-- A Saga
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Capítulo 1 - Das Prerrogativas
Há muito tempo, quando o mundo não era mais que algum preenchimento no nada, vivia nosso protagonista. E seu habitat era a floresta de Uriak, na Normândia Ocidental. E ele não tinha nome. E ele comia pedras.

Capítulo 2 - A Caminho da Felicidade
Lá na Normândia, vivia nosso amigo em sua caverna, que ficava exatamente 100 metros abaixo da terra. De lá tirava ele todas as pedras necessárias a seu sustento, sua preferida era a hematita.

Era um monstro solitário, enfim. A verdade há de ser dita. Mas não deixava de dar suas festinhas de tempos em tempos. E sua estação predileta era a primavera, e sua parente predileta era a prima Vera. E conhecia muita gente da comunidade Monstro. E tinha também seus coleguinhas da floresta. Era um monstro muito sociável, afinal. Certo, talvez não fosse ele tão solitário. Mas já dizia Richard Blenn: "Todo solitário é um sonhador". E o monstro era um sonhador.

Manhã de 25 de Maio de 1864: estava lá nosso monstro em cima de
seus tornozelos e perto do vaso chinês, em frente ao vestíbulo
- ele cortava suas unhas. A tesoura era uma Walita T-987 ("Mais confiança
e durabilidade"). Seu pescoço tinha uma mancha azul com a forma
da itália. Ou de um pato. E ele bocejava sua falta de pensamentos. Incrível
o que a memória pode trazer à tona.
(Malditos flashbacks.)


Houve um dia em que o monstro precisou da assinatura do Jonathan. Mas a questão é que Jonathan não existia. Isso constituiria um problema, é claro. Mas não para o nosso querido monstro, que conhecia um estratagema.

Jonas Donizeti era o estratagema que todos queriam ter. Ele era bonito, gordo, viçoso e cheirava a mobim; gostava de baião, new age e palavras como "bujão", "agogô", "lambari" e "purungo". Jonas não sabia inglês, não sabia como era possível roubar toda a decoração de um MacDonald´s sem se ser pego, não sabia a diferença entre uma camisa e uma camiseta, não entendia a função dos pernilongos na cadeia alimentar e também não sabia por que a água girava sempre pro mesmo lugar em seu hemisfério. Mas Jonas sabia uma coisa. Que nunca, sob hipótese alguma, deveria se misturar alcino policloretídico com diclofireno de benzanoato dentro de um Erlenmeyer. Não, isso nunca.
Seu melhor amigo, entretanto, era o desembargador Mendes Sá.

Enfim, retornemos. O monstro, ele tinha um carinho especial por bichinhos de
estimação. Carinho que dedicava ao George e ao Clooney, seus pôneis;
ao Jim e ao Morrisson, seus ewoks; e à Samantha e à Margarida,
suas lacraias. E eis que, por volteios do destino, vieram Samantha e Margarida
a ter um filha. Ela cheirava a alecrins e falava engraçado. E quando
ficou grande mudou-se para África e tornou-se a primeira ditadora negra
do Quênia.
Mas nada disso vem ao caso. O caso ainda não estava solucionado.
Capítulo 3 - O caso
No dia fatídico o careca passara frente à floricultura. Era noite. Ele tinha um sobretudo bordô, um queixo quadrado e uma cara holística. Chegou em casa instantes depois. Tantos instantes quanto o tamanho da avenida Apolo de Rotterdam. O careca lia Kafka. Seus filhos menores chamavam-se Processo e Metamorfose.
Seu cachorro não gostava de ração nacional.
Capítulo 4 - O diálogo das sanguessugas
-Silk!
-Garf!
-Silk! Você sabe quais eram o nomes dos sete anões?
-Zinn! Mestre, Soneca, Feliz, Dunga, Zangado e Atchim. Silk.
-Ghag! Graf! Falta um.
-...
-Dengoso.
-Hiinf. Sempre me esqueço desse aí.
Capítulo 5 - Tédio com um T bem grande
"Malditas sanguessugas. Comeram toda minha alface." - o monstro acordara de mau humor. E ele nem gostava de alfaces.
Por falta do que fazer, ele mancava de uma perna. Comeu algumas pedras e pos-se a jogar jogo da velha. Estava ganhando de 5 a 2, quando sua avó ligou: "Você viu minhas violetas por aí, Não, vovó não vi, Que coisa estranha, elas estavam aqui ainda pouco, A senhora já olhou em baixo do moedor de cana, Não, boa idéia, obrigada, tchau, Tchau"
.
Capítulo 6 - A fuga das violetas ou A mão que balança o berço
- Por aqui, que ela não está olhando
° Não, vamos embaixo do moedor de cana!
- Lá vem ela olhar, estúpida. Se abaixe.
° Por que você tem sempre que ser a líder?
- Porque eu consigo fazer isso. Observe.
º Oh!
¬ Oh!
§ Meu Deus!
-Vamos agora. Apaguem seus rastros.
E elas foram. Teníria, a líder do grupo, teve uma carreira de sucesso e foi morar em Massachussets, onde cultivou begônias e escreveu sua biografia.
As outras descobriram o ópio e nunca mais foram as mesmas.

Capítulo 7 - Anotações
19:34 - Ele continua vagando pela alameda. Sua careca se destaca por sobre seu casaco bordô.
19:42 - O homem se abaixa e olha para os lados. Gesto suspeito, código beta 3. Retoma sua caminhada.

19:57 - Entra na casa, floreira com petúnias. Número 197. Grita "Ni!" para os transeuntes que passavam. Gesto altamente suspeito, código omega 82. Pega a chave debaixo do capacho.
19:50 - Fomos atingidos por uma distorção espaço-temporal. Retornamos as 19:50. Graças às minha anotações estou ciente disso.
19:57 - Entra na casa; floreira com petúnias. Número 197. Grita "Ni!" para os transeuntes que passavam. Gesto altamente suspeito, código omega 82. Pega a chave debaixo do capacho. De novo.
20:31 - Tudo quieto. Ainda acho que foi o mordomo.
20:54 - Está óbvio que ele não é o Jonathan.
Capítulo 8 - O fogo que derrete o chumbo é o mesmo que queima o pé-de-muleque
O monstro se sentia inseguro às 20:29. Por isso, ia para cama, inexoravelmente, às 20:30. No dia seguinte, acordaria cedo e assistiria desenhos animados.
O seu favorito era "Caverna do Dragão", até que lhe contaram que o Mestre dos Magos era malvado e o Vingador só queria o bem das personagens. Ele entrou em depressão e por três meses parou de comer brócolis. Quando soube, então, que o Uni era um unicórnio diabólico, que todos as personagens haviam, na verdade, morrido no primeiro capítulo e viviam agora no purgatório para redimir seus pecados; e que o senhor que dublava Presto morrera de Ebola, o monstro decidiu recorrer às drogas pesadas para curar a profunda depressão. Começou, daí, a ouvir Reginaldo Rossi, Carmem Miranda e Maria Bethânia em doses cavalares. Chegou então ao fundo do buraco, que ficava 200m abaixo de sua residência anterior.

Lá encontrou mais hematita e também o correligionário Juarez Garcia y Garcya, que o convençeu a livrar-se das drogas e a jogar cricket aos domingos.
Capítulo 9 - Pequeno monólogo pouco instrutivo
(cena: o monstro, passeando pela casa, entra na cozinha; crutons e outras guloseimas estão postas sobre a mesa)
Monstro: (entra, olha para os lados. Faz uma cara pensativa, come um cruton) Às vezes, eu não queria ser eu. Às vezes, mas só às vezes, eu queria ser uma libélula selvagem, livre, dessas que saem voando por aí, só pra ter uma memória que dura aproximadamente 87 milésimos de segundo e cruzar com todas as fêmeas que cruzassem meu percurso.
Monstro: (Se levanta, olha com cara incrédula para o local onde antes se encontrava) Ha! Você deve estar louco! Que idéia sem cabimento!
Monstro: (retorna ao seu assento, morde mais um cruton) Sim... talvez eu seja louco. Mas, afinal, quem não é? O ar quente dessa sala é frio na parte que toca a alma. Mas existem tantos por aí, tantos que falam sozinho, consigo, dialogando internamente... e são eles considerados loucos por isso?
Monstro: (se levanta, vai até a porta,
ri) Há há há! É claro! Você acabou de
descrever um caso típico de esquizofrenia multipersonal.
(o monstro cala, reflete e diz)
Falando no diabo, está na hora das pílulas vermelhas.
Monstro: (senta, faz birra) Ah, as vermelhas não! Eu já tomei elas ontem!
Monstro: (levanta-se, irritado) Vamos, homem! Você tem medo, é isso? Então quer dizer que o bravo monstro verde comedor de pedras, é, na verdade, medroso como uma donzela? Você é um monstro de verdade ou simplesmente uma mutação de quinta categoria de algum filme B?
Monstro: (contrariado, pega as pílulas) Não é isso. (Engole as pílulas) Pronto. Eu só não queria ficar sozinho. Mas, enfim, você voltará.
(uma lagrima brota do olho carbuncular do monstro) Adeus, Sebastian.
Monstro: (sumindo) Adeus, monstro.
Capítulo 10 - O encontro das libélulas
-Bz. Olá, como é seu nome?
-Joana, e o seu? Bz.
-Bz. Olá, como é seu nome?
-Joana, e o seu? Bz.
-Bz. Olá, como é seu nome?
-Joana, e o seu? Bz.
-Bz. Olá, como é seu nome?
-Joana, e o seu? Bz.
-Bz. Olá, como é seu nome?
-Joana, e o seu? Bz.
-Bz. Olá, como é seu nome?
Capítulo 11 - Lógica / A Arte De Dar Asas A Aranhas / Queima de Arquivo
O monstro realizou que a vida era um silogismo, e que as premissas nunca afirmavam a veracidade das conclusões. Decidiu dormir, então.
Quando acordou, sentiu fome, e foi procurar hematitas num campo distante. Lá
encontrou um sujeito intrigante, cujo nome era Ó de Almeida.
O sr. Ó de Almeida passava as horas vagas cultivando centeio ou fazendo
pão-de--ló, para depois jogar tudo no rio e compor poemas enquanto
a comida afundava. O monstro até escreveu um outro
poema para acompanhar o Sr. Ó de Almeida, mas ele ficou tão
ruim, mas tão ruim, que o monstro teve de eliminar o sr. Ó de
Almeida para que nunca ninguém soubesse da existência dessa manifestação
artística.
Capítulo 12– Da queda das
maçãs
O monstro sentia um enorme vazio existencial por não saber jogar futebol. Então quando não estava estudando, procurava suprir esse vazio de outras formas. Em um dia excepcionalmente angustiante, para sentir-se melhor, o monstro comeu dois biscoitinhos da sorte, pintou suas unhas de vermelho, deixou crescer o cavanhaque, inventou uma palavra e comprou uma mobilete pra sua sobrinha.

Capítulo 13– Verde de fome
9 de Janeiro: dia do Íncrivel
Guizado Especial de Pedras do monstro verde. Dia sagrado. Fartura e pujança
para toda a família. Pôs-se o monstro a prepará-lo.
Capítulo 14 – Punk´s not
dead, Fuck the fashion, sempre Coca-Cola
O
monstro tinha suas fases. Como todo bom garoto de classe média, decidiu ter
uma fase punk. Passava seus dias com camisetas pretas, falando de anarquia e
arrastando correntes. Comprou um skate, arrepiou o cabelo, matou um gato e deixou
suas unhas crescerem. Foi então que ele realizou que a banda que ele ouvia chamava-se
"Gangrena Gasosa" e que seu disco predileto era dos "Garotos Podres". Ao prestar
atenção nas letras então, ele soltou um muxoxo e ficou desapontado pelo resto
do dia. Então ele saiu, comprou um boné da Guess e passou a ouvir música Dance.


Capítulo 15–Tsé Tsé
Foi
um dia, não se sabe quando, o monstro começou a ter insônia. Ficou sete meses
sem dormir. Ele tentou de tudo para resolver seu problema; simpatia, mandinga,
maracujá, sonífero, paulada, aulas de CFC, documentários de savana do Discovery
Channel, contagem de carneirinhos, contagem de bodes, contagem de guaxinins
e outras mais, livros do Eça de Queiroz, jogos de xadrez, horário político,
Jazz, músicas new age, Porcelain, musicais em branco e preto dos anos 50 e hipnose.
Nada adiantava. Foi quando ele ouviu falar de Kotler, comprou seu livro e nunca
mais teve problemas com falta de sono.