No que diz respeito ao primeiro ponto, se tem assinalado com freqüência a preeminência do contexto religioso do mito. Entre as preocupações comuns à mitologia e à religião se encontram não só a origem dos deuses (teogonias), do mundo (cosmogonias) e do homem, como também a sobrevivência após a morte, a justificação dos preceitos morais e os ritos. A esse respeito, as religiões monoteístas, mais abstratas, consideram as politeístas, baseadas em mitologias, como produto de mentalidades pagãs, pois desvirtuam a natureza do Deus único para divinizar qualquer aspecto da realidade -- o que não impede que as próprias doutrinas monoteístas tenham empregado, em seu propósito de tornar mais compreensíveis as questões que ultrapassam o entendimento, simbologias referentes à criação do homem, à origem do pecado e ao fim do mundo. Na realidade, mito e religião constituem duas abordagens paralelas do transcendente. O mito inclui atitudes -- religiosas, históricas, folclóricas e sociais -- com as quais pretende explicar, de forma espontânea e imediata, aspectos da realidade inapreensíveis para a razão. Já a religião apresenta uma mensagem mais concreta, nascida geralmente da revelação divina e pelo menos teoricamente acessível à razão. Nesse sentido, as mitologias politeístas representam uma transição do pensamento mítico primitivo para a abstração monoteísta, processo que se percebe, por exemplo, na evolução teológica do hinduísmo e na gênese do pensamento ocidental, com a criação das filosofias espiritualistas e teleológicas como as de Platão e Aristóteles. A observação precedente permite também uma primeira representação das divergências entre mito e filosofia, que se apóiam fundamentalmente no caráter racional e crítico da segunda. Assim, alguns antigos relatos cosmogônicos gregos remetiam a origem do mundo ao oceano, talvez com base na observação cotidiana e intuitiva de que a água era imprescindível para a vida. Mas quando Tales de Mileto, filósofo pré-socrático do século IV a.C., afirmou que a água constituía o arké, origem de todo o existente, deu um passo decisivo na direção do pensamento: despersonalizou a origem da matéria, que não mais era atribuída a um deus e sim a um elemento natural, e, ao mesmo tempo, expressou um raciocínio dedutivo, segundo o qual todos os elementos da realidade podiam formar-se a partir de uma única fonte. Passava-se, portanto, de uma explicação "ingênua" ou, se for melhor, baseada em processos intelectuais implícitos e acríticos, a outra, fundada em critérios racionais explícitos e passíveis de discussão. Isso não significa, em qualquer caso, que a filosofia deva ser entendida como uma "superação do mito", mas sim como uma visão de mundo diferente. Por isso muitas filosofias irracionalistas viram no vigor poético e simbólico das concepções míticas uma forma de conhecimento capaz de apreender unitariamente aspectos da realidade que parecem desagregar-se com o exercício da faculdade racional. Os mitos não são apenas tentativas de penetrar nos mistérios da natureza física ou da ordem sobrenatural, mas também produtos de determinadas circunstâncias históricas e sociais. A corroborar essa afirmação estariam as incontáveis lendas sobre heróis epônimos ou civilizadores, bem como, quase sempre, a própria composição específica dos panteões divinos: a descrição e atribuições conferidas aos deuses respondem geralmente ao modelo social -- caçadores, nômades e agricultores -- das culturas que os criaram. Por exemplo, a tendência dos povos de origem indo-européia a estabelecer uma tríade suprema de deuses encarna a divisão tradicional entre as classes religiosa, guerreira e camponesa. Se suas relações com a religião, a filosofia ou a organização social permitem uma melhor compreensão da natureza e do significado dos mitos, isso não responde às perguntas sobre sua origem, ou seja, por que existe a propensão humana a criar mitos. Entre as muitas explicações oferecidas por antropólogos, psicólogos e outros estudiosos, alcançaram singular notoriedade -- e geraram polêmicas acirradas -- as proporcionadas pela psicanálise e, em particular, pelo alemão Carl Gustav Jung. Segundo ele, os mitos seriam a manifestação dos arquétipos ou modelos que brotam do inconsciente coletivo e constituem a base do psiquismo. De uma ou outra forma, a maior parte dos estudiosos considera o pensamento mítico uma atividade vivencial, intuitiva e simbólica, relacionada a temas que transcendem a experiência ou a razão. Motivo de controvérsia seria, no entanto, sua interpretação como produto de uma mentalidade pré-crítica ou, ao contrário, uma constante antropológica complementar da faculdade racional. Os defensores da primeira postura sustentariam que, superada uma certa etapa, o mito se dissolve na arte ou na literatura e perde seu caráter de crença, enquanto os partidários da segunda tendem a opinar que o pensamento mítico não pode reduzir-se a suas manifestações arcaicas e que a humanidade se encontra perpetuamente inclinada a criar novos mitos que, por seu próprio caráter mítico, não são reconhecidos como tais. |