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Capítulo 6
LLANOS
por Julio Cezar Melatti
Revisto em 7-8-97
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Os Llanos se estendem entre a margem esquerda do Orenoco e os flancos
orientais dos Andes, prolongando-se até o delta do mesmo rio. Mas aqui nos
referimos aos Llanos Ocidentais, que têm como limite meridional o Guaviare, um
tributário do Orenoco ao sul do qual domina a floresta amazônica e como
fronteira setentrional o rio Portuguesa, um afluente do Apure, por sua vez
afluente do Orenoco, que constituiria uma fronteira cultural dos índios dos
Llanos (Morey 1979: 78). A fronteira colombiano-venezuelana cruza os Llanos
Ocidentais. Trata-se de uma planície coberta de savanas e matas-galeria, cujo
clima alterna regularmente uma estação chuvosa com outra seca. É uma região que
parece assemelhar-se com os cerrados e florestas-galeria do centro-oeste do
Brasil, inclusive pela freqüência da palmeira moriche (Mauritia
flexuosa), do mesmo gênero de nossa palmeira buriti (Mauritia vinifera).
Das quatro sociedades que incluímos nesta área, duas se dispersam por
maiores extensões: os iaruros, que se distribuem predominantemente em
território venezuelano, e os guahibos, presentes sobretudo no colombiano.
Os guahibos
O termo guahibo inclui várias denominações que em passado não muito remoto
eram tomadas como nomes de povos distintos. Metzger e Morey (1983: 133-134),
que preferem usar a auto-denominação híwi, dão um excelente
esclarecimento sobre essas denominações. Assim, o termo chiricoa (aplicado
pelos iaruros aos guahibos) e cuiva (aplicado pelos civilizados regionais)
seriam sinônimos do termo sikwáni, nome que os guahibos aplicam àqueles
ramos de seu próprio povo que não praticam a agricultura. Mas o sentido desse
termo é relativo. Os cultivadores sedentários guahibos incluem no seu significado
os cultivadores sazonais e nômades dos pequenos rios; mas, estes, por sua vez,
se excluem dessa denominação, reservando-a para os caçadores e recoletores
nômades. Os guahibos dos Llanos, dada a distância que os separa, ignoram a
existência dos guaiaberos (guayaberos, isto é, goiabeiros?), que vivem no alto
Guaviare.
Se Alcida Ramos (1986: 10-11) criticou o uso do termo "tribo"
aplicado às sociedades indígenas, queremos chamar a atenção aqui para a
fragilidade de nosso uso do termo "sociedade". Poderíamos falar numa
sociedade guahibo ao nela incluir os guaiaberos, desconhecidos para os demais
guahibos? Ou deveríamos separá-los numa outra sociedade? Constituiriam os
guahibos uma cultura, apesar de suas diferenças quanto ao conhecimento da
agricultura? Viriam os guahibos dos Llanos a incluir os guaiaberos no seu grupo
étnico ao chegar a conhecê-los? Mas os próprios guahibos dos Llanos não se
fragmentariam numa série de unidades políticas autônomas? De que tipo de
unidade social estamos falando ao usar o termo guahibo? Não vamos resolver o
problema aqui, que não se aplica apenas aos guahibos, mas queríamos apenas
chamar a atenção para ele.
Nancy Creswick Morey concorda que o termo guahibo inclui grupos conhecidos
por outros nomes (1975: 203). Para ela, a presença dos guahibos numa grande
extensão dos Llanos se deve ao fato de outras sociedades indígenas com
agricultura mais desenvolvida terem sido pouco a pouco aniquiladas pela
atividade missionária e pelas expedições escravizadoras dos caribes a serviço dos
holandeses, nos séculos XVII e XVIII, deixando-lhes o lugar, por serem mais
móveis e adaptáveis à nova situação (: 299-300). Os guahibos chegaram a
absorver remanescentes de outros povos, fugitivos das missões ou quase
aniquilados, como piapocos, acháguas e sálivas (: 235). Os próprios guahibos
participaram da captura de membros de outras sociedades, sobretudo crianças,
para a escravidão, sendo objeto de suas incursões sobretudo os acháguas e os
sálivas. Após a diminuição do tráfico de escravos e com a entrada de colonos
espanhóis nos Llanos, os guahibos também passaram a matar e roubar viajantes.
Sua mobilidade era apenas prejudicada pelo fato de não disporem de canoas,
tendo de cruzar os rios em balsas. Eram temidos por outras sociedades dos
Llanos até o final do século XIX (: 290-291).
O comércio de escravos
Os caribes que faziam incursões nos Llanos para obter escravos talvez
não pertencessem a uma só sociedade. Eles não agrediam indistintamente todas as
sociedades dos Llanos. Precisavam também de alianças, mantendo, por exemplo,
intercasamentos com os sálivas. Preferiam até que as próprias sociedades dos
Llanos lhes vendessem os escravos que faziam. Uma das vantagens que ofereciam
em suas alianças era proporcionar refúgio contra a ação missionária. As missões
jesuíticas do Orenoco constituiam uma barreira contra a ação dos caribes. Para
contornar a resistência das missões, os caribes às vezes faziam um desvio,
subindo os rios Caroni ou Caura, afluentes da margem direita do baixo Orenoco,
e daí passando para as cabeceiras do Ventuari, um afluente do alto Orenoco, por
ele alcançando este último e passando ao Guaviare, afluente da outra margem.
Aos caribes são atribuídas a extrema redução dos abaricotos, tamanacos,
paiacas, mapoios, guamos, otomacos e tiaus (caquetios). No alto Orenoco
enfrentavam a resistência efetiva dos caberres. Mas estes foram aniquilados
pelos guaipunávis provenientes da floresta. Por sua vez, os próprios
guaipunávis começaram a fazer escravos no sul dos Llanos, incentivados pelos
portugueses (: 291-297 e 260-264). De um modo geral, diz-se terem sido os
acháguas e os sálivas as principais vítimas dos escravagistas, sendo, por outro
lado, os preferidos dos missionários por seu caráter pacífico e inclinação pela
vida sedentária. Mas na verdade, não teriam sido assim tão passivos, havendo
evidências de sua belicosidade e até de participação na captura de escravos,
tendo mesmo os sálivas participado de uma revolta contra os jesuítas por volta
de 1740. O que parece ter acontecido é que essas sociedades sofreram desde
cedo o impacto das atividades espanholas nos Llanos e das moléstias que então
se disseminaram (: 297-300). As moléstias que se espalharam pelos Llanos
através do contato interétnico, responsáveis em boa parte pela depopulação da
área, são também tratadas pela mesma pesquisadora (: 312-316) e foram objeto de
um trabalho especialmente a elas dedicado por Morey (1979).
As missões
Durante o século XVII, 89 missões se estabeleceram nos Llanos,
juntamente com 25 vilas, além de fazendas de gado. No fim do mesmo século não
havia talvez mais do que 43 missões em atividade. No século XVIII, 208 novas
missões foram estabelecidas, com 45 núcleos espanhóis. Os jesuítas preferiam
estabelecer suas missões em aldeias já existentes. Suas missões eram guardadas
por soldados, mas não em número suficiente para impedir as incursões dos
caribes. Eram menos bem providos que os capuchinhos. Estes, no século XVII,
estabeleciam aldeamentos nos bordos dos Llanos, para onde traziam os índios,
localizando-os junto aos estabelecimentos espanhóis. Por volta de 1690 tinham
batizado mais de trinta mil índios e fundado 27 missões. Apesar de procurarem
manter os índios longe de suas terras de origem, com o tempo substituíram seus
métodos persuasivos pela ajuda de soldados, que iam buscar os índios em suas
aldeias e mantê-los nas missões. Vilas espanholas foram criadas com este
propósito e seus habitantes eram recompensados com parte dos índios
aprisionados pelas missões para servir a eles e suas famílias. Os capuchinhos
atuaram sobretudo nos Llanos setentrionais (Creswick Morey 1975: 320-323).
Alguns aspectos culturais
Embora o trabalho de Nancy Creswick Morey (1975) não possa ser considerado,
como ela o intitula, uma etno-história, pois os relatos de que se vale não são
indígenas e nem reproduz ou analisa concepções indígenas de história ou de
tempo, não deixa de ser uma valiosa reconstituição etnográfica dos Llanos no
período da conquista européia, baseada nos documentos não-índios. Distingue os
habitantes da região em produtores de alimentos, ou seja, cultivadores sediados
em aldeias permanentes, em territórios definidos, concentrados em superfícies
inundáveis próximas a áreas de abundante vida animal (: 27-194), e aqueles que
viviam principalmente da caça, pesca e coleta (: 195-250). Foram principalmente
esses últimos que lograram persistir na região até o tempo presente e, sem
dúvida, muito modificados. Os Llanos atuais, por conseguinte, apresentam uma
composição de sociedades indígenas muito diferente dos tempos do início da
conquista, tanto em termos demográficos como culturais. Certamente não vamos
aqui reproduzir a reconstituição etnográfica da pesquisadora, mas chamar a
atenção apenas para alguns aspectos interessantes.
Um deles é a geofagia, presente entre os otomacos. Contrariamente à
idéia corrente de que se trata de um vício e um recurso para fazer face à falta
de alimento, os índios mantinham variadas maneiras de preparar o barro
cuidadosamente selecionado para ser consumido, fazendo com ele até pães
assados em que entravam como componentes o suco de vegetais fermentados em
buracos no chão e óleo de tartaruga ou jacaré. Tais pães também eram feitos
pelos guamos. Os iaruros, por sua vez, escolhiam outro tipo de terra para
comer (: 78-80, 212 e 215). Vale notar que os iaruros atuais continuam a
praticar a geofagia, consumindo a terra sob duas formas: em bolinhas feitas de
terra (de um certo banco do rio) e água cozidas ao fogo; e, as crianças, sob a
forma de pó, obtido por esmagamento, às vezes dissolvido em água e colocado nas
mamadeiras doadas pelo Centro de Coordinación Indigenista de Riecito (Mitrani
1988: 173-174).
Outro elemento, aliás também presente nas punições aplicadas pelos cunas
atuais da área Litorais do Noroeste ou como estimulante de uma vida ativa e
propiciador da caça entre os marubos da área Juruá-Ucayali, era o uso da urtiga
na couvade e nos ritos de iniciação pelos guaiupés (Creswick Morey 1975:
170-171).
Ao sul do Apure, populações pescadoras também usavam comer uma espécie
de cachorro mudo (: 209-210).
Havia um artigo dos Llanos que circulava na região e fora dela como se
fosse moeda, conhecido como "quiripa". Era constituído por círculos
de concha de caramujo, do tamanho de uma unha, enfiados em fios, cujo comprimento
variava segundo a época. Eram feitos pelos acháguas, otomacos e amaibas. Os
iaruros também passaram a fazer quiripas. Se valor crescia com a distância de
sua área de fabricação, os Llanos setentrionais. Os jiraras e os sálivas as
usavam nas transações matrimoniais. Os acháguas pagavam o padre, o encomendero
e as taxas com elas; suas mulheres as usavam como adorno. Mas entrava no
comércio da região em geral, com valor conversível em moeda espanhola (:
128-129, 215, 247 e 256-260).
Pontos de convergência
As relações entre as sociedades dos Llanos se faziam com ajuda de um
certo número de línguas francas: sáliva, no médio Orenoco; achágua, no sul,
entre o Guaviare e o Vichada; maipure, no alto Orenoco; tamanaco, no baixo
Orenoco e nas montanhas güianenses (: 275-276).
Os atures dominavam as corredeiras que separam o médio do alto Orenoco.
Tinham técnicas especiais para pescar nessas corredeiras e eram muito
procurados como vendedores de peixe moqueado e seco, durante a estação chuvosa.
Também cobravam dos viajantes pelos serviços de puxar as canoas corredeiras
acima (: 216-217). Havia uma relação simbiótica de comércio entre os pescadores
e os cultivadores junto aos grandes rios, um tipo de troca que parece ter
permitido a existência de uma população muito mais densa nessas áreas (: 247).
Assim como as corredeiras que separavam o alto do médio Orenoco constituiam
um ponto de convergência de povos dos Llanos e da região güianense, onde se ia
buscar peixe, mas também onde os caribes acampavam para se reabastecer de alimentos
e trocar artigos europeus por escravos, havia outros quatro pontos de convergência
nos Llanos:
— as praias de desova de tartarugas do médio Orenoco, controladas pelos
missionários jesuítas;
— as praias de tartarugas dos rios Guaviare e seu afluente, o Inírida,
no sul dos Llanos, principalmente perto do rio Mapiripán, outro afluente do
(alto?) Guaviare, procurado pelos habitantes de San Fernando de Atabapo, pelos
piapocos, por um ramos dos acháguas, pelos caberres e pelos mítuas;
— o comércio de peixe do rio Cojedes, um afluente do (Portuguesa?)
Apure, freqüentado pelos caquetios, que comerciavam com os quaiqueris, os
"senhores da água", e no qual também talvez fossem trocados outros
produtos;
— no alto Orenoco, o comércio de curare, produzido pelos caberres e
talvez também pelos piaroas (:269-272 e 210).
Comparação com outras áreas
Certos detalhes dos Llanos lembram uma outra região de savanas, os
cerrados do Brasil central (vislumbrados através de nossa experiência pessoal
com os craôs): os guahibos ateavam fogo à savana para matar animais, ver melhor
suas tocas ou atraí-los com pasto novo (: 222); esfregavam no peito e nos
braços a seiva de uma árvore cujo cheiro atraia o veado, permitindo ao caçador
aproximar-se dele para abatê-lo (: 223); faziam incursões, como ainda hoje
fazem os guahibos nômades sobre os guahibos sedentários e os iaruros, após a
colheita, tomando o excedente dos grupos cultivadores (: 289-290).
Mas a autora compara os antigos Llanos com a região de Mojos, no oriente
da Bolívia, quanto à possibilidade da existência de cacicados, a densidade
demográfica, os aterros agrícolas que seriam um dos motivos do trabalho
escravo. Os Llanos também corroborariam a tese da existência de uma correlação
positiva entre pesca e escassez de recursos terrestres de subsistência e uma
correlação negativa entre caça e coleta e tal escassez. Nos Llanos, a
competição por recursos terrestres corresponderia a uma ênfase na pesca por
muitos grupos, sendo pobres as referências dos textos antigos sobre caça e
coleta (: 323-325).
Comparação entre os atuais guahibos e iaruros
Como os guahibos e os iaruros são hoje os índios que predominam numericamente
nos Llanos, vamos aqui apresentá-los em confronto comparativo. Assim como a
população guahibo adapta sua distribuição ao avanço da população criolla,
crescendo de norte para sul e, desde 1945 apresentando um movimento migratório
para a outra margem do Orenoco, tanto para o sul como para o norte de Puerto
Ayacucho e ainda mantendo um núcleo bem para leste, num afluente do Vichada,
bem dentro do território dos piaroas, índios que incluímos na área do Maciço
Güianense Ocidental (Metzger e Morey 1983: 158-160), do mesmo modo os iaruros,
a partir do começo deste século, passam a ter um movimento na direção do norte,
afastando-se das vizinhanças do Meta (Mitrani 1988: 161-162 e 185). Além disso,
se os guahibos se distinguem entre si, cada subgrupo chamando de sicuânis (sikwáni)
àqueles que dispõem de técnicas agrícolas menos intensivas que as suas ou
simplesmente as dispensam (Metzger e Morey 1983: 133-134), os iaruros contêm um
sub-grupo, conhecido por capuruchano, que não tem agricultura, rede de dormir,
são transumantes e sofrem menos influência dos civilizados, não sendo
entretanto possível saber se vivem de modo mais semelhante ao padrão cultural
dos iaruros no século XVIII (Mitrani 1988: 186-188). Contrariamente a sicuâni,
que é um termo relativo, capuruchano parece ser um nome aplicado a uma população
bem definida entre os cursos médios do Sinaruco e do Capanaparo. É curioso que
tanto Metzger e Morey (1983: 159) como Mitrani (1988: 187) usam como ilustração
fotos de um sicuâni e de um capuruchano, respectivamente, atravessando um rio
em balsa de talos de moriche. Isso porque, tanto os não-cultivadores e
muitos cultivadores sazonais guahibos como os capuruchanos não fazem canoas
(Metzger e Morey 1983: 158 e Mitrani 1988: 186).
Embora não haja, supomos, diferenças importantes a apontar quanto à
cultura material, tendo tanto os guahibos quanto os iaruros adotado o vestuário
criollo, havendo ainda vestígios do tradicional (Metzger e Morey 1983:
152-153 e Mitrani 1988: 181), é digno de nota que a cestaria seja trabalho
masculino entre os primeiros (Metzger e Morey 1983: 152) e feminino entre os
segundos (Mitrani 1988: 177). A cerâmica, porém, é trabalho feminino tanto para
uns como para outros (Metzger e Morey 1983: 151-152 e Mitrani 1988: 177-178).
Tanto os guahibos como os iaruros usam o pó alucinógeno yopo (Anadenanthera
peregrina, anteriormente denominado Piptadenia peregrina, ou seja, o
"paricá" do Brasil) com auxílio do mesmo instrumental (compressor e
palheta de madeira, e inalador de ossos de ave em forma de Y) e talvez com o
mesmo preparo (Metzger e Morey 1983: 153-155 e Mitrani 1988: 174-176). Os
piaroas, de área etnográfica vizinha, adquirem dos guahibos seus famosos potes
de cerâmica, yopo e amuletos de dentes de jaguar, para seu próprio uso
ou para comércio com outros piaroas (Overing Kaplan 1975: 27).
As construções guahibos variam segundo o ponto do continuum
nomadismo-sedentarismo em que se coloca o grupo considerado, indo desde
edificações sumárias e pouco duráveis, casas redondas ou ovaladas completamente
cobertas com folhas de macanilla (Bactris sp.) ou com paredes de
troncos de macanilla e teto de folhas de moriche, até casas de
pau-a-pique de influência criolla (Metzger e Morey 1983: 150-151). As
casas iaruros são retangulares, cobertas de folhas de moriche que chegam
até um metro do solo, havendo entre chefes e homens de mais recurso a tendência
a construirem casas de pau-a-pique ao estilo criollo (Mitrani 1988:
176-177). As aldeias dos guahibos sedentários costumam ter um maior número de
habitantes que as dos demais, por volta de 75 e até mais de 100 quando
vinculadas a missões. São geralmente nas savanas, mais livres de insetos e das
inundações, enquanto as dos caçadores e coletores, por receio de inimigos
indígenas ou criollos, muitas vezes se localizam no interior de matas-galeria.
As aldeias das savanas não têm um padrão institucionalizado, e um pátio entre
as casas se forma pelas idas e vindas dos caminhantes, sendo raramente aberto
propositalmente, onde se realizam cantos, danças e reuniões. A certa distância
há choças onde as mulheres se recolhem nos períodos menstruais (Metzger e Morey
1983: 160-164). As aldeias em que os iaruros levam a efeito sua intensa vida
social de inverno parecem ter uma forma mais padronizada, constituídas que são
por uma sucessão de cinco a dez casas, cada qual numa clareira limpa dentro da
mata-galeria, sendo a última, a do xamã, provida de uma clareira maior, para
utilização ritual. Nas aldeias capuruchanas as casas estão mais juntas e o
pátio ritual fica a leste (Mitrani 1988: 181). A aldeia guahibo se integra
pelos laços de parentesco e pelas relações fluidas e informais entre seus
habitantes. As aldeias se reunem em grupos regionais, cuja coesão é estimulada
por atividades sociais e rituais intermitentes. O grupo regional se acredita ligado
a uma determinada espécie vegetal ou animal e pode abranger aldeias que se
mantêm segundo diferentes tipos de subsistência. Os contatos e os casamentos
são mais comuns dentro do grupo regional (Metzger e Morey 1983: 165-167). As
aldeias iaruros constituem unidades sociais e rituais autônomas. Parecem não se
agruparem formalmente em grupos regionais, ainda que aldeias vizinhas costumem
visitar-se por volta do mês de agosto durante a primeira colheita do milho e
praticar o jogo da pelota. Não obstante, pode-se notar quatro zonas de
concentração de aldeias (Mitrani 1988: 182-188).
Os guahibos vivem em famílias matrilocais cujas famílias elementares
componentes mostram bastante autonomia; as prestações pós-matrimoniais com
residência matrilocal, que são o ideal competem com alternativas, como o
pagamento do preço-da-noiva (Metzger e Morey 1983: 164-165 e 189-190). Já os
iaruros vivem matrilocalmente logo após o casamento, podendo depois continuar
com parentes da esposa ou escolher uma outra solução residencial, o que leva a
diversas maneiras de ampliar a família elementar (Mitrani 1988: 182-183 e 195).
Dispondo de uma terminologia de parentesco de tipo iroquês, os guahibos
realizam preferencialmente o casamento entre primos cruzados, raramente entre
os mais próximos, sendo ideal a troca de irmãs. Os chefes, xamãs e homens de
prestígio praticam a poliginia, preferencialmente a sororal, sendo o sororato e
o levirato raros e não institucionalizados (Metzger e Morey 1983: 171, 178 e
189-191). Por sua vez, os iaruros, apesar de sua terminologia de parentesco de
tipo havaiano, têm como matrimônio mais freqüente aquele entre primos cruzados
bilaterais, reais ou classificatórios. O casamento é geralmente monogâmico,
havendo raros casos de poliginia, preferencialmente sororal, sobretudo entre
os carapuchanos. Entre estes são os bons caçadores, e entre os iaruros com
contato mais intenso com os civilizados, os chefes, que procuram a poliginia.
Por outro lado, ainda que o casamento seja indispensável ao xamã, ele deve ser
monógamo (Mitrani 1988: 192 e 194-195).
Tanto os guahibos como os iaruros mantêm um rito para a iniciação da
jovem por ocasião de sua primeira menstruação, após o qual é considerada apta
para casar-se. Em ambos ela fica isolada por algum tempo e tem a cabeça
(guahibo) ou o rosto (iaruro) cobertos. Os iaruro explica essa medida porque
atribuem ao olhar da jovem o poder de causar enfermidades. Já no caso do rapaz,
a passagem é mais ritualmente marcada entre os iaruros do que entre os
guahibos. Estes limitam o rito a uma troca de nomes pessoais; aqueles, exigem
uma demonstração formal de habilidade na caça e fazem incisões com esporão de
arraia nos braços, munhecas e glande (Metzger e Morey 1983: 187 e Mitrani 1988:
196-197).
Poderíamos ainda apontar a crença na existência de duas almas dos
guahibos e em apenas uma pelos iaruros (Metzger e Morey 1983: 201 e Mitrani
1988: 201), mas não nos arriscaríamos comparar outros detalhes dos respectivos
sistemas religiosos.
Contato interétnico
No que tange ao contato interétnico, a vida dos guahibos e dos iaruros
se dá hoje em dia em terras sobre as quais avançam os criadores de gado, que
não têm o mínimo de simpatia pelos índios e seu modo de viver. Além de uma
reacomodação na sua distribuição pelo território, isso levou um significativo
número de iaruros a se empregarem como peões em fazendas e um considerável
contingente de guahibos a migrarem para cidades da região, como Puerto
Ayacucho, La Urbana e Cabruta. A ameaça crescente dos civilizados, que não dão o
menor valor à vida dos índios (como o indicam os verbos "cuibiar" e
"guahibiar" — Friedemann 1985: 81), pode ter arrefecido, mas não
extinguiu velhas rivalidades entre os índios. Os guahibos continuam a assaltar
roças dos tunebos, iaruros e piaroas, sem contar que os caçadores-coletores
guahibos fazem o mesmo contra os cultivadores do mesmo povo, incluindo no botim
também artigos industriais e mulheres. Com o mesmo objetivo, além de usurpação
territorial, grupos de caçadores-coletores guahibos atacam outros. Entre os que
vivem em aldeias, os conflitos são evitados ou resolvidos através de convites
para beber ou para brigar, onde se reduz o perigo de morte ou de lesão séria
(Metzger e Morey 1983: 205-212 e Mitrani 1988: 206-209).
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TEXTOS GERAIS
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