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Capítulo 8
LITORAIS DO NOROESTE
por Julio Cezar Melatti
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Esta área inclui as sociedades indígenas situadas no noroeste da América do sul,
entre aquele ramo dos Andes denominado cordilheira Ocidental e o oceano
Pacífico. Como algumas dessas sociedades também se fazem presentes no
Panamá, incluímos nesta área também a parte desse país situada a leste do
canal interoceânico. Desse modo, a área passou a incluir dois litorais: um no
Atlântico, ou mais especificamente no mar de Caribe, do arquipélago das
Mulatas até o golfo de Urabá; e outro no Pacífico, desde o golfo de
Panamá até o norte do Equador, abrangendo toda a uma suave reentrância do
continente desprovida de um nome próprio. Trata-se de uma área
excessivamente chuvosa e úmida, contrastando, assim, com o litoral que
a segue, do sul do Equador até o norte do Chile, de clima árido. Outra
característica da área é a predominância acentuada de negros na população
regional não indígena. Quanto à economia, é uma área que oscila entre
clímaces e estagnações ("boom and bust") de atividades voltadas para a
exportação. A floresta úmida é bordejada por mangues na
beira-mar.
A presença de ouro foi o motivo para a importação de grande número de escravos
negros no passado. As revoltas de escravos levaram a um regime de trabalho
especial em que se lhes concedia uma certa autonomia dentro da escravidão
("hemmed-in-freedom"), através da constituição de "quadrilhas" de
escravos e de homens livres. Até hoje continua o garimpo na região,
realizado por grupos de mulheres. Em alguns lugares se encontra a platina junto
com o ouro. Financiadores e especuladores estrangeiros promovem a dragagem
e, no Departamento de Chocó, a mineração em larga escala. Exploram-se
também produtos florestais como salsaparrilha, epicac, quinino,
sândalo, taguá (jarina), paina da árvore ceiba, balsa e couros. A taguá (jarina)
ou marfim-vegetal ("ivory nut") foi muito procurada antes da Segunda Grande
Guerra. A borracha passou por períodos de alta procura desde meados do
século XIX até a Segunda Grande Guerra. Após essa guerra iniciou-se o
cultivo de bananas para exportação, o que levou a um desvio de terras e
trabalho antes aplicado às culturas de subsistência para essa lavoura
comercial. Mais para o norte, essa atividade foi seguida pela cultura do
arroz. No mesmo período da banana se inicia a exploração de madeiras brancas e
de lei, com o estabelecimento de serrarias na região. Nos mangues se
coletam conchas e se extrai cortiça rica em tanino. Peixes secos e
cocos são outros produtos da orla marinha. De um modo geral todos esses
produtos são explorados através de um mesmo sistema: um centro de operações com
acesso a portos de embarque, habitado por forasteiros brancos e mestiços
(mamelucos?), que compram os produtos cultivados ou extraídos por negros,
cafuzos (zambos), mulatos e índios. Esses mesmos forasteiros revendem ou
gerenciam a transferência desses produtos para outras regiões desses países
ou para o exterior. Como a procura desses produtos oscila entre intensa
demanda e o desinteresse do mercado, notam-se sempre centros em ascensão, outros
em decadência, corridas para cultivar ou extrair certos produtos alternadas
com o retorno às atividades de subsistência (Whitten Jr. 1986:
74-77).
A agricultura de subsistência faz uso na região de uma técnica peculiar: o
plantio de sementes, rizomas ou seções de caule é feito em primeiro lugar;
depois é que o mato, árvores inclusive, é cortado, formando rapidamente uma
camada em decomposição através da qual surgem os brotos dos vegetais
cultivados, por ela adubados. Não se usa arado ou enxada, sendo o terçado ou
facão o instrumento utilizado em todas as fases da atividade agrícola,
complementado pelo machado para a derrubada das árvores grandes. A queimada
é um recurso raramente aplicado (Whitten Jr. 1986: 67-68).
As sociedades indígenas que incluímos nesta área falam línguas classificadas em
duas famílias, a chibcha e a chocó. Convém dizer que as línguas e dialetos em
que os Voegelin (1965: 37-39) dividem a segunda dificilmente podem fazer
uma correspondência termo a termo com as atuais sociedades chocós
consensualmente identificadas na região. Além disso, nem sempre os trabalhos
escritos sobre os chocós identificam a sociedade particular a que se
referem.
Os cunas
Presentes em muito maior número no Panamá do que na Colômbia, os cunas se
destacam por vários motivos na literatura antropológica. Para a Antropologia
Biológica, por exemplo, conta o fato de constituírem a população com maior
porcentagem de albinos no mundo (Araúz 1972a: 80).
Por outro lado, estudos pioneiros realizados pelos etnólogos suecos, a começar
por Nordenskiöld, sobre religião e tradição oral, sobretudo um cântico para
facilitar o trabalho de parto recolhido por um auxiliar de pesquisa cuna de um
indígena mais velho (Holmer & Wassen, 1947), permitiram a Lévi-Strauss
(1967) escrever o famoso artigo sobre a eficácia simbólica, que culmina com a
comparação entre xamanismo e psicanálise, sem dizer da divulgação de um
interessante sistema de notação gráfica que permitia memorizar os cânticos
(Stout 1963, prancha 52).
Também são muito conhecidas as molas, painéis elaborados pelas mulheres
cunas sobre o peito e as costas das blusas que usam (Salvador
1976).
Ainda mais notável é a organização política dos cunas atuais, que gozam de uma
relativa autonomia frente ao organismo estatal do Panamá. Tendo assinado um
tratado de paz com os espanhóis em 1787, que retiraram todas as fortificações da
região com exceção de uma, os cunas gozaram de relativa tranqüilidade no
século XIX. Em 1903 o Panamá tornou-se independente da Colômbia e pouco a pouco
começou a tomar medidas para intensificar o controle sobre os cunas, dos
quais algumas comunidades haviam se recusado a abandonar sua lealdade à segunda.
A polícia colonial criada para exercer tal controle, ao invés de
proteger os cunas contra os invasores panamenhos e colombianos de seu
território, representados por extratores de borracha, plantadores de
bananas, apanhadores de tartarugas, entre outros, começou um programa de
aculturação forçada, o que levou os cunas de San Blas à revolta de 1925.
Dissuadidos de retaliação pelos norte-americanos, os panamenhos aceitaram
fazer um tratado de paz com os cunas, que lhes devolviam as armas de fogo
tomadas à polícia (mas não as suas próprias) e se comprometiam a serem
leais ao Panamá. A situação permaneceu um tanto indefinida até 1938, quando
o governo panamenho reconheceu San Blas como reserva cuna, tendo os índios e
representantes do governo elaborado uma constituição para a reserva em
1945, conhecida como a Carta Orgânica, complementada pela lei compreensiva
da legislatura panamenha que, em 1953, regulamentava a administração de San
Blas. As aldeias cunas tinham até então vivido em confederações, de número
variável. No momento da promulgação da Carta Orgânica havia duas e seus chefes
foram hierarquizados na direção da unidade política mais ampla que então se
formava, sem dissolução das antigas, sendo ainda acrescentado um terceiro chefe
dentre os modernistas, como eram conhecidos aqueles cunas mais favoráveis às
missões religiosas, à interferência do governo panamenho e ao
estabelecimento de escolas. A Carta Orgânica criava também um Congresso Geral,
formado por chefes e representantes das aldeias, e reconhecia as atribuições de
determinadas autoridades panamenhas sediadas junto à reserva. A Polícia
Colonial foi substituída pela Guarda Nacional. A situação política dos cunas não
parou de evoluir e, ao que tudo indica, no sentido do reforço da ação do
estado panamenho.
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A revista América Indígena, do Instituto Indigenista Interamericano, com sede na cidade do México, no seu volume 55, nº 4, de 1995, publicou a Carta Orgânica, a Lei de 1953 e outros documentos legais panamenhos relativos aos cunas e a outras etnias indígenas. |
É Howe (1974: 20-28) que nos dá essa idéia geral da evolução recente da organização política dos cunas de San Blas. Mas sua tese se refere à organização política das aldeias cunas, com base no trabalho de campo numa comunidade específica. Ele descreve as reuniões cotidianas mantidas pela comunidade, a medidas que tomam, a extensa hierarquia de cargos, suas atribuições. O sistema reúne o moderno e o tradicional. As penalidades aplicadas, por exemplo, vão desde multas em dinheiro até o uso de urtigas.
A partir do final do século passado, os cunas moradores do litoral
atlântico do Panamá, que são a maioria, iniciaram um movimento de ocupação das
ilhas do arquipélago das Mulatas. É este arquipélago e a faixa costeira que
lhe é paralela que correspondem à reserva de San Blas. Concentrações
menores de cunas têm lugar nos rios Bayano, Chucunaque e Tuira, que correm
para o Pacífico. Mas parece que a Carta Orgânica se aplica apenas aos da
reserva de San Blás.
Na Colômbia, poucas centenas deles vivem junto ao golfo de Urabá. Se, por
um lado, parecem mais arcaicos no que tange aos costumes cunas, por outro estão
mais sujeitos ao controle e à interferência estatal.
Das sociedades indígenas que constituem esta nossa área dos Litorais do
Noroeste, talvez a dos cunas seja a única cujos membros vivem, na sua grande
maioria, à beira do mar. Além das atividades de subsistência, aplicam-se à
produção de cocos, outrora comprados por comerciantes colombianos cujas
embarcações freqüentavam o litoral de San Blas, e hoje consumidos também
pela indústria panamenha. As demais sociedades indígenas da área ficam mais para
o interior, sendo a orla marinha ocupada pelos negros.
Os chocós
Diferentemente dos cunas, as sociedades chocós (isto é, os uaunanas,
emberás, chamis e catios) não têm propriamente uma vida de aldeia. Suas
casas se dispõem à distância uma das outras ao longo dos rios (Araúz 1972a: 85).
No Panamá dedicam-se ao cultivo da banana (plátano) com fins comerciais (:
84-85). Com a crise do mercado da banana e da pacova, iniciam no final dos anos
sessenta o plantio do arroz (Loewen 1972: 166-167). Faron (1962: 15) entretanto
mostra que entre casas vizinhas há íntimos laços de cognação e casamento,
formando frouxos aglomerados a que chama de setores. Tais setores tendem
inicialmente à endogamia, mas, à medida que os novos laços matrimoniais
geram novos parentes entre os quais o casamento é proibido, os parceiros
matrimoniais passam a ser procurados em outros setores (Faron 1962: 18 e 36-37).
O grupo doméstico se forma e opera sob a coordenação de um homem, que o
funda após viver os primeiros tempos de seu casamento na casa do sogro. A
criação do novo grupo doméstico pode ser em terras novas, numa parte do pacoval
do pai cedida por este, em terra herdada por morte do pai, em terra herdada
por sua mulher ou em terra que sua esposa, viúva, administra em nome de seus
filhos, que a herdaram do pai. O afastamento do grupo doméstico corresponde a um
desligamento da cooperação econômica (Faron 1962:
26-33).
De grande importância na vida cotidiana dos chocós são os xamãs ou
jaibanás, para com os quais os índios têm uma atitude ambígua: ao
mesmo tempo que solicitam seus préstimos para combater doenças, temem a sua
cobiça pelos seus bens, suas esposas, e evitam negar-lhes o que pedem, ou mesmo
migram quando desconfiam que estão sendo visados por algum deles. Como os
próprios xamãs, ao exercerem atividades de cura, acusam a outros como
responsáveis pelos males que afetam o enfermo, contribuem ainda mais para
alimentar essa desconfiança (Pineda Giraldo & Gutiérrez de Pineda 1984/1985:
127-130).
Por diferentes que possam ser as crenças relacionadas ao xamanismo chocó e
ao cuna, há certas características que os aproximam: assim como o xamã cuna
esculpe imagens que representam espíritos protetores que o acompanharão na
jornada pelo corpo do paciente (Lévi-Strauss 1967: 216 e 219) e dispõe de uma
escrita pitórica, baseada em uma convenção pessoal, feita com lápis de cor sobre
papel, para ajudá-lo a lembrar da letra dos cânticos de cura (Stout 1963a: 268),
o xamã chocó faz figuras sobre um quadro de madeira ou de tela de cortiça,
que coloca junto a cabeça do paciente, de modo que este a veja, e seja
sugestionado por ela e receba dela uma influência direta. Tem também
pequenos bastões esculpidos, de forma humana, que representam espíritos
benéficos, ou terminados em cabeça de serpente, que representam
espíritos maléficos, ou, ainda, terminados em pontas de lança, que são os
auxiliares dos espíritos bons; cada um desses bastões é utilizado no tratamento
de uma enfermidade; fazem também pequenos barcos mágicos de madeira, pintados e
que abrigam certas figuras; possuem também frascos verdes ou azuis (cores
designadas com a mesma palavra entre os chocós) cheios de água. Aliás, crêem que
foi de uma gota azul ou verde que foram criados os chocós, e de uma outra gota
que imprudentemente deixou cair uma mulher sugiram os cunas (Pineda Giraldo
& Gutiérrez de Pineda 1984/1985: 138-144). Por conseguinte, uns e outros têm
atividades plásticas associadas a suas práticas
mágicas.
Além disso, alguns dos materiais utilizados têm origem em produtos de
origem ocidental: papel, lápis de cor, vidros, o modelo do barco mágico.
Vale acrescentar que o próprio mito de origem do xamanismo chocó contém um
episódio que lembra a história de João e Maria (Pineda Giraldo & Gutiérrez
de Pineda 1984/1985: 122-127).
Os quáiqueres
A população quáiquer foi estimada em 4.500 por Ann Osborn, na época em que essa
etnóloga realizou pesquisa de campo entre eles, em 1961-62. Desse número, l.000
eram indivíduos que não viviam na área indicada pela pesquisadora como
território dos quáiqueres — o extremo sudoeste do departamento colombiano
de Nariño, junto à fronteira com o Equador — geralmente não considerados
como quáiqueres, apesar de falarem sua língua e se pautarem por sua cultura
(Osborn: 1969/72: 216-218 e 310 — nota 13).
Para evitar a erosão e o lixiviamento no preparo da lavoura, os quáiqueres nunca
queimam os arbustos e os vegetais rasteiros, poupando mesmo as árvores e, ainda
que as derrubem, não lhes arrancam as raízes do solo, usando como instrumentos
agrícolas apenas o terçado e o machado (Osborn 1969/72: 223-224).
Normalmente deixam o solo descansar e se recuperar após algum tempo de cultivo,
tempo que varia conforme os vegetais. Mais recentemente, entretanto, para evitar
a invasão pelos regionais dos terrenos em repouso, esse tempo tem sido
reduzido. Pela mesma razão, e por contarem, por isso, com menos terra, tem
crescido a preferência pelo plantio da pacova, que permite explorar o mesmo
lote por mais tempo (: 225). Um quáiquer só trabalha em terra que pertenceu
a seus antepassados, na qual foram sepultados e à qual ele próprio retorna no
fim de sua vida, se dela se afastou. Chega mesmo a evitar andar sobre a terra
pertencente a outros quáiqueres não aparentados (: 238). Mesmo quando trabalha
para mestiços, o quáiquer somente o fará em terras que pertenceram a seus
antepassados, agora sob o controle de regionais que ainda vêm a ser longínquos
parentes seus (: 241).
O grupo de irmãos é uma unidade fundamental na organização social quáiquer
(: 241). Geralmente o casamento se faz entre um par de irmãos e um par de irmãs
ou então dois pares constituídos cada qual de um irmão e uma irmã. Como este
casamento está associado à alocação de terras de cultivo, os casamentos das
gerações seguintes se operam tendo em vista a abertura de novos lotes, os
períodos de pousio de lotes em uso, envolvendo o matrimônio entre certos primos
paralelos e de tal maneira que a situação dos netos, quanto à terra, venha a
reproduzir a situação dos avós, num sistema complexo que não poderíamos expor em
poucas linhas (: 249-253). Nesse sistema que envolve relações matrimoniais
e terras os grupos de irmãos são identificados por nomes de família
cuja transmissão não conseguimos compreender.
Talvez estejamos diante de uma interessante oportunidade de estudo
comparativo de como quáiqueres e chocós, com maneiras diferentes de
compor o grupo doméstico e realizar o casamento, enfrentam o problema
semelhante do pousio, da abertura de novas lavouras e ainda do deslocamento ou
superutilização dos lotes devido à disputa de terras com os regionais
negros ou mestiços (mamelucos?).
Articulações interétnicas
No Handbook of South American Indians os artigos referentes a algumas
sociedades indígenas que incluímos nesta área estão em páginas contíguas (Stout
1963a e 1963b e Murra 1963). Certamente, toda vez que recorremos a esta
excelente obra de referência devemos nos lembrar que foi publicada há quarenta
anos. Mas já aí encontramos alguns dados referentes às inter-relações entre
as sociedades da área: as zarabatanas e seus projetis envenenados
usados pelos cunas no passado teriam procedência chocó (Stout 1963a: 260); os
chocós mantêm narrativas referentes a escaramuças com os cunas (: 263); os
homens chocós, particularmente os xamãs, viajam por grandes distâncias,
chegando a visitar os caiapas (Stout 1963b: 271). Faz referência também a
relações com sociedades indígenas que pusemos em outras áreas: os colorados
cruzavam os Andes para buscar veneno de flecha junto aos canelos (Murra
1963: 289), da área etnográfica Amazônia Extremo-Ocidental. E ainda relações com
os não-índios: as famílias caiapas visitavam a costa pelo menos uma vez por ano
para comércio e fins sociais, vendendo nas pequenas cidades equatorianas e
colombianas borracha, sementes de taguá (jarina), cacau e outros produtos da
floresta e artesanato, abastecendo-se de artigos industriais (Murra 1963: 281);
os colorados chegavam a viajar a Quito para comprar pão (: 288). Aponta a
influência negra, espanhola e quêchua na música dos colorados (: 290); a
provável origem negra dos arpões usados pelos cunas (Stout 1963a:
257).
O texto de Osborn (1969/72: 217) faz alusão à possível origem africana da música
festiva quáiquer e do instrumento com que é tocada, o xilofone; e ainda à
procura de serviços mágicos junto a um índio do vale do Sibundoy, do outro lado
dos Andes (: 262-263), na área etnográfica Cabeceiras do Putumayo e do
Caquetá.
Altschuler (1965: 444-445) descreve um rito de estabelecimento de relação de
compadrio, comum na área rural equatoriana, que freqüentemente se realiza
entre negros e caiapas. Geralmente é um comerciante negro que pede para ser
padrinho de uma criança caiapa de idade entre poucos meses e seis anos. Desse
modo o comerciante consegue um lugar para comer e dormir em suas viagens de
negócios e procura estabelecer essa relação com quantos possa entre os índios
plantadores de banana. O caiapa, por sua vez terá onde ficar em suas viagens à
cidade. O rito consiste no corte das unhas da criança pelo padrinho, que coloca
as aparas num copo de rum, o qual é bebido por ele e pelo pai, fazendo-se,
assim, compadres.
Whitten Jr. (1986: 50-56, 122 e 178-179) dedica alguns comentários às
relações entre índios e negros. A expansão da dominância dos brancos sobre
as vilas leva a uma dispersão dos negros pela floresta e pelas áreas inundáveis,
que por sua vez vai afetar os índios, que vêem suas aldeias cada vez mais
envolvidas por eles, a ponto de dificultarem as relações entre as próprias
comunidades indígenas. Se junto às aldeias indígenas os negros mostram uma certa
deferência pelos índios, nas cidades, e sobretudo se na presença de brancos
e mestiços, desrespeitam-nos. Ao mesmo comportamento são levados os índios
quando nas aldeias e na presença de brancos e mestiços. A altanaria negra só se
manifesta nas aldeias indígenas quando eles vêem os índios tocarem música
de origem africana, como o fazem os caiapas e os quáiqueres. Numa economia
monetária flutuante, dir-se-ia que os índios apostam preferencialmente na
subsistência, enquanto os negros escolhem correr o risco
monetário.
Enquanto Whitten Jr. faz seus comentários tendo em mente sobretudo a região
litorânea do sul da Colômbia e do norte do Equador, Faron considera a parte
setentrional da área de que estamos tratando e, a julgar pelo que ele diz
(Faron 1962: 14-15), embora a migração de chocós da Colômbia para o Panamá se
faça há muito tempo, ela se tem intensificado devido à pressão da população
negra. Mesmo no Panamá os chocós empreendem um deslocamento geral rio acima, não
somente devido ao próprio ciclo de desenvolvimento de seus grupos domésticos,
mas também para se afastarem dos negros e dos panamenhos
citadinos.
Enfim, pode-se ainda acrescentar que tanto os negros temem e procuram os xamãs chocós e se valem dos conhecimentos de ervas medicinais dos indígenas, como também estes recorrem aos curandeiros negros (Pardo Rojas 1989: 193).
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