Islamismo
a
Alcorão
          Segundo a tradição muçulmana, ao longo de vinte anos Deus (Alá) revelou a Maomé, por intermédio do arcanjo Gabriel, o conteúdo de uma tábua conservada no céu -- "a mãe do livro" -- que se tornou o texto sagrado do Islã: o Alcorão ou Corão (do árabe "al-Quram", "o recitativo" ou "o discurso").

    Composição e estrutura. Enquanto recebia a revelação, Maomé a recitava aos discípulos, que a decoravam ou registravam em fragmentos. A compilação do livro em seu estado atual se deve ao terceiro califa (sucessor do profeta), Utman, que, temendo a perda do texto devido à morte, em campanhas militares, de muitos recitadores do Alcorão, mandou recolher as diversas cópias e estabelecer a definitiva. Para evitar novas confusões, ordenou a destruição de todas as demais versões, embora uma ou outra se tenha salvo. As dificuldades para estabelecer o texto foram agravadas pelo desenvolvimento ainda incipiente da escrita árabe e pelas diferentes interpretações que os diversos recitadores davam ao texto.
          Os compiladores não seguiram uma ordem cronológica -- difícil de determinar --, nem uma sistematização temática, mas ordenaram os capítulos conforme instruções específicas do profeta. De modo geral, situaram os de maior extensão antes dos menores. No total, o livro se compõe de 114 capítulos ou suratas, divididos em versículos (aiat), que começam com uma invocação a Alá. Sua extensão, de aproximadamente oitenta mil palavras, é semelhante à do Novo Testamento cristão.

    Conteúdo. Pela data provável em que Maomé recitou originalmente os capítulos e, sobretudo, em virtude dos temas tratados e do estilo, podem-se atribuir diversos períodos ao conteúdo do Alcorão, embora essa periodização não se reflita no texto. Um mesmo capítulo pode tratar de temas heterogêneos; outros incluem alguma revelação posterior sobre seu tema.

    Período de Meca. O primeiro período da pregação de Maomé, iniciado por volta do ano de 612 da era cristã, caracterizou-se por um enfático apelo à conversão e à obediência religiosa e moral, ante o iminente julgamento, que traria consigo o castigo dos pecadores -- especialmente dos ricos e poderosos -- e o prêmio aos justos, sob o poder absoluto e transcendente de Deus. Em geral, os textos estão escritos numa peculiar combinação de poesia e prosa, a chamada "prosa rimada", que durante vários séculos caiu em desuso por ser considerada herética a intenção de imitar o livro sagrado.

    Período de Medina. Depois de fugir de Meca em 622, a pregação de Maomé se fez ora contra aquela cidade, ora com o propósito de consolidar a organização dos crentes. As invectivas contra Meca reproduzem os temas da "pregação no deserto": o povo ofuscado pela riqueza recusa o Deus único, mata os profetas e, em seu endurecimento, é castigado por Deus. Quanto à organização dos crentes, num primeiro momento Maomé preparou a luta contra Meca. Posteriormente, subjugada a cidade (630), sua preocupação voltou-se para as prescrições jurídicas -- ritos, preces, casamentos, alimentação -- que haveriam de reger a vida religiosa, política, social e familiar da sociedade islâmica. Escritas em tom mais prosaico que as iniciais, as suratas desse período constituem o fundamento de todo o direito islâmico.

    Fontes. Os muçulmanos não questionam as fontes do Alcorão e o consideram uma obra literalmente revelada. Outros estudos críticos apontam três fontes principais: tradições árabes, crenças judaicas e relatos cristãos, estes últimos transmitidos pelo contato pessoal com mercadores de passagem ou radicados entre os árabes, e não por textos bíblicos ou pela doutrina oficial. Moisés e Jesus Cristo, para Maomé, revelaram a mensagem de Deus, mas seus povos a desvirtuaram. Deus se teria revelado a Maomé para confirmar, emendar ou substituir as revelações anteriores.

    Comentários e traduções. O texto do Alcorão tem caráter sagrado, até mesmo na grafia, de modo que deve ser recitado em árabe, mesmo quando o crente não entenda essa língua. Os muçulmanos se opuseram sempre a traduções, sobretudo para as línguas ocidentais. Até hoje exigem que, se realizadas, sejam acompanhadas do texto em árabe. Foi esse o caso, por exemplo, da edição trilíngüe, em castelhano, latim e árabe, hoje perdida, feita pelo espanhol Juan de Segovia na primeira metade do século XV. Os fiéis  usam os textos, artisticamente copiados, como relíquias ou amuletos.
         Por outro lado, nem todas as interpretações atuais são seguras. Algumas prescrições se mostram contraditórias, e não é fácil afirmar qual seja seu sentido preciso. O fato de que, com freqüência, as suratas se limitem a mencionar os princípios islâmicos, sem articulá-los num conjunto doutrinal, também suscita divergências em torno de questões de lei e de dogma.
          A veneração pelo texto, a par de sua dificuldade, deu origem a inumeráveis estudos filosóficos, gramaticais e enciclopédicos, tanto sobre o próprio Alcorão como sobre os textos da cultura árabe que pudessem esclarecê-lo. A crítica científica do século XIX contribuiu também com seus métodos e estudou as relações internas, a semântica e a cosmovisão subjacente ao livro. Posteriormente se chegou a uma classificação cronológica dos textos (Nöldeke-Schwally-Blachère) de notável precisão. Os muçulmanos consideram o Alcorão a obra mais perfeita da literatura árabe, tão perfeita que seria impossível ter sido composta por homens.

    Ensinamentos do Alcorão. A pregação de Maomé se baseia num monoteísmo absoluto. Existe um só Deus, criador, onipotente e misericordioso; um juízo final premiará os bons e castigará os pecadores, na vida extraterrena. A criação reflete o poder, a sabedoria e a autoridade de Deus, mas Deus é totalmente distinto da criação, embora nela esteja intimamente presente: "Mais próximo do homem que sua própria veia jugular."
          O homem é como que o representante de Deus na criação, mas, apesar disso, ignorante e louco. É livre -- à diferença do resto da criação -- para seguir ou não a revelação e os mandamentos divinos; no entanto, também se salienta que Deus tem absoluto controle dos homens, o que se pode quase interpretar como predestinação.
          O Alcorão não pretendeu ser um tratado teológico, mas ofereceu o fundamento sobre o qual filósofos e teólogos construíram sistemas coerentes, ainda que com as variedades correspondentes às interpretações de cada seita. A partir dessa base teológica, o Alcorão foi e continua a ser um código moral, social e político.

          Segundo a tradição muçulmana, o texto do Alcorão contém revelações feitas por Deus a Maomé.
 
 
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