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Capítulo 9
ANDES SETENTRIONAIS
por Julio Cezar Melatti
Revisto em 8-8-97
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Esta área — que inclui a conhecida como Tierradentro, cujos limites exatos não sabemos traçar — tem por núcleo as cabeceiras do rio Cauca, a que se acrescentam outras cabeceiras de rios que correm para o Madalena, para o amazônico Caquetá (o Japurá do Brasil), para o Pacífico (o rio Patia).
Talvez os dois aspectos mais importantes a serem abordados quanto a esta área sejam: a) a distribuição dos índios em resguardos dirigidos por cabildos cujos cargos são ocupados pelos próprios indígenas e que remontam ao período colonial; e b) a secular luta dos índios para manter a integridade desses resguardos, isto é, suas terras.
Cabildos e resguardos
Ximena Pachón (1987a: 219) enumera 39 resguardos em que se localizam os paez. A mesma autora (1987b: 244-246), referindo-se aos guambianos indica que o cabildo se compõe de governador, secretário, alcaide e pelo menos um aguazil por vereda, cargos assumidos por um ano por homens casados (os paez, por sua vez, permitem o acesso também aos solteiros). Entre suas atribuições se contam a vigilância e cuidado do território, a moralidade e a ordem públicas, a faculdade de impor multas e sanções a homens e mulheres que não cumpram as obrigações domésticas, a organização e supervisão de atividades comunitárias de interesse coletivo. O cabildo tem ganhado força nos últimos anos.
Os cabildos indígenas nasceram com o aumento dos impostos sobre as encomiendas no final do século XVII, o que fez reverter a concessão de explorar o trabalho indígena de muitos encomenderos aos reis espanhóis. Os impostos devidos pelos índios a estes últimos passaram a ser recolhidos através de alcaides e corregedores, que não só desataram uma repressão ainda maior como, por outro lado, apresentavam um rendimento menor ao rei. Por isso, a coroa passou a entregar essa tarefa aos próprios índios, criando os cabildos e, através dos resguardos, reconhecendo seus direitos às terras ancestrais (Arocha 1985: 206).
Mas já a partir do século XVIII os resguardos se viram ameaçados na sua integridade pela prática indígena do arrendamento a camponeses mestiços com o fim de obter rendimentos que permitissem pagar o tributo real, pela autorização governamental de vender a espanhóis e mestiços as terras que "sobrassem" nos resguardos, e, após a independência, pelo estímulo à propriedade individual, a partir de 1821, como forma, no modo de ver dos legisladores, de levantar a dignidade dos indígenas. Apesar de tudo isso, os resguardos se mantiveram em número elevado no Cauca devido à proteção do general Tomás Cipriano de Mosquera em retribuição à ajuda que lhe prestaram os índios paez, como seus soldados, para derrotar as forças do governo em 1860 (Arocha 1985: 210-211).
A Lei 89 de 1890 veio garantir o domínio comunal sobre a terra, através da autoridade dos cabildos de índios. Mas, por outro lado, medidas legais posteriores com ela conflitavam. Além disso, os programas governamentais e, de um modo geral, o sistema econômico colombiano discriminam as formas coletivas de posse da terra, de modo que os índios dos resguardos não têm como dar as garantias exigidas por empréstimos e assistência técnica que venham a solicitar. Sem contar que certas formas de invadir terras de resguardo e delas se apossar já se esboçam por parte dos não-índios (Arocha 1985: 211-212).
A luta pela terra
A longa luta pela terra deixou na memória líderes como o cacique paez Don Juan Tama, que com outros caciques viajou até Quito no início do século XVIII para conseguir junto às autoridades reais o reconhecimento de seus territórios e os respectivos títulos escritos, além de legitimarem seu poder politico como "caciques principais" (Pachón 1987a: 231). Crenças de natureza messiânica e relacionadas ao xamanismo paez (houve um movimento messiânico em 1706 e outro em 1833), identificam Juan Tama com o filho do Trovão, a quem invocam com pedidos de ajuda nas tarefas do cabildo e que é tomado como modelo pelos xamãs (Pachón 1987a: 229-230).
Na segunda década do presente século se destaca um outro líder paez, Manuel Quintín Lame, que começa a pôr em dúvida a necessidade de os índios pagarem a corvéia (terraje), em retribuição ao uso de uma parcela de terra dentro de uma fazenda. Procurando advogados, estudando direito, os códigos e as leis antigas, chegou à conclusão que as terras colombianas pertenciam aos índios, que deveriam resgatá-las, lutando ou fazendo-se eleger como representantes das assembléias legislativas de todos os níveis. A partir de 1913, passou a divulgar suas idéias em velórios, mutirões e promovendo encontros. Em 1915, pensou em fazer a independência total dos cabildos através de um levante geral que foi sustado e que resultou na sua prisão. Mesmo assim os índios assaltaram dois municípios (Belalcázar e Inzá) e invadiram fazendas. Preso em 1917, Lame continuou sua pregação e morreu em 1967 (Arocha 1985: 221-223).
As idéias de Manuel Quintín Lame levaram à criação do Conselho Regional Indígena do Cauca (CRIC), em 1971, com um programa baseado nos pontos seguintes: 1) recuperação das terras de resguardo; 2) ampliação dos resguardos; 3) fortalecimento dos cabildos indígenas; 4) eliminação da corvéia (terraje); 5) divulgação das leis indígenas e exigência de seu cumprimento; 6) defesa da história, línguas e costumes indígenas; 6) formação de professores para educar os indígenas de acordo com sua situação e sua língua (Arocha 1985: 223-224).
Nos dez primeiros anos de funcionamento, o CRIC conseguiu a recuperação de 30 mil hectares de antigos resguardos e a criação de cabildos em seis municípios, criou 50 lojas comunais e 25 empresas comunitárias. Apesar de suas táticas não violentas, que o tem feito ganhar prestígio internacional, seus membros têm sido vítimas de atentados contra suas vidas (Arocha 1985: 224).
A luta pela terra mantém hoje unidas, entre outras, duas etnias que no passado se hostilizavam: os paez e os guambianos. Isso porque os primeiros resistiram à ocupação espanhola, enquanto os segundos os ajudaram a conquistar Tierradentro (Pachón 1987a: 230).
Outros problemas
Também afetam a vida dos paez a pequena produtividade do milho e a destinação, por estímulo estatal e empresarial, das melhores terras ao cultivo da pita (fique), a alta mortalidade infantil e o déficit de mulheres maiores de 40 anos (Pachón 1987a: 223 e 219-220). Por outro lado, uma atividade que lhes pode trazer bons rendimentos, a produção de cera a partir da planta silvestre Myrica policarpa, fica em segundo plano por ter seu ciclo coincidente com o do milho (Pachón 1987a: 223-224).
Redefinindo o traçado da área
Todos esses esforços e dificuldades constituem o fundo de manifestações como as de 1980, que incluia a promoção de uma marcha até Bogotá, que congregava guambianos, paez, cumbais e inganos. Ora, essas duas últimas etnias indígenas estão mais ao sul, próximas da fronteira com o Equador. Além disso, os otavalos, do norte do Equador, estão sempre presentes nos dias de feira em Sílvia, núcleo urbano junto aos guambianos, bem como percorrem o resguardo destes últimos, oferecendo seus tecidos. Seria o caso de se pensar em estender essa área etnográfica até os otavalos.
Como nas mesmas feiras comparecem índios do vale do Sibundoy, um afluente do alto Putumayo (o Içá do Brasil), vendendo raízes e amuletos, vale pensar também se eles não ficariam adequadamente incluídos nesta área. Mas convém aguardar até discutirmos a área onde os colocamos preliminarmente. Aliás, parecem ser antigas as relações desta área com as terras mais baixas que lhe ficam a oriente. Disto são exemplos a presença de andaquis no vale do rio Suaza, afluente do alto Madalena, por força dos deslocamentos motivados pela colonização espanhola (Friede 1967) e a discussão referente à origem amazônica dos paez, tomando como argumento sua antiga aliança com os pijaos e os extintos ialcons como indício de sua origem caribe (Pachón 1987a: 230), a distinção dravidiana de parentes e afins, o cultivo da mandioca.
BIBLIOGRAFIA
AROCHA, Jaime. 1985.
"Cauca indio: guerreros y adalides de paz". Em Herederos del
jaguar y la anaconda (Nina S. de Friedemann e Jaime Arocha, orgs.). 2ª
edição. Bogotá: Carlos Valencia. Pp. 193-232.
HERNÁNDEZ DE ALBA, Gregorio. 1963. "The highland tribes of southern Colombia". Em Handbook
of South American Indians (Julian Steward, org.). Reimpressão. Nova Iorque: Cooper Square. Vol. 2: 915-960.
LOPEZ DE LA ROCHE, Fabio E.
1990. "La jornada regional de cultura popular en Silvia (Cauca): un
diálogo atento y fructífero en torno a la cuestión de las identidades". Revista
de Antropología y Arqueología 6 (1):185-203. Bogotá: Universidad de los
Andes.
LEHMANN, Henri. 1963. "The
Monguex-Coconuco". Em Handbook of South American Indians (Julian Steward,
org.). Reimpressão. Nova Iorque: Cooper Square. Vol. 2: 969-974.
PACHÓN, Ximena. 1987a. "Páez". Em Herederos del jaguar y la
anaconda (Nina S. de Friedemann e Jaime Arocha, orgs.). 2ª edição. Bogotá:
Carlos Valencia. Pp. 217-233.
PACHÓN, Ximena. 1987b. "Guambía". Em Herederos del jaguar y
la anaconda (Nina S. de Friedemann e Jaime Arocha, orgs.). 2ª edição.
Bogotá: Carlos Valencia. Pp. 235-249.
RAPPAPPORT, Joanne. 1981. "Mesianismo y las
transformaciones de símbolos mesiánicos en Tierradentro". Revista
Colombiana de Antropología 13. Bogotá.
OUTROS TEXTOS SOBRE A ÁREA
FRIEDE, Juan. 1974. Los
Andakí. 1538-1947. Historia de la aculturación de una tribu selvática. México:
Fondo de Cultura Económica.
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