Site Línguas Indígenas Brasileiras, de Renato Nicolai  < knewman@altavista.net >

 

Capítulo 7

EXTREMO NORTE


por Julio Cezar Melatti

Revisto em [...]-6-96


Mapa da área

Língua e população

Voltar ao Sumário de Índios da América do Sul



              Incluímos nesta área as sociedades indígenas localizadas na península de Guajira, na margem ocidental do golfo da Venezuela, na serra de Perijá e na serra Nevada de Santa Marta, envolvendo, pois, a fronteira setentrional da Colômbia e Venezuela.

              Na verdade, a primeira pergunta que nos fazemos é se esta área foi delimitada segundo os critérios que nos traçamos ou se estamos apenas sendo recalcitrante em reconhecer áreas que não atinjam uma superfície mínima. Portanto, as sub-áreas em que vamos dividi-la aqui talvez pudessem ser tomadas como três áreas distintas: a) a península de Guajira e a margem ocidental do golfo da Venezuela, b) a serra de Perijá e c) a serra Nevada de Santa Marta.


Sub-área da península de Guajira
e margem ocidental do golfo da Venezuela

              Na primeira dessas sub-áreas vivem os guajiros e os paraujanos, aqueles na península a que dão nome, tanto no lado colombiano como no venezuelano, e estes nas margens da laguna de Sinamaica. Falam línguas diferentes, mas ambas do tronco aruaque. Apesar da comparação de suas línguas apontar para uma possível origem comum que remontaria aos primórdios de nossa era (Wilbert 1983: 19), essas duas sociedades estão hoje adaptadas a ambientes diferentes, dedicando-se os guajiros à criação de gado em terras semi-áridas, enquanto os paraujanos vivem da pesca, moran­do em palafitas sobre terrenos alagados. Mas ambas estão sob a influência das ativida­des petroleiras que se desenvolvem desde 1917 no lago de Maracaibo.

              Segundo o resumo publicado há mais de quarenta anos por Armstrong e Métraux (1963) sobre os guajiros, estes começaram a criar gado desde sua introdução pelos espanhóis, sendo os bovinos já abundantes na área nos meados do século XVI (p. 369). Entretanto, eles foram hostis aos espanhóis durante todo o período colonial; somente após 1930 relações mais amistosas com os brancos foram estabelecidas (p. 370). Os autores referem-se à gradual diminuição da população guajira, devido à tuber­culose, varíola, doenças venéreas, que teria chegado então a uns 18.000 indivíduos (p. 370). Comparando-se essa cifra com a do nosso quadro, vemos que os guajiros vem recuperando sua população de maneira bastante vigorosa. Uma idéia da importância da criação de animais para os guajiros nos é dada pela estimativa, citada pelos autores, de 100 mil bovinos, 200 mil ovinos e caprinos, 20 mil eqüino e muares, 30 mil asininos, além de porcos e galinhas. Cada unidade matrilinear tinha sua marca de gado. Reluta­va-se em comer carne de boi, pois os bovinos eram uma medida de riqueza, mas se aproveitava o leite, inclusive para manteiga e queijo. Não obstante, bovinos eram exportados para Curaçau e Aruba em troca de tecidos e milho (p. 371). Convém lem­brar que era nessas ilhas de possessão holandesa que todo o petróleo extraído do lago de Maracaibo era refinado, até que a Venezuela passasse a exigir que uma parte do petróleo fosse refinado em seu próprio território, tendo sido construída uma refinaria na península de Paraguaná, que em 1949 passou a receber o petróleo do lago de Mara­caibo através de um oleoduto (James, 1959, p. 84-85).

              Os guajiros se dividem em trinta unidades matrilineares, referidas como "cas­tas" ou "tribos" e chamadas por Armstrong e Métraux de sibs, cada qual com domínio sobre uma parte do território, com diferenças quanto ao número de membros e riqueza em gado, e simbolicamente associada a uma espécie animal. Cada uma das divisões territoriais que lhes são correspondentes contém aldeias de duas a cincoenta casas e de 10 a 250 habitantes ou mais. Nem todas as unidades são rigidamente associadas a seus territórios e parece que não são obrigatoriamente exogâmicas, embora seja comum o casamento entre elas (p. 371 e 374-375). As relações com o tio materno são importan­tes quanto à herança e às prestações matrimoniais. Ele deve deixar a herança para o sobrinho mais velho, mas costuma passar a maior parte de seus bens em vida para seus próprios filhos. Paga o preço-da-noiva de seu sobrinho, sem opinar na sua escolha, e recebe o preço-da-noiva dado por sua sobrinha, podendo recusar o pretendente (p. 375). A unidade matrilinear também é a unidade política máxima e sua chefia se apoia na idade e riqueza (p. 375). O gado, além de fazer parte das prestações matrimoniais, também é transferido nas indenizações de sangue (p. 376 e 377). Trata-se de uma sociedade estratificada que mantém inclusive escravos (p. 376).

              No comércio com os civilizados os guajiros adquirem armas de fogo, muni­ção, tecidos, contas, cobertas, rum, instrumentos de corte, milho, açúcar, arroz, bana­nas, fumo e fornecem sal, gado, queijos, leite, couros, pérolas, conchas de pérolas, pau-de-campeche e dividivi. Trabalham no ensacamento e embarque de sal em Manaure (p. 374). Às vezes pais vendem filhos em Sinamaica. Por outro lado, as crianças abando­nadas são recebidas no orfanato de San Antonio (p. 378). Pais também dão filhas em casamento a civilizados de Maracaibo e Riohacha, que pagam altos preços por elas e se valem dos laços assim estabelecidos em suas relações comerciais (p. 379).

              Trabalhos mais recentes retificam e ampliam as informações oferecidas por Armstrong e Métraux. Watson (1968), por exemplo, começando por separar as simples dádivas da herança propriamente dita, distingue esta última entre aquela que o indivíduo recebe após o casamento de transmissores vivos e a deixada por parentes falecidos. Uma e outra, entretanto, se fazem de modo que o gado permaneça nas mãos de membros da unidade matrilinear, ainda que abrindo margem para a expressão de sentimentos entre eles através de acordo prévio entre os transmissores sobre qual deles dará a maior parte a determinado herdeiro. A diligência mostrada pelo herdeiro desde pequeno no cuidado do gado vem a influir no montante que recebe. É justamente no caso da herança deixada por pessoa falecida que, mais recentemente, os filhos vem recebendo uma boa parte, em prejuízo dos direitos tradicionais dos filhos das irmãs.

              Questões referentes à mulher guajira têm sido estudadas por Maria-Barbara Watson-Franke. Num de seus trabalhos (1974) mostra a importância da tecelagem na formação e na vida da mulher guajira, arte que lhe é ensinada desde a meninice e sobretudo durante a reclusão do rito de iniciação. O domínio da arte de tecer, além de tornar a mulher mais qualificada para o casamento, dá-lhe uma certa independência econômica, pois ela pode ganhar dinheiro e comprar gado com o produto de sua arte; por isso, é geralmente o homem, e não a mulher, que migra para a cidade por motivos econômicos (Watson-Franke, 1979, p. 89-99). Desde os anos trinta os guajiros começa­ram a migrar para a cidade de Maracaibo, não só devido às oportunidades oferecidas pela expansão das atividades ligadas à extração de petróleo, como talvez a um deterioramento das condições de vida por causa da seca e da dizimação do gado. Na cidade, a unidade matrilinear e a família extensa matrilocal não encontraram condições para se manter, cedendo lugar à família matrifocal (Watson-Franke, 1979, p. 95-96; Watson, 1970, p. 1-2), isto é, aquela que tem como núcleo uma ou mais mulheres adultas aparentadas e em que a figura do marido-pai é intermitente e até prescindível.

              Quanto aos paraujanos, dispomos de uma breve descrição publicada por Wil­bert (1983), que entre eles esteve em 1958. Segundo esse pesquisador, os paraujanos, conhecidos dos brancos desde 1499, têm vivido ultimamente à beira da extinção cultu­ral, embora no ano de sua visita vivessem em quatro localidades em torno da laguna de Sinamaica, que somavam 260 casas e abrigavam 1348 indivíduos (p. 15 e 18), cifra que, se comparada com a de nosso quadro, mostra que sua população tem crescido sensivelmente. Em 1912, cem falantes da língua paraujana viviam num povoado hoje englobado pela expansão da cidade de Maracaibo (p. 18). Mas no tempo da pesquisa de Wilbert as gerações mais jovens não mais falavam a língua indígena e os velhos, embora a soubessem, tinham vergonha de usá-la; não obstante, no passado, além de falarem sua própria língua, muitos conheciam também o idioma guajiro. Um estudo genético dos paraujanos indica mestiçagem com os guajiros, com os quais os intercasa­mentos diminuíram depois da conquista européia, em parte devido aos preconceitos dos segundos contra a alimentação baseada em peixe dos primeiros, e ainda mestiçagem com os brancos e os negros (p. 19). Entre as influências dos guajiros sobre os parauja­nos ainda se contam: a manta, um grande vestido colorido no estilo crioulo do século passado, usado pelas mulheres (p. 22); o preço-da-noiva (p. 30). Além disso, há seme­lhança na pintura facial (p. 23). Por outro lado, a unidade econômica básica é a família nuclear, o grupo local é tradicionalmente endogâmico e a residência é neolocal, mas junto à morada anterior de um dos cônjuges (p. 30). Em seus povoados os paraujanos vendem carne de porco, peixe seco, esteiras de "enea", cocos frescos e óleo de coco (o coqueiro foi introduzido há cem anos entre eles), produtos de que também fazem uso. O sal usado na conservação da carne e do peixe é obtido nas salinas da costa marítima vizinha. As esteiras são também vendidas em Maracaibo e em La Guajira. Tal como as cestas, as esteiras são feitas pelas mulheres. Por outro lado, os paraujanos não conta­vam com a cerâmica e a tecelagem entre suas atividades tradicionais (p. 20 e 22).


Sub-área da serra de Perijá

              A sub-área da serra de Perijá compreende duas sociedades indígenas que durante certo tempo estiveram confundidas sob o nome de motilones (derivado do espanhol "motilar", isto é, "cortar curto os cabelos" — Ruddle, 1971, p. 19, nota 3). Uma delas, a dos motilones chamados mansos, por estarem em contato amistoso há mais tempo, é hoje conhecida na literatura etnográfica como iucpa ou iuco. A outra, a dos motilones bravos, de contato mais recente, tem o nome etnográfico de bari.

              Segundo Ruddle (1971, p. 20-21), a distinção entre iucpas e iucos não se faz apenas porque os primeiros vivem na Venezuela e os segundos na Colômbia, mas é reconhecida pelos próprios índios, sendo reforçada por diferenças físicas, culturais e dialetais. Mas, a despeito dessas diferenças e mesmo daquelas entre as subtribos em que se dividem essas duas sub-unidades, esse pesquisador admite haver suficientes similaridades que permitem classificá-las numa única unidade cultural maior que deno­mina de iupca-iuco. Segundo dados coletados por esse mesmo estudioso na região nos anos de 1969 e 1970, a população das sub-tribos que formam os iucpas-iucos se estimava em 1484 iupcas e 692 iucos, num total de 2176. A julgar pelo quadro incluso neste capítulo, que apresenta números mais recentes, constatamos que ela cresceu sensivelmente.

              Ruddle & Wilbert (1983) fazem um bom apanhado etnográfico dos iucpas-iucos, bem mais substancial, e obviamente mais atualizado que a antiga compilação de Métraux e Kirchoff (1963), na qual são chamados pelo nome de chaques, que lhes era outrora atribuído. Cada sub-grupo dos iucpas-iucos ocupa uma das pequenas bacias dos rios que descem a serra de Perijá para uma ou outra de suas vertentes, instalando-se seus povoados em diferentes altitudes, mas geralmente em pequenas mesetas descam­padas. Tais povoados têm diversos tamanhos, desde uma ou duas filas de casas ao longo de um caminho até conjuntos de três, duas, ou mesmo uma casa, que correspon­dem a uma família extensa. Cada um dos subgrupos iucpa-iuco constitui uma unidade política autônoma, é dirigido por um chefe e mantém um estado permanente de hostili­dade para com os outros subgrupos. Cada subgrupo é endogâmico, compõe-se de famílias extensas, formadas, por sua vez, de famílias elementares. Permite-se o casa­mento entre primos cruzados e também com a filha da irmã e ainda com a irmã do pai (Ruddle & Wilbert, 1983, p. 80-82 e 98).

              Uma questão que chamou a atenção da antropologia e outras disciplinas para os iucpas-iucos foi a suspeita de sua população poder caracterizar-se como de pigmeus ou pigmóides, com possíveis implicações com respeito aos vários tipos de população que teriam povoado as Américas, questão explorada em conhecido livro de Paul Rivet (1958, p. 99-105). Hoje, porém, o problema está esclarecido por pesquisas que mos­tram a presença, não de pigmeus, mas de um significativo número de anões entre os iucpas-iucos. Isso se deveria a pelo menos dois tipos de nanismo: uma osteocondrodis­plasia espôndilo-epífiso-metafisária de caráter recessivo que afeta sobretudo os homens, e um transtorno metabólico com baixo nível de somatropina e somatomedina e defeito no metabolismo dos glicídios e lipídios muito provavelmente hereditária (Arias, 1976, p. 69).

              Os baris vivem ao sul dos iucpas-iucos, na mesma serra de Perijá. Em 1983 (data que vale ao menos para os dados venezuelanos) eles constituiam um total de 1560 indivíduos, sendo 1083 na Venezuela e 475 na Colômbia, uma população em franco crescimento desde a década de 60, quando estavam por volta de 800 ou 900 pessoas, dizimadas pelas epidemias provocadas pelo contato com os civilizados. Hoje ocupam uma área de aproximadamente 2400 km2, isto é, apenas 15% de seu território original em 1900, sendo que uns 300 baris na Venezuela e cerca de 50 na Colômbia vivem fora das terras tribais (Lizarralde & Beckerman, 1982, p. 42). Números mais recentes, apresentados no quadro que integra este capítulo, pelo menos no caso da Venezuela, cujas cifras são mais claramente datadas, mostram que sua população continua a crescer.

              Apesar de falarem línguas de famílias distintas, os iucpas-iucos e os baris constituem sociedades vizinhas e com alguns aspectos comuns no que tange ao contato interétnico. Antes de mais nada, mantinham entre si relações de hostilidade com se­qüestros de mulheres e crianças de parte a parte (Ruddle & Wilbert, 1983, p. 47 e 115). Ambas as sociedades tiveram de defender seus territórios dos invasores espanhóis desde o início do período colonial. Ambas foram e são objeto de catequese por parte de missionários capuchinhos, os iucpas-iucos desde o final do século XVII e os baris, pelo final do século seguinte, pois demoraram mais tempo a aceitarem o contato com os colonos. Entretanto, os missionários tiveram de deixar a região com a guerra da independência, caminhos que ligavam a Venezuela à Colômbia na região foram aban­donados, e os capuchinhos voltam à região somente no século XX, criando a missão de Tucuco em 1945, mais ou menos na divisória entre o território iucpa-iuco e o bari. Em 1910 um posto missionário se havia instalado do outro lado da serra, na Colômbia, na mesma divisória, em Codazzi. Hoje, além de capuchinhos no lado venezuelano, há as irmãs Lauras em ambos os lados e ainda uma missão evangélica no lado colombiano (Lizarralde & Beckerman, 1982, p. 14-15 e 40-42; Ruddle & Wilbert, 1983, p. 45-48).

              Um problema que talvez tenha afetado mais os baris do que os iucpas-iucos foi a perfuração de poços de petróleo em seu território. Um interessante trabalho de Lizarralde & Beckerman (1982) mostra como o seu território se reduziu a partir da segunda década do século atual com o estabelecimento de campos de petróleo no mesmo. Atrás das companhias petrolíferas vieram os fazendeiros venezuelanos, inva­dindo o território bari pelo norte e colonos colombianos, fazendo o mesmo pelo sul. Estes, com menos recursos, ficavam sob a proteção das companhias petrolíferas ou empregavam-se nas fazendas venezuelanas, inclusive como "mataíndios". Os missioná­rios, por sua vez, se de um lado se opõem a novas invasões das terras baris nem sem­pre com êxito, por outro expandem seu próprio controle sobre essas terras (p. 40-42). Hoje, um oleoduto parte das terras baris na direção do lago de Maracaibo e outro para Cartagena e para o golfo de Morrosquillo.


Sub-área da serra Nevada de Santa Marta

              Finalmente, a terceira sub-área compreende as sociedades instaladas nas en­costas da serra Nevada de Santa Marta, uma elevação muito alta, isolada, separada da serra de Perijá pelo vale do rio César. Com base no extenso livro sobre os côguis de Reichel-Dolmatoff (1985: 40-41), podemos considerar como índios da serra Nevada de Santa Marta os côguis, os icas, os sancás e os cancuamas, aqui indicados em ordem dos menos para os mais modificados e envolvidos no contato com os civilizados. Os cancuamas foram absorvidos pelos últimos quase inteiramente. Dadas as semelhanças entre si e a proximidade espacial, eram todos conjuntamente chamados de aruacos ou arhuacos, o que nada tem a ver com aruaque, uma vez que todos pertencem à família lingüística chibcha.

              Há mais de quarenta anos Park (1963) publicou um resumo etnográfico desta sub-área, tomando como base os côguis e os icas, que são muito semelhantes entre si. Os chimilas são dados por ele como quase extintos (p. 866 e 871). Vale conside­rar que os chimilas, vivem nas proximidades e não na serra de Santa Marta, não sendo propriamente desta sub-área. Por outro lado, os buntiguas, que cita como sendo em número de 500 (p. 870), não estão presentes nas fontes mais recentes que consultamos (a não ser que se trate de um outro nome dos próprios icas, pois é muito semelhante a alguns dos referidos por Reichel-Dolmatoff (1985, tomo I: 41). Tanto os homens côguis como os icas vestem uma túnica de algodão sobre uma calça que vai até o meio da perna, usam bolsas a tiracolo e um gorro do mesmo material, com pequenas varia­ções de uma sociedade para a outra. O vestido das mulheres, em peça única, deixa um dos ombros a descoberto e é guarnecido por um cinto. Os homens sempre trazem consigo  uma pequena cabaça, de gargalo estreito, onde guardam cal, a ser misturada com a coca que mascam. O bastão com que levam a cal à boca, raspado no gargalo, vai formando um prolongamento deste (p. 884). Assim como as calças masculinas podem derivar da influência branca, o mesmo ocorre com as edificações retangulares que se insinuam entre as de base circular, de estilo mais antigo, mas tanto umas como outras com paredes de pau-a-pique. As aldeias dispõem de um portão de entrada cober­to, um templo da religião indígena, redondo, conhecido como "cansamaria" (corruptela de "casa de Maria") e uma outra construção retangular que serve como capela católica. Quando nas aldeias, as mulheres ocupam casas individuais com seus filhos, enquanto os homens se abrigam na "cansamaria". Quando na roça, o homem e seus filhos, de um lado, e a mulher e suas filhas, de outro, ocupam casa separadas. A casa de mulher tem um bastão de pé em seu topo, enquanto a de homem tem dois, com um terceiro transversal a eles.

              As depressões e cursos d’água que cortam os caminhos são atravessados por pontes feitas com pedras e madeira (p. 875-878). A caça e a pesca não têm grande importância, mas é grande o número de vegetais cultivados, tanto os de origem ameri­cana como os trazidos pelos europeus. A atenção dada a cada vegetal depende da altitude em que os membros dessas sociedades se encontram. Assim, os côguis plantam muita cana, para abastecer de açúcar mascavo certo núcleos, enquanto os icas dão-lhe pouca atenção. Aliás, segundo uma outra autora, os côguis, ocupando alturas que vão desde os 700 até 5000 metros, realizam o controle vertical da produção agrícola, plan­tando os diferentes vegetais segundo a altitude a que se adaptam (Ochiai, 1978, p. 44-45).

              Um dos aspectos culturais que mais chama a atenção na serra Nevada de Santa Marta é a religião, com seus templos e seus sacerdotes, que têm importante papel na vida cotidiana, inclusive na escolha matrimonial e no acompanhamento das primeiras relações sexuais do casal (que têm lugar após um ano de serviços aos pais da noiva), sendo ainda, no passado a principal autoridade, hoje, por influência dos bran­cos, dividida com um chefe secular de aldeia (p. 882 e 885-886). Em um artigo, Rei­chel-Dolmatoff (1974, p. 290) assegura que os côguis, os icas e os sancás pautam sua vida por variações de um mesmo sistema religioso, sendo a dos primeiros a mais elaborada. Os côguis assumem, então, a supervisão das atividades religiosas dos mem­bros das outras duas sociedades.


Relações entre as três sub-áreas

              São poucas as referências que temos sobre as relações entre a serra de Santa Marta e as outras duas sub-áreas. Linda Gawthorne (1985, p. 35-36) diz que os côguis têm mais contato com os icas e sancás, dispondo de palavras indígenas para designá-los. Por outro lado, estão conscientes da presença dos chimilas e dos guajiros nas vizinhanças da serra Nevada de Santa Marta, mas se referem a eles usando nomes em espanhol. Armstrong e Métraux (1963, p. 372) afirmam que os ornamentos de ouro em forma de animais usados pelas mulheres guajiras são encontrados nas sepulturas tairo­nas, isto é, de um povo desaparecido, relacionado às atuais sociedades de Santa Marta.



BIBLIOGRAFIA


ARIAS C. Sergio. 1976. "Etiologia multiple del enanismo entre los indios Yukpa (Irapa) de la Sierra de Perija llamados `pigmoide’". Boletín Indigenista Venezolano 17 (13): 49-70.

ARMSTRONG, John M. & MÉTRAUX, Alfred. 1963. "The Goajiro". Handbook of South American Indians (Julian Steward, org.), vol. 4. Nova Iorque: Cooper Square. p. 369-383.

COMUNIDAD GUAJIRA. 1979. "Los Indios y la Frontera". Em Indianidad y Descolonización en América Latina: Documentos e la Segunda Reunión de Barbados. México: Nueva Imagem. p. 241-253.

EHRMAN, Susan Barbara. 1972. Wayuunaiki: a Grammar of Guajiro. Tese de doutorado em Antropologia pela Columbia University (University Microfilms International 75-18374).

FERNÁNDEZ, Nemesio Montiel. 1974. "Nociones sobre los Guajiros Prehispánicos y su Procedencia". América Indígena 34 (1): 105-111 (Extraído do periódico Nunuiki Wayuu — La Voz del Guajiro).

GAWTHORNE, Linda. 1985. "Cogui Kinship". Em South American Kinship: eight kinship systems from Brazil and Columbia, org. por William R. Merrifield. Dallas: The International Museum of Cultures, (Publication 18), p. 35-42.

GOULET, Jean-Guy. 1978. Guajiro Social Organization and Religion. Vols. I e II. Tese de doutorado em Antropologia pela Yale University (University Microfilms International 78-19004).

LIPPINCOTT, William Julian. 1970. Ethnohistory and the Autochthonous Peoples of Western Venezuela During the Immediate Poscontact Period. Tese de doutorado em Antropologia pela University of California, Los Angeles (University Microfilms International 71-09238).

LIZARRALDE, Roberto & BECKERMAN, Stephen. 1982. "Historia contemporánea de los Barí". Antropológica 58: 3-52.

MACKENZIE, P. José A. 1945. "El Piache Guajiro". América Indígena 5(2): 153-160.

MÉTRAUX, Alfred & KIRCHOFF, Paul. 1963. "The Northeastern Extension of Andean Culture". Handbook of South American Indians (Julian Steward, org.), vol. 4. Nova Iorque: Cooper Square, 1963. p. 349-368.

MOSONYI, Esteban E. 1975. "El Idioma Guajiro". Boletín Indigenista Venezolano (nova etapa) 16 (12): 101-115 (a continuar).

MOSONYI, Esteban E. [s.d.]. "Autogestión y Ecodesarrollo para la Alta Guajira". Hacia la Autogestión Indígena, Ano 1 (3 e 4): 9-10. (Venezuela): Fundación Arte y Vida.

MOSONYI, Esteban Emilio; SALAZAR, Carmem Rosa; & POCATERRA DE OBERTO, Noeli. 1975. "Situación de la mujer indígena en Venezuela: un estudio preliminar". América Indígena 35(3): 631-642.

OCHIAI, Inés. 1978. "El contexto cultural de la coca entre los indios Kogi". América Indígena 38(1):43-49.

PARK, Willard Z. 1963. "Tribes of the Sierra Nevada de Santa Marta". Handbook of South American Indians (Julian Steward, org.), vol. 2. Nova Iorque: Cooper Square. p. 865-886.

PARTRIDGE, William L. 1974. Exchange Relationships in a Community on the North Coast of Colombia with Special Reference to Cannabis. Tese de doutorado em Antropologia por The University of Florida (University Microfilms International 75-03519).

PERRIN, Michel. 1976. "L’extraordinaire et le quotidien: mythes ou fantasmes Goajiro?" Antropológica 44: 59-115.

PINTON, Solange. 1956. "Les Barí". Journal de la Societé des Américanistes 54: 247-333.

REICHEL-DOLMATOFF, Gerardo. "Funerary customs and religious symbolism among the Kogi". In LYON, 1974: 289-301 (original espanhol em Razón y Fábula 1: 55-72, 1967 — Bogotá: Univ. de los Andes).

REICHEL-DOLMATOFF, Gerardo. Los Kogi: una tribu de la Sierra Nevada de Santa Marta, Colombia. 2 tomos. 2ª edição. Bogotá: Procultura, 1985. (1ª edição: Tomo I: Revista del Instituto Etnológico Nacional, vol. IV, entregas 1a. e 2a., Bogotá, 1949-1950. Tomo II. Bogotá: Iqueima).

RUDDLE, Kenneth. 1966. "The hunting technology of the Maracá Indians". Antropológica: 25: 21-63.

RUDDLE, Kenneth. 1971. "Notes on the nomenclature and the distribution of the Yukpa-Yuko tribe". Antropológi­ca 30: 18-27.

RUDDLE, Kenneth & WILBERT, Johannes. 1983. "Los Yukpa". Em Los Aborígenes de Venezuela, org. por Walter Coppens & Bernarda Escalante, Vol. II (Etnología Contemporanea I, org. por Roberto Lizarralde & Haydée Seijas. Caracas: Fundación La Salle de Ciencias Naturales - Instituto Caribe de Antropología y Sociología (Monografia 29), p. 33-124.

SALER, Benson. 1988. "Los Wayú (Guajiro)". Em Los Aborígenes de Venezuela, vol. 3 (Walter Coppens e Bernarda Escalante, orgs.). Caracas: Fundación La Salle de Ciencias Naturales/Monte Avila. pp.  25-145.

UNGRÍA, Adelaida G. de Díaz. 1974. "Microevolución en las poblaciones indígenas Yupa". América Indígena 34 (1): 113-134.

VILLAMAÑÁN, Adolfo de. 1975. "Cosmovisión y religiosidad de los Barí". Antropológica 42: 3-27.

VILLAMAÑÁN, Adolfo de. 1982. "Introducción al mundo religioso de los Yukpa". Antropológica 57: 3-24.

WATSON, Lawrence C. 1967. "Guajiro Social Structure": a Reexamination". Antropológica 20: 3-36.

WATSON, Lawrence C. 1968. "The inheritance of livestock in Guajiro society". Antropologica 23: 3-17.

WATSON, Lawrence C. 1970. "Urbanization and the Guajiro matrifocal family; consequences for socialization and personality development". Antropológica: 27: 3-23.

WATSON, Lawrence C. 1972. "Sexual Socialization in Guajiro Society". Ethnology 11 (2): 150-156.

WATSON, Lawrence C. 1972. "Urbanization and Identity Dissonance: a Guajiro case". American Anthropologist 74: 1189-1207.

WATSON, Lawrence C. 1973. "Marriage and Sexual Adjustment in Guajiro Society". Ethnology 12 (2): 153-161.

WATSON-FRANKE, Maria-Barbara. 1970. "Zur Desintegration eines Matrilinearen Verwandtschaftssystems: die Position des Mutterbruders bei den Guajiro". Antropológica 25: 3-20.

WATSON-FRANKE, Maria-Barbara. 1974. "A woman’s profession in Guajiro culture: weaving". Antropológica 37: 24-40.

WATSON-FRANKE, Maria-Barbara. 1975. "Guajiro-Schamanen (Kolumbien und Venezuela)". Anthropos 70 (1 e 2): 194-207.

WATSON-FRANKE, Maria-Barbara. 1976. "Social pawns or social powers? The position of Guajiro women". Antropológica 45: 19-39.

WATSON-FRANKE, Maria-Barbara. 1979. "The urbanization and liberation of women: a study of urban impact on Guajiro women in Venezuela". Antropológica 51: 93-117.

WILBERT, Johannes. 1983. "Los Añu (Paraujano)". em Los Aborígenes de Venezuela, org. por Walter Coppens & Bernarda Escalante, Vol. II (Etnología Contemporanea I, org. por Roberto Lizarralde Y Haydée Seijas. Caracas: Fundación La Salle de Ciencias Naturales-Instituto Caribe de Antropología y Sociología, p. 11-32.



Voltar ao Sumário de Índios da América do Sul

Voltar para menu de Línguas Indígenas Brasileiras



STARMEDIA        CERRAR