Site Línguas Indígenas Brasileiras, de Renato Nicolai  [ knewman@altavista.net ]

 

Capítulo 1

POR QUE ÁREAS ETNOGRÁFICAS?


por Julio Cezar Melatti

Revisto em 6-8-97

Mapa das áreas culturais

de Eduardo Galvão

Gráfico dos critérios

para traçar áreas

Mapa das áreas etnográficas

focalizadas neste trabalho

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Razões deste curso

              Há vinte anos publicamos Índios do Brasil (Brasília: Coordenada/INL, 1970), livro destina­do a oferecer informa­ções básicas sobre as sociedades indígenas a pessoas não familiarizadas com a Etnolo­gia. Desde sua primeira edição até hoje as pesquisas se multiplicaram e o conhecimen­to a respeito dessas sociedades cresceu consideravel­mente, de modo que o texto origi­nal, apesar de já retocado em mais de um detalhe, pede por uma atualização mais geral. Mas essa tarefa, a que nos sentimos estimulado pela boa acolhida que os leitores deram ao livro, nos levaria a tantas modifica­ções que melhor seria escrever um outro. Eximem-nos, porém, dessa alternativa recentes livros escritos por etnólogos para um público amplo, como Sociedades Indígenas, de Alcida Ramos (São Paulo: Ática, 1986), Os índios e o Brasil, de Mércio Gomes (Petrópolis: Vozes, 1988), Los Indios de Brasil,  Roque Laraia (Madrid: Mapfre, 1993), A Temática Indígena na Escola, organizado por Luís Donisete Grupioni e Aracy Lopes da Silva (São Paulo: Mari, Brasília: MEC, UNESCO, 1995), sem contar uma série de outras publicações sobre problemas específi­cos, organizadas por pessoas ou ins­titui­ções interessadas em questões relativas aos índios.

              Parece-nos, entretanto, que ainda há lugar para um trabalho que, ao invés de tópicos como economia, parentesco, política, religião, artes e outros, tal como se orga­niza Índios do Brasil, distribua as sociedades indígenas em áreas, como recurso didáti­co que permita relacioná-las com situações específicas e ao mesmo tempo chamar a atenção para sua diver­sidade cultural. É verdade que existem obras coletivas bastante extensas, que se valem de áreas ou de critérios a elas relaciona­dos. Uma delas é o Handbook of South American Indians, organizado em sete volumes por Julian Steward, sob os auspícios da Smithsonian Institution (Bulletin 143 do Bureau of American Ethnology, Washington, 1946/1952). Apesar de detalhado, com informações etnográficas, histó­ricas e arqueológicas, foi escrito há mais de quarenta anos, numa época em que a América do Sul indígena contava com muito poucas pesquisas. Por isso, embora ainda continue como uma obra de referência importante, acha-se desatualizado tanto teórica como etnograficamente. Além do mais, como nunca foi traduzido, a não ser uns poucos artigos incluídos na Suma Etnológica, dirigida por Darcy Ribeiro, permanece fora do alcance de grande parte dos leitores brasileiros. A outra é a coleção Povos Indígenas no Brasil, dirigida por Carlos Alberto Ricardo, sob o patrocínio do Centro Ecumênico de Documentação e Infor­mação. Obra programada para dezoito volumes, mas com apenas alguns publicados, tem seu conteúdo voltado para os interes­ses de um público muito par­ticular: indígenas e indigenistas.  Mas o trabalho a que nos propomos, ao contrário, seria bem mais curto e acentuaria sobretudo questões etnoló­gicas suscitadas por cada área ou para cuja discussão elas contribuem. Como várias das sociedades indígenas a serem abordadas vivem de um e de outro lado da fronteira brasileira, ou têm freqüentes contatos com outras além dos limites do Brasil, ou ainda partilham com elas semelhanças culturais ou outros problemas, deveremos am­pliar nosso âmbito de interesse pelo menos para a América do Sul.


Os estudos de áreas indígenas

              Tratando-se, pois, de índios atuais, seria o caso de se pensar nas áreas cultu­rais sugeridas por Eduardo Galvão, há mais de trinta anos, na IV Reunião Brasileira de Antropolo­gia, realizada em Curitiba, em 1959. A noção de área cultural nasceu no seio da antropologia norte-americana e não escapa a uma orientação voltada para a reconsti­tuição do percurso dos traços culturais entre diferentes socieda­des, não em escala mundial, como queriam os difusionistas centro-europeus do começo deste século, mas somente em âmbito regional, quando muito continen­tal. Wissler, em 1922, foi o pri­meiro a propor uma divisão em áreas culturais para as Américas. E, desde então, outros pesquisadores fizeram novas proposições. De um modo geral uma área cultural reúne todas as culturas de uma mesma região que partilham um certo número de ele­mentos em comum. Seguramente nem todas as culturas da área conterão todos esses elementos, de modo que comumente há certa dificuldade em traçar os limites da área e decidir se certas culturas devem nela ser incluídas ou não. Essa decisão é tomada pela comparação das culturas com um centro primário de inventividade ou com um clímax cultural, o que implica em tomar como critério a difusão a partir desses pontos, conforme comentário de Julian Steward num artigo em que retrabalha sua noção de tipo cultural.

              Essa última noção, a de tipo, não se confunde com a de área cultural, e nasceu com a elaboração do já referido Handbook of South American Indians. Seu organiza­dor, Julian Steward, discute os critérios que lhe serviram de orientação para a distribui­ção das infor­mações no corpo da obra em artigo que faz parte de seu quinto volume. Se bem entendemos esse sumário interpretativo, a divisão inicial­mente impressionista e baseada principalmente no conteúdo cultural que orienta a distribuição das socieda­des indígenas pelos quatro volumes iniciais é agora reinterpretada em termos de pa­drões sócio-políticos e religiosos. Assim, os povos marginais, inicialmente tomados como aqueles que não dispõem de agricultura e que são portadores de culturas simples, passam a serem caracterizados pela presença de unidades sócio-políticas constituídas de um único grupo de parentesco ou vários deles frouxamente organizados. Os povos de floresta tropical, iden­tificados por sua agricultura e vários itens materiais adaptados a seu meio, passam a ser considerados através de suas unidades sócio-políticas forma­das por grupos de parentesco e estruturadas segundo idade, sexo e associações, unida­des essas maiores e mais estáveis, porque amparadas por uma tecnologia mais desen­volvida; o tipo assim reinterpretado passa a englobar também os povos dos Andes meridionais. Os povos circuncaribeanos e dos Andes setentrionais, inicialmente toma­dos por seu sistema de classes e culto em templos, passam a ser con­siderados por suas aldeias compostas de muitos grupos não alicerçados no parentesco, aldeias essas maio­res e mais permanen­tes, integrantes de uma população mais densa, por causa de um complexo de subsistência mais efetivo, ainda que assentado em tecnologia similar ao do tipo anterior. Os povos andinos, inicialmente destacados por sua tecnologia, cultura material e complexo ritual característicos, passam a ser considerados por suas institui­ções que se sobrepõem a padrões de comportamento concernentes ao grupo de paren­tesco e à comunidade, e em grande parte substituindo-os, com a cons­tituição de verda­deiros centros urbanos e a extensão de inter‑relações sociais e controle político sobre grandes áreas, com base numa agricultura altamente desenvolvida, metalurgia e artes de construção. Nota-se, pois, ao se passar das áreas para os tipos, um deslocamento de interesse dos traços culturais para as relações sociais e do difusionismo para o evolu­cionismo. Como porém sociedades de um mesmo tipo em muitos casos se apresentam justapostas espacialmente, podem assim constituir áreas. De qualquer modo, um mes­mo tipo se apresentará de maneira des­contínua, em várias áreas.

              As áreas culturais de Eduardo Galvão têm certas peculiari­dades que decorrem da própria crítica que ele faz a esses tipos e também às áreas de autores que o prece­deram. Para começar, Galvão dá a sua divisão em áreas um limite temporal de valida­de, ou seja 60 anos, de 1900 até 1959, data em que apresenta pela primeira vez o trabalho. Evita assim con­siderar num mesmo mapa sociedades indígenas atuais com outras que desapareceram durante o período colonial ou imperial, ou a mesma socieda­de em dois pontos diferentes do mapa, devido a deslocamen­tos sofridos durante o período de mais de quatro séculos de presença dos brancos, inconveniente em que incorrem outros autores que desenham o mapa como se fosse no momento inicial da conquista — como acontece com a divisão de Murdock — esquecendo-se que esta não ocorreu simultaneamente em todos os pontos do continente, mas constitui-se num processo gradativo. Em outras palavras, quem sabe onde estavam as sociedades indíge­nas do alto Xingu quando os Tupinambás ocupavam partes do litoral no século XVI? Essa escolha de Galvão explica porque partes consideráveis do território brasileiro não mais ocupados por índios no século XX estão em branco no seu mapa.

Mapa das áreas culturais de

Eduardo Galvão

              Em segundo lugar, Galvão resolveu levar em consideração o contato intertri­bal, isto é, de diferentes sociedades indígenas entre si, e também o contato delas com a sociedade nacional. Reconhece Galvão que seu trabalho é uma adaptação das divi­sões elaboradas por Steward e Murdock e que, como critério deter­minante, elegeu a distribuição espacial contígua de elementos culturais, tanto de caráter ergológico quan­to sócio-cultural sem deixar de levar em conta o ambiente geográfico. Por outro lado, ainda que não o explicite, parece-nos que Galvão deixou de lado a identificação de um centro de difusão para cada uma de suas áreas.

              Os critérios inovadores postos em prática por Galvão — limite temporal de validade, contato intertribal e contato com a sociedade nacional — nos fazem inclinar forte­mente pela adoção de sua divisão num exame das principais questões etnológicas da América Meridional. Entretanto, existem alguns problemas em suas áreas que pe­dem por um remanejamento. O primeiro deles é que Galvão tomou como âmbito de seu trabalho apenas o território brasileiro, enquanto nossa apreciação se volta para todo o continente. Mas este é um problema de fácil solução, pois bastaria estender as áreas traçadas nas bordas do território brasileiro para fora do mesmo e delimitar outras totalmente no exterior, usando os mesmos critérios de Galvão. Outro problema de fácil solução seria alterar a divisão traçada para os primeiros sessenta anos deste século de modo a adaptá-la à época atual.

              Há, porém, dois problemas mais sérios. Um deles se evidencia na leitura da apresentação esquemática das caracterís­ticas de cada área. As culturas incluídas em cada uma delas são como que subdivididas em seus componentes de modo a serem utilizados na caracterização da área. Esta, porém, toma o aspecto de uma mera lista de traços culturais, sem que se logre relacio­ná-los de modo a obter uma totalidade mais ampla, que seria a área. A mesma leitura nos põe simultaneamente diante do outro problema, que é a interpretação que Galvão faz dos exemplos de contato intertribal, tomados sempre como processos de homogeneização cultural, isto é, sempre considera o contato entre duas ou mais sociedades indígenas sob o ponto de vista da aceitação, por umas, das culturas das outras, ainda que a longo prazo, nunca supondo a possibili­dade de se manterem diferentes, numa as­sociação simbiótica.


Pólos de articulação

              Em trabalho que há mais de dez anos publicamos num periódico que já não mais circula, a Revista de Atualidade Indígena, julgamos poder superar essas duas dificuldades abandonando a divisão em áreas culturais e subs­tituindo-a pela identifica­ção de pólos de articulação indígena, inspirado em estudos sobre hierarquia de cidades, como os reunidos no volume Urbanização e regionalização, or­ganizado pelo geógrafo Speridião Faissol. A proposta consistia em cartografar as sociedades indígenas e as cidades que lhes estão próximas como se fossem pontos, e unir esses pontos por linhas de espessuras diversas conforme o número de relações que os ligassem: inter­casamen­tos, trocas comerciais, convites para ritos, procura dos serviços de médicos-feiticeiros, procura de hospitais, par­ticipação em eleições, procura de escolas etc. Preterindo assim a uniformidade e a homogeneização cultural em favor de uma maior atenção nas rela­ções sociais, poderíamos apontar os laços das sociedades indígenas entre si e com as sociedades nacionais, mantendo cada qual como uma totalidade sócio-cultural. Em outras palavras, cada sociedade indígena não seria agrupada com outras que se pare­cem com ela, mas sim com aquelas com que partilha sua vida social.


Uma solução de compromisso

              Depois de todas essas considerações, pode parecer ao leitor que optamos pelos pólos de articulação. Mas a escolha não é tão simples. Nosso objetivo, como já disse­mos, é apresentar algumas informações básicas sobre os índios atuais da América do Sul e as principais questões etnológicas que têm suscitado. Se optarmos simplesmente pelos pólos de articulação, estaremos privilegiando o contato inter­étnico em detrimento de outros problemas. Além disso, trabalhar com tais pólos, tal como os imaginamos inicialmente, exigiria uma detalhadíssima infor­mação a respeito do intercâmbio entre as sociedades indígenas vizinhas entre si e com os núcleos urbanos das imediações, o que não seria viável obter em todos os casos a estudar. Semelhanças e diferen­ças culturais levantam questões importantes, de que os pólos geralmente não dão conta. Temos, pois, de escolher uma divisão que leve em consideração uma ampla gama de aspectos, o que nos conduz a uma solução de compromisso entre as áreas culturais de Eduardo Galvão e os pólos de articulação.

              Das áreas de Galvão evitaríamos a mera enumeração dos traços culturais que as caracterizem, bem como o conseqüente arrolamento das exceções, isto é, das cultu­ras não por­tadoras de certos traços próprios das áreas em que estejam inclusas. Isso seria uma conseqüência do abandono da preocupação com a unifor­midade cultural e da negativa em tomar a homogeneização como o único resultado possível do contato entre culturas. Fica­ríamos, por outro lado, com o critério de um limite temporal de validade da divisão, que poderia ser o último quartel do século XX. Continuaríamos, também, atento à clas­sificação lingüística, porque desejamos levar em conta origens comuns e conexões no passado. E ainda manteríamos a consideração do meio ambiente. Levaría­mos em conta, também, o contato das sociedades indígenas entre si e com as socieda­des nacionais, porém, aí, com um tratamento diverso do de Galvão, inspirando-nos, sem levá-la às últimas conseqüências, em nossa proposta dos pólos de articulação.

              Mesmo o critério de um período temporal bem definido, sustentado por Gal­vão, merece, para nossos objetivos, ser matizado. É curioso observar que, apesar de muito citadas, suas áreas culturais raramente são utilizadas como ponto de partida de pesquisas etnológicas. O contrário acontece com a classificação lingüística. Qualquer antropólogo que manifeste seu interesse em iniciar uma pesquisa sobre uma determina­da sociedade indígena pouco conhecida é logo indagado pelos colegas sobre a família ou tronco do idioma por ela falado: é jê? tupi? caribe? pano? Conforme a resposta, se fazem suposições sobre as questões etnológicas que poderão surgir. Isso porque há um fundo cultural comum às sociedades que falam línguas relacionadas, dado serem possivel­mente oriundas de uma única sociedade anterior mais ou menos remota, ou de sociedades mais antigas que mantiveram íntimo contato (a ponto de uma adotar a língua da outra). Tal fato permite aos etnólogos o exercício da comparação dentro de gradativos limites de similaridade. Essa comparação se faz tanto entre sociedades atuais como entre sociedades de hoje e outras mais antigas. Desse último caso é exem­plo notório o diálogo que há muito se mantém entre as pesquisas referentes a socieda­des tupis do presente com os estudos referentes aos tupinambás dos séculos XVI e XVII. Em outras palavras, apesar de nosso trabalho ter como foco as sociedades indí­genas atuais, não seria possível deixar de lado aquelas semelhanças entre elas que remetem a um passado.


Critérios de delimitação

              Resta, porém, um problema: como delimitar essas áreas? Uma possível resposta seria a atribuição de pesos aos critérios levados em conta para distingui-las. Podemos explicar nossa solução com ajuda da figura anexa. Se tomássemos cada sociedade indígena em sua unicidade cultural e situacional, negando-nos a compará-la com outras sob qualquer critério, seria impossível incluí-la numa unidade maior, de modo que cada uma delas constituiria uma área por si mesma, ou melhor, um ponto. Isso é o que queremos dizer com o ponto U (de "único", "unicida­de") no centro da figura. Se, porém, escolhermos agrupá-la numa área, com outras sociedades, podemos tomar como um dos critérios a classificação lingüística, o que equivale a levar em con­sideração a possibilidade de origem comum partilhada com elas ou alguma outra forma de conexão no passado, conforme uma gradação passível de ser indicada no segmento de reta UO (O, de "origem"), do centro para a margem: sociedades falantes do mesmo dialeto, da mesma língua, de línguas da mesma família, de línguas do mesmo tronco, de diferentes troncos, e assim por diante. Simultanea­mente podemos considerar a sua inserção junto com outras num mesmo ambiente, segundo uma gradação que pode ser marcada no segmento UA (A, de "ambiente"): sociedades ocupantes do mesmo nicho, de nichos diferentes do mesmo ambiente, de diferentes ambientes etc. Levaríamos em conta, ainda, seu contato com outras sociedades indígenas conforme uma possível gradação do segmento UT (T, de "tribal", em "intertribal") de um máximo de relações envolvidas no intercâmbio para um mínimo. E também com a sociedade ou sociedades nacionais conforme uma gradação do segmento UC (C, de "civilizados", "cidade"), de um máximo para um mínimo de relações. Os quatro segmentos, que representam grafica­mente quatro critérios, compõem dois eixos que se cruzam no ponto U.

Gráfico dos critérios

Porém, há algo mais a considerar. Esses critérios são interdependentes. O eixo CUT não se compõe de dois segmentos completa­mente autônomos, uma vez que as relações entre índios e civilizados podem servir de veículo para relações intertribais e vice-versa. Por exemplo, índios transferidos para uma reserva onde vêm a conhecer uma outra etnia da qual não tinham notícia quando habitavam seu território original; grupos inimigos nas suas terras de origem, mas que são forçados a se tolerarem quando se encontram no centro urbano regional; índios que aprendem uma língua indígena que não é a sua nas escolas da missão religiosa; e assim por diante. Por sua vez, o eixo OUA também não se compõe de segmentos comple­tamente indepen­dentes, pois, como mostrou Roque Laraia, as socieda­des que falam línguas do tronco tupi tendem a ocupar áreas cobertas por floresta.

              Finalmente, cabe uma explicação para a linha curva E (E, de "etnólogo", "etnógrafo"), que nos chama a atenção para o fato de que, no fim das contas, quem escolhe o limite de cada área é o pesquisador, a quem resta uma larga margem de ar­bitrariedade. Em nossa figura, a linha E corta o segmento UC num ponto muito mais próximo de U que os pontos de intersecção com os outros segmen­tos, pois nossa intenção é, ao invés de excluir de uma mesma área sociedades indígenas, ou até segmentos de uma mesma socie­dade, ­ainda quando situadas em países sul-americanos distintos, apenas porque "puxadas" por centros urbanos localiza­dos em direções opostas, dar mais peso às relações intertribais.

              Em vista do alto grau de arbitrariedade do qual não se pode escapar, a melhor solução será assumi-la. Ao invés de falarmos em "áreas culturais", melhor será dizermos "áreas etnográficas", de modo acentuar que elas não existem inteiramente por si mesmas, mas que o pesquisador é quem, em última análise, as delineia.

              As áreas resultantes não são todas igual­mente convincen­tes. Algumas como que se impõem imediata­mente. É o caso do alto Xingu, a área V de Galvão. Acompanhan­do o seu modo de pensar, poderíamos argu­mentar que tal se dá por causa do alto grau de homogeneidade cultural que caracteriza as sociedades indígenas dos formadores do Xingu. Na verdade, essa uniformidade somente existe com respeito a algumas delas, talvez as mais antigas na área, os xin­guanos clássicos (camaiurás, calapalos, auetis, meinácus, uaurás, cuicúrus, iaualapitis, trumais), mas não se estende de igual modo àqueles que chegaram em diferentes datas posteriores (suiás, jurunas, caiabis, txicãos, panarás, e até caiapós). De qualquer modo, eles hoje estão articulados através da extensão daquelas instituições rituais, lúdicas e comerciais que já uniam os primeiros, e sobretudo por reivindicações relativas ao Parque Indígena do Xingu. Outra que também convence é a do alto rio Negro, na divisão de Galvão o núcleo C da área I. Neste caso, as duas mesmas explicações se confrontam: ou levamos em conta a homogeneidade cultural dos índios classificados lingüisticamente como tucanos e aruaques, que vivem junto aos rios maiores, que se estaria estendendo aos falantes de línguas macus, habitantes do interior da floresta; ou consideramos a rede de intercasamentos que liga entre si os índios do rio e as trocas e serviços que os articulam aos macus.

              Para passarmos de um extremo ao outro, vale a pena notar que uma enganosa homogeneidade é conferida a certas áreas pela falta conhecimentos etnográficos a res­peito das sociedades nelas incluídas, como ilustrava de modo notável a área II, Juruá-Purus, no tempo em que Galvão apresentou sua divisão.

              Em suma, uma área se convenciona — e até se consagra com pesquisas de reconhecido valor — mas também se revela à medida em que a trabalhamos através de pesquisa e reflexão. É fruto do arbítrio, mas não totalmente. Afinal de contas, se tomam fatos etnográficos para pô-la em destaque, que, embora nem sempre os mais adequados e com o peso devido, são independentes do pesquisador.


Outras unidades areais

              O estudo de certas áreas pode, em alguns casos, levar o pesquisador a agrupá-las com outras numa unidade mais ampla, que chamaríamos de super-área. Ou, no sentido oposto, será possível também dividir uma área em unidades menores, que podemos convencionar chamar de sub-áreas.

              Limitemo-nos a apenas um exemplo para ilustrar o estamos querendo dizer. As sociedades indígenas que se distribuem ao longo da fronteira Brasil-Güiana e Bra­sil-Venezuela podem constituir uma área etnográfica a que daríamos o nome de Maci­ço Güianense Ocidental. Motiva-nos tomá-la como uma área o fato de estar articulada através de um intenso comércio inter­tribal, que faz circular raladores de mandioca, tubos de zarabatanas, veneno para projéteis, canoas, armas de fogo e outros itens, desde as bordas dos Llanos na grande curva do Orenoco, passando por montanhas cobertas de floresta, até os campos do Roraima. Esse comércio não somente marca a área como a sua importância foi reconhecida pela atenção de mais de um  pesquisador. Por sua vez, essa área, juntamente com as que chamaríamos de Maciço Güianense Oriental e de Litoral Güianense, pode formar uma super-área et­nográfica denominada Güianense, cujas características foram destacadas por Peter Rivière no seu livro Indivi­dual and Society in Guiana (Cambridge: Cambridge University Press, 1984). O que justifica agrupar aquelas áreas nessa super-área não é mais a articulação, mas sim a semelhança entre as socieda­des que a compõem quanto à estrutura social, que marca não somente os índios caribes, aí os mais numerosos, como seus vizinhos. Dir-se-ia que, ao considerar­mos essa unidade mais ampla, escapamos de um mundo conhecido e vivido pelos indígenas para nos atermos exclusivamente aos interesses comparativos dos antropólo­gos. Além disso, ao ampliarmos dessa maneira o âmbito espacial, parece que rompemos também com o critério de Galvão de limitar a divisão em áreas a um período curto e bem definido. A super-área nos remete a tempos mais remotos, no caso àquele da expansão dos caribes. Olhando na direção oposta, podemos delimitar dentro da área do Maciço Güianense Ocidental unidades espaciais menores, marcadas por uma rede de articulação ainda mais fina. Temos, por exemplo, a sub-área das relações hierárquico-simbióticas entre os sanumás (um ramo dos ianomâmis) e os maiongon­gues (iecuanas), analisadas por Alcida Ramos, e também a sub-área Circum-Roraima, ocupada por fazendas de gado, e orientada pela doutrina indígeno-cristã do Aleluia. Vale notar que a consideração de unidades espaciais com três níveis de inclu­sividade parece também sugerir uma correspondente gradação temporal.

              Embora se tenha considerado tanto as semelhanças culturais como a articula­ção social no recorte dessas unidades areais, parece que, de um modo geral, acabamos por acentuar mais as primeiras do que a segunda. Vale notar também que, nas relações intertribais, raramente se pode perceber uma hierarquia entre os nós da rede de articulação. O mesmo não ocorre quando se consideram as relações entre as sociedades indígenas e as sociedades nacionais. Para não deixar passar esse aspecto, resolvemos levar em conta, ainda, um outro tipo de unidade — a que chamaríamos de teia — que se sobre­põe à linha de demarcação entre duas ou mais áreas e que geralmente tem por foco um núcleo urbano ou um aglomerado deles. Assim, por exemplo, a teia polarizada pelas cidades de Amarante e Montes Altos, no Maranhão, permite considerar as relações entre os índios guajajaras, da área etnográfica Amazônia Oriental, com os índios crincatis e pucobiês, da área etnográfica Tocantins-Xingu.


Estado atual do trabalho

              As considerações acima presidiram a elaboração dos presentes capítulos. Nenhum deles pode ser considerado pronto, e vários estão apenas esboçados. As áreas etnográficas neles delineadas estão sujeitas à modificações, sempre que julgarmos que um novo traçado atende melhor os critérios acima apresentados.

Mapa das áreas etnográficas

focalizadas neste trabalho

              Acreditamos que essa nossa maneira de abordar o estudo de áreas tende a convergir para o que Fernando Santos & Frederica Barclay (1994: xix-xxv) propõem como áreas histórico-geográfico-culturais, procedimento que enfeixa povos indígenas que não têm necessariamente de apresentar homogeneidade lingüística ou ecológica, mas que mantenham relações mais ou menos permanentes, amistosas ou hostis, afetadas por processos históricos semelhantes.



BIBLIOGRAFIA


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GALVÃO, Eduardo. 1979. "Áreas Culturais Indígenas do Brasil: 1900-1959". Em Encontro de Sociedades: índios e brancos no Brasil, de Eduardo Galvão. Rio de Janeiro: Paz e Terra. pp. 193-228.

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