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Capítulo 2
A "ILHA" GÜIANENSE
Introdução aos capítulos 3, 4 e 5
por Julio Cezar Melatti
Revisto em 6-8-97
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Se levarmos em conta que o canal de Cassiquiare liga os altos cursos do Orenoco e do Negro, seremos forçados a admitir a existência de uma enorme ilha marítimo-fluvial no norte da América do Sul, limitada pelo oceano Atlântico, no trecho entre o delta do Orenoco e o estuário deltaico do Amazonas, pelo curso desses dois grandes rios e pelo citado canal do Cassiquiare, abrangendo o leste e o sul da Venezuela, a Güiana, o Suriname, a Güiana Francesa e, do Brasil, o Amapá, o norte do Pará, Roraima e uma parte do norte do Amazonas. A essa imensa ilha se pode dar o nome de Güiana ou, como faremos aqui, para evitar confusão com unidades políticas nela situadas e com o mesmo nome, de região güianense. Na verdade, o sul da região güianense é o próprio norte da região amazônica. Hoje em dia é mais comum considerar como güianense aquela parte da região cujos rios correm diretamente para o Atlântico sem desembocarem no Amazonas. Mas aqui, por motivos etnográficos, preferiremos considerar toda a grande ilha marítimo-fluvial como güianense, seguindo aliás o uso de mapas de séculos passados, que chamavam de Güiana também ao norte da região amazônica.
Foi o antropólogo britânico Peter Rivière (1984: 2) quem chamou a atenção para o aspecto insular dessa região, ao tomá-la como unidade cultural a ser estudada. Na verdade, a atenção desse pesquisador incide sobretudo naquelas sociedades indígenas que vivem de um e de outro lado da fronteira setentrional do Brasil, nas elevações que constituem o maciço Güianense. Ele exclui declaradamente de seu estudo os ianomâmis, da fronteira brasileiro-venezuelana, e os uaraos, do delta do Orenoco, alegando que, apesar das semelhanças, diferem em aspectos específicos, das outras sociedades da região. Na verdade, Peter Rivière, que fez trabalho de campo junto aos tiriós, falantes de uma língua caribe, moradores de ambos os lados da fronteira Brasil-Suriname, incluiu em seu estudo comparativo apenas aquelas sociedades caribes ou a elas semelhantes e as menos modificadas pelo contato no momento em que estudadas pelos seus pesquisadores-fonte, deixando tacitamente de lado os índios do litoral atlântico, os mais intimamente relacionados com os civilizados e influenciados por eles, e as sociedades tupis da fronteira Brasil-Güiana Francesa.
Como atualmente a região güianense é a que abriga a maioria das sociedades caribes e
como nessa região a família caribe supera em número de sociedades as outras
unidades lingüísticas, quem se interessa por caribes tem de abordar a região
güianense e quem toma essa região como foco de estudo é necessariamente levado
a considerar os caribes. Em datas próximas ao livro de Rivière (1984: 1), que o
escreveu estimulado pela boa qualidade das pesquisas de campo recentes levadas
a efeito na região, foram também publicadas duas coletâneas sobre diferentes
sociedades caribes que, por força da localização da maioria, incidem na mesma
região (Basso, org., 1977; Butt Colson e Heinen, orgs., 1983/1984).
O passado da região
Hoje se admite, embora, como qualquer teoria, sem a unanimidade total dos pesquisadores, que os caribes teriam se constituído na própria região güianense e daí se expandido para o sul, na direção do alto Xingu, onde atualmente existem sociedades falantes de línguas dessa família; e na direção oeste, para os Llanos, ultrapassando-os, havendo ainda hoje uma sociedade caribe, os iucpas ou iocos, na serra de Perijá (área etnográfica Extremo Norte); também se expandiram sobre as Antilhas, a região das Américas a sofrer o primeiro impacto da colonização européia e que já nos inícios do século XVII tinha quase toda a sua população indígena extinta, sobrando hoje apenas os caribes da ilha Dominica. O arqueólogo Donald Lathrap (1970, cap. 10) foi o primeiro a tomar como maneira de reconhecer os caribes pré-históricos a tradição cerâmica que usava como desengordurante espículas da esponja de água doce chamada cauixi, ornamentada com incisões finas e profundas, formando desenhos retilíneos em foram de V, e aplicações zoomórficas ou abstratas feitas com rolinhos e bolinhas de argila. Essa tradição cerâmica se expande desde o quadrante nordeste da bacia Amazônica (portanto, região güianense) a partir aproximadamente do ano 500 de nossa era, perdurando até a chegada dos europeus. Alberta Zucchi (1985) e Kay Tarble (1985) têm interessantes artigos em que discutem a expansão caribe, sobretudo na área correspondente ao atual território venezuelano.
Mas a presença caribe na região güianense não é exclusiva. Ainda hoje, sobretudo no
litoral güianense, há uma marcada presença aruaque. Ela foi muito maior no
passado, mas muitos dos aruaques da região foram extintos, como, por exemplo,
no período colonial, os do médio e baixo rio Negro. Inspirando-se na explicação
elaborada por José P. Brochado (1984) para a expansão pré-histórica dos tupis
em torno do planalto Brasileiro, Irving Rouse (1985: 9-13) supõe um dos ramos
da expansão aruaque movendo-se em forma de pinça de modo a cercar o maciço
Güianense, admitindo terem as línguas aruaques uma origem comum com as línguas
tupis numa antiga língua denominada proto-equatorial, falada por volta de 5000
a.C. Na verdade, esse movimento dos aruaques já fora anteriormente delineado
por Lathrap (1970: cap. 4, fig. 5d).
Além de caribes e aruaques, ainda se contam na região güianense os ianomâmis, cuja
expansão, a partir da serra Parima, data de poucos séculos atrás; algumas
sociedades tupis, na fronteira Brasil-Güiana Francesa; duas sálivas (os piaroas
e os macós) e até ainda não classificadas lingüisticamente na sua parte
ocidental.
Características gerais da organização social dos grupos indígenas da região
Mas voltemos ao livro de Peter Rivière (1984). Com exceção dos piaroas, e os
uapitxanas, os índios sobre cujas etnografias o autor mais recorre para
fundamentar seus estudo são caribes: aparaís, uaianas, tiriós, uaiuais,
macuxis, pemons, acauaios, iecuanas, panares e caribes do rio Barama e do rio
Maroni (Rivière 1984: 2 e 10). Com exceção das últimas sociedades referidas,
nenhuma das outras se localiza no litoral. Convém ter esse embasamento empírico
em mente ao se considerar as generalizações do autor.
De um modo geral essas sociedades se caracterizam pela ausência de grupos formais
como linhagens, clãs, metades, classes de idade com afiliação definida por
descendência unilinear, transmissão de nomes pessoais, idade ou sexo, sendo que
sua organização social e política aparenta informalidade, fluidez, atomismo ou
individualismo; mas se as caracterizarmos pelos aspectos presentes e não pelos
ausentes, podemos dizer que elas dispõem de descendência cognática,
terminologia de parentesco prescritiva em duas linhas, preferência por endogamia
de grupo local e/ou residência uxorilocal, ordenação das relações sociais com
base na co-residência e distribuição em grupos locais pequenos não-permanentes
(: 4).
A comparação controlada que Rivière faz sobre as categorias sociais mantidas
pelas sociedades referidas (: 6-7) incide sobre os fenômenos invariantes, ou
seja, aqueles concernentes à estrutura e organização social (:7). Os
variantes, ou seja, a língua, os adornos corporais, o equipamento técnico, os
métodos de processar alimentos, os ritos funerários, o consumo de alucinógenos
e outros de que os índios se valem para marcar suas diferenças étnicas, não são
de um modo geral objeto do livro (:8). É digno de interesse o reparo feito por
Rivière de que são justamente esses elementos culturais que servem para marcar
as fronteiras étnicas aqueles mais sujeitos a abandono, mudança ou
substituição, o que corresponderia certamente a um constante suceder de grupos
étnicos que desaparecem e surgem por cisão e fusão (: 8). Depois de uma
descrição geral das características etnográficas da região (: 9-14), Rivière dá
início a seu exame comparativo.
Após examinar os dados disponíveis referentes ao tamanho, duração e distribuição
dos grupos locais güianenses (: 16-24), Rivière conclui que as aldeias têm uma
média de 30 habitantes, sendo usual a amplitude de 15 a 50. A distância entre
as aldeias costuma ser de meio dia de caminhada; quando elas se reunem em
grupos locais (regionais?), a distância entre tais grupos pode ser de vários
dias de viagem. As aldeias duram cerca de seis a sete anos e se mudam para
locais próximos. Os estabelecimentos das savanas partilham de muitas dessas
características, porém com menor número de habitantes (anteriormente notou que
aí não existem aldeias, mas casas dispersas, ainda que associadas). Os acauaios
vivem em suas roças, que têm aldeias por centros; esse padrão que é tradicional
nos acauaios, se nota também nos macuxis, por causa das escolas, e para ele
tendem os tiriós, devido à missão (: 23-25).
Na discussão do tamanho das aldeias, Rivière, embora reconhecendo a importância
dos motivos tecnológicos e ecológicos, não os considera capazes de explicar
totalmente o problema. Assim, nota que, apesar de a região não ser
ecologicamente homogênea, as aldeias têm tamanhos similares. Por outro lado, no
passado elas tiveram mais habitantes que nas últimas décadas, levantando a
questão de se saber se foi naquela época ou se é agora que estavam ou estão
adaptadas ao meio ambiente. Há ainda a considerar o caso dos pemons, que, apesar
de seu acentuado crescimento populacional em tempos recentes, mantêm seus
grupos domésticos e estabelecimentos no mesmo tamanho. Outros fatores,
portanto, como a atuação de agentes externos, de que são exemplos incursões
hostis e a ação missionária, ou a efetividade do líder em manter e aumentar o
número de habitantes de sua aldeia ou grupo local, ou ainda, a possibilidade,
em caso de conflito interno, de desafetos se afastarem da aldeia e se abrigarem
em outra não muito longe, que faça parte da mesma rede social, também devem ser
levados em conta na explicação do padrão de povoamento (: 25-28).
No que tange à composição das aldeias, após exame dos dados disponíveis (: 31-39),
Rivière conclui que elas tendem a serem habitadas por parentes próximos relacionados
bilateralmente, mesmo que fictícios, e a realizarem os casamentos segundo uma
endogamia de caráter prescritivo (: 49). Os padrões de residência resultam de
escolhas presididas por considerações de natureza social, afetiva, política,
ritual e econômica, caracterizando-se pela tendência de irmãos do mesmo ou de
ambos os sexos partilharem residência, por casais viverem com os pais
sobreviventes de qualquer dos cônjuges e pela uroxilocalidade, esta última, por
sua vez, podendo resultar da obrigação do genro cuidar dos sogros, do laço
íntimo entre mãe e filha ou entre irmãs, do serviço da noiva e da autoridade
jurídica do pai sobre a filha (: 40-41).
Na região güianense as relações de parentesco se classificam em categorias que se
distribuem segundo uma terminologia de troca direta prescritiva (Rivière 1984:
44). Embora as terminologias güianenses sigam esse padrão geral, Rivière (1984:
44-47) discute as variações a que está sujeito em cada sociedade, detalhes em
que não vamos nos demorar aqui. No que tange aos termos de afinidade, são
grandes as variações, de sociedade para sociedade, indo desde sua ausência até
a existência de um termo distinto para cada posição de afinidade (: 47-48).
A terminologia prescritiva compartilha de algo em comum com a endogamia
prescritiva, relacionadas que são à idealização da comunidade como um corpo
auto-contido de parentes. No que tange ao casamento, essa idealização se
realiza pela reinterpretação do que acontece em termos do que deveria de
acontecer (: 49). Rivière examina ainda como a endogamia local e regional se
manifesta nos números censitários disponíveis nas etnografias (: 50-52).
No capítulo 5 Rivière examina os correlatos comportamentais dos critérios que orientam
a distribuição dos termos de parentesco: nível genealógico, idade relativa,
sexo e afinidade. Demora-se mais no último. Como as diferenças entre as
sociedades comparadas não chegam a tomar um caráter de sistema, a discussão do
autor dificilmente pode ser resumida. Se algo generalizável se obtém é a de
que a acentuação da consangüinidade e co-residência, ligada à ficção de uma
parentela endogâmica, não chega a impedir a penetração da afinidade (: 67-71).
O triângulo parentesco-política-economia
O destino da aldeia está intimamente ligado ao de seu líder; ela depende da
habilidade dele em manejar a rede de relações sociais que a constituem, mostrando
iniciativa, capacidade de administrar as atividades rotineiras, de persuadir e
mediar através do domínio da palavra, generosidade na distribuição e
redistribuição de alimentos e bebida aos moradores e visitantes, e conhecimento
dos ritos ou xamanismo e das tradições, sem tomar uma atitude autoritária. O
autoritarismo só é admitido, quando dos adultos para com as crianças ou dos
homens para com as mulheres (: 72-73). Na conquista e manutenção de sua posição
são importantes para o chefe as relações de casamento, mas nelas também estão
sua fraqueza. Nos exemplos apresentados fica claro que é precária a posição do
líder que se apóia na relação com os cunhados, pois elas se desfazem com a
morte ou separação da mulher ou mulheres que o unem a eles, sendo mais estável
aquele líder que se apoia nas suas relações com os genros, que lhe devem
prestações matrimoniais ou dele dependem em matéria de ritual. Comumente o
apoio ao líder advém de um núcleo de parentes cognáticos e afins, mas estes já
relacionados por algum laço de parentesco antes do casamento. Conflitos e
acusações de feitiçaria envolvem sobretudo aqueles que entraram na aldeia pelo
casamento, sem nenhuma relação prévia anterior com os moradores (: 73-80).
Apesar do ideal de se manter como uma parentela endogâmica, a aldeia não pode evitar
relações com outras, que se fazem através de casamentos, disputas, comércio e
ritual. Os casamentos entre aldeias são inevitáveis uma vez que é quase impossível
que todos os seus moradores encontrem parceiros matrimoniais na idade e relação
social adequadas, uma vez que a população de cada uma raramente ultrapassa meia
centena; por outro lado, ter um parente casado em outra aldeia dá oportunidade
a visitas. As idéias sobre as causas das doenças e da morte levam a acusações
de feitiçaria e conflitos, que dão motivo a cisões e migrações para outras
aldeias. O comércio se faz pela aquisição de itens de outras aldeias ou
sociedades que muitas vezes a própria aldeia adquirente tem possibilidade de
fazer, numa especialização artificial que favorece a comunicação entre
diferentes comunidades. Os ritos também estimulam o contato entre aldeias,
sendo que no caso dos piaroas o conhecimento ritual do líder bem como a
capacidade e recursos para pô-lo em prática leva líderes de outras aldeias a
ele se subordinarem, constituindo assim uma unidade política maior que a aldeia
(: 80-86).
Depois de considerar que riqueza é algo definido culturalmente, que ela constitui um
recurso escasso e um valor, e que a economia política concerne na manipulação
e controle de recursos escassos e na habilidade de fazê-los gerar valor,
Rivière se nega a dar a primazia que outros autores atribuem ao suprimento de
proteínas, admitindo que na região a escassez não é e recursos naturais, mas
sim de trabalho, ou seja, de recursos humanos, o que não significa escassez de
gente de um modo geral, mas de pessoas conhecidas, confiáveis, familiares, que
não perigosos estranhos. Isso o leva a considerações sobre o controle das
mulheres e até a interessante suposição de como a elaboração cultural dos
procedimentos de preparo da mandioca muito para além do mínimo necessário à
extração do ácido prússico, venenoso, seria uma maneira dos homens manterem as
mulheres continuamente ocupadas e aproveitar o produto do trabalho delas para
propósitos rituais e políticos, esferas de atividade das quais elas estão
excluídas. Através do controle das mulheres também se controlam os homens que
com elas se casam, um exercício de que se valem os líderes para criar e manter
suas aldeias (: 87-94).
Em seguida o autor tenta averiguar por que muitas vezes os etnógrafos têm
considerado as sociedades güianenses como individualistas. Começa por
considerar que a noção de que os membros de cada família nuclear partilham de
uma mesma substância impõe restrições ao indivíduo através da couvade e
dieta especial quando um membro da mesma família está seriamente doente. Além
disso, apesar da divisão sexual do trabalho permitir que a família nuclear
possa ser economicamente auto-suficiente, ela geralmente se agrega a outras,
formando aldeias, o que lhe traz certas vantagens, como segurança contra
inimigos externos, possibilidade de caçadas coletivas, acesso a um pedaço de
carne, mesmo quando o caçador da família é mal sucedido, mas a vida nesses
agregados maiores obriga, por outro lado, o indivíduo a abrir mão de uma parte
de sua liberdade pessoal. Onde estaria, pois, o alegado individualismo? Não
dispondo de grupos unilineares, classes de idade ou grupos rituais e sendo a
relação sogro-genro, tão importante na formação das aldeias, sem transitividade,
essas sociedades não são mais que agregados de relações individualmente
negociadas, o que as faz parecer tão individualistas (: 94-98).
Nas conclusões Rivière tenta utilizar as lições das sociedades güianense para
lançar um pouco mais de luz sobre os problemas etnográficos de outras regiões,
mas neste resumo apenas reteremos a sua sugestão de que esta região apresenta a
forma mais simples da cultura das sociedades das terras baixas da América do
Sul. As outras regiões ostentam formas mais elaboradas do padrão güianense.
Isso deve ser entendido em termos de possibilidades lógicas e não como
identificação de um estágio evolutivo original (: 102).
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