Site Línguas Indígenas Brasileiras, de Renato Nicolai [ knewman@altavista.net ]
Capítulo 1
POR QUE ÁREAS ETNOGRÁFICAS?
por Julio Cezar Melatti
Revisto em 6-8-97
| Mapa das áreas culturais |
para traçar áreas |
focalizadas neste trabalho |
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Razões deste curso
Há vinte anos publicamos Índios do Brasil (Brasília: Coordenada/INL, 1970), livro destinado a oferecer informações básicas sobre as sociedades indígenas a pessoas não familiarizadas com a Etnologia. Desde sua primeira edição até hoje as pesquisas se multiplicaram e o conhecimento a respeito dessas sociedades cresceu consideravelmente, de modo que o texto original, apesar de já retocado em mais de um detalhe, pede por uma atualização mais geral. Mas essa tarefa, a que nos sentimos estimulado pela boa acolhida que os leitores deram ao livro, nos levaria a tantas modificações que melhor seria escrever um outro. Eximem-nos, porém, dessa alternativa recentes livros escritos por etnólogos para um público amplo, como Sociedades Indígenas, de Alcida Ramos (São Paulo: Ática, 1986), Os índios e o Brasil, de Mércio Gomes (Petrópolis: Vozes, 1988), Los Indios de Brasil, Roque Laraia (Madrid: Mapfre, 1993), A Temática Indígena na Escola, organizado por Luís Donisete Grupioni e Aracy Lopes da Silva (São Paulo: Mari, Brasília: MEC, UNESCO, 1995), sem contar uma série de outras publicações sobre problemas específicos, organizadas por pessoas ou instituições interessadas em questões relativas aos índios.
Parece-nos, entretanto, que ainda há lugar para um trabalho que, ao invés de tópicos como economia, parentesco, política, religião, artes e outros, tal como se organiza Índios do Brasil, distribua as sociedades indígenas em áreas, como recurso didático que permita relacioná-las com situações específicas e ao mesmo tempo chamar a atenção para sua diversidade cultural. É verdade que existem obras coletivas bastante extensas, que se valem de áreas ou de critérios a elas relacionados. Uma delas é o Handbook of South American Indians, organizado em sete volumes por Julian Steward, sob os auspícios da Smithsonian Institution (Bulletin 143 do Bureau of American Ethnology, Washington, 1946/1952). Apesar de detalhado, com informações etnográficas, históricas e arqueológicas, foi escrito há mais de quarenta anos, numa época em que a América do Sul indígena contava com muito poucas pesquisas. Por isso, embora ainda continue como uma obra de referência importante, acha-se desatualizado tanto teórica como etnograficamente. Além do mais, como nunca foi traduzido, a não ser uns poucos artigos incluídos na Suma Etnológica, dirigida por Darcy Ribeiro, permanece fora do alcance de grande parte dos leitores brasileiros. A outra é a coleção Povos Indígenas no Brasil, dirigida por Carlos Alberto Ricardo, sob o patrocínio do Centro Ecumênico de Documentação e Informação. Obra programada para dezoito volumes, mas com apenas alguns publicados, tem seu conteúdo voltado para os interesses de um público muito particular: indígenas e indigenistas. Mas o trabalho a que nos propomos, ao contrário, seria bem mais curto e acentuaria sobretudo questões etnológicas suscitadas por cada área ou para cuja discussão elas contribuem. Como várias das sociedades indígenas a serem abordadas vivem de um e de outro lado da fronteira brasileira, ou têm freqüentes contatos com outras além dos limites do Brasil, ou ainda partilham com elas semelhanças culturais ou outros problemas, deveremos ampliar nosso âmbito de interesse pelo menos para a América do Sul.
Os estudos de áreas indígenas
Tratando-se, pois, de índios atuais, seria o caso de se pensar nas áreas culturais sugeridas por Eduardo Galvão, há mais de trinta anos, na IV Reunião Brasileira de Antropologia, realizada em Curitiba, em 1959. A noção de área cultural nasceu no seio da antropologia norte-americana e não escapa a uma orientação voltada para a reconstituição do percurso dos traços culturais entre diferentes sociedades, não em escala mundial, como queriam os difusionistas centro-europeus do começo deste século, mas somente em âmbito regional, quando muito continental. Wissler, em 1922, foi o primeiro a propor uma divisão em áreas culturais para as Américas. E, desde então, outros pesquisadores fizeram novas proposições. De um modo geral uma área cultural reúne todas as culturas de uma mesma região que partilham um certo número de elementos em comum. Seguramente nem todas as culturas da área conterão todos esses elementos, de modo que comumente há certa dificuldade em traçar os limites da área e decidir se certas culturas devem nela ser incluídas ou não. Essa decisão é tomada pela comparação das culturas com um centro primário de inventividade ou com um clímax cultural, o que implica em tomar como critério a difusão a partir desses pontos, conforme comentário de Julian Steward num artigo em que retrabalha sua noção de tipo cultural.
Essa última noção, a de tipo, não se confunde com a de área cultural, e nasceu com a elaboração do já referido Handbook of South American Indians. Seu organizador, Julian Steward, discute os critérios que lhe serviram de orientação para a distribuição das informações no corpo da obra em artigo que faz parte de seu quinto volume. Se bem entendemos esse sumário interpretativo, a divisão inicialmente impressionista e baseada principalmente no conteúdo cultural que orienta a distribuição das sociedades indígenas pelos quatro volumes iniciais é agora reinterpretada em termos de padrões sócio-políticos e religiosos. Assim, os povos marginais, inicialmente tomados como aqueles que não dispõem de agricultura e que são portadores de culturas simples, passam a serem caracterizados pela presença de unidades sócio-políticas constituídas de um único grupo de parentesco ou vários deles frouxamente organizados. Os povos de floresta tropical, identificados por sua agricultura e vários itens materiais adaptados a seu meio, passam a ser considerados através de suas unidades sócio-políticas formadas por grupos de parentesco e estruturadas segundo idade, sexo e associações, unidades essas maiores e mais estáveis, porque amparadas por uma tecnologia mais desenvolvida; o tipo assim reinterpretado passa a englobar também os povos dos Andes meridionais. Os povos circuncaribeanos e dos Andes setentrionais, inicialmente tomados por seu sistema de classes e culto em templos, passam a ser considerados por suas aldeias compostas de muitos grupos não alicerçados no parentesco, aldeias essas maiores e mais permanentes, integrantes de uma população mais densa, por causa de um complexo de subsistência mais efetivo, ainda que assentado em tecnologia similar ao do tipo anterior. Os povos andinos, inicialmente destacados por sua tecnologia, cultura material e complexo ritual característicos, passam a ser considerados por suas instituições que se sobrepõem a padrões de comportamento concernentes ao grupo de parentesco e à comunidade, e em grande parte substituindo-os, com a constituição de verdadeiros centros urbanos e a extensão de inter‑relações sociais e controle político sobre grandes áreas, com base numa agricultura altamente desenvolvida, metalurgia e artes de construção. Nota-se, pois, ao se passar das áreas para os tipos, um deslocamento de interesse dos traços culturais para as relações sociais e do difusionismo para o evolucionismo. Como porém sociedades de um mesmo tipo em muitos casos se apresentam justapostas espacialmente, podem assim constituir áreas. De qualquer modo, um mesmo tipo se apresentará de maneira descontínua, em várias áreas.
As áreas culturais de Eduardo Galvão têm certas peculiaridades que decorrem da própria crítica que ele faz a esses tipos e também às áreas de autores que o precederam. Para começar, Galvão dá a sua divisão em áreas um limite temporal de validade, ou seja 60 anos, de 1900 até 1959, data em que apresenta pela primeira vez o trabalho. Evita assim considerar num mesmo mapa sociedades indígenas atuais com outras que desapareceram durante o período colonial ou imperial, ou a mesma sociedade em dois pontos diferentes do mapa, devido a deslocamentos sofridos durante o período de mais de quatro séculos de presença dos brancos, inconveniente em que incorrem outros autores que desenham o mapa como se fosse no momento inicial da conquista — como acontece com a divisão de Murdock — esquecendo-se que esta não ocorreu simultaneamente em todos os pontos do continente, mas constitui-se num processo gradativo. Em outras palavras, quem sabe onde estavam as sociedades indígenas do alto Xingu quando os Tupinambás ocupavam partes do litoral no século XVI? Essa escolha de Galvão explica porque partes consideráveis do território brasileiro não mais ocupados por índios no século XX estão em branco no seu mapa.
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Mapa das áreas culturais de |
Em segundo lugar, Galvão resolveu levar em consideração o contato intertribal, isto é, de diferentes sociedades indígenas entre si, e também o contato delas com a sociedade nacional. Reconhece Galvão que seu trabalho é uma adaptação das divisões elaboradas por Steward e Murdock e que, como critério determinante, elegeu a distribuição espacial contígua de elementos culturais, tanto de caráter ergológico quanto sócio-cultural sem deixar de levar em conta o ambiente geográfico. Por outro lado, ainda que não o explicite, parece-nos que Galvão deixou de lado a identificação de um centro de difusão para cada uma de suas áreas.
Os critérios inovadores postos em prática por Galvão — limite temporal de validade, contato intertribal e contato com a sociedade nacional — nos fazem inclinar fortemente pela adoção de sua divisão num exame das principais questões etnológicas da América Meridional. Entretanto, existem alguns problemas em suas áreas que pedem por um remanejamento. O primeiro deles é que Galvão tomou como âmbito de seu trabalho apenas o território brasileiro, enquanto nossa apreciação se volta para todo o continente. Mas este é um problema de fácil solução, pois bastaria estender as áreas traçadas nas bordas do território brasileiro para fora do mesmo e delimitar outras totalmente no exterior, usando os mesmos critérios de Galvão. Outro problema de fácil solução seria alterar a divisão traçada para os primeiros sessenta anos deste século de modo a adaptá-la à época atual.
Há, porém, dois problemas mais sérios. Um deles se evidencia na leitura da apresentação esquemática das características de cada área. As culturas incluídas em cada uma delas são como que subdivididas em seus componentes de modo a serem utilizados na caracterização da área. Esta, porém, toma o aspecto de uma mera lista de traços culturais, sem que se logre relacioná-los de modo a obter uma totalidade mais ampla, que seria a área. A mesma leitura nos põe simultaneamente diante do outro problema, que é a interpretação que Galvão faz dos exemplos de contato intertribal, tomados sempre como processos de homogeneização cultural, isto é, sempre considera o contato entre duas ou mais sociedades indígenas sob o ponto de vista da aceitação, por umas, das culturas das outras, ainda que a longo prazo, nunca supondo a possibilidade de se manterem diferentes, numa associação simbiótica.
Pólos de articulação
Em trabalho que há mais de dez anos publicamos num periódico que já não mais circula, a Revista de Atualidade Indígena, julgamos poder superar essas duas dificuldades abandonando a divisão em áreas culturais e substituindo-a pela identificação de pólos de articulação indígena, inspirado em estudos sobre hierarquia de cidades, como os reunidos no volume Urbanização e regionalização, organizado pelo geógrafo Speridião Faissol. A proposta consistia em cartografar as sociedades indígenas e as cidades que lhes estão próximas como se fossem pontos, e unir esses pontos por linhas de espessuras diversas conforme o número de relações que os ligassem: intercasamentos, trocas comerciais, convites para ritos, procura dos serviços de médicos-feiticeiros, procura de hospitais, participação em eleições, procura de escolas etc. Preterindo assim a uniformidade e a homogeneização cultural em favor de uma maior atenção nas relações sociais, poderíamos apontar os laços das sociedades indígenas entre si e com as sociedades nacionais, mantendo cada qual como uma totalidade sócio-cultural. Em outras palavras, cada sociedade indígena não seria agrupada com outras que se parecem com ela, mas sim com aquelas com que partilha sua vida social.
Uma solução de compromisso
Depois de todas essas considerações, pode parecer ao leitor que optamos pelos pólos de articulação. Mas a escolha não é tão simples. Nosso objetivo, como já dissemos, é apresentar algumas informações básicas sobre os índios atuais da América do Sul e as principais questões etnológicas que têm suscitado. Se optarmos simplesmente pelos pólos de articulação, estaremos privilegiando o contato interétnico em detrimento de outros problemas. Além disso, trabalhar com tais pólos, tal como os imaginamos inicialmente, exigiria uma detalhadíssima informação a respeito do intercâmbio entre as sociedades indígenas vizinhas entre si e com os núcleos urbanos das imediações, o que não seria viável obter em todos os casos a estudar. Semelhanças e diferenças culturais levantam questões importantes, de que os pólos geralmente não dão conta. Temos, pois, de escolher uma divisão que leve em consideração uma ampla gama de aspectos, o que nos conduz a uma solução de compromisso entre as áreas culturais de Eduardo Galvão e os pólos de articulação.
Das áreas de Galvão evitaríamos a mera enumeração dos traços culturais que as caracterizem, bem como o conseqüente arrolamento das exceções, isto é, das culturas não portadoras de certos traços próprios das áreas em que estejam inclusas. Isso seria uma conseqüência do abandono da preocupação com a uniformidade cultural e da negativa em tomar a homogeneização como o único resultado possível do contato entre culturas. Ficaríamos, por outro lado, com o critério de um limite temporal de validade da divisão, que poderia ser o último quartel do século XX. Continuaríamos, também, atento à classificação lingüística, porque desejamos levar em conta origens comuns e conexões no passado. E ainda manteríamos a consideração do meio ambiente. Levaríamos em conta, também, o contato das sociedades indígenas entre si e com as sociedades nacionais, porém, aí, com um tratamento diverso do de Galvão, inspirando-nos, sem levá-la às últimas conseqüências, em nossa proposta dos pólos de articulação.
Mesmo o critério de um período temporal bem definido, sustentado por Galvão, merece, para nossos objetivos, ser matizado. É curioso observar que, apesar de muito citadas, suas áreas culturais raramente são utilizadas como ponto de partida de pesquisas etnológicas. O contrário acontece com a classificação lingüística. Qualquer antropólogo que manifeste seu interesse em iniciar uma pesquisa sobre uma determinada sociedade indígena pouco conhecida é logo indagado pelos colegas sobre a família ou tronco do idioma por ela falado: é jê? tupi? caribe? pano? Conforme a resposta, se fazem suposições sobre as questões etnológicas que poderão surgir. Isso porque há um fundo cultural comum às sociedades que falam línguas relacionadas, dado serem possivelmente oriundas de uma única sociedade anterior mais ou menos remota, ou de sociedades mais antigas que mantiveram íntimo contato (a ponto de uma adotar a língua da outra). Tal fato permite aos etnólogos o exercício da comparação dentro de gradativos limites de similaridade. Essa comparação se faz tanto entre sociedades atuais como entre sociedades de hoje e outras mais antigas. Desse último caso é exemplo notório o diálogo que há muito se mantém entre as pesquisas referentes a sociedades tupis do presente com os estudos referentes aos tupinambás dos séculos XVI e XVII. Em outras palavras, apesar de nosso trabalho ter como foco as sociedades indígenas atuais, não seria possível deixar de lado aquelas semelhanças entre elas que remetem a um passado.
Critérios de delimitação
Resta, porém, um problema: como delimitar essas áreas? Uma possível resposta seria a atribuição de pesos aos critérios levados em conta para distingui-las. Podemos explicar nossa solução com ajuda da figura anexa. Se tomássemos cada sociedade indígena em sua unicidade cultural e situacional, negando-nos a compará-la com outras sob qualquer critério, seria impossível incluí-la numa unidade maior, de modo que cada uma delas constituiria uma área por si mesma, ou melhor, um ponto. Isso é o que queremos dizer com o ponto U (de "único", "unicidade") no centro da figura. Se, porém, escolhermos agrupá-la numa área, com outras sociedades, podemos tomar como um dos critérios a classificação lingüística, o que equivale a levar em consideração a possibilidade de origem comum partilhada com elas ou alguma outra forma de conexão no passado, conforme uma gradação passível de ser indicada no segmento de reta UO (O, de "origem"), do centro para a margem: sociedades falantes do mesmo dialeto, da mesma língua, de línguas da mesma família, de línguas do mesmo tronco, de diferentes troncos, e assim por diante. Simultaneamente podemos considerar a sua inserção junto com outras num mesmo ambiente, segundo uma gradação que pode ser marcada no segmento UA (A, de "ambiente"): sociedades ocupantes do mesmo nicho, de nichos diferentes do mesmo ambiente, de diferentes ambientes etc. Levaríamos em conta, ainda, seu contato com outras sociedades indígenas conforme uma possível gradação do segmento UT (T, de "tribal", em "intertribal") de um máximo de relações envolvidas no intercâmbio para um mínimo. E também com a sociedade ou sociedades nacionais conforme uma gradação do segmento UC (C, de "civilizados", "cidade"), de um máximo para um mínimo de relações. Os quatro segmentos, que representam graficamente quatro critérios, compõem dois eixos que se cruzam no ponto U.
Porém, há algo mais a considerar. Esses critérios são interdependentes. O eixo CUT não se compõe de dois segmentos completamente autônomos, uma vez que as relações entre índios e civilizados podem servir de veículo para relações intertribais e vice-versa. Por exemplo, índios transferidos para uma reserva onde vêm a conhecer uma outra etnia da qual não tinham notícia quando habitavam seu território original; grupos inimigos nas suas terras de origem, mas que são forçados a se tolerarem quando se encontram no centro urbano regional; índios que aprendem uma língua indígena que não é a sua nas escolas da missão religiosa; e assim por diante. Por sua vez, o eixo OUA também não se compõe de segmentos completamente independentes, pois, como mostrou Roque Laraia, as sociedades que falam línguas do tronco tupi tendem a ocupar áreas cobertas por floresta.
Finalmente, cabe uma explicação para a linha curva E (E, de "etnólogo", "etnógrafo"), que nos chama a atenção para o fato de que, no fim das contas, quem escolhe o limite de cada área é o pesquisador, a quem resta uma larga margem de arbitrariedade. Em nossa figura, a linha E corta o segmento UC num ponto muito mais próximo de U que os pontos de intersecção com os outros segmentos, pois nossa intenção é, ao invés de excluir de uma mesma área sociedades indígenas, ou até segmentos de uma mesma sociedade, ainda quando situadas em países sul-americanos distintos, apenas porque "puxadas" por centros urbanos localizados em direções opostas, dar mais peso às relações intertribais.
Em vista do alto grau de arbitrariedade do qual não se pode escapar, a melhor solução será assumi-la. Ao invés de falarmos em "áreas culturais", melhor será dizermos "áreas etnográficas", de modo acentuar que elas não existem inteiramente por si mesmas, mas que o pesquisador é quem, em última análise, as delineia.
As áreas resultantes não são todas igualmente convincentes. Algumas como que se impõem imediatamente. É o caso do alto Xingu, a área V de Galvão. Acompanhando o seu modo de pensar, poderíamos argumentar que tal se dá por causa do alto grau de homogeneidade cultural que caracteriza as sociedades indígenas dos formadores do Xingu. Na verdade, essa uniformidade somente existe com respeito a algumas delas, talvez as mais antigas na área, os xinguanos clássicos (camaiurás, calapalos, auetis, meinácus, uaurás, cuicúrus, iaualapitis, trumais), mas não se estende de igual modo àqueles que chegaram em diferentes datas posteriores (suiás, jurunas, caiabis, txicãos, panarás, e até caiapós). De qualquer modo, eles hoje estão articulados através da extensão daquelas instituições rituais, lúdicas e comerciais que já uniam os primeiros, e sobretudo por reivindicações relativas ao Parque Indígena do Xingu. Outra que também convence é a do alto rio Negro, na divisão de Galvão o núcleo C da área I. Neste caso, as duas mesmas explicações se confrontam: ou levamos em conta a homogeneidade cultural dos índios classificados lingüisticamente como tucanos e aruaques, que vivem junto aos rios maiores, que se estaria estendendo aos falantes de línguas macus, habitantes do interior da floresta; ou consideramos a rede de intercasamentos que liga entre si os índios do rio e as trocas e serviços que os articulam aos macus.
Para passarmos de um extremo ao outro, vale a pena notar que uma enganosa homogeneidade é conferida a certas áreas pela falta conhecimentos etnográficos a respeito das sociedades nelas incluídas, como ilustrava de modo notável a área II, Juruá-Purus, no tempo em que Galvão apresentou sua divisão.
Em suma, uma área se convenciona — e até se consagra com pesquisas de reconhecido valor — mas também se revela à medida em que a trabalhamos através de pesquisa e reflexão. É fruto do arbítrio, mas não totalmente. Afinal de contas, se tomam fatos etnográficos para pô-la em destaque, que, embora nem sempre os mais adequados e com o peso devido, são independentes do pesquisador.
Outras unidades areais
O estudo de certas áreas pode, em alguns casos, levar o pesquisador a agrupá-las com outras numa unidade mais ampla, que chamaríamos de super-área. Ou, no sentido oposto, será possível também dividir uma área em unidades menores, que podemos convencionar chamar de sub-áreas.
Limitemo-nos a apenas um exemplo para ilustrar o estamos querendo dizer. As sociedades indígenas que se distribuem ao longo da fronteira Brasil-Güiana e Brasil-Venezuela podem constituir uma área etnográfica a que daríamos o nome de Maciço Güianense Ocidental. Motiva-nos tomá-la como uma área o fato de estar articulada através de um intenso comércio intertribal, que faz circular raladores de mandioca, tubos de zarabatanas, veneno para projéteis, canoas, armas de fogo e outros itens, desde as bordas dos Llanos na grande curva do Orenoco, passando por montanhas cobertas de floresta, até os campos do Roraima. Esse comércio não somente marca a área como a sua importância foi reconhecida pela atenção de mais de um pesquisador. Por sua vez, essa área, juntamente com as que chamaríamos de Maciço Güianense Oriental e de Litoral Güianense, pode formar uma super-área etnográfica denominada Güianense, cujas características foram destacadas por Peter Rivière no seu livro Individual and Society in Guiana (Cambridge: Cambridge University Press, 1984). O que justifica agrupar aquelas áreas nessa super-área não é mais a articulação, mas sim a semelhança entre as sociedades que a compõem quanto à estrutura social, que marca não somente os índios caribes, aí os mais numerosos, como seus vizinhos. Dir-se-ia que, ao considerarmos essa unidade mais ampla, escapamos de um mundo conhecido e vivido pelos indígenas para nos atermos exclusivamente aos interesses comparativos dos antropólogos. Além disso, ao ampliarmos dessa maneira o âmbito espacial, parece que rompemos também com o critério de Galvão de limitar a divisão em áreas a um período curto e bem definido. A super-área nos remete a tempos mais remotos, no caso àquele da expansão dos caribes. Olhando na direção oposta, podemos delimitar dentro da área do Maciço Güianense Ocidental unidades espaciais menores, marcadas por uma rede de articulação ainda mais fina. Temos, por exemplo, a sub-área das relações hierárquico-simbióticas entre os sanumás (um ramo dos ianomâmis) e os maiongongues (iecuanas), analisadas por Alcida Ramos, e também a sub-área Circum-Roraima, ocupada por fazendas de gado, e orientada pela doutrina indígeno-cristã do Aleluia. Vale notar que a consideração de unidades espaciais com três níveis de inclusividade parece também sugerir uma correspondente gradação temporal.
Embora se tenha considerado tanto as semelhanças culturais como a articulação social no recorte dessas unidades areais, parece que, de um modo geral, acabamos por acentuar mais as primeiras do que a segunda. Vale notar também que, nas relações intertribais, raramente se pode perceber uma hierarquia entre os nós da rede de articulação. O mesmo não ocorre quando se consideram as relações entre as sociedades indígenas e as sociedades nacionais. Para não deixar passar esse aspecto, resolvemos levar em conta, ainda, um outro tipo de unidade — a que chamaríamos de teia — que se sobrepõe à linha de demarcação entre duas ou mais áreas e que geralmente tem por foco um núcleo urbano ou um aglomerado deles. Assim, por exemplo, a teia polarizada pelas cidades de Amarante e Montes Altos, no Maranhão, permite considerar as relações entre os índios guajajaras, da área etnográfica Amazônia Oriental, com os índios crincatis e pucobiês, da área etnográfica Tocantins-Xingu.
Estado atual do trabalho
As considerações acima presidiram a elaboração dos presentes capítulos. Nenhum deles pode ser considerado pronto, e vários estão apenas esboçados. As áreas etnográficas neles delineadas estão sujeitas à modificações, sempre que julgarmos que um novo traçado atende melhor os critérios acima apresentados.
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focalizadas neste trabalho |
Acreditamos que essa nossa maneira de abordar o estudo de áreas tende a convergir para o que Fernando Santos & Frederica Barclay (1994: xix-xxv) propõem como áreas histórico-geográfico-culturais, procedimento que enfeixa povos indígenas que não têm necessariamente de apresentar homogeneidade lingüística ou ecológica, mas que mantenham relações mais ou menos permanentes, amistosas ou hostis, afetadas por processos históricos semelhantes.
BIBLIOGRAFIA
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