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Capítulo 3
MACIÇO GÜIANENSE OCIDENTAL
por Julio Cezar Melatti
Revisto em 7-8-97
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Esta área compreende as terras altas situadas no sul da Venezuela e nas fronteiras desse país com o Brasil e com a Güiana. Os rios que a percorrem na Venezuela se dirigem para o Orenoco, que a contorna pelo oeste e pelo norte. No Brasil, os rios correm para o Negro, no Estado do Amazonas, ou para o Branco, seu afluente, que a bordeja pelo sudeste, no Estado de Roraima. Na Güiana os rios correm para o Essequibo. Isso porque a fronteira entre os três países se traça sobre os divisores de águas do Amazonas, Orenoco e Essequibo. Apesar de montanhosa, a área é coberta pela floresta, que apresenta, entretanto, manchas de savana, e mesmo campos, como os que se estendem por uma grande superfície em torno do monte Roraima, situado bem no ponto em que as fronteiras do Brasil, Venezuela e Güiana se encontram. Sem contar que os llanos, ou seja, as savanas do Orenoco, também acompanham o médio e baixo curso desse rio na sua margem direita.
Por conseguinte, não se trata de um ambiente homogêneo, dispondo-se as sociedades indígenas em diferentes altitudes, bem como diferentes vegetações. O que nos inclina a tomá-la como uma área etnográfica é a extensa rede de comércio que liga entre si essas sociedades, muito embora, com relação aos civilizados, algumas tenham contato muito antigo e outras bastante recente.
O comércio
Sem contar os antigos comentários de Roth (1974) sobre o comércio na região güianense em geral, esse intercâmbio intertribal tem chamado a atenção de autores que vêm trabalhando com sociedades do maciço Güianense ocidental. Na verdade, não podemos dissociar as transações intertribais (entre sociedades indígenas), das intratribais (dentro de cada sociedade indígena) e das interétnicas (dos índios com não- índios), conforme faz Coppens (1971:39) ao tratar do comércio iecuana, uma vez que tanto os artigos trocados como os agentes das trocas podem ser da mesma ou de diferentes sociedades.
Na região os iecuanas se destacam pelo longo percurso de alguns de seus artigos e também por constituírem um importante elo nas cadeias comerciais que cortam a área de leste a oeste e de norte a sul, deslocando-se eles próprios por grandes distâncias, que eram ainda maiores durante o período colonial. De fato, para assegurar seu domínio ameaçado pela penetração holandesa, os espanhóis fundaram em 1764 a vila de Angostura (hoje Ciudad Bolívar), no trecho mais estreito do baixo Orenoco. A vila cresceu rapidamente e quinze anos depois já tinha sete mil habitantes, e os índios da região, inclusive os iecuanas, se sentiram atraídos pelo seu grande sortimento de mercadorias. Para unir seus postos militares do baixo aos do alto Orenoco e assim criar uma linha defensiva contra os índios caribes que organizavam expedições a fim de fazer escravos indígenas para os holandeses, os espanhóis construiram uma cadeia de dezenove fortins desde o rio Caura e seu afluente Erebato até Esmeralda, perto da cabeceira do Orenoco (por conseguinte essa linha de fortificações teria um sentido nordeste-sudoeste e seria tangencial e perpendicular à ponta do mapa do Estado de Roraima que se projeta para noroeste). Revoltados contra as reduções forçadas a que os espanhóis queriam submetê- los, os iecuanas, em 1776, destruíram os fortins e não mais empreenderam expedições comerciais a Angostura. A partir de então começaram a comerciar com os holandeses, fazendo expedições até a foz do Essequibo. Essas relações duraram até 1814, quando os holandeses entregaram a Güiana aos ingleses, os quais os sucederam também como parceiros comerciais dos índios. Em 1840, o explorador Robert Schomburgk encontrou-se com uma expedição iecuana que se dirigia a Georgetown. Tendo partido do rio Cunucunuma, um afluente da margem direita do alto Orenoco, a expedição tinha por itinerário o canal de Cassiquiare, a descida do rio Negro, a subida do Branco, do Tacutu e do Maú, e daí, após cruzar o divisor de águas, a descida do Rupununi e do Essequibo até a foz. Nessa viagem, que durava aproximadamente um ano, os iecuanas contornavam todo o maciço Güianense Ocidental pelo sul. Os iecuanas levavam redes de algodão, camisas de cortiça, raladores de mandioca, cães de caça, e pretendiam receber em troca instrumentos de ferro, principalmente machados e facas de caça. No início da segunda década do presente século, o etnólogo Theodor Koch- Grünberg observou que os iecuanas do Cunucunuma abasteciam de artigos importados os iecuanas que moravam no alto Ventuari e no alto Caura. Estes últimos, porém, tinham como fonte alternativa de abastecimento os pemons da Grande Savana, que mantinham contato com centros comerciais da Güiana e da Venezuela, recebendo deles armas de fogo inglesas (Coppens 1971: 33-35).
O contato primeiramente amigável, depois o conflito e o rompimento com os espanhóis, seguido das relações comerciais com os holandeses, é relatado e transfigurado pelos iecuanas como parte do mito Watunna, que foi recolhido e publicado, precedido de uma instrutiva e poética introdução, por Marc de Civrieux (1980). Uma análise da interpretação dessas primeiras etapas do contato com os europeus pelos iecuanas foi realizada por David Guss.
Apesar de não cobrirem distâncias tão grandes quanto nos séculos passados, os iecuanas de hoje ainda fazem viagens de comércio bastante longas, como a descida de todo o rio Auaris e Uraricoera até Boa Vista e posterior retorno, levando de 25 a 30 dias para descer e o dobro do tempo para subir (Ramos 1980: 104-106 e 108), percorrendo em quase toda a sua largura o norte do Estado de Roraima. Ou então a viagem de Santa Maria do Erebato, que fica no alto curso do rio deste nome, um tributário da margem esquerda do rio Caura, até Uriman, localidade pemon no alto Caroni, usando os cursos desses rios, que correm para o norte, de seus afluentes e sub-afluentes, arrastando canoas por sobre os divisores de águas, num percurso oeste-leste, que exige dois meses para ida-e-volta (Coppens 1971: 44-46). Meios modernos de transporte, a presença de missionários que comerciam com os índios, a presença de outras sociedades como intermediárias nas transações com os civilizados, a obsolescência de certos itens por influência do contato interétnico, têm modificado a rede comercial, encurtando as viagens, mas aumentando a sua freqüência (Coppens 1971: 37-39).
Os iecuanas mais ocidentais oferecem zarabatanas aos piaroas a troco de curare, uma transação que está perdendo a importância, devido à competição que essa arma sofre com as de fogo. Mas os piaroas também se interessam por canoas e remos dos iecuanas (Coppens 1971: 38-39 e 43). Entretanto, pelo menos uma parte dos piaroas faz zarabatanas, adquirindo dos iecuanas apenas a matéria-prima, os caniços (Overing Kaplan 1975: 27-28). Os iecuanas mais orientais só podem obter artigos piaroas dos ocidentais pelo comércio intratribal. Mas, por outro lado, comerciam diretamente com os pemons, sobretudo seu ramo arecuná, que estão a leste, oferecendo-lhes raladores de mandioca (uma expedição acompanhada por Coppens levava duzentos), mas também canoas, remos, zarabatanas, curare, cuias de cabaça, cestas côncavas, bolas de algodão. Em troca os pemons lhes oferecem redes de algodão, colares de miçangas, tipóias de algodão para carregar crianças, cerâmica de cozinha, arcos, flechas com pontas de ferro, e ainda espingardas oriundas do Brasil. As miçangas chegam aos arecunás da Güiana através dos acauaios (um ramo dos capons) e dos taulipang (outro ramo dos pemons); vão também do Brasil. Os iecuanas desmancham os colares para utilizarem as contas na confecção de outros artefatos. A cerâmica de cozinha, os arecunás a recebem dos camaracotos (outro ramo dos pemons). As espingardas brasileiras chegam aos arecunás por intermédio dos taulipang. Os arecunás, cujos produtos possuem escasso valor comercial (cuias, cabaças), fornecem artigos iecuanas aos camaracotos e taulipang. Estes dois ramos pemons passam os raladores de origem iecuana mais para leste, aos patamonas (um ramo dos capons) e os macuxis (o ramo pemon meridional), enquanto os arecunás mais orientais os passam para os acauaios (ramo dos capons). Os macuxis constituem o ponto mais oriental a que chegam os raladores iecuanas; eles também recebem, através dos uapitxanas, raladores dos uaiuais (Coppens 1971: 43, 46-48 e 53-54) que colocamos em outra área etnográfica, a do Maciço Güianense Oriental.
É digno de nota que no extremo oeste da área do Maciço Güianense Ocidental o ralador iecuana encontre com outro ralador, feito pelos piaroas, que adquirem de seus vizinhos macós as lasquinhas de pedra para confeccioná-lo. Tal como os iecuanas, os piaroas mantêm um intenso comércio intratribal, mas talvez, diferentemente deles, aí o líder do grupo regional tem papel importante no estabelecimento de alianças comerciais com outros grupos regionais e até no comércio com outras sociedades. Assim, nem todos piaroas fazem cerâmica; os grupos regionais que não a fazem a adquirem de outros grupos, ou, se são vizinhos dos guajibos (que incluímos na área etnográfica dos Llanos), a obtêm destes, que goza de muita fama. Deles também adquirem, para uso próprio ou para troca com outros grupos regionais, amuletos de dentes de onça e o alucinógeno paricá (Overing Kaplan 1975: 27-28).
No sul, os iecuanas fazem comércio com os sanumás, um ramo dos ianomâmis (Coppens 1971: 42-43). Como sua relação com estes é mais do que simplesmente comercial, vamos tratar dela mais adiante.
Na direção norte os iecuanas comerciam com os civilizados (não exclusivamente nessa direção, pois também fazem comércio com os civilizados ao sul, de que são exemplos as já referidas expedições a Boa Vista, capital do Estado de Roraima). Tal como no comércio intertribal, os iecuanas dividem entre si setores geográficos onde exercem o monopólio. Os mais ocidentais ficam com San Fernando de Atabapo e sua zona de influência no alto Orenoco. Os do alto Caura e seu afluente Erebato transacionam com os civilizados do baixo curso do mesmo rio, para lá se dirigindo para fazer canoas junto aos locais de entrega; eles são os únicos produtores desse tipo de embarcação na bacia do Orenoco (com exceção dos uaraos, do delta do mesmo rio), considerada a melhor para a navegação deste rio e de seus afluentes turbulentos. Por sua vez, os iecuanas do alto Parágua, afluente do Caroni, comerciam com os civilizados do baixo curso desse mesmo tributário (Coppens 1971: 54-56).
Além de Coppens, dois outros autores trataram do comércio na área, David Thomas (1972) e Audrey Butt Colson (1973), ambos a partir de sua extremidade oriental, e suas descrições não discordam da do primeiro, antes a complementam. Butt Colson, por exemplo, oferece uma descrição mais detalhada dos artigos trocados. Thomas dá mais atenção às relações de parentesco ou amizade entre os parceiros, divide os itens trocados em três esferas de troca não inteiramente fechadas, chama a atenção para o fato de que neste sistema de trocas os itens não têm entre si os mesmos valores comparativos que teriam se fossem comercializados segundo o sistema monetário dos Estados em que essas transações se fazem. Além disso chama a atenção para o fato de que é o trabalho dos índios mais orientais na extração de diamantes que lhes rende o dinheiro que aplicam na compra de espingardas e miçangas que trocam com seus parceiros ocidentais (Thomas 1972: 17 e 35). Alude também a uma decadência do comércio leste-oeste quanto a certos itens, como canoas, devido à sua procura pelos garimpeiros de diamantes dos rios Caroni e seu afluente Parágua (: 11 e 15).
Finalmente vale fazer uma referência às transações comerciais mantidas pelos índios panares e os civilizados, vendendo-lhes peças de cestaria conhecidas pelos nome de "guapas", adquiridas sobretudo por comerciantes de Caicara, na beira do Orenoco, pouco abaixo da foz do Apure, e revendidas para as lojas de "souvenirs" dos centros urbanos venezuelanos, inclusive Caracas. Para os civilizados, estas cestas com o formato de peneira só têm uso ornamental. Ainda que não faça parte da grande cadeia comercial intertribal a que acabamos de nos referir, é digno de nota que nessas transações os iecuanas tenham uma participação extremamente indireta e totalmente involuntária. É que as peneiras panares começaram a ter aceitação entre os civilizados após eles terem passado a confeccioná-las à maneira iecuana com a qual tomaram contato através de um missionário em Caicara, e por sua vez modificando-a de modo a atender ao gosto dos compradores (Henley e Mattéi-Muller 1978). É curioso que, a julgar pela falta de referências nos trabalhos até aqui citados, as peneiras de cestaria não parecem fazer parte da grande rede de comércio intertribal.
Hierarquia e simbiose
Já as relações dos iecuanas com os sanumás, um ramo os ianomâmis, não podem ser consideradas como apenas comerciais. Em três artigos seus, sendo que um deles em co-autoria com Ana Gita de Oliveira e o índio iecuana João Koch, Alcida Ramos (1980: 23-129) examina essas relações intertribais que têm início em meados do século passado (: 28). A princípio as relações entre eles foi de franca hostilidade. Como parte de um movimento geral de expansão dos ianomâmis, os sanumás invadiram o território iecuana, fazendo incursões sobre suas aldeias, matando-os e roubando-lhes as mulheres, até que, depois de muitos desses ataques, os iecuanas os detiveram com o uso de armas de fogo. Embora tivessem finalmente alcançado a paz, nem por isso os iecuanas conseguiram expulsar os sanumás do território anteriormente apenas seu. Hoje, a maioria das comunidades iecuanas tem, junto de si ou a poucos quilômetros, uma aldeia sanumá (: 27-28). Por conseguinte, não se pode dizer que os iecuanas tenham sido os vitoriosos; não obstante, eles se consideram os "civilizadores" dos sanumás, ensinando-os a viver sem roubar roças alheias, como fazer canoas, redes de algodão, tipitis, peneiras, como plantar e preparar a mandioca. E os sanumás realmente têm aprendido essas técnicas iecuanas, sem por isso se aceitarem como inferiores (: 40). Mas os sanumás ainda não dominam totalmente essas técnicas e dependem dos iecuanas para a obtenção desses utensílios, sobretudo o ralador, que não fazem. Em compensação, são os iecuanas que adquirem dos sanumás os fios de algodão, que consideram de qualidade superior aos seus, para fazerem suas redes. Mas uns e outros se relacionam também através da prestação de serviços. Os iecuanas, que consideram os cadáveres como extremamente poluidores e provocadores de doenças, submetem a severa reclusão aqueles que tiveram de lidar com o morto no preparo do funeral. Por isso, atualmente preferem, ao invés de enterrar seus mortos, entregá-los aos sanumás para que os cremem, preferencialmente àqueles que morem longe de sua comunidade, a fim de facilitar o período de evitação ritual. Os sanumás, que têm o costume de cremar e de comer os ossos calcinados e pulverizados de seus próprios mortos, não se sentem sujeitos a nenhuma restrição ritual por terem lidado com defuntos iecuanas. Os iecuanas também se valem da ajuda de jovens sanumás como carregadores em suas viagens comerciais, auxiliares que, ainda, lhes servem de mediadores quando passam por comunidades ianomâmis com que não estão familiarizados. Além disso, os iecuanas consideram a magia sanumá superior à deles próprios e freqüentemente recorrem aos xamãs sanumás à procura de cura para suas doenças. Os serviços sanumás são retribuídos com bens pelos iecuanas (: 45-49). No lugar estudado por Alcida Ramos, o único onde há atualmente índios iecuanas no Brasil, isto é, na pontinha que faz o extremo noroeste do Estado de Roraima, havia três exemplos de casamento entre homens iecuanas e mulheres sanumás, um deles desfeito. De qualquer modo, o casamento intertribal não parece uma solução ideal a nenhum dos dois grupos, cercados que são pelas atitudes de superioridade dos iecuanas. O principal problema é a identificação dos filhos desses casamentos com uma ou outra etnia. Os sanumás, por se distribuírem em grupos patrilineares, consideram-nos iecuanas, uma vez que são filhos de homens iecuanas. Os iecuanas, por sua vez, que, como qualquer sociedade caribe, não dispõem de grupos unilineares de descendência, submetem o reconhecimento desses indivíduos como pertencentes a sua etnia ao conhecimento de sua língua, suas técnicas e ao seu modo de se comportar. Na verdade, nenhum filho ou filha de casamento misto ousa procurar ou encontra cônjuge entre os iecuanas, mesmo que a estes procure se identificar (: 49-63). O comportamento hipergâmico por parte dos iecuanas vem confirmar que suas relações com os sanumás não são apenas simbióticas, mas também hierárquicas.
Não sabemos se em território venezuelano, onde vive a maior parte dos iecuanas, também ocorrem casamentos destes com os sanumás. Coppens (1971: 42-43) se refere ao costume da adoção, por parte de famílias iecuanas, de meninos, órfãos ou não, sanumás, até por solicitação dos pais destes. O menino sanumá se torna um auxiliar da família adotiva, recebe em paga de seus serviços alojamento, roupa e comida, aprende as técnicas e a língua iecuanas, e, ao chegar à idade de casar-se, volta a sua aldeia de origem. Ou seja, a "adoção" iecuana não é levada às últimas conseqüências.
Enfim, apesar de nesta área ocorrer a especialização na produção de certos artigos por determinadas etnias, nem sempre por serem as únicas a deterem o conhecimento de sua confecção ou disporem em seu território da matéria-prima necessária, mas como um modo de estimularem entre si o intercâmbio, parece que, pelo fato de as relações entre os sanumás e os iecuanas não serem exclusivamente comerciais, aqueles têm conseguido incorporar muito mais técnicas destes do que seria de esperar. Mesmo assim, os iecuanas não lhes transmitiram a técnica de confecção dos raladores de mandioca, como mostra Alcida Ramos (1980: 44-45).
Sub-áreas etnográficas
A simbiose iecuana-sanumá permite-nos destacá- la dentro da área do Maciço Güianense Ocidental como uma sub-área etnográfica. Se assim o fizermos, não poderemos incluir todos os ianomâmis na mesma sub- área, uma vez que somente o seu ramo sanumá mantém tal relação com os iecuanas. Não sabemos se poderíamos identificar relações semelhantes entre outros ramos dos ianomâmis com outras sociedades caribes. Talvez possamos identificar uma outra sub-área que envolve ianomâmis em relações intertribais, não exatamente da mesma natureza, a leste da anterior. O rio Uraricoera, que corta o norte do Estado de Roraima de oeste para leste, tem uma ilha fluvial chamada Maracá. Na extremidade ocidental dessa ilha desemboca o rio Uraricaá. Subindo-se este rio até à cabeceira, chega-se à fronteira com a Venezuela, do outro lado da qual se encontram as nascentes do rio Parágua, o maior afluente do Caura. No Uraricaá e no alto Parágua está estabelecida uma parte dos índios ianans (a outra parte está mais ao sul, ao longo do mesmo eixo, entre os rios Uraricoera e Branco), que constituem o menor dos ramos ianomâmis (Lizot 1988: 490 e 492-493). No alto Parágua os ianans vivem em íntimo contato com duas etnias que hoje contam com poucos representantes e cujas línguas não estão classificadas: os arutânis e os calianas. Na verdade, os territórios dessas duas sociedades eram ou se estendiam mais ao sul, mas foram ocupados pela invasão dos ianans, como parte do movimento geral de expansão dos ianomâmis. Os arutânis teriam oferecido vassalagem aos ianans no alto Uraricaá, para que estes os protegessem dos maracanás (atualmente extintos?), fazendo com eles numerosas alianças matrimoniais, e ao mesmo tempo lhes servindo como intermediários comerciais com os caramacotos, um ramo dos pemons. Os calianas, por sua vez, se mestiçaram como os ianans, arutânis e pemons, falando a língua ianam, no primeiro caso, e pemon, nos dois últimos. Já os arutânis se integraram física e culturalmente aos ianans, falando a língua desses últimos. Em 1952 foi descoberta a mina de diamantes de El Casabe, no baixo Parágua, que deu lugar ao ingresso de grande contingente de mineiros em toda a bacia deste rio para fazer prospecção, o que levou a todos os índios desta zona a participarem como auxiliares nessas atividades de mineração. Os próprios ianans são os mais modificados culturalmente dos ianomâmis (Lizot 1988: 492-493, Coppens 1983: 385-388 e 404-405, Coppens 1983: 411-416 e 422-424). Uma pequena aldeia caliana observada num afluente do médio Parágua fabricava tipitis para vender aos habitantes civilizados do baixo curso deste rio, recebia artefatos de origem indígena e industrial dos pemons, raladores dos iecuanas e espingardas brasileiras através dos ianans (Coppens 1983: 403-404).
Aleluia nas terras de Macunaíma
As terras que se estendem em torno do monte Roraima, em boa parte cobertas por uma vegetação de campos, savanas e matas ciliares, constituem uma outra sub-área etnográfica, que, segundo certos autores, poderíamos chamar de Circum-Roraima (Butt Colson 1985: 104, nota 2). A superfície não florestal é denominada por seus habitantes brasileiros de "Lavrado". Os brasileiros dos grandes centros entram diretamente em contato com esta zona através de três temas. Assim, na escola, ouvem falar da questão de limites com a então Güiana Inglesa, resolvida em 1904, muito embora o rei da Itália, tomado como árbitro, assim se ensina as crianças, não tenha reconhecido ao Brasil toda a área a que tinha direito. Aliás, para além das fronteiras brasileiras, a zona está dentro do território que a Venezuela disputa à Güiana. Também na escola por algum tempo aprenderam que o monte Roraima, com 2.772 metros de altitude, era o ponto mais alto do Brasil, sucedendo assim, neste campeonato geográfico-escolar, o pico da Bandeira, mas sendo posteriormente suplantado pelo pico da Neblina. Em terceiro lugar, é muito caro à intelectualidade brasileira o texto literário de Mário de Andrade que tem por título Macunaíma, o Herói sem Nenhum Caráter, cujas aventuras retratariam a maneira de ser do brasileiro. Ao escrever seu famoso livro, em 1926, Mário de Andrade se apoiou, sobretudo, ainda que não exclusivamente, na mitologia dos índios taulipang e arecunás publicada pelo etnólogo alemão Theodor Koch-Grünberg (1953). Essa mitologia começa com a derrubada de uma imensa árvore cujo toco é o atual monte Roraima.
Hoje, seria de interesse saber se Macunaíma não pertenceria mais ao pensamento brasileiro do que ao dos índios desta sub-área. De fato, em contato com os civilizados pelo menos desde o século XVIII, quando portugueses, espanhóis e holandeses (antecessores dos ingleses) procuravam implantar seu domínio sobre a zona, em contato desde então com criadores de gado, com militares (como os do forte São Joaquim), posteriormente com garimpeiros de diamantes, solicitados pelos missionários mais diversos, entre os quais se contam anglicanos, adventistas, jesuítas, seria de se perguntar que idéia fazem os índios de sua própria mitologia. É certo que ela não desapareceu, mas também não é mais puramente indígena. É que os índios desta sub-área souberam formar novas religiões, amalgamando seus conhecimentos mágico-mítico-rituais com as doutrinas dos missionários. Assim, há mais de um século, surgiu o culto denominado "Aleluia", inicialmente formulado a partir do contato de um profeta macuxi com Deus. A partir dos macuxis, o culto se difundiu por todas as etnias indígenas da sub-área, através de outros profetas, e perdura até hoje. Outros cultos semelhantes surgiram, como o "Chochimuh" e, mais recentemente, o de São Miguel. Combatido, a princípio, pelos missionários, o Aleluia é hoje no mínimo tolerado por eles. O Chochimuh (derivado de "chochi", corruptela da palavra inglesa "church") e o de San Miguel chegam a dispor de edificações exclusivas para o culto, templos, sendo que este último, na sua cosmovisão, coloca o xamanismo como forma reprovável, e o Aleluia e o Chochimuh como maneiras ineficazes, de se alcançar o paraíso. Se o Aleluia surgiu do contato com missionários anglicanos, o de São Miguel mostra uma forte influência do catolicismo romano. Pelo menos no Aleluia, um dos elementos desencadeadores do culto é o esforço indígena de entrar em contato com Deus sem a intermediação dos missionários, pondo em segundo plano também os textos sagrados escritos. O contato direto do profeta com a divindade lembra o vôo do xamã (Butt Colson 1971 e 1985, Thomas 1976).
Os índios desta sub-área são os pemons ou pemong (os autores ora grafam Pemon, ora Pemong) setentrionais, que incluem os Camaracotos, os Taulipang e os Arecunás; os pemons meridionais, que são os macuxis; os capons ou capong (os autores, do mesmo modo, ora grafam Kapon, ora Kapong), que incluem os acauaios (talvez estes sejam os ingaricós do Brasil) e os patamonas; e os uapitxanas. Somente estes últimos são aruaques; os demais são caribes.
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OUTROS TEXTOS RELATIVOS À ÁREA
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42: 79-91.
MULLER,
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