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Na infância,
época em que floresceu a minha paixão pela artes mágicas, de
vez em quando ouvia minha mãe falar sobre um extraordinário
mágico chamado Fu-Manchú. Ela assistiu o show do mágico no Rio
de Janeiro, Brasil, e ficou muito impressionada. Falou tantas
vezes sobre o ilusionista que seu nome ficou gravado em minha
memória. Infelizmente, não tive a felicidade de vê-lo atuar
mas, tudo o que foi registrado a seu respeito me leva a crer
que foi um dos maiores ilusionistas de todos os tempos.
Fu-Manchú
era David Tobias Bamberg. Nascido em Derby, na Inglaterra em
19 de fevereiro 1904, aprendeu os primeiros números mágicos
ainda criança, mantendo-se atento aos exercícios e performances
do pai, o grande ilusionista Okito (Theodore Bamberg). Em 9
de outubro de 1909, David fez sua primeira apresentação numa
reunião da Society of American Magicians (SAM), em Nova Iorque,
EUA, tendo contado com a assistência do Presidente da entidade,
o consagrado Harry Houdini.
Na juventude
adotou o nome artístico Syko. Aprendeu com maestria as sombras
chinesas e conseguia projetar sombras dos mais variados animais
e objetos com as mãos. Percorreu muitos países levando o nome
de sua famosa família de mágicos, iniciada com o holandês Elias
Bamberg (1760-1833).
Com apenas
13 anos de idade, David trabalhou com o grande mentalista dinamarquês
Julius Zancig. Nos anos 20, viajou com as companhias de P.T.Selbit
(Percy Thomas Tibbles) e do Grande Raymond (Maurice François
Saunders). Ao transferir residência para Buenos Aires, Argentina,
resolveu transformar-se no "chinês" Fu-Manchú, estreando no
Teatro San Martin em 1º de março de 1929. O artista contou com
a ajuda financeira de Walter Gaulke, um executivo da indústria
cinematográfica, que acreditou em seu talento. Fu-Manchú teve
grande êxito na Argentina. Na Europa e na África conquistou
ótimas críticas. Sua estada no México foi ainda mais brilhante,
onde tornou-se uma personalidade nacional. Nos EUA, o artista
teve que se apresentar como Fu-Chan, pois o nome Fu-Manchú era
registrado pelo escritor Sax Rohmer.
Os espetáculos
de Fu-Manchú eram maravilhosos. As ilusões eram primorosas e
os luxuosos cenários tinham fino acabamento. Os shows tinham
títulos atraentes como Os Feitiços de Fu-Manchú. O saudoso mestre
Dai Vernon dizia que o show de Fu-Manchú foi o mais bonito que
havia visto.
Um de seus
números mais conhecidos era chamado Bazar de Magia, uma paródia
sobre El Bazar Yankee, uma antiga loja de artigos mágicos em
Buenos Aires. Durante o ato, Fu-Manchú demonstrava rapidamente
vários efeitos para um cliente, mas este nunca podia comprá-los.
Muitos colegas de outros países, em passagem por Buenos Aires,
participaram do número como artistas convidados.
Comentam
que era muito interessante um número sob luz negra, em que os
ossos de esqueletos luminoso se separavam flutuando pelo ar,
para depois tornarem e se juntar. A ilusão da Mulher Atômica
também era muito impressionante. Uma assistenta desaparecia
do interior de uma enorme lanterna chinesa, suspensa sobre a
platéia e, após o disparo de uma pistola, reaparecia em outra
lanterna suspensa no palco.
Na década
de 40, Fu-Manchú roteirizou e atuou em seis filmes mexicanos.
Em alguns aparece fazendo mágicas. Em fevereiro de 1947, já
aclamado como um extraordinário ilusionista, Fu-Manchú estreou
o espetáculo Crazimagicana, que o tornou ainda mais célebre.
Crazimagicana teve quase 3000 apresentações em Buenos Aires.
O mágico
era seu próprio agente e manteve uma grande equipe de artistas.
Até mesmo as músicas eram criadas especialmente para os seus
shows.
O magistral
ilusionista se aposentou em 19 de março de 1966, data em que
fez seu último espetáculo em Buenos Aires. Abriu uma loja especializada
em artes mágicas e criou a Sociedade Argentina de Mágicos, que
contava com um completo teatro, construído no porão da loja.
Pela sociedade passaram famosos artistas e através dela Fu-Manchú
orientou numerosos iniciantes. Mesmo aposentado, o mágico continuava
a chamar a atenção do povo e da mídia. Foi tema de três especiais
para televisão. Sua exitosa carreira mágica o tornou lendário.
Fu-Manchú
nos deixou em 19 de agosto de 1974, aos 70 anos de idade, encerrando
com brilhantismo a encantadora tradição mágica da família holandesa
Bamberg, que durou por seis gerações.
Referências:
oo The Illustrated History of Magic - Milbourne e Maurine Christopher
- Heinemann, 1996;
oo Fu Manchú - David Goodsell - M-U-M (Volume 90 - n. 1 - June
2000);
oo Greater Magic - Richard Kaufman e Alan Greenberg - 1994;
oo Bazar de Magia (Argentina) - http://www.bazardemagia.com
Fonte:
Boletim de Artes Mágicas,
Nº 16, 2º Ano - Agosto de 2000.
Autor: Mahatma
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