OS ELOS DA CORRENTE
Definitivamente, aquilo não podia estar acontecendo. Não podia ser verdade, devia ser um sonho. Tinha certeza de que estava sonhando... Não podia acreditar nos sentidos, recusava-se.
Fechava os olhos e via sua filha plena de vitalidade, à luz do sol radiante, voltando da escola junto com os irmãos mais novos. Enxergava nitidamente o seu lindo sorriso transbordante de energia jovial.
Tornava a abrir os olhos e mergulhava na escuridão. Somente velas acesas. As pálpebras pesavam-lhe toneladas. Sem querer, cobriam-lhe outra vez a vista e fazia-se a luz. Sentia-se profundamente feliz.
Chegava do trabalho e os filhos vinham recebê-lo com alegria. Os dois menores, Fernando, de nove, e Priscila, de quatro anos, vinham correndo e atiravam-se-lhe ao pescoço. A maior, Regina, a primogênita, no recato de sua pré-adolescência, cumprimentava:
- Boa noite, pai. - e dava-lhe um beijo carinhoso. Ela era tão meiga, tão linda...
Os vizinhos e parentes apertavam-lhe a mão e diziam-lhe palavras incompreensíveis.
Na feira daquele luminoso dia de primavera, passava por entre as barracas coloridas de frutas, verduras e legumes. Escolhia laranjas, bananas, mangas e uma melancia inteira, bem grande, para os filhos, porque eles gostavam.
Comprava peito de frango para o almoço, e frango à passarinha para o dia seguinte, de uma oferta, pela metade do preço. Levava o dobro pela metade do preço. E um maço de cheiro-verde para temperar.
Voltava para casa carregando a sacola com as misturas, com a melancia ao ombro. Cumprimentava um vizinho.
- Bom dia, seu Totó.
- Bom dia, rapaz.
Também cumprimentava velho que estava com seu Totó.
- Bom dia, muito prazer, vou sentar um pouco, essa melancia está muito pesada.
Sentava-se num degrau da calçada, ao lado do companheiro de seu Totó. O sujeito iniciava a conversa:
- Lá no interior a gente dava melancia pros porcos, e manga também, de baciada. Melancia nasce queném mato no meio do cafezal. Aqui na cidade eu não como melancia: mesmo fresca, é uma fruta perigosa. O sol esquenta e ela forma um gás venenoso por dentro. Já vi muita gente passando mal.
Nunca ouvira dizer que melancia é venenosa.
- Quando os raios do sol batem nela, por dentro forma um gás venenoso. No interior, a gente colhe melancia e deixa refrescar na sombra antes de comer, senão passa mal. Essas melancias daqui então... E com esse sol... Antes de comer, faça o seguinte: corte ela em quatro, ponha na geladeira e deixe um tempo até sair o gás. Depois coma à vontade.
Tinha sido avisado.
- É, meu filho, já vi muita coisa nesta vida... Estou com oitenta e um anos de idade. Aos cinco, fiquei cego, não conseguia enxergar nada. Fiquei assim até os nove, e aí, devagar, devagarinho fui garrando enxergar. Comecei a trabalhar na fazenda. Aos catorze, fiquei louco, com uma loucura que não podia ter nada na mão, arma nenhuma, que eu já saía querendo matar. Só fui me curar quando servi o exército. Entrei voluntário e saí curado. Passou a loucura, conheci a mulher, namorei e casei. Fiz de tudo: plantei café, trabalhei na colheita, secagem, torrefação; corri mundo como caixeiro viajante. Tive uma carroça com seis burros...
Na semi-escuridão, chegava uma procissão interminável de vizinhos e parentes de roupas escuras e expressões condoídas, cumprimentando e dizendo coisa incompreensíveis. O velho continuava a narração:
- Uma vez estava com a carroça e começou um chuvisqueiro, o céu coberto de nuvens. Começou a relampear. Daí veio aquela faísca. Os burros caíram no chão, tonteados. Eu também fiquei zonzo com a descarga, desmaiado. Minha roupa queimou, fiquei chamuscado. Depois foi um fio de alta tensão: caiu bem em cima de mim. Levei um choque tremendo, com queimaduras de terceiro grau. Ah, meu filho, ainda fui ferido mais uma vez por raio e outra por fio elétrico. Da última vez, minha calça queimou e fiquei sem a pele do escroto.
Como se estivesse em estado de choque, colocava a melancia cortada em quatro pedaços geladeira, para sair o gás. A esposa lavava roupa ao tanque. As crianças brincavam no quintal. E o velho falava:
- Também, naquela época, mesmo casado, eu era um garanhão: não tinha mulher que me desse confiança que eu deixasse passar. Era também muito bravo, vivia brigando com todo mundo. Quem sofria era a mulher e os filhos. Bebia um litro de pinga e fumava cinco carteiras de cigarro por dia, queném um porco. Isso foi acabando comigo. Fui parar no hospital e tiveram que trocar meu estômago. É, tiraram ele e botaram outro. Esse que tenho aqui não é meu, foi trocado. Isso foi em quarenta e seis. Quando saí do hospital, comprei uma chácara na represa e fui morar lá, sozinho. Fiz um rancho de sapé e plantei aquilo tudo. Tinha de tudo lá, de tudo que é planta de horta, arroz, feijão, milho, mandioca. Cheguei a cuidar de quatrocentas galinhas.
Colocava o frango à passarinha na gaveta de carnes da geladeira. Temperava o peito para o almoço. Picava o cheiro verde bem fininho e descascava dentes de alho. Passava sal no filé. Esquentava o óleo para a fritura.
O velho monologava:
- Um dia minha família veio me visitar e eu fiquei muito bravo, virei a Fera. Mandei eles embora, senão ia fazer tremer a terra. Veja só, quem sou eu pra fazer tremer a terra? Peguei a espingarda e expulsei todo mundo de lá. Mais tarde, estava dentro do barraco espiando pra fora pela janela, quando começou a chover. Chuva pesada, da grossa, nuvens carregadas. Relampejava. Naquele tempo não acreditava em nada.
Não acreditava na conversa do velho, ele devia estar mentindo ou inventando estórias.
- Na frente do barraco, uns cem metros adiante, tinha uma árvore frondosa, que cinco homens não abraçavam. Olhei para o céu e disse: Falam que existe Deus, mas eu não acredito! Se é que tem mesmo esse tal de Deus, mande um sinal, que mande uma faísca naquela árvore...
As velas na escuridão ofuscavam-lhe a vista.
- Meu filho, estou chorando assim e arrepiado porque naquela hora, naquele mesmo instante em que acabei de falar, caiu do céu um clarão enorme, estrondoso. Partiu a árvore ao meio. Eu caí de costas no chão de terra batida do barraco. Quando me recuperei, ouvi uma voz grossa dizendo: "Quem é você pra fazer tremer a terra? Quem é você pra fazer uma coisa dessas? Agora você viu a terra tremer! Eu fiquei apavorado, acocorado num canto do barraco, tremendo. Desse dia em diante nunca mais duvidei.
Seu corpo desfalecia. Estava confuso, cansado, desorientado. Sentia dificuldades para distinguir a realidade. Teimava em não acreditar naquela ilusão cruel.
- Em outra ocasião, pescando no córrego que passava pela chácara, a uns dez metros de mim, notei um objeto com a forma de um ovo. Começou a brilhar cada vez mais forte até ficar com uma luz tão forte que feria os meus olhos. De repente o ovo luminoso começou a soltar uns elos, como se fosse uma corrente, vindo na minha direção e passando diante da minha vista.
Ovo, galinha, frango... Os elos de uma corrente. As velas luzindo e o sol brilhando. Escuridão. A soma dos brilhos produziam-lhe confusão na mente. Não achava a saída daquele túnel comprido.
- Percebi que em cada elo estava escrita uma parte de minha vida. A corrente foi passando, passando, mostrando tudo o que tinha vivido: a bebida, as carteiras de cigarro, as mulheres, os acidentes, tudo bem explicado nos elos da corrente. Chegou até a idade de seis anos, até onde posso me lembrar. Daí a corrente desapareceu e o ovo também.
A imagem do velho sumiu. Porquê toda aquela gente na sala? O velho retomava a palavra:
- Eu peguei uma peneira e comecei a batear o fundo do córrego na esperança de que fosse ouro ou algum brilhante. Não encontrei nada. O ovo tinha sumido. Depois disso vendi a chácara e voltei a morar com a família. Passou o tempo e fui me entristecendo, desgostando da vida. Não queria mais viver. Aí me suicidei. Comprei formicida Tatu e me suicidei. Sabe que formicida Tatu mata mesmo, não é? Pois é, tomei formicida Tatu e morri.
A morte é uma coisa natural. Todos morremos um dia. Chegava um padre paramentado. Iniciava a ladainha.
- Quando eu morri, meu filho me levou pro hospital e o médico me examinou, ouviu meu peito e não sentiu o coração. Pegou meu pulso e não sentiu as batidas. Pôs um vidro na frente do meu nariz e ele não ficou embaçado. Eu não estava respirando. Cortou meu braço e o sangue não correu. Tenho a cicatriz até hoje, olhe aqui.
Abria os olhos e sentia vivamente a dor da ferida aberta, ainda sangrando. Aves-marias e Padres-nossos. A sala abafada com tanta gente. Náusea.
- Eu estava morto. Meu filho foi à polícia e eles disseram que tinham que me levar pro IML porque uma pessoa que se suicida é processada, ela matou uma alma! Lá no IML iam tirar meu coração, o fígado e tal, até o baço, pra descobrir a causa da morte. Eu morri às duas horas da tarde.
Que horas serão? É noite ou dia? Que tumulto era aquele? Seria melhor que as pessoas saíssem da sala para fumar. Ninguém tinha a obrigação de ser um fumante passivo.
- Antes de retalharem meu corpo, meu filho me levou para casa. No velório veio um monte de gente. Lá pra umas seis horas, meu filho resolveu fazer um discurso. Ele pediu atenção e, de frente pra mim, começou a falar: "Oh Senhor, neste momento de dor, tende piedade de nós. Vós que sois o doador da vida, Vós que criaste a infinidade dos seres, Vós que sois a luz da existência, perdoai este pecador que foi meu pai. Pois ele pecou, levou uma vida sem fé, embriagando-se, fumando, adulterando, sem respeito por ninguém e nem por nada. E agora eu Vos peço, a Vós que avisastes Noé sobre o Dilúvio, a Vós que devolvestes a visão aos cegos e fizestes andar aos paralíticos, a Vós que tirastes Lázaro da tumba fria e o trouxestes novamente à vida, pelo Sagrado Manto de Cristo, eu vos peço: se for de Vossa vontade, perdoai a este pecador e devolvei-lhe a vida, para que possa arrepender-se dos seus pecados e tornar-se um servo do Senhor."
Por favor, Senhor, diga-me que aquilo era mentira. Devolva-lhe a vida. As coisas eram de fato muito complicadas. Qual era o objetivo, então? Como era efêmera a beleza.
- Eu sei que estou chorando, mas naquele momento, naquele mesmo instante, minhas mãos que estavam entrelaçadas sobre o peito começaram a se mover, meu coração a bater e voltei a respirar. Foi um espanto geral. Todos os presentes deram glórias ao Senhor.
"Glória a Deus nas alturas e Paz na Terra aos homens de boa vontade" dizia o padre de preto. Todos respondiam em uníssono: amém.
- Aos poucos minha consciência foi voltando e consegui movimentar a parte de cima do meu corpo. Só não podia andar. Também, tinha estado mais de quatro horas na morte... Meu filho então perguntou: "Pai, agora que o senhor já provou da morte, arrepende-se dos seus pecados?" Sim, eu disse. "Quer ser purificado pelo batismo e abençoado pelo Espírito Santo de Deus?" Quero, falei. "Então venha comigo."
Os filhos brincavam de pega-pega na rua, com as crianças da vizinhança. A mais velha conduzia os irmãos na volta da escola e dava-lhe um beijo carinhoso.
- Como não podia andar, levaram-me numa cadeira de rodas até o Sinédrio da Igreja Central, onde cabem mais de quatro mil pessoas. Chegando lá, descemos até o Batistério e dois anciãos, pegando-me pelos braços, levaram-me até as Águas da Salvação. Tornaram a fazer as perguntas e mergulharam-me nas Águas. Quando me levantei vi uma faísca caindo do céu. Só que não era um raio como os outros: o raio que desta vez caiu sobre mim era o do Espírito Santo.
Espírito Santo de Deus, diga que aquilo era mentira.
- Vi também uma pomba que voava em volta de mim. Nem tinha reparado que estava de pé sozinho, sem apoio nenhum. Os ancião quiseram me ajudar mas eu disse que não precisava e saí dos Batistério sobre minhas próprias pernas, curado por obra e graça do Espírito Santo de Deus.
Quê confusão era aquela? Por quê toda essa gente? Abriu os olhos novamente e o velho não estava mais lá. Sua esposa estava de pé, ao lado do caixão, chorando. Os parentes e amigos sentados nas cadeiras que haviam sido dispostas improvisadamente ao longo da parede.
Alguém chegou, cumprimentou seriamente a esposa e ficou por alguns instantes olhando para dentro do caixão. O velho apareceu novamente, sentado a seu lado na calçada defronte à farmácia. A melancia e os pacotes estavam no chão à sua frente. O velho fitava-o com olhar esbugalhado.
- Meu filho, abra os olhos! Desperte para a verdade! Você tem problemas, nasceu do pecado, abra os olhos enquanto é tempo! Veja, os sinais já estão aí: quantas mortes, quanto vício, quanto ódio, quanta fornicação... O dia do juízo pode chegar a qualquer momento. O estopim já está aceso para que o fogo destrua tanta iniquidade. Em breve Ele voltará com a balança e a espada, e os que não tiverem se arrependido, os que não tiverem sido purificados pelas águas do batismo de minha Igreja, serão lançados ao fogo eterno onde ouvirão lamentações, gemidos e ranger de dentes. Escuta, meu filho! Ouve o chamado de Deus. Pensa que foi por acaso que eu escolhi você para ouvir estas palavras? Você vinha vindo trazendo essa melancia e esses pacotes. Eu te vi e pensei: Senhor, fazei com que esse moço pare aqui e ouça o Seu chamado. E você parou. Foi como se eu tivesse brecado os seus passos para chamá-lo à salvação. Abra seus olhos! Decida-se: você quer arder eternamente nas chamas do Inferno ou salvar-se junto ao Senhor? Pode dizer agora ou meditar alguns dias antes de me dar a resposta. Eu sou o Ministro do Senhor! Sou o representante de Deus!
Conversas baixas, expressões sérias. Queria levantar-se mas o corpo não obedecia; queria entender o que estava acontecendo, mas sua mente estava confusa. Não podia ser verdade! Tinha que ser um sonho!
Viu que suas filhas se aproximavam.
- Ôi pai, já chegou da feira? disse Regina.
- Papai, me dá um dinheiro pra comprar um suquinho? pediu Priscila.
O velho, no mesmo instante, tirou uma nota do bolso e disse: - Vai, vai comprar um suquinho pra ela; não há coisa melhor do que ver uma criança feliz. Se tiver troco, traga para mim, se não tiver, tudo bem.
Um pesadelo do qual logo despertaria. Quando despertasse, iria até o quarto de sua filha Regina e a veria arrumando-se, vaidosa, para um passeio. Sairia com a família pra tomar sorvete e amenizar o calor daquela tarde de Domingo.
Regina pegou o dinheiro e foram comprar o suquinho. O velho tornou a falar:
- Abra os olhos, meu filho! Veja como está o mundo. Você tem filhos lindos, quer que alguma coisa de mal aconteça a eles? Vem aí um tarado, de carro, chega em sua filha, como é mesmo o nome da maior? Regina? Pois é, chega nela e chama pelo nome, diz que é amigo do papai, convida pra dar uma voltinha... Aí pega ela, leva pra um mato qualquer e estupra, pode até matar a menina. Não viu já casos assim? Abra os olhos, meu filho! Você quer salvar sua família ou prefere perdê-la? Se você não se decidir logo pode ser tarde demais.
O velho já não estava mais lá. Chegava em casa, do trabalho, juntamente com a esposa. As crianças estavam brincando com os colegas da vizinhança. Estavam todos sentados à mesa para o jantar. A empregada fritara o frango.
- Pai, esse frango está estragado. - disse a filha mais velha.
- É pai, tá estragado mesmo, tá com um cheiro... Tá cheirando podre... disse a filha menor.
- Não pode ser, frango não estraga assim com essa facilidade. Seu pai comprou o frango ontem e ele ficou na geladeira! disse a esposa, cheirando os pedaços do frango frito.
- Não está com cheiro algum! afirmou ela.
- Alguns pedaços estavam azulados. Esse frango está estragado! - tornou a filha maior.
- Não pode ser, sua mãe tem razão: comprei o frango ainda ontem e ele ficou na geladeira. Frango não estraga assim de um dia para o outro.
- Mas pai, estava com um cheiro muito ruim e tinha mesmo uns pedaços azulados! disse o garoto, confirmando a observação da irmã.
- Deve ter sido impressão de vocês. tornou a esposa.
- Agora vamos deixar de conversa e vamos comer! mandou Roberto com autoridade.
- É, deve ter sido impressão nossa, Fernando. afirmou convencida a filha mais velha. E ficou por isso mesmo.
Serviram-se. O filho, provando o frango, afirmou categoricamente:
- Esse frango está estragado, eu não vou comer!
- Eu vou. disse a filha mais velha.
- Mamãe, eu não quero esse frango! - falou a pequena.
- É melhor vocês comerem senão não vão crescer.
Mesmo assim, as duas crianças mais novas não comeram. A mais velha comeu bastante. Ele e a esposa comeram um pedaço apenas porque não estavam com muita fome.
Vomitava com uma ânsia terrível, uma dor de barriga insuportável. A esposa, branca, vomitava no banheiro. A filha mais velha estava deitada na cama, sem movimentos.
- Regina, está na hora de acordar!
Sentiu o choque de sua pele gelada; a dor de seu corpo enrijecido. Sentiu a punhalada em seu peito quando viu que o coração da filha não batia. Muitas imagens, correria, agitação, hospital. O médico de branco disse que a intoxicação provocara um choque anafilático. Tratava do enterro, do caixão, do cemitério... Não podia ser verdade, tinha que ser um sonho. Regina morta, o velório, o velho, tudo isso nos elos da corrente.
autor: Don Francis