Site Línguas Indígenas Brasileiras, de Renato Nicolai  [ knewman@altavista.net ]

 

Capítulo 5

LITORAL GÜIANENSE


por Julio Cezar Melatti

Revisto em 7-8-97


Mapa da área

Língua e população

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              Talvez a melhor maneira de considerar geograficamente esta área é vê-la como constituída de faixas grosseiramente paralelas ao oceano. Temos uma primeira faixa de manguezais, seguida de uma segunda de terras baixas e alagadiças e uma terceira, cuja altitude vai crescendo para o interior, coberta pela floresta. Os índios aqui considerados vivem nas duas faixas mais próximas do oceano.


Nomenclatura e divisões políticas

              Um primeiro detalhe que nos chama a atenção é a presença de nomes genéri­cos ao lado de outros que parecem mais específicos. Um dos genéricos é o termo caribe, que se estende por toda a costa. Caribe, termo mais utilizado pelos autores de língua inglesa, seria o equivalente de galibi, dos textos em língua francesa. Este último também é usado pelos pesquisadores brasileiros para designar um grupo do extremo norte do Amapá. Mais recentemente, pesquisadores da Venezuela ou a ela ligados têm divulgado o termo carinha, enquanto pelo menos um autor que pesquisou sobretudo no Suriname preferiu a variação calinha (Magaña 1988). Aliás, o bispo Vazques de Espinosa (1948: 35 § 96 e 69 § 193), que visitou a América espanhola no primeiro quartel do século XVII, faz referência aos "Garina" e "Caribes Garinas" no delta do Orenoco. Uma vez adotado um desses termos, a tendência é estendê-lo a toda a faixa costeira. Como no Brasil se usa o termo de gosto francês galibi, foi este que utilizamos em nosso mapa. Mas fica uma dúvida: será que os galibis do Brasil, mesmo que se venha a confirmar que carinha ou calinha é sua auto-denominação, vivendo numa das extremidades da área considerada, se consideram como pertencentes ao mesmo grupo dos galibis da Venezuela, que vivem na extremidade oposta? E que dizer dos últimos caribes das Antilhas, os da ilha Dominica? Hurault (1972: 280), por exemplo, diz que os galibis situados entre Iracou­bo, na Güiana Francesa, e Paramaribo, no Suriname, não mantêm relações com os que vivem mais para oeste. Por sua vez Kloos (1972b: 470) diz que os caribes do Suriname se dividem em dois grupos: um ocidental, conhecido como murato, mesclados visivelmente com negros; o outro, oriental, denominado telewuyo ou "puro". Este último deve, por conseguinte, ser o mesmo que Hurault situa entre Iracoubo e Paramaribo.

              O mesmo acontece com o termo aruaque, que se distribui desde a Güiana até a Güiana Francesa. Parece haver uma tendência a substituí-lo por locono. Mas há um grupo que se distingue dos demais aruaques por um nome específico: os palicures da Güiana Francesa e do Brasil. O que é que os próprios aruaques pensam disso? Como eles próprios se dividem?

              Outros grupos, porém, são mais localizados, como os numerosos uaraus, que se concentram no delta do Orenoco, com uma pequena dispersão no sentido da Güiana. Ou então o pequenino grupo caripuna do Amapá.


Características da população

              O litoral que estamos considerando demorou a receber a atenção dos conquis­tadores portugueses e espanhóis, de modo que seus competidores franceses, holandeses e ingleses conseguiram aí criar colônias. Tal como aconteceu nas Antilhas, o cultivo em larga escala para exportação conduziu à escravidão de africanos. Na área de coloni­zação holandesa, os escravos vieram a formar quilombos no interior da floresta. Como os colonizadores não conseguissem destruí-los, acabaram fazendo a paz com eles e esses quilombos deram origem a grupos étnicos que existem até hoje: os saramacás, os djucas, os bônis. Os primeiros vivem no Suriname; os últimos migraram para a Güiana Francesa. Já os djucas vivem de um e de outro lado da fronteira.

              Entretanto, apesar da liberdade reconhecida aos africanos fugidos para a faixa florestal do sul, muitos continuaram escravos e vieram a constituir uma fração conside­rável da população atual.

              A abolição da escravatura, que se deu em diferentes datas nas colônias ingle­sa, holandesa e francesa, levou os empresários a substituí-los por imigrantes: indianos, na Güiana Inglesa; javaneses, na Holandesa; até indo-chineses, na Francesa. Hoje os imigrantes de origem indiana são tão numerosos quanto os descendentes de africanos na Güiana, e vivem também no Suriname. Acrescentem-se ainda os imigrantes chine­ses, árabes e portugueses. Embora formem grupos étnicos coesos, não deixaram de dar origem a uma população mestiça. Na Güiana, por exemplo, os mestiços de ameríndios, africanos e europeus, típicos de muitos distritos fluviais da costa, são chamados de bovianders (Forte 1988: 329).

              Nessa população mestiça, quem sabe, se contam também descendentes de índios escravizados no período colonial. Entre 1667 e 1815, os holandeses tiveram o domínio sobre as terras correspondentes ao atual Suriname e a Güiana. O núcleo urba­no hoje chamado Georgetown era sua sede principal. E para aí os índios conhecidos como caribes traziam os escravos que capturavam ou obtinham através de trocas com outros grupos, oriundos dos Llanos, do rio Branco e do baixo rio Negro, e talvez de lugares mais a oriente. O conhecido episódio do chefe manau Ajuricaba está relaciona­do a essa rede comercial que não envolvia apenas escravos. Recentemente Nádia Farage (1991) publicou interessante livro sobre essa rede de relações comerciais no período colonial. Quais exatamente dos caribes da costa que comerciavam com os holandeses é difícil apontar: os do baixo Orenoco? os da vizinhança de Georgetown? tanto uns quanto os outros? esses e mais outros? Os uaraus, por sua vez, também participavam do comércio com os holandeses, mas como fornecedores de peixes.


Galibis e aruaques atuais

              Embora bastante impressionista e referente principalmente à Güiana Francesa de vinte anos atrás, é bem interessante a descrição que faz Hurault (1972) dos galibis e aruaques litorâneos. Segundo esse autor, enquanto os galibis vivem de seus roçados de subsistência e da pesca artesanal para abastecimento dos núcleos urbanos (: 280-281), e se contentam com um vestuário sumário e adaptado ao clima, os aruaques preferem o trabalho assalariado, empregando quase tudo que este lhes rende no vestuá­rio e também nos cabarés e bebidas alcoólicas (: 286-288). Mas não abandonaram sua relação com a terra e são as mulheres, nas aldeias, que cuidam das roças (:282). Hurault defende o modo de vida dos galibis, levantando objeções a Kloos, que defen­deria o abandono da agricultura e a especialização na pesca (: 298-299).

              Embora os aruaques ainda mantenham matriclãs exogâmicos, a ponto de, ao tirar seus documentos, seus nomes clânicos conflitarem com a regra francesa de trans­missão dos sobrenomes (: 288-289), suas unidades familiares parecem tender para o mesmo rumo já tomado pelas galibis, o das famílias elementares (: 289-290). Mesmo assim, afirma Hurault, apesar de aparentemente mais "crioulizados" que os galibis, os aruaques guardam mais de sua organização social (: 291). Vale reparar que entre galibis do Amapá provenientes da Güiana Francesa o nome pessoal usado para fins de contato com os não-índios é constituído de um nome individual, seguido do primeiro nome do pai (Arnaud 1968a: 3), costume aliás comum entre sertanejos brasileiros.

              Segundo Hurault, os aruaques da Güiana Francesa são oriundos do Suriname e mantêm intensas relações entre si, mas poucas com os galibis (: 286). Mas diz tam­bém que mais de 30% dos homens e mulheres galibis que viviam em 1958 na Güiana Francesa tinham vindo também do Suriname (: 292). No que tange à migração para a cidade, em 1958, ela envolvia 12% dos homens e 7% das mulheres galibis, mas de 25 a 30% dos homens e mulheres aruaques. Era muito comum o concubinato destas últimas com comerciantes chineses e "crioulos" do Suriname (: 292). A construção do centro espacial de Kourou, no período de 1966 a 1969 atraiu a mão-de-obra galibi (: 297).

              Quanto à atuação missionária, repara Hurault, que na Güiana Francesa houve um movimento inverso ao do restante da América Latina. Enquanto nesta o clero se tornava cada vez mais atento para as tradições e a organização familiar indígena, naquela se voltou ao regime da educação em internatos, aplicando-se à criança indíge­na a legislação francesa referente à criança abandonada, como se a família indígena não existisse (: 295-296).

              Os palicures, que vivem de um e de outro lado do baixo Oiapoque, que marca a fronteira Brasil-Güiana Francesa, são descritos por Hurault (: 285-286) como muito desorganizados e desprovidos de muitas técnicas que no passado os adaptavam ao ambiente.  Estavam confiando suas crianças ao internado de Saint Georges, mas eles próprios não encontravam aí nenhuma atividade a desenvolver. Procurava-se, então, com algum sucesso, incentivá-los ao trabalho artesanal. Por outro lado, se bem nos lembramos, no seu estudo referente aos grupos indígenas do extremo norte do Amapá, Eneida de Assis (1981) considera os palicures os mais conservadores, sobretudo no que tange ao uso do idioma.

              Diz ainda Hurault da natalidade indígena elevada (: 293) e de uma alimenta­ção mais rica do que a dos "crioulos".

              Referindo-se ao fato de, apesar da maior incidência de mosquitos do que na mata, a costa ser indene ao impaludismo, talvez por causa do regime de ventos maríti­mos, Hurault termina por defender a tese de que os negros são mais bem adaptados à floresta equatorial do que os índios (: 405-409). Janette Forte (1988: 334) dá informa­ções que conflitam com as afirmação de Hurault: os galibis do rio Barama (junto ao rio Barima, ambos próximos do litoral da Güiana e da fronteira com a Venezuela) têm sofrido muito com o impaludismo, enfermidade que já havia sido controlada por volta de 1954, mas voltou a grassar depois da intensificação da mineração de ouro, de mea­dos dos anos 60 até 1970, atividades de que os galibis participaram a troco de salário, como carregadores e mineiros.

              No que tange aos tempos recentes, salvo engano são os uaraus os índios desta área sobre os quais as informações são mais copiosas. Vários autores, sobretudo Heinen, têm escrito muito sobre eles. Valeria a pena discutir que razões teriam feito Rivière excluir os uaraus do seu estudo comparativo da região güianense. Tal como nas sociedades indí­genas tratadas por Rivière, o sogro (e também a sogra) exercem seu poder sobre o genro, que reside com ele. O grupo doméstico também tem um ciclo de crescimento e decadência que acompanha os esforços e o ciclo de vida do sogro. Também não há grupos unilineares de descendência.

              Talvez a diferença esteja no fato de o bando exogâmico uarau constituir uma unidade que abranja relações mais afastadas do que aquelas entre as quais o casamento é permitido pelo ideal de endogamia dos grupos estudados por Rivière. Embora Heinen indique que os casamentos se fazem através da aliança de pelo menos três bandos e que um homem costuma ter como segunda esposa a filha da irmã, dando em troca a própria filha (Heinen 1988: 632), não informa como se fazem os casamentos subse­qüentes entre esses bandos. Alguns poucos bandos compõem a sub-tribo, que constitui uma unidade endogâmica.

              Dada as características do ambiente em que vivem, os uaraus são excelentes construtores de canoas. Passavam a maior parte do tempo dentro delas e, ao morrer, geralmente eram nelas sepultados (Heinen 1988: 624).

              Tal como nos Llanos, está presente no delta do Orenoco a palmeira moriche (Mauritia flexuosa), da qual aproveitam vários itens, mas principalmente a fécula, seu alimento básico no passado (Heinen 1988: 612-613), hoje perdendo lugar para o inha­me chinês, cujo cultivo estimulou sua localização ao longo dos rios. A ida aos mori­chales, ricos em sagu nos meses mais secos passou a ser desestimulada pela competi­ção com a atividade da derrubada das roças, que se faz no mesmo período (Heinen 1988: 617). A recoleção da fécula do moriche ainda se faz por motivos rituais, sendo consumido com caranguejos no rito do sagu ou em refeições comunais (Heinen 1988: 613).

              A ação de missionários conservadores, no passado, e suas relações com os "crioulos" têm como conseqüência um sentimento de vergonha, por parte dos uaraus, de seu próprio modo de viver, o que faz com que aqueles que, através da instrução formal chegam a se profissionalizar procurem logo migrar para alguma localidade afastada do Delta (Heinen 1988: 674-679). Os próprios programas governamentais se tornam inoperantes pela intromissão e intermediação de comerciantes "crioulos", que chegam até a ameaçar os uaraus com feitiçaria (Heinen 1988: 679-682).



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