresta, onde os índios do rio não ousam procurá-los, por medo de espíritos que os macus desconhecem. No seio da floresta os macus, ao conversarem entre si, zombam das atitudes dos índios do rio. De qualquer modo, têm medo da magia destes últimos (Silverwood-Cope, Ramos e Oliveira 1980).


Sub-áreas


              Talvez seja possível distinguir três sub-áreas etnográficas no noroeste da Amazônia: a) Içana; b) curso inferior do Uaupés e seus afluentes; e c) alto Uaupés, o Apaporis, o Miriti-paraná e seus afluentes.


a) O Içana

              O Içana talvez seja o que tenha sofrido mais cedo a penetração dos civiliza­dos, uma vez que fica vizinho à faixa em que as bacias do Amazonas e do Orenoco se interconectam e foi desde o século XVIII objeto de disputa entre as duas metrópoles colonizadoras. É habitado pelos baníuas, que falam uma língua aruaque.

              Eduardo Galvão (1979b: 172-174), em suas pesquisas de campo na primeira metade da década dos 50, contou 23 sibs, que se distribuiam em três grupos dialetais e se casavam livremente entre si, o que nos leva a pensar que os cobéuas não diferem tanto dos demais ao estabelecerem laços matrimoniais dentro da mesma unidade lin­güística. Reparou, entretanto, que, naquelas situações em que os baníuas estavam junto de índios do baixo Uaupés, passavam a se comportar como se todos os baníuas consti­tuíssem um grupo exogâmico. Notou também que a língua geral, de origem tupi, falada pelos sertanejos do rio Negro estava suplantando a língua dos baníuas no baixo e médio Içana.

              Esta sub-área também foi foco de movimentos de caráter messiânico nos meados do século passado, que vêm sendo recentemente reconstituídos e analisados por Robin Wright (1981 e 1992; Wright e Hill 1986). Por outro lado, salvo engano, a situação atual desta sub-área não tem despertado interesse dos pesquisadores.


b) Baixo Uaupés

              A língua geral não penetrou tanto o Uaupés como o fez no Içana. Além do mais, os missionários salesianos adotaram a língua tucano (uma das línguas da família tucano, note-se bem) para uso na catequese e nos seus internatos. À primeira vista isto pode ser interpretado como um reforço da cultura indígena. Mas, se nos lembrarmos que cada sib ou clã do Uaupés tem sua própria língua, essa medida dos missionários contribuiu mais como pressão no sentido de uniformizar as diferenças lingüísticas.

              Além disso, ao contrário do Içana, onde ainda as havia, pelo menos no tempo da pesquisa de Galvão, as grandes casas comunais vieram a ser substituídas por casas de famílias elementares, também por causa da imposição missionária. Mesmo assim, como nos mostra Ana Gita de Oliveira (1981), as pequenas casas de famílias elementa­res ainda se distribuem conforme os critérios de residência patrilocal, exogamia e hierarquia de irmãos.


c) Alto Uaupés, Apaporis e Miriti-paraná

              Esta sub-área, que está na sua maior parte em território colombiano, ficou preservada por mais tempo do contato em os civilizados. Talvez, por causa disso, é a que tem sido alvo de um número maior de pesquisas, sobretudo por aqueles antropólo­gos que buscam sociedades pouco modificadas.



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